Quartzo Titânio

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I

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

Este fora o lema que governara desde sempre o seu dia a dia.

 

A claridade intensificava-se num amanhecer cinzento, onde as nuvens tristes davam um ar pesado à imensidão do Lago Ontário que se avistava lá do alto do apartamento localizado quase no topo de uma das muitas torres de condomínios luxuosos de Toronto.

Encostado à parede adjacente à grande janela do quarto, ele observava o horizonte ao mesmo tempo que via a sua imagem reflectida no vidro. A sua visão desfocou o fundo para se centrar no reflexo, no rosto a ganhar rugas, o cabelo grisalho onde a tonalidade escura parecia perder cada vez mais terreno para a clara. Por mais que os músculos lhe dissessem o contrário, ele era um homem de meia-idade.

Baixou o olhar para o peito nu. Também ali os pelos brancos cresciam como ervas em vasos de flores. Sinais de velhice que procurou rebater, arrancando as linhas albas... Não valia a pena, por cada um que vencesse, outros dois cresceriam. Estava a ficar barrigudo, apesar de ter uma vida pouco sedentária. Mais um sinal da idade? Talvez.

Tornou a olhar para o exterior, a atenção arrebatada para uma pequena aeronave em linha de aterragem com a pista do Billy Bishop, um pequeno aeroporto situado na Centre Island, uma das ilhas frontais à cidade. O ruído dos motores mal se ouviu, tal era a capacidade isolante dos vidros do apartamento.

Perdeu-se em pensamentos, cego no manto de nuvens. Iria chover? Que lhe interessava isso? Uma embarcação afastava-se do porto, talvez para navegar nos canais entre as ilhas. Deixou de registar a vida lá fora. Pensou em si, no facto de estar a chegar aos cinquenta anos. A angústia dos últimos tempos regressou. Seria a tão falada crise da meia‑idade?

Não se sentia velho. Nem mesmo quando se via ao espelho. Sentia‑se... Como se sentia ele? Não sabia explicar. Era uma angústia profunda que lhe vinha sabe-se lá donde, algures dum lugar profundo na sua alma.

— Bom dia! — disse uma voz ensonada.

A sonoridade rouca feminina puxou-o para a realidade do interior. Na cama, uma cabeça meio encoberta pela cabeleira escura emergia entre os lençóis.

— Bom dia! — retribuiu ele num tom neutro.

O rosto estremunhado cravou os olhos nele. Ensonados, procuraram habituar-se à luz exterior.

— Estás bem?

Ele anuiu sem dizer uma palavra. Percebeu que não lhe apetecia falar. Voltou a encarar o exterior, o ambiente tão deprimente quanto a sua alma.

— É bem capaz de chover. — disse a voz feminina.

Era aquele tipo de frase que se dizia só para não se ficar calado.

Sentindo o movimento dela na cama, ele rodou novamente a cabeça e observou-a, vendo uma mulher escultural a sair dos lençóis completamente nua.

Sem preocupação em disfarçar a noite mal dormida, por culpa dele, ela desfilou todas as curvas do seu corpo perante o seu olhar, formas que pareciam ter sido criadas por um Leonardo Da Vinci. Não deveria ter mais de trinta anos e a expressão era intensa, como quem está sempre pronta a saciar o parceiro. Parou junto dele e deu-lhe um beijo nos lábios.

— Posso usar o duche?

— Estás à-vontade.

Ela sorriu, mordiscando o lábio.

— Queres fazer-me companhia?

— Obrigado. — recusou cortês.

A mulher assentiu sem demonstrar decepção ou satisfação. Virou costas e deslizou pelo soalho silencioso como se fosse uma pluma, desaparecendo na porta da casa de banho privada.

Ele retornou à observação da paisagem e a mente a divagar nas recordações, como um satélite velho que sai de órbita e perde a utilidade.

O som da água a correr foi a única coisa que se ouviu por ali. Ele nem se apercebeu disso até ao momento em que a mulher, que fora completamente sua nessa noite, desligou o chuveiro.

Viu as horas no smartwatch preso no pulso esquerdo. O seu cérebro reviu a agenda para esse dia. Teria uma manhã e uma tarde preenchidas, nada a que não estivesse habituado. Pegou no smartphone e abriu o email para ver se havia novidades. Algumas mensagens novas, nada de especial, e muita porcaria publicitária não solicitada. Posou o aparelho sobre a cómoda de linhas modernas no exacto momento em que ela saiu da casa de banho.

Não era assídua da casa ou da cama dele, mas dava a entender que não fora a primeira vez que ali estivera. Surgiu tal como chegara na noite anterior ao apartamento, saia curta e casaco formal que ele sabia só esconder o sutiã. Penteara o cabelo preso num rabo-de-cavalo para disfarçar que não o lavara no duche. O rosto não estava maquilhado, o que não lhe tirava um grama de beleza. Sob o olhar atento dele, sentou-se na cama, cruzando as pernas de forma cativante e calçou os sapatos de salto alto. Por fim, levantou-se, encarando-o numa mistura de humor e sedução.

— Calculo que não me tenhas feito o pequeno-almoço.

— Nem para mim costumo fazer.

— Então, está na hora de ir andando.

Ele não a demoveu, assim como ela não arredou pé. Faltava o último acto. Ele pegou na carteira e retirou algumas notas de cem dólares. Ela recebeu-as com agrado. Afinal, tudo não passava de uma transacção comercial, uma profissional do sexo que recebia o pagamento pelo empenho da noite intensa que proporcionara ao seu cliente.

— Queres que volte, logo? — sugeriu, guardando as notas na pequena malinha que usava pendurada no ombro.

— Quando quiser repetir, eu ligo-te. — contrapôs ele sem qualquer emoção.

Ela deu-lhe um último beijo e foi embora.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Logo que ouviu a porta do apartamento a fechar, ele caminhou para a casa de banho privativa do quarto, sentindo ainda o cheiro do perfume dela ali. Havia uma névoa ténue no ar e o ambiente era meio abafado, resultante do duche exageradamente quente que ela tomara. Quase de forma automática, enfiou-se na cabine e abriu o chuveiro, deixando a água quente tombar-lhe sobre o corpo.

Comprar amor, como ele lhe chamava, era o mais fácil. Claro que não comprava amor, estava a comprar sexo. Não havia qualquer amor envolvido naquela situação, a menos que se considerasse o amor delas às notas que recebiam. Não era qualquer uma que passava a noite com ele, não era qualquer prostituta que obtinha aquele grau de confiança. Houve alturas em não se preocupava com isso e contratava uma qualquer que lhe despertasse desejo. Um quarto de hotel, duas ou três horas, e estava resolvido. Porém, a idade cansou-o disso. Preferia fornecedoras habituais ao invés de pagar à primeira puta que lhe aparecesse. Por isso, agora, tinha uma lista com uma dezena de nomes, mulheres com idades entre os vinte e oito e os trinta e três anos a quem ele ligava quando queria sexo e companhia.

A água massajava-lhe o corpo, percorrendo-lhe a pele como as mãos e os lábios de uma concubina eficiente. Pagar por sexo era o mais cómodo, evitava cobranças, evitava discussões. Ele estava a pagar, a pagar bem, e havia um acordo tácito de que a palavra "não" era proibida. Faziam tudo o que ele queria, quando ele queria. E mais importante de tudo, nunca o rejeitariam.

A rejeição era o pior numa relação, numa paixão. O embate violento quando a pessoa que nos provoca um formigueiro no estômago, nos faz perder o apetite e o sono, nos acorda para a realidade de que não quer o mesmo que nós...

Aconteceu-lhe uma vez na vida. Há... Quantos anos foram? Foi antes de vir para o Canadá, por isso, já lá iam quinze ou dezasseis anos. Sim, estivera apaixonado, perdidamente apaixonado. E nem sequer fora rejeitado, pelo menos, não até certa altura. Amara aquela mulher com toda a essência do seu ser. Para quê? Para um dia ver o tapete ser-lhe puxado debaixo dos pés e ele cair com estrondo no chão da rejeição. Não precisava disso, não precisava de relacionamentos, não queria envolvimentos sentimentais com ninguém. Nada como pagar para ter uma mulher...

Então, porque sentia ele aquela angústia? Aquela solidão...

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Foda-se! Então, onde se compra o medicamento para o que estava a sentir? Na verdade, nem ele sabia interpretar o que o perturbava.

Olhou-se ao espelho. Barbeara-se após o duche, penteara o cabelo grisalho e passara creme no rosto. Bolas, quando um homem se preocupa em passar cremes antienvelhecimento no rosto, algo está a padecer em nós. Vestiu uma das suas camisas caríssimas e o um dos seus muitos fatos Ermenegildo Zegna. Não gostava de usar gravata, mas ia ter algumas reuniões importantes. Calçou um dos pares menos caros da Louis Vuitton que tinha e sentiu-se pronto.

O quarto dava para um átrio quadrado com mais três portas, iluminado pela claridade proveniente da enorme sala do apartamento, cuja parede oriental era completamente de vidro e com acesso a uma varanda larga com vista para o Lago Ontário. As três portas correspondiam a mais dois quartos inabitados e uma casa de banho geral para uso das visitas inexistentes da casa.

Ele saiu com o casaco do fato na mão, tendo o cuidado de não causar qualquer vinco. Avançou para a sala com a atenção no ecrã do smartphone, lendo algumas das notícias do dia.

A sala era composta por um gigantesco sofá em U, o qual fora colocado frontalmente com um ecrã de proporções bíblicas, fino como uma placa de gesso cartonado e equilibrado num tripé sobre um móvel de um metro de altura. Para lá deste, uma mesa rectangular em vidro para refeições que nunca aconteciam, acompanhada por meia dúzia de cadeiras confortáveis raramente utilizadas. O espaço prosseguia, sempre acompanhado pelos vidros que transformavam a parede numa espécie de tela fotográfica da maravilhosa vista do lago. Após a mesa, um balcão, uma espécie de ilha com um tampo em mármore claro, delimitava a divisão entre sala e cozinha. Junto a este, três bancos denunciavam ser ali que as escassas refeições eram ingeridas.

A cozinha era digna de um filme, tinha quase um aspecto futurista. Não faltava lá nada de aparelhos e equipamentos, mas para ele bastaria ter as portas dos armários. O uso que dava àquele espaço era um sacrilégio para qualquer chef. Os seus olhos procuraram a máquina de café, seria a única coisa a que se daria ao trabalho. O médico já o alertara várias vezes para uma alimentação mais saudável, inclusive que parasse de sair de casa sem tomar o pequeno-almoço. Ele não mudara nada.

Vivia sozinho, algo a que se habituara de tal forma que já nem considerava a possibilidade de ter outro ser humano a partilhar o seu espaço. Contornou o balcão e dirigiu-se à máquina do café. Porém, o som do telemóvel travou-o. Reconheceu o número. Era o seu advogado.

— Bom dia, Matt! — cumprimentou sem entoação.

O advogado era o seu homem de confiança para todos os assuntos legais, pago a peso de ouro, semanalmente, muitas vezes para nem precisar dele.

— Bom dia, Gabriel! — disse a voz austera do outro lado. — Já tenho o contrato que me pediste para analisar. Para quando precisas de um parecer? Até ao final da semana...

— Esta tarde, Matt. Preciso de um parecer até ao fim da tarde.

— Ok.

Desligou. Desistiu de fazer o café. Não queria perder mais tempo.

Gabriel era o seu nome, o nome daquele homem de meia‑idade que vivia sozinho num luxuoso apartamento em Toronto com vista para o lago. Viera para o Canadá em trabalho, quinze anos antes, com uma proposta milionária para agenciar jogadores profissionais. Naquela altura, o seu rendimento já era fantástico, mas incomparável com a fortuna que fizera nos anos que se seguiram e que continuava a fazer. Ele era, apenas e só, representante de jogadores da MLB, a liga profissional de basebol, da NHL, a liga profissional de hóquei no gelo, da NBA, a liga profissional de basquetebol e ainda tinha alguns contactos privilegiados na NFL, a liga profissional de futebol americano. Por isso...

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

O trânsito citadino estava normal, nem mais nem menos que noutros dias. Gabriel conduzia um Ferrari F8 Tributo, automóvel que envergava o tradicional encarnado da marca italiana e chamativo como uma loura de minissaia num bar. Pouco antes de parar num semáforo, o telemóvel tornou a chamar. O sistema de áudio calou a playlist com as suas músicas favoritas e fez ecoar o toque estridente. Ele carregou no botão do volante que atendia as chamadas.

— Que me dizes a um jogo dos Blue Jays, logo à noite? — convidou a voz que saiu dos altifalantes, sem que antes houvesse um cumprimento.

Teve vontade de dizer que os Blue Jays eram a equipa mais imprestável de Toronto, mas não convinha dizê-lo a um importante director dessa mesma equipa. Os Toronto Blue Jays eram a equipa profissional de basebol da cidade.

— Não sei. Qual é o motivo?

— É preciso um motivo para ver os nossos campeões?

Alguém lhe explicasse que para ser campeão era preciso fazer aquilo... como se diz... ah... Ganhar? Pois, ganhar.

— Eu conheço-te. Esse convite tem água no bico.

— Ok, ok. Temos interesse em... Prefiro não falar por telefone. Queria conversar contigo sobre isso.

— Tudo bem. Ligo-te mais tarde, a confirmar.

Quando desligou, Gabriel já circulava na Bay Street rumo a norte. Com a celeridade que o trânsito lhe permitiu, virou à direita na Adelaide Street e alguns metros mais à frente, virou à esquerda, embrenhando-se no parque automóvel subterrâneo do Bay-Adelaide Centre onde se localizava o seu escritório.

Apesar de o Bay-Adelaide Centre ser um edifício de escritórios de grandes empresas, algumas a ocupar pisos inteiros e mais que um andar, Gabriel ocupava apenas um pequeno sector para o seu negócio, num dos pisos intermédios, partilhado com mais algumas pequenas empresas, um espaço com um gabinete privado, sala de reuniões e recepção. Contudo, fizera os possíveis para que a sua localização fosse a esquina do edifício, o que levava a que o seu gabinete tivesse duas paredes em vidro com vista para a cidade.

A recepção era composta por um balcão em madeira com metro e meio de altura, onde um jovem recebia quem entrasse, atendia o telefone, recepcionava o correio e apontava recados. Quando Gabriel procurara a pessoa para ocupar aquele lugar, quis acima de tudo que fosse eficiente, organizada e trabalhadora. Mas, preferencialmente, um homem. Para si, havia coisas que não se misturavam, tal como o trabalho e o prazer, e a eventualidade de ser secretariado por uma funcionária esbelta poderia colocar isso em causa. Para além disso, simpatizara com o rapaz na entrevista, já que demonstrara ter um vasto conhecimento de desporto.

— Bom dia, Francis! — cumprimentou ao entrar.

Francis era natural do Quebec. Escusado será dizer que o seu desporto favorito era o hóquei no gelo. E não escondia o ser fervor em tornar a ver os Nordiques a disputar jogos na NHL. Deveria ter uns trinta anos, envergava roupas formais que nada pareciam ter a ver com ele e o cabelo estava sempre muito bem penteado. O rosto era simpático sem perder a expressão profissional.

O gabinete de Gabriel era amplo e espaçoso. A sua secretária situava-se na única parede que não tinha janelas nem porta, apenas um armário com gavetas, um pequeno bar, onde Gabriel guardava algumas garrafas de whisky, e uma estante com inúmeras fotos dele com muitos jogadores mundialmente conhecidos, algumas das maiores estrelas do desporto norte-americano. Qualquer um deles saberia bem quem era Gabriel e uma boa fatia percentual daqueles desportistas deviam-lhe os melhores contratos da sua carreira. A secretária era composta por um tampo robusto de madeira escura, sempre muito bem arrumada, quase sem pastas ou papeis soltos e apenas com o laptop solitário. Entre a estante e a mesa, um cadeirão confortável. Ele escolhera aquele posicionamento para poder ficar virado de frente para os vidros enormes que lhe permitiam ver o exterior de edifícios empresariais. No que sobrava de parede onde se localizava a porta do gabinete, somente um sofá longo e uma mesa rasa de apoio.

O estado de espírito sombrio permanecia em si. Numa passada lenta, caminhou pelo espaço até aos vidros, ficando a olhar para a rua, vendo pessoas e carros a movimentarem-se lá em baixo, sempre em stress. O silêncio à sua volta parecia irreal naquele cenário protegido pelas janelas insonorizadas que bloqueavam o ruído daquela que era, para si, uma espécie de mini New York. A recordação da cidade, quando ali chegara uma década e meia antes, veio-lhe à mente. Já era uma cidade com o rebuliço dos grandes centros urbanos mundiais, mas tinha agora muitos mais edifícios a arranhar o céu e a vida empresarial crescera exponencialmente, desde esse dia. O Canadá era outro mundo, mais evoluído, mais civilizado. Tivera alguns contratempos a instalar-se, mas gostara do país, da cidade e das pessoas logo ao primeiro momento.

Os últimos tempos em Portugal haviam sido terríveis. Profissionalmente as coisas corriam bem, já era um agente desportivo com alguma influência e já fazia bom dinheiro com isso. Quando era novo, jogara hóquei em patins. Nunca fora muito bom nos estudos, excepto em Matemática e Inglês, disciplinas que pareciam talhadas para si. Apesar de ter algum jeito para usar o stick, cedo teve noção que o hóquei nunca poderia ser um modo de vida, o seu ganha-pão. Por isso, abandonou a modalidade quando deixou de estudar e começou a trabalhar como vendedor de carros num stand de automóveis. Tinha jeito para os números, sabia fazer negócios e adorava ganhar dinheiro. Passou para o ramo imobiliário e a ganhar ainda mais. Contudo, foi quando surgiu a oportunidade de trabalhar no mundo do desporto a representar jogadores que descobriu a sua verdadeira vocação.

Começara com o agenciamento de jogadores de equipas secundárias e em modalidades com menor expressão que o futebol. Nunca desistiu. E conforme os seus representados iam evoluindo na carreira, também o seu nome se projectava no meio. A sua carteira de agenciados engrandeceu e cada vez com mais jogadores de futebol. Antes dos trinta anos, Gabriel já falava regularmente com os presidentes dos principais clubes portugueses e alguns dos maiores da Europa.

O futebol sempre fora o seu desporto de eleição. Em miúdo chegara a sonhar ser jogador da bola, mas rapidamente percebeu que os seus pés eram como duas tábuas quando encontravam uma bola. Daí ter ido parar ao hóquei. Sendo o futebol o seu favorito e também a modalidade onde mais se movimentava, foi surreal encarar a proposta que lhe apresentaram para trabalhar no Canadá como agente de jogadores profissionais. Em Portugal era um nome de primeira linha. No Canadá, seria apenas mais um a trabalhar para uma grande empresa com outros seus iguais. Na altura, sentiu-se a regredir na carreira e esteve prestes a recusar, apesar da perspectiva de rendimento superar em muito aquilo que já conseguia amealhar. Contudo, outros factores o levaram a tomar a decisão que tomara, quinze anos antes.

O telemóvel tocou, despertando-o das recordações.

— Estão a tentar lixar-me, Gabriel.

— Calma, Tiivu. — pediu, reconhecendo a voz. — Que aconteceu?

Tiivu era um jogador finlandês de hóquei no gelo que fora contratado pelos Toronto Maple Leafs a uma equipa sueca. Os Maple Leafs eram a principal equipa de hóquei da cidade, uma das mais históricas da NHL e a segunda com mais títulos de uma competição com mais de cem anos e a mais emblemática de todo o Mundo daquela modalidade. Gabriel era o empresário de Tiivu e fora ele quem tratara da sua transferência para a América do Norte. Segundo o hoquista, sem esconder a irritação na voz, o clube e o treinador estavam a ponderar enquadrá-lo nos Toronto Marlies. Isso significava que, em vez de jogar na melhor liga mundial, iria jogar na equipa de reservas que competia naquilo a que os americanos chamavam uma minor league, a AHL, ou seja, uma espécie de competição de jogadores jovens a tentar provar que tinham lugar na NHL. Claro que Tiivu achava que nada tinha a provar.

Gabriel sabia que não fora aquilo que ficara acordado. Tiivu não se iria mudar para o outro lado do oceano para jogar nas reservas.

— Eu falo com o General Manager, Tiivu. — descansou-o.

O finlandês agradeceu, mais calmo, ciente que Gabriel resolveria a questão.

Desligou a chamada e guardou o aparelho no bolso. Irritava-o que os clubes não cumprissem os acordos verbais. Sim, aquilo não ficara escrito no contrato, fora conversado e os directores dos Maple Leafs concordaram que aquele investimento não seria para desperdiçar na AHL. Só que depois o treinador mudou...

Teria de tratar do assunto, telefonando ao General Manager e combinar uma reunião com ele. Aquilo não poderia ser resolvido a falar ao telefone. Gabriel adorava os Maple Leafs, era adepto da equipa desde que chegara ao Canadá. Mas, isso não o obrigava a aceitar o desrespeito para com os seus representados.

Tornou a olhar para a rua. Não estava com paciência para problemas ou resoluções. Comprometera-se e cabia-lhe a ele reivindicar a concretização das expectativas de Tiivu, só que o seu estado de espírito sugava-lhe qualquer vislumbre de paciência para a solução. Se quisesse, poderia comprar vários Ferrari iguais ao seu, mas não encontrava lugar nenhum onde conseguisse comprar... paciência.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

O vento soprava fresco pelas ruas da cidade.

Normalmente, faria aquele pequeno percurso de carro, mas estava a precisar de andar e o seu destino não era suficientemente longe para o demover de enfrentar a cacofonia populacional de Toronto. Saiu do edifício directamente para a Bay Street, orgulhoso com a constatação de como era uma pessoa importante ao ponto de conseguir que o GM dos Maple Leafs concordasse em recebê-lo ainda nessa manhã.

O Sol parecia despontar no céu cinzento, sendo que dificilmente conseguiria furar por entre os prédios. Só mesmo se incidisse numa linha paralela às longas ruas de Toronto é que o seu brilho chegaria aos passeios. Era por isso que as pessoas aproveitavam as praças e pracetas para permanecer alguns minutos.

O fluxo humano não era tão intenso como noutros horários. Mesmo assim, muita gente circulava por ali, desde turistas dos quatro cantos do Mundo até aos simples estafetas que transportavam documentos e encomendas entre empresas. A maior parte dos seres humanos traziam auriculares nos ouvidos, parecendo à primeira vista estarem a falar sozinhos. Na rua, Gabriel fazia o mesmo, caminhando com os seus Galaxy Buds inseridos nos ouvidos para atender as constantes chamadas de trabalho.

Estava com tempo. Numa passada calma, chegaria ao ScotiaBank Arena, onde seria recebido pelo GM, em dez a quinze minutos. O tipo recebia-o com brevidade, mas não de imediato, daí que tivesse estipulado trinta minutos entre o telefonema e a reunião. Gabriel fez um desvio na Kigs Street para passar pelo Starbucks na esquina daquela rua com a Yonge Street.

A loja estava praticamente vazia. Na sua frente, somente um casal de turistas e uma jovem com ar de universitária. Atrás do balcão trabalhava um jovem com trejeitos divertidos, extremamente afável. Gabriel comprou um Cappuccino dos grandes, pagando e sendo generoso na gorjeta.

Ao voltar ao exterior, a sua atenção foi captada para a porta do One King Hotel, no lado oposto da rua. Reconheceu a mulher sedutora de cabelos ruivos que saía do edifício, era uma das dez da sua lista. Ela vinha distraída, concentrada no telemóvel, mas algo a fez olhar para ele. Gabriel sorriu e acenou-lhe, não tinha qualquer complexo em reconhecer e ser reconhecido na rua por uma das suas profissionais do sexo. Ela retribuiu o sorriso e o aceno, tomando a direcção oposta à dele.

A depressão voltou a pressioná-lo. Podias comprar-lhe o corpo, o sorriso, os beijos, a companhia, o que ele quisesse... Fora isso, não estando a pagar, era um aceno cordial numa relação de fornecedor para cliente.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

Nem tudo se compra, talvez...

 

Evitou com esforço que a aura negra se abatesse mais sobre ele. Bebeu o líquido quente e apressou-se de volta à Bay Street, onde retomou a direcção sul. Prosseguiu numa passada constante, abstraído da sonoridade envolvente, uma vez que ligara a playlist do Spotify no telemóvel para o descontrair. Alcançou a Front Street, uma rua larga que se cruzava na sua frente. Aguardou que a sinalização dos peões lhe permitisse atravessar, cerca de dois minutos, e passou para o outro lado, encarando a enorme Union Station.

As muitas linhas ferroviárias entravam na estação, a oriente, por um viaduto que cobria a Bay Street na sua linha de alcatrão rumo ao lago, a qual só terminaria na Queens Quay, junto ao Harbour Square Park. Gabriel encontrou um aglomerado humano mais intenso, devido às obras, quando continuou por esse viaduto.

Toronto tinha aquela curiosidade, as passagens não eram simples passeios junto à estrada, eram semelhantes a corredores de edifícios, separados dos carros por vidros, o que protegia os transeuntes da poluição do ar e do som. Era mais um pormenor revelador de uma cidade com mentalidade muito evoluída.

Tornando a sair para o exterior movimentado de automóveis, Gabriel virou imediatamente à direita e ficou defronte da ScotiaBank Arena.

Naquele enorme pavilhão disputavam-se jogos de hóquei no gelo e basquetebol. A equipa de basquetebol eram os Raptors, a única canadiana a disputar a NBA, depois de Vancouver ter perdido a sua para Memphis. Gabriel também agenciava alguns dos jogadores dos Raptors e tinha muitas esperanças que, em breve, os Toronto Raptors se tornassem na primeira equipa canadiana a vencer a NBA.

Curiosamente, e sem ter essa intenção, parou exactamente sobre o emblema dos Raptors pintado no passeio daquela fachada. Confirmou as horas e avançou pelas portas giratórias.

II

 

O Sol voltara a desaparecer durante a tarde. Gabriel conduzia o Ferrari sem infringir qualquer regra, apesar de gostar que os cavalos andassem à solta.

A reunião correra bem. Não podia obrigar o staff técnico dos Maple Leafs a colocar Tiivu no gelo em todos os jogos, mas obteve um compromisso de que não seria exilado nos Marlies. Regressara ao escritório, informara o finlandês e viu-se envolvido em mais assuntos para tratar relativos aos seus jogadores, uma vez que se aproximavam os inícios das épocas de hóquei e basquetebol.

No entanto, a seguir a um almoço que não passara de umas sandes mastigadas à pressa, Gabriel abandonou o Bay-Adelaide Centre para um compromisso que nada tinha a ver com a sua profissão.

O potente motor do Ferrari ecoou na Bay Street. Os semáforos pareciam ter combinado todos em seu desfavor. O trajecto foi muito parecido ao que realizara a pé pela manhã, até entrar na Gardiner Expy, a via rápida que atravessava Toronto ao longo do lago, e permitir-se a pisar o acelerador.

Olhou para a direita, vendo o aproximar da CN Tower, uma das maiores torres do Mundo. Logo a seguir, reparou no Rogers Centre, o estádio onde a equipa de basebol, os Toronto Blue Jays jogavam, com a sua cúpula fechada. Calculou que ia chover. Os habitantes de Toronto há muito que se haviam habituado a ver no Rogers Centre uma espécie de boletim meteorológico, pois se a cúpula estivesse fechada era sinal de que a chuva visitaria a cidade, enquanto que se estivesse aberta isso representaria que os guarda-chuvas poderiam ficar em casa.

Ao longo dos anos no Canadá, Gabriel não evitara só os relacionamentos amorosos, também evitara amizades, fosse com homens ou mulheres. Optara pela via da solidão, uma vida independente de tudo e de todos.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Para quê tentar fomentar amizades? Para que serviriam amigos, a não ser para o incomodar e fazer perder tempo? E tempo livre era coisa escassa no seu dia a dia. Se quisesse ir beber um copo, ligava para um dos nomes da lista de dez. Se quisesse ir ver um filme ao cinema ou outro espectáculo a que não estivesse interessado em ir sozinho, ligava para um dos nomes da lista de dez. Na verdade, os únicos espectáculos em que demonstrava interesse eram os desportivos e gostava sempre de ir sozinho, acabando por encontrar conhecidos que lhe colmatavam os tempos morto. Se quisesse ir jantar fora, ligava para um dos nomes da lista de dez. E ainda beneficiava do facto de, em todas essas ocasiões em que ligava para um dos nomes da lista de dez, terminarem na cama do seu quarto.

Se quisesse falar, se precisasse de desabafar, de alguém que o escutasse, que talvez lhe pudesse dar um conselho ou contrapor a sua visão dos factos, então, Gabriel ia ao encontro da pessoa a quem pagava para isso, um psicólogo a quem gostava de chamar de terapeuta para evitar o peso da palavra "psicólogo".

O doutor Phil vivia numa moradia num bairro familiar em Mississauga, uma localidade a oeste de Toronto da qual não distava mais que uns vinte quilómetros. Era um afro-americano nascido em Buffalo que, quando se formara, acabara por se radicar na região de Ontário. Cinquentão, Phil revelava um aspecto de sexagenário, mas o seu espírito e humor eram de trintão.

O gabinete onde recebia os pacientes era tão natural como a sala de estar de um qualquer apartamento. Naquele lugar, nada dava sinais de se tratar de um consultório ou sequer um escritório. As paredes eram beges, o tecto branco e o chão alcatifado, o que produzia uma sensação de paz a quem entrava. Várias fotos de paisagens bonitas emolduradas e penduradas compunham a decoração, onde o mobiliário era um sofá, uma poltrona, uma mesa baixa e um aparador comprido. Todo o espaço era iluminado de forma ténue pela claridade do exterior proveniente das janelas a que os canadianos apelidavam de "french doors". A vista era somente o relvado do jardim que envolvia a moradia.

Naquela tarde não havia muita luz a entrar, as nuvens persistiam em sobrevoar as margens do lago Ontário e seria uma sorte se não chovesse. Phil recebeu Gabriel com aquele sorriso acolhedor de sempre. Tinha um estilo muito próprio, envergando sempre uma camisa clássica, calças de bombazina e um colete sem mangas, como se tivesse deixado o casaco esquecido algures. Calçava sapatilhas, sempre sapatilhas.

O ambiente na sala era iluminado pela linha de luz suave das lâmpadas escondidas na sanca que rodeava o tecto da divisão. Para além disso, ao lado da poltrona, um outro candeeiro de pé enviava uma luz fraca que se destinava a apoiar o utente do assento.

Gabriel não retribuiu o sorriso, quase nunca o fazia. Não ia ali visitar um amigo, ia visitar o terapeuta, o que significava que estava com um problema e com poucos motivos para sorrir. Phil estava habituado a isso e desvalorizou aquilo que poderia ser alguma antipatia do paciente. Gabriel entrou e percorreu o espaço em movimentos automáticos, já perdera a conta às vezes que ali fora, e sentou-se no sofá. Phil acompanhou-o e tomou o seu lugar na poltrona.

— Como te sentes, Gabriel?

— Na merda.

Parecia incompreensível que alguém com tanto dinheiro pudesse não ser feliz.

Ah... Havias de ter contas todos os meses e não ter dinheiro para as pagar. Talvez assim soubesses o que é infelicidade.

Phil não fazia juízos, não lhe cabia julgar, apenas ouvir e ajudar.

— Continuas a ter episódios de angústia?

— Cada vez mais frequentes.

— A que é que achas que isso se deve?

— Esperava que me soubesses dizer, Phil. Afinal, é para isso que te pago.

Phil fez uma expressão paternalista.

— Já te disse várias vezes, Gabriel. Pode ser descrito como depressão, mas acho que tu sofres simplesmente de solidão.

— Podes passar-me uma receita com o medicamento? — questionou com sarcasmo. — Deve haver uma merda qualquer que se possa comprar para atenuar isto.

— Sim, podia receitar-te antidepressivos. — respondeu sério. — Mas, não me parece que a solução seja afogares-te em comprimidos.

Gabriel inclinou a cabeça para trás e olhou para o tecto.

— Ao ritmo que isto vai, ainda me vou afogar é no lago Ontário.

— Estás quase com cinquenta anos, Gabriel. Não achas que é tempo de abrandares a tua vida profissional e pensar em construir algo na tua vida particular?

Baixando o olhar, Gabriel encarou-o com um sorriso irónico.

— A minha vida privada vai muito bem, obrigado.

— Nota-se...

— Que sugeres, então?

— Que deixes alguém entrar no teu mundo.

Ouviu-se uma gargalhada de escárnio.

— Relacionamentos? Não preciso de relacionamentos, Phil. Quando preciso de relações, pego no telemóvel e... Tu percebes.

Phil abanou a cabeça, discordante.

— Sentes-te menos sozinho, quando contratas prostitutas para te aquecer a cama?

A expressão no rosto de Gabriel era uma mistura de irritação, desdém e prepotência.

— Costuma ser tão intenso que nem penso nisso.

Phil anuiu.

— Ok, ok. Então, deixa-me colocar isto de outra maneira. Tens noites de sexo intenso com mulheres fabulosas, não duvido, mas... Quando elas adormecem ao teu lado, o que é que sentes?

— Que preferia que se fossem embora.

— Porque não as mandas embora? Estás a pagar-lhes para fazerem o que queres.

— Pode apetecer-me repetir. — retorquiu escarninho.

— Ok. E quando acordas de manhã? Ela está ali ao teu lado. Sentes algum afecto por...

— Sinto que se ela já se tivesse ido embora quando acordo, isso seria perfeito.

— Desculpa dizer-te isto, mas tu não és capaz de sentir afecto por ninguém, Gabriel. Tu geres a tua vida como um negócio. Aquilo que precisas, compras. Não tens uma namorada, tens putas a quem pagas para foder. Não tens amigos. Pagas-me a mim para te ouvir e conversar contigo.

— Se isso te degradada...

— Não te faças de parvo, Gabriel. Sabes o que estou a dizer.

— Quanto menos gerires a tua vida de forma sentimental, menos sofres.

— Nota-se.... Estás em claro sofrimento, em angústia. Porque não o admites? Estás infeliz porque te sentes completamente sozinho.

— Bom, acho que estás a exagerar. Lido com pessoas diariamente, eu...

— Quantas pessoas te telefonam quando fazes anos?

Gabriel emudeceu.

— Quantas pessoas te ligam a desejar um feliz Natal o um feliz Ano Novo? — insistiu Phil. — Aliás, já agora, quantas pessoas te ligam para falar contigo de alguma coisa que não seja trabalho?

O psicólogo foi fulminado pelo olhar de Gabriel.

— Vai-te foder, Phil!

O silêncio abateu-se sobre eles. Gabriel desviou o olhar para as french doors, enquanto Phil o ficou a observar impávido, paciente, aguardando que ele levasse o tempo que fosse necessário.

— Estou cansado, Phil. — acabou por dizer, suspirando.

— Não acredito que tenhas sido sempre assim, Gabriel.

Ele pareceu ponderar a questão. Evitou encarar o semblante de análise do psicólogo. Sim, ele nem sempre fora assim. E por mais que se recusasse a aceitar a razão, Gabriel sabia a causa.

— Nós já nos conhecemos há algum tempo. — lembrou Phil. — Nunca falaste muito sobre a tua vida em Portugal, antes de vires para o Canadá.

Gabriel ouviu as suas palavras com sensação que o outro lhe tocava com um dedo numa ferida aberta.

— Que tem isso a ver com o assunto, Phil?

— Tu demonstras sempre desconforto, quando o assunto se desloca para o teu passado que antecedeu a vinda para Toronto. Acho que aconteceu algo, nessa altura.

— Estás enganado. — negou pouco convincente.

O outro permaneceu em silêncio, observando-o. Gabriel percebeu que não o enganaria, nem a si se conseguiria enganar. Tinha dois caminhos, ia embora ou...

— Prefiro não me recordar disso. Foi há muito tempo?

— Alguma vez partilhaste o que aconteceu com alguém?

— Não.

— Sou pago para te ouvir, Gabriel.

— O que não quer dizer que te queira contar, Phil.

— Como queiras, Gabriel.

Novamente o silêncio. Phil aguardou com paciência de chinês. Era pago à hora, por isso, o outro poderia continuar ali caladinho as horas que precisasse. E Gabriel parecia estar em sintonia, pois não se mexeu e ficou com o olhar perdido no vazio. Por fim, disse:

— Tinha pouco mais de trinta anos.

III

 

Gabriel tinha pouco mais de trinta anos e a vida corria sobre rodas à velocidade estonteante do sucesso. Aquele dia fora um dos exemplos pelo qual valia a pena fazer o que fazia, ser agente desportivo e negociar a compra e venda de jogadores entre clubes.

Fora mesmo um dia fenomenal. Ao fim da manhã, fechara a transferência de uma estrela brasileira em ascensão no Brasil para o FC Porto, vindo do Palmeiras, um jovem de vinte anos que tinha meia Europa atrás de si. À tarde, negociara com êxito a venda do passe do jogador mais valioso do Benfica, o ponta de lança goleador, para o Real Madrid. Ambas significavam muitos milhares de euros de comissão.

Correra tudo tão bem que Gabriel sentia que não podia desejar mais nada e quase teve receio que algo de mau lhe acontecesse em contrapartida.

Naquela época, ele vivia no Parque das Nações, perto do rio. Quase sem tempo livre, os seus momentos de descompressão eram em caminhadas junto ao Tejo. Solteiro, bem-parecido, sem amarras, tinha relacionamentos esporádicos, namoros que duravam umas semanas até que ambos chegassem à conclusão que chegara a hora de seguirem caminhos diferentes, sem mágoas e sem cobranças.

Nessa noite, para descontrair, decidiu passar por um bar perto de Santa Apolónia, um lugar das suas preferências para beber um whisky, conversar com alguém conhecido e, eventualmente, engatar uma mulher disponível para sexo de ocasião. Porém, naquela noite, só queria relaxar num ambiente cheio de gente, desfrutar daquilo que a vista lhe oferecia, dialogar com um ou outro ser e... ir embora para casa descansar.

O ambiente estava fantástico, a música tocava alta, mas não tão alta que impedisse os clientes de conversarem. As mesas estavam cheias, gente bonita por todo o lado, sorrisos, expressões, gestos... Como qualquer espaço semelhante, a luminosidade era nocturna, luzes a criar uma mistura de luz e penumbra, deixando as mesas num enquadramento menos luminoso. Funcionárias escolhidas a dedo atendiam às mesas, elegantes e sensuais sem serem vulgares. Atrás do balcão, outras três a servir bebidas, sorridentes, afáveis, sedutoras, cativando para que a clientela quisesse mais e mais bebidas. Os únicos homens que trabalhavam naquele lugar eram os seguranças, tipos com o formato de um guarda-fatos envergando uma indumentária formal, quase como se fossem agentes secretos ao serviço de sua majestade.

Gabriel sentara-se ao balcão. Conhecia e era reconhecido por todas as funcionárias. Os seguranças também sabiam quem ele era e, ao contrário da grossa maioria daqueles que ali queriam ir, não era sequer interpelado ao entrar. As barwomen tratavam-no de forma melosa, retribuindo as gorjetas generosas que lhes deixava sempre. Para além disso, não era qualquer um que tinha o estatuto dele, um cliente com uma garrafa de whisky 18 anos, em seu nome no bar, só para si.

Naquela noite, ali estava, a pensar como o dia fora bom e que não poderia ser melhor. Tinha o olhar perdido nas dezenas de garrafas expostas na parede, quando, de súbito, alguém lhe tocou o braço esquerdo.

— Desculpa incomodar.

Gabriel virou-se para a voz. Viu uma mulher elegante, sorridente, de cabelos claros pelos ombros. O rosto era jovial, os olhos cor de amêndoa, o nariz singelo e a boca de lábios bem desenhados, pintados num tom rosado. Vestia uma camisa digna de uma escriturária e calças de ganga.

— Não incomodas. — acedeu ele, retribuindo o sorriso e notando que ela parecia estar um pouco "tocada".

— Olha, queria pedir-te um favor. Sei que parece estúpido, nem nos conhecemos. — Sim, decididamente, parecia já ter bebido para além da sua dose. — Não sei porquê, ali as minhas amigas — Apontou para um lugar qualquer que ele não acompanhou com o olhar, mantendo-o nela. — acham que tu és uma espécie de deus grego.

— Não sou grego, sou português. — retorquiu curioso.

— Whatever. — ripostou com um gesto de desinteresse.

— Em que te posso ajudar?

— Elas apostaram comigo que eu não era capaz de vir meter conversa contigo, seduzir-te e fazer com que saísses daqui comigo. — Gabriel ouvia-a interessado. — Por isso, o que te quero pedir é que faças de conta que aceitaste o meu convite, eu vou buscar as minhas coisas e colectar a aposta, volto para aqui e vamos embora juntos. Lá fora, depois, cada um segue o seu caminho.

— E que ganho eu com isso?

A pergunta pareceu surpreendê-la, como se tivesse a certeza de que ele faria aquilo voluntariamente. Encolheu os ombros e não chegou a nenhuma conclusão.

— Fazemos assim. — propôs ele. — Saímos daqui juntos e podemos ir beber um copo a minha casa, que dizes?

O rosto dela endureceu. Ficou muito séria. O sorriso desapareceu como o Sol coberto por uma nuvem negra. As amêndoas fulminaram-no. A mão, que até ali estivera no braço dele, afastou-se. Não ficou qualquer dúvida no ar que a proposta dele a ofendera, um golpe sujo a uma brincadeira dela com as amigas.

— Esquece. — disse num tom cortante. — Desculpa ter-te incomodado. — E virou-se para regressar à mesa das amigas.

Gabriel segurou-lhe o braço com gentileza. Sentindo o seu toque, ela tornou a disparar o olhar para ele, revelando uma expressão agressiva.

— Desculpa. — pediu Gabriel. — Agora fui um estúpido, um idiota.

Ela não alterou o semblante duro, fechado, mas não fez qualquer movimento para que ele a largasse ou continuar a afastar-se.

— Podes largar-me o braço, se faz favor? — solicitou com altivez. Gabriel soltou-a. Ela retornou à posição anterior. Quando tornou a falar, não existia na voz ou na face qualquer sinal de embriaguez. — Não ando à procura de engates. Foi apenas uma brincadeira das minhas amigas. Nem sequer foi interesse meu ou desculpa para meter conversa contigo. — Olhou-o da cabeça aos pés com desdém. — Elas podem achar-te um deus grego, mas não fazes minimamente o meu género.

— Ok, já percebi.

— Mais uma vez, desculpa ter-te incomodado.

— Espera.

Mesmo falando como se quisesse ir embora, ela continuava ali.

— Já te disse que fui uma besta. Peço desculpa por isso.

— Esquece.

— Deixa-me compensar-te. — Ela olhou-o com uma expressão torcida. — Já não estava a contar ficar muito mais tempo. Eu ajudo-te a enganar as tuas amigas. Vai buscar as tuas coisas e saímos daqui juntos. — Sorriu. — Depois, cada um vai à sua vida.

Mantendo o rosto antipático, ela anuiu e, dessa feita, afastou-se.

Gabriel chamou a funcionária. Disse-lhe que ia embora, entregou‑lhe uma gorjeta generosa e despediram-se com um beijo na face. Quando saltou do banco onde estivera sentado, a desconhecida reapareceu com o casaco vestido e uma malinha pendurada no ombro. Ele percebeu que ela se virou de forma a que as amigas a vissem e sorriu para Gabriel de forma sedutora e interessada, um dos sorrisos mais falsos que ele alguma vez vira. Sem dizer nada, deu-lhe o braço e ambos atravessaram o espaço na direcção da saída.

— Obrigada. — agradeceu ela, quando já se encontravam na rua.

— De nada.

A noite estava amena e muito agradável. Tirando os seguranças do estabelecimento e meia dúzia de jovens que aguardavam oportunidade para entrar, não se via mais ninguém por ali.

— Tens carro? — indagou Gabriel.

— Não. Vou apanhar um táxi.

— Eu faço-te companhia, até que apareça um.

Ela observou-o curiosa. Gabriel notou-o como resultado de qualquer especulação que lhe iria em mente.

— Eu estou de carro, mas não te ofereço boleia porque não quero ser mal-interpretado. — Ela virou-lhe as costas, olhando para a rua, procurando vislumbrar a chegada de um táxi. — Posso ao menos perguntar o teu nome?

Ela tornou a encará-lo.

— Olga.

— Olá, Olga! — disse, estendendo-lhe a mão. — Eu chamo-me Gabriel.

Olga aceitou o aperto de mão e atenuou a expressão séria.

— Mais uma vez, desculpa, aquilo lá dentro.

— Já passou. E não precisas de ficar aqui à espera.

— Fico mais descansado se te vir ir para casa em segurança.

Ela esboçou um sorriso.

— Já sou crescidinha, Gabriel. Além disso, não tens que te preocupar com uma desconhecida que, depois de hoje, talvez nunca mais vejas na tua vida.

— Seja como for. A menos que a minha presença te incomode, prefiro aguardar contigo.

— Como queiras. — respondeu, encolhendo os ombros.

Ficaram alguns momentos em silêncio. Poucos carros passaram na rua e nem um táxi. Ao fim de alguns minutos, Olga voltou a falar:

— Se continuar assim, ainda aceito a tua boleia.

— Se quiseres...

— Vais para onde?

— Parque das Nações.

Ela fez um sorriso trocista, um sorrido que o derreteu.

— Vais exactamente para o lado oposto ao meu.

— Posso fazer um desvio. Onde vives?

— Oeiras.

— Eu levo-te.

— Não te quero dar ideias.

— Como queiras, Olga. — desistiu.

Enquanto esperavam, foram caminhando lentamente pelo passeio. Gabriel olhou para trás. Lá ao fundo, os jovens tinham entrado ou desistido com a oposição dos seguranças.

O silêncio instalou-se, não tinham assuntos a partilhar. O vento soprou leve, agitando os cabelos dela. Olga penteou-se distraída.

Vindos do fundo da rua, surgiram dois indivíduos com ar suspeito. Gabriel sentiu a tensão nela, quando reparou na aproximação deles. Temeu ser um alvo fácil para um assalto, caso Gabriel não estivesse ali. E mesmo com ele, não saberia o que os outros poderiam fazer. No entanto, os dois tipos olharam para eles de forma demorada, mas não pararam sequer e prosseguiram o seu caminho.

— Que terá acontecido aos táxis desta cidade? — questionou ela para o ar.

— Ainda é cedo. Só daqui a umas horas é que se lembram de passar por aqui para começar a recolher a debandada a sair dos bares.

— Acho que vou aceitar a tua boleia. — decidiu, falando num tom vulnerável. — Mas, é o segundo favor que me irás fazer na mesma noite. Este tenho de retribuir.

— Não precisas de retribuir, Olga. Não me custa nada.

— Deixa-me pagar-te um copo. — sugeriu. — Conheço um lugar catita, perto de Belém. Fica em caminho. Que dizes?

Meia hora mais tarde, estavam sentados, frente a frente, num bar em Belém. Olga ainda estava pasmada com o facto de ter vindo à boleia num Porche Panamera.

O lugar era muito mais tranquilo que aquele donde vieram. Não havia música ambiente, somente um lugar tranquilo onde as pessoas se agrupavam em mesas para conversar num tom suave, respeitando o princípio de não incomodar os restantes. Não estava cheio, bem pelo contrário, só metade dos lugares estavam ocupados. Um vidro gigantesco virado para o rio mostrava um cenário ponteado de luzinhas na margem oposta e uma linha negra por onde a água corria eterna. Eles ficaram numa mesa mesmo junto ao vidro. Entre eles e o rio, um passeio largo que terminava na margem descendente empedrada.

Por momentos, ficaram a olhar-se curiosos. Dois copos eram os únicos objectos na mesa, um whisky de malte para ele, uma cola com gelo e limão para ela.

— Já bebi a minha conta por hoje. — dissera Olga, ao pedir a bebida.

— Não te preocupes. Prometo que, se ficares bêbada, não me aproveitarei de ti.

Ela rira e ripostara num tom acolhedor:

— Por estranho que pareça, acredito em ti.

Depois, o silêncio instalara-se. Não era desconfortável, era relaxante e uma espécie de descanso de duas almas que haviam tido um dia longo e stressante. Ambos olhavam para o exterior sem nada verem. Por fim, ele apanhou-a a olhar para si.

— Que se passa?

— O que fazes na vida? Não é qualquer um que tem um carro daqueles.

— Sou traficante de droga. — respondeu, simulando que falava verdade. O tom não deixava dúvidas. E ela acreditou, ficando pálida. — Estou a brincar contigo. Sou empresário de futebol.

Olga revelou um enorme alívio. A seguir, fez um sorriso escarninho.

— Engraçadinho...

— Havias de ter visto a tua cara.

Olga abanou a cabeça, era a sua vez de simular, aparentando ter ficado aborrecida com a brincadeira. Não durou muito e sorriu-lhe, dizendo:

— Na prática, realmente és um traficante, mas de jogadores.

— Nunca tinha pensado nisso nessa perspectiva.

— Vá lá, Gabriel, estou a exagerar.

— E tu, o que fazes?

— Sou investigadora científica.

— És cientista?

— Não é bem cientista, trabalho num laboratório. Faço parte de uma equipa de investigação que estuda tratamentos para doenças oncológicas.

Gabriel fez uma expressão de surpresa.

— Hum.... Estou impressionado.

— Não dá para comprar Panameras. — ripostou ela com humor.

— Mas, salvas vidas.

— Tento.

— Estou deveras impressionado. Aliás, confesso que me sinto fascinado contigo.

— Não abuses, Gabriel. Já te disse que não estou interessada.

Ele sorriu, um sorriso que ela considerava bastante atraente.

— Sentir-me fascinado por ti, não quer dizer que queira dormir contigo. — atirou ele, procurando reverter aquele quadro que lhe dava o papel de sedutor não correspondido. — O fascínio resulta daquilo que fazes. É graças a pessoas como tu que existem tratamentos para doenças que eram incuráveis.

— Percebo. — compreendeu, fazendo uma espécie de "biquinho" com os lábios. — Mas, honestamente... Não queres?

— O quê?

— Dormir comigo?

— Não. — mentiu.

— E se eu quisesse dormir contigo?

— Ias dormir sozinha.

— Ena! — protestou, encaixando a rejeição. O rosto endureceu ligeiramente. — Para quem há pouco me convidava para um copo em sua casa...

— Convidei-te para um copo. Estamos aqui a beber um copo.

— Deixa-me adivinhar, também não faço o teu género?

— Para dormir, não.

— Qual é o teu género para dormir?

— Almofadas.

Olga soltou uma gargalhada deliciosa sem conseguir evitar chamar as atenções para si. Fez um ar envergonhado e olhou em redor como se pedisse desculpa.

— Então só dormes sozinho? — questionou divertida. — Não existe uma miss Panamera para te aquecer a cama?

— Achas que se não fosse solteiro, te teria convidado para minha casa ou estaria aqui a beber um copo contigo?

— Ui... Não sei como deva interpretar isso. — disse ela como se estivesse preocupada. — Se, agora, eu não for igualmente solteira, que irás pensar de mim?

— Não és solteira?

— Divorciada. — informou séria, ao fim de breves momentos.

Gabriel percebeu que o assunto era melindroso, talvez até recente, daí que talvez ela não o quisesse abordar.

— Ok. Somos os dois descomprometidos. — atalhou.

Olga fez um gesto revelador que isso poderia não ser totalmente verdade. Gabriel ficou confuso e permaneceu atento a ela, esperando um esclarecimento. Olga sorriu, era um sorriso nervoso, culpado, desconfortável.

— Tenho uma filha. — acabou por dizer sem respirar. — Por isso, não posso dizer exactamente que não tenho compromissos.

— Eu referia-me a não termos namorados.

— Eu sei. Mas, quis dizer-te isto. Quis que soubesses que tenho uma filha.

— Porquê?

— Porque é importante para mim. A minha filha é o que existe de mais importante na minha vida.

— Não ponho isso em causa, Olga. Só não entendi porque é tão importante para ti que eu saiba que tens uma filha.

Não houve resposta. Ela queria ter uma, sabia o que queria responder, mas não encontrou coragem e refugiou-se na observação dos desconhecidos.

Gabriel quebrou o silêncio:

— É recente?

— Recente?

— O divórcio.

— Estamos separados há três meses.

— É oficial?

— Como assim?

— Já se divorciaram legalmente?

— Nunca fomos casados, Gabriel. Vivíamos juntos. — Olhou para o vazio como se recordasse tempos idos. — Decidimos viver juntos, quando engravidei. — Ela parecia adivinhar-lhe as perguntas. — Não foi planeado, mas a gravidez foi recebida com muita felicidade por ambos.

— Que idade tem ela?

— Sete anos.

— Calculo que não esteja a ser fácil, a separação dos pais.

— Nada mesmo. Já tem idade para compreender as coisas e não aceita que os pais já não vivam na mesma casa. — Fez um sorriso triste. — Este fim de semana está com o pai. — O sorriso tornou-se irónico. — Claro que se assim não fosse, eu não estaria aqui. Que mãe seria eu a sair com as amigas e a deixar a miúda sozinha em casa?

— Não pensei que o fizesses.

— Eu e o pai da Íris mantemos uma relação cordial. Estamos a tentar fazer com que resulte pelo bem dela.

— A tua filha tem um nome lindo.

— Obrigada. Fui eu que escolhi.

Voltaram a silenciar-se e procuraram assunto na visualização dos restantes clientes.

Olga olhou para o relógio.

— Está a ficar tarde. É melhor irmos.

— Claro. — concordou ele, fazendo sinal ao empregado.

A noite continuava amena e agradável. Dava vontade de ficar ali, junto ao rio, sem pressas, a saborear o ambiente. Gabriel e Olga caminharam devagar em direcção ao local onde o automóvel ficara estacionado. Não disseram nada, mas ela tomou a liberdade de lhe segurar o braço.

Junto ao Porche, ele levou-a até à porta do passageiro e abriu-lha como um cavalheiro que era. Ela entrou, sorrindo-lhe. Quando ele contornou o carro e entrou para o lugar do condutor, ouviu-a dizer:

— Já não se vêem muitos homens a tratar uma mulher com a gentileza com que tu fazes.

— Estou a ser interesseiro, é uma forma de te tentar dar a volta.

Olga sorriu. Por estranho que pudesse parecer, conhecia-o há poucas horas, mas já era capaz de lhe descodificar as palavras, sabendo quando ele falava a sério ou com humor. Ali, percebeu que brincava, da mesma forma que entendeu a seriedade, no momento em que ele parou defronte do seu prédio e lhe disse:

— Gostava de te voltar a ver.

Ela não respondeu de imediato, como se ponderasse a questão. Contudo, olhou-o com um imenso calor amendoado, séria, intensa.

— Não sei... — hesitou, aproximando-se para se despedir com um beijo na face. — Não sei se será boa ideia.

— Porquê?

Olga beijou-lhe a face e segredou-lhe:

— Tenho medo de me deixar apaixonar por ti.

A confissão surpreendeu-o. Viu-a afastar-se, subitamente vulnerável, ficando a um palmo do rosto dele.

— Facilmente me apaixonaria por ti, Olga. E não tenho medo disso.

Houve um sorriso no rosto dela, uma expressão de agrado. Não disse nada, mas voltou a aproximar-se e beijou-o nos lábios.

Foi um beijo suave, uma exploração recíproca entre duas pessoas que se beijam pela primeira vez. Depois, tornou-se mais intenso, ao ponto de revelarem uma vontade imensa de se comerem um ao outro.

— Queres subir? — convidou ela, quebrando o beijo.

— Tens a certeza?

— Sem compromissos, Gabriel. Ambos o queremos e nada há que nos impeça de o fazer.

 

Gabriel surpreendeu-se pela forma como acordou ao fim da manhã de Domingo. Estava deliciosamente confortável na cama de Olga com ela a dormir nos seus braços, ambos encaixados como se fossem uma concha. Sentia-se o homem mais feliz do Mundo. Fora uma noite maravilhosa, intensa, apaixonada, loucamente saborosa.

Olga continuava a dormir. Ele teve receio de fazer qualquer movimento que a acordasse. Beijou-lhe os cabelos e sorveu o aroma do seu corpo delicioso. Permitiu-se a recordar o corpo nu dela, as etapas lentas em que se foram descobrindo um ao outro. Não conseguia explicar, mas estava fascinado com ela.

Um movimento denunciou que começava a despertar. Acordou aturdida, quase como se não se lembrasse que aquele homem adormecera na sua cama depois de muito sexo. Estremunhada, virou-se e encarou-o com um sorriso. Beijou-o com ternura.

— Bom dia, Gabriel.

— Bom dia, Olga.

Olga olhou paras as horas.

— Bolas, não pensei que fosse tão tarde.

— É Domingo, Olga.

— Tenho de ir buscar a minha filha a casa do pai.

— Eu posso levar-te. — sugeriu Gabriel.

Para sua surpresa, Olga fez uma expressão séria.

— Gabriel. — iniciou com seriedade e cuidado nas palavras. — Isto... Isto, entre nós. Isto é só sexo. É bom, muito bom. Mas, é só sexo. Não pretendo que seja só hoje, quero repeti-lo e espero que tu também queiras, mas... — Ele olhava-a, atento, algo confuso. — A minha filha é uma parte da minha vida ou não pretendo que entres.

— Porquê? — questionou.

Olhavam-se deitados, ainda abraçados. Ele sentiu aquilo como um golpe. Não foi capaz de se afastar, mas ficou magoado. Ela percebeu e procurou explicar-se o melhor que soube.

— Não quero que a presença de outros homens a confundam. Sei que procuras diversão, sexo...

— Espera um pouco. — interrompeu ele. — Como é que sabes o que procuro ou o que quero?

— Então diz-me. — pediu com ternura. — Esperas que nos tornemos um casal?

Gabriel ia a responder afirmativamente, mas algo o retraiu e o fez colocar a questão frontalmente:

— Sê sincera comigo, Olga. Tu e o teu marido.... Há hipótese de voltarem? Uma reconciliação?

— Não Gabriel. Foi muito grave o que ele fez. Não há volta, nem que ele fosse o único homem à face da terra.

Gabriel sorriu e teve a deliciosa, cruel e dolorosa certeza de que estava apaixonado por ela como, talvez, nunca tivesse estado por mulher alguma.

— Não quero só sexo contigo, Olga. Quero mais que isso.

— O que queres exactamente? — insistiu ela, num tom quase ríspido. — E não te esqueças que tenho uma filha.

— Quero amar-te. — confessou. — E não tenho problema nenhum em que tenhas uma filha.

— Não quero que a Íris volte a sofrer. Se eu permitir que atravesses essa linha, sei que irá sofrer se, daqui a uns tempos, perceberes que não é isto que queres.

— Vais ter de confiar em mim.

— Vamos com calma, Gabriel. — pediu carinhosa. — Hoje... Hoje, tu vais para casa e eu vou buscar a Íris.

— Como queiras. — retorquiu decepcionado.

— Concedes-me um pedido?

— Diz.

— Podemos continuar assim, por algum tempo? Só sexo?

Gabriel não respondeu. Ao invés, levantou-se da cama. Pareceu ponderar a resposta e acabou por dizer:

— Acho que no fim disto tudo, eu é que ainda me vou magoar. Não sei explicar como, mas esta noite, desde que nos conhecemos, senti que criámos uma química forte entre nós. Não consigo ver-nos apenas como dois adultos que se encontram para sexo. Sinto por ti, algo mais forte que isso. Se não posso ter isso, acho que é melhor ficarmos por aqui.

Para sua surpresa, Olga riu-se.

— É a primeira vez que um homem me rejeita completamente nu. — Ele ia protestar, mas ela fez um gesto para que esperasse. — Será como queres, Gabriel. Eu vou deixar-te entrar nessa parte da minha vida. Hoje vais conhecer a Íris. Mas, juro-te, se fizeres algo que a faça sofrer, hei de odiar-te para o resto da tua vida.

 

Íris era uma menina de sete anos alegre e sorridente. Tinha os olhos da mãe, o cabelo menos claro e uma fisionomia redondinha e fofa. Gabriel não acompanhou Olga quando ela foi buscar a filha ao novo apartamento do pai, ficando a aguardar ao fundo da rua. A pequena sentiu-se intimidada com o desconhecido, mas acabou por interagir cada vez mais com aquele novo amigo da mãe.

Gabriel não sentia qualquer incómodo com o facto de a sua namorada ter uma filha, mas também não via a criança como se fosse uma filha, só porque tinha uma relação com a mãe dela. Aliás, ele nunca sentira o chamamento da paternidade, nem os filhos alguma vez haviam sido um objectivo de vida. Para além disso, Íris não precisava que ele ocupasse o papel de pai, uma vez que o seu era bastante presente na sua vida, independentemente da separação com a mãe. Nem seria um suplente ou um substituto dele, caso o pai a decepcionasse dalguma forma. Partindo do princípio, tal como Gabriel desejava, que a relação com Olga duraria para o resto da vida, Íris seria uma amiga mais nova, a filha da sua paixão, alguém para quem ele estaria sempre disponível, sempre que ela precisasse de si.

Íris era uma criança adorável. Olga fizera um esforço hercúleo para ser o escudo que protegera a filha das mazelas da separação. Mesmo ferida e magoada com o homem com quem vivera sete anos e que a traíra, Olga manteve uma relação cordial com ele, quase uma amizade, mesmo que no seu íntimo não o quisesse ver à frente. Consequentemente, após o choque inicial, Íris encarou com naturalidade aquela realidade. Tal como foi achando normal que aquele amigo da mãe fosse visita constante da casa e dormisse muitas vezes no quarto da mãe, tal como o seu pai fazia quando lá vivia.

O passar do tempo criou laços afectivos entre Gabriel e Íris. Tal como ele não a via como uma filha, também a pequena não o via como um pai. Era o amigo da mãe, o Gabi, como ela lhe chamava porque tinha uma colega na escolinha que se chamava Gabriela e todos lhe chamavam Gabi. Ele não se importava. Para Gabriel também foi uma surpresa perceber que tinha algum jeito com as crianças. Participava nas brincadeiras dela, contava-lhe histórias e ripostava ao "Gabi" com um carinhoso "Arco-íris", que era como ele lhe chamava com ternura.

Ao longo de dois anos, a relação de Gabriel e Olga foi o paraíso. Faziam vidas independentes um do outro, nunca chegaram a colocar a hipótese de viverem juntos, mas Gabriel dormia frequentemente em casa de Olga. Por seu turno, quando Íris passava fins de semana com o pai, Olga mudava-se para o apartamento de Gabriel.

Apesar de o esconder, Gabriel tinha um certo ciúme dos encontros entre Olga e o pai da filha, mesmo que esses não durassem mais que o tempo necessário para deixar ou ir buscar a filha. Com o passar das semanas, esse ciúme, esse receio que ela pudesse voltar para o marido foi‑se esfumando. E Gabriel sentiu a cada dia que Olga seria a mulher da sua vida e que envelheceriam juntos.

Olga e Íris tornaram-se uma parte muito importante da vida de Gabriel. Fora uma época em que ele se sentia completamente realizado, tanto na vida pessoal como na profissional. Costumava levá-las a viajar com ele, foi assim que Íris visitou a Disneylândia em Paris e que Olga concretizou o sonho de ir a Florença. As viagens de trabalho dele tornaram-se menos entusiasmantes porque ia sozinho e com uma saudade imensa da namorada e da pequena.

Sim, Gabriel não tinha dúvidas, era feliz.

Depois...

Não teve nada a ver, foi uma coincidência.

Ele era um empresário de futebol de muito sucesso, nada comparado com alguns tubarões empresariais que se moviam no meio e muito menos alcançava o estatuto daquele que chegaria a ser considerado o melhor empresário de jogadores de futebol do Mundo. Contudo, ganhava uma fortuna e era um homem muito rico. Entre os seus contactos, recebeu um convite para trabalhar no Canadá, numa agência de activos desportivos, para fazer o que já fazia e ganhar dez vezes mais. Não pensou duas vezes e recusou.

Gabriel não precisava daquele trabalho, nem se queria afastar de Olga ou impor-lhe uma mudança de vida desnecessária. Mesmo que ela estivesse na disposição de o acompanhar com a filha, não seria justo afastar Íris do pai, nem o pai da filha.

Nunca comentou a proposta com Olga. Contudo, o facto de se sentir tão seguro em recusar propostas milionárias em prol dela, fê-lo pensar que estaria na altura de a relação passar ao nível seguinte. Ao fim de dois anos de relação, Gabriel não tinha qualquer dúvida, queria casar com ela e iria fazer o pedido.

Em simultâneo, algo aconteceu. Para sempre seria recordado por si como o tempo em que subira ao Céu e rapidamente caíra no Inferno.

Fizera uma viagem a Itália para tratar de mais uma transferência de jogadores. Tal como sempre acontecia nestas viagens solitárias, telefonava a Olga e trocavam mensagens. Aquela não fora diferente, conversaram apaixonados e nada antevira o que se sucederia. Ele já era para ter feito o pedido de casamento, mas quis deixar passar o aniversário da pequena Íris para que uma novidade daquelas não retirasse protagonismo a um momento anualmente ansiado pela criança. Assim, o pedido aconteceria quando ele regressasse de Itália, uma vez que partira logo após o evento.

Três ou quatro dias, não fora mais que isso, se bem que o turbilhão de emoções que se seguiram lhe deixaram os pormenores da recordação algo enevoados. Nesse espaço de tempo, Olga revelara-se a mesma apaixonada e melosa de sempre, ao telefone ou nas mensagens que trocavam. Na última noite transalpina, Olga telefonou-lhe. Algo na voz dela surgiu ao ouvido de Gabriel como um alerta. Sentiu-se imediatamente tenso, como se adivinhasse que algo mau aí vinha. Se pudesse, teria desligado a chamada e atrasado o mais possível o que não queria ouvir. Fingiu não perceber e recebeu a voz dela com:

— Olá, amor!

— Olá, Gabriel!

Pois... Não houve um "olá, amor" no outro lado como era usual.

— Está tudo bem?

— Temos de falar.

— Estamos a falar, Olga. — retorquiu sem perceber que a sua voz adoptava um tom agreste em defesa.

— Aconteceu algo.

— Que aconteceu, Olga?

A resposta foi a respiração dela.

— Estás bem, Olga? — insistiu quase como se desejasse que ela lhe fosse contar uma fatalidade ao invés do que adivinhava estar para vir.

— Não sei como hei de te dizer isto, Gabriel.

— Experimenta usar uma coisa que se chama "palavras". — atirou, tremendo, mas com a voz firme.

— Não precisas de falar assim.

— Estás a deixar-me preocupado e não desembuchas. Que se passa Olga?

— Quero terminar a nossa relação! — afirmou segura, quase sem respirar.

— O quê? Porquê? Donde vem isso agora?

— Aconteceu algo...

— Foda-se, Olga! Já ouvi essa merda. Que aconteceu? Diz de uma vez!

— Eu e o pai da Íris... Nós.... Aconteceu.

— Aconteceu o quê? Ao menos, sê crescidinha e diz as coisas como gente adulta. — rosnou ele, furioso.

— Fizemos sexo. — respondeu ela num tom agressivo. — Fomos para a cama um com o outro. Fodemos. Ele comeu-me, eu comi-o a ele. Satisfeito?

Gabriel não respondeu. Sentiu a mágoa, a dor da traição percorrer‑lhe o corpo. Uma fúria imensa atravessou-lhe a espinha, teve vontade de partir o telemóvel em mil pedaços.

— Percebes agora porq...

— Vai pró caralho, Olga!

— Não seja mal-educado.

— Antes mal-educado que puta.

Novo silêncio. Gabriel esperou que ela dissesse algo. Só houve silêncio por alguns momentos. Por fim, a voz de Olga surgiu fria como gelo.

— Ok, Gabriel. Apesar de não concordar, talvez mereça que me chames isso. Seja como for, quis só informar-te que está tudo acabado entre nós. Adeus!

— Espera! — pediu ele sem atenuar minimamente o tom rude. — Isto não acaba assim só com um "adeus".

— Não tornes as coisas mais difíceis. Nós já não temos mais...

— Não me refiro a ti. — interrompeu. — A Íris...

— Que tem a Íris?

— Quero despedir-me dela.

— Isso é desnecessário. Nem me parece que lhe faça bem passar por isso.

— Porquê? Eu gosto da tua filha, não quero desaparecer assim da vida dela, como se me tivesse evaporado.

— Tu és apenas o namorado da mãe. Neste caso, um ex-namorado. Daqui a dois ou três dias já nem se lembra de ti.

— Como podes dizer isso, Olga?

— Adeus, Gabriel!

— Olga!

Ela desligou-lhe a chamada na cara.

IV

 

— Nunca mais as viste?

Gabriel olhava para as mãos com os olhos vagos nas recordações.

— Só uma última vez, Phil. — relatou. — Quando regressei, decidi estupidamente ir a Oeiras e forçar um reencontro. Para te ser sincero, não sei bem o que esperava fazer, quando a visse. Estava tão magoado, tinha o coração esfrangalhado.

— E reencontraste-a? — questionou o psicólogo. Gabriel anuiu. — Que aconteceu?

As luzes da sala haviam ganho uma tonalidade mais forte com o escurecimento lento do exterior. Phil mantinha a sua posição, atento, ouvinte, sentado na poltrona. Gabriel atravessava uma onda de trevas a recordar os momentos mais horríveis da sua vida.

— Por coincidência, quando cheguei e estacionei o carro, vi-a sair do prédio com a filha e o ex. Vinha com um ar apaixonado, de mão dada com ele. Vi-os beijarem-se, o que me provocou uma sensação semelhante a um soco no estômago. Queria bater em ambos. Só que, logo de seguida, reparei no rosto feliz da Íris. Conhecia-a há tempo suficiente para perceber como estava feliz por os pais estarem juntos. Em todo aquele cenário, eu era a figura deslocada, era eu quem não pertencia ali. A única pessoa... — Fez uma pausa, procurando as palavras. — A única culpada era a Olga. Fora ela quem me fizera acreditar numa mentira. Nem sequer culpava o gajo, fizera o seu papel, reconquistara a mãe da filha. — Nova pausa. Na mente de Gabriel, o rosto de Íris. — E jamais faria qualquer coisa que quebrasse a felicidade da miúda. A criança não merecia. Sei que gostava de mim, mas eu não era nada ao lado do pai.

— E elas? Viram-te?

Gabriel abanou a cabeça.

— Não. Os três prosseguiram o seu passeio até desaparecerem na esquina seguinte. E eu fui-me embora para sempre.

— Nunca mais soubeste nada delas?

— Não quis saber. Apaguei-as completamente da minha vida.

— E depois disso? Não houve mais ninguém?

— Depois disto, atravessei as trevas. Queria desaparecer. — Gabriel olhou para a expressão inquiridora de Phil. — Não, Phil, não me tentei matar. Estava na merda, mas não ao ponto de querer acabar com a vida. Queria desaparecer dali, dos sítios que me faziam lembrá-la.

— Foi por isso que vieste para o Canadá?

Ele anuiu.

— Recuperei a proposta e, na altura, pareceu-me o melhor caminho. Desfiz-me de tudo o que tinha em Portugal e parti para nunca mais voltar.

— Nunca mais voltaste a Portugal?

— Não.

Phil esperou que Gabriel prosseguisse o relato, mas ele limitou-se a pegar no telemóvel e a analisar as chamadas não atendidas, uma vez que mantinha o aparelho silencioso sempre que ali ia.

— Foi por isso que te fechaste ao Mundo?

— Como assim? — questionou Gabriel, olhando para Phil. — Não me fechei ao Mundo. Apenas limitei o acesso das pessoas ao meu.

— Que conclusão tiras dessa decisão, ao fim destes anos?

— Que foi a melhor decisão que tomei. Não preciso de merdas destas na minha vida, Phil. Não preciso de acreditar em fantasias para ser despertado para a realidade. E se tens dinheiro, podes ter tudo sem chatices.

— No entanto, aí estás tu, mergulhado em angústia e solidão.

— Como é que se costuma dizer, Phil? O que não nos mata, torna‑nos mais forte.

Phil assentiu irónico, não partilhava daquela visão.

— Acho que devias repensar o futuro. Talvez te surpreendesses, se deixasse alguém...

— Pois, pois. Ambos sabemos onde isso me levaria. — contrapôs Gabriel. Tornou a olhar para o telemóvel. — Tenho de ir. Obrigado por este bocado, Phil.

 

A cúpula do Rogers Centre tinha razão, a chuva vinha a caminho. Quando Gabriel regressava a Toronto pela Gardiner Expy, a noite caía e os aguaceiros grossos embatiam no para-brisas do Ferrari. Enquanto fez o trajecto entre Mississauga e Toronto, Gabriel aproveitou o sistema de som ligado ao smartphone para responder aos telefonemas. Não era a melhor das oportunidades para conduzir e falar ao telefone ao mesmo tempo, mesmo em versão "mãos-livres", mas tinha o tempo limitado e queria inteirar-se dos assuntos antes de chegar ao compromisso desse início de noite, o jogo de basebol na casa dos Blue Jays.

Nenhum dos telefonemas mereceu o tempo que lhe tiraram. Nada de relevo, pontos de situação relativos a potenciais interesses de clubes, um ou outro agente a propor um acordo para que ele ajudasse na contratação de um seu agenciado, enfim... Nada que lhe interessasse, nem para o qual tivesse paciência, tal como aquele jogo a que ia.

Quem o convidara para assistir também lhe reservara um lugar no parque privativo do estádio. Aliás, era habitual ter acesso a um lugar para o seu F8 sempre que ia aos jogos de basebol, o que era raro. Preferia o seu lugar intocável no ScotiaBank Arena e despender tempo a ver os Maple Leafs ou os Raptors. Contudo, sabia que o convite se prendia com negócios, daí que não pudesse... não devesse recusar.

Encontrou algumas caras conhecidas que cumprimentou, mas com quem não perdeu muito tempo. Subiu pelo elevador e foi sair a um dos luxuosos pisos de camarotes. Sabia onde o tipo estava, o camarote era dele, um dos directores do clube.

Algumas dezenas de pessoas circulavam pelo corredor, a maior parte equipada com um qualquer adereço identificativo dos Blue Jays. Gabriel sorriu sozinho, certo de que quando se iniciassem as épocas da NHL e NBA, aquele estádio teria muito menos espectadores sempre que os jogos coincidissem com o hóquei ou o basquetebol.

Ao chegar ao camarote, a porta estava aberta. O espaço era semelhante a uma sala de estar com sofás, um balcão e mesas com bancos altos viradas para um grande vidro por onde se poderia ver o campo lá em baixo. Em posição oposta à entrada e logo ao lado desse vidro, uma porta igualmente envidraçada permitia que se acedesse às confortáveis cadeiras dos espectadores. O interior era todo em tons de azul, vermelho e branco, as cores dos Blue Jays. Gabriel entrou, reparando nas pessoas que já lá estavam. Viu o director que o convidou, um homem na casa dos setenta anos, vestido com um fato caríssimo, um outro tipo mais novo também com ligações ao clube e envergando a mesma formalidade, uma rapariga de vinte e poucos anos, loura platinada e cheia de curvas com um vestido reluzente e apertado, a qual ele sabia ser relações-públicas do clube, e uma outra mulher que ele não conhecia.

O homem mais velho sorriu-lhe com simpatia e cumprimentou-o. Gabriel apertou-lhe a mão, fez um aceno ao outro homem e sorriu para a RP que se aproximou e se ofereceu para lhe servir uma bebida. Gabriel declinou a oferta, aterrando os olhos na única pessoa que desconhecia. O seu anfitrião reparou e apressou-se nas apresentações.

— Gabriel, é a Rachel. — informou. — A Rachel é representante dos Washington Nationals e veio visitar-nos para nos apresentar uma proposta para o Lewis.

Rachel era uma mulher alta, tão alta quanto ele. Tinha cabelos longos acobreados e um rosto tipicamente americano do sul. Aliás, quando falou, Gabriel identificou-lhe imediatamente o sotaque sulista. Vestia um fato de saia e casaco estilo empresarial em tons claros, elegante e caro. O rosto era expressivo, uma simpatia protocolar que pretendia cair nas boas graças de quem teria de convencer a levar avante o seu negócio. Tinha olhos azuis, nariz aquilino e uma boca suculenta. Fisicamente não ficava atrás da esbelta RP dos Blue Jays, ainda para mais com aquele ar maduro e sensual.

Gabriel estendeu-lhe a mão com um sorriso, mas as palavras foram dirigidas ao director.

— O Lewis? Vocês sabem que a vender os melhores jogadores, nunca conseguirão ganhar títulos?!

O anfitrião ignorou o comentário e explicou:

— A proposta é muito boa.

Se fosse tão boa como quem a trazia, Gabriel sabia que seria difícil recusarem-na.

Lewis era um dos melhores lançadores da equipa. Para quem não sabe muito acerca de basebol, mas já viu alguma imagem do desporto, o lançador é aquele tipo que está no meio do campo a lançar a bola para que esta chegue ao seu colega de equipa atrás do batedor, sem que o batedor acerte na bola. Complicado? Bom, a questão fundamental é que Lewis era talvez o jogador mais influente da equipa.

Por seu lado, Rachel representava os Washington Nationals, outro clube profissional de basebol da MLB, equipa americana sediada na capital dos Estados Unidos, Washington D. C., e candidata às World Series, nome da fase final de apuramento do campeão.

— Prazer em conhecer-te, Gabriel. — disse ela num tom rouco.

Ele leu-lhe a expressão sedutora, sabia que tudo fazia parte de um jogo para o convencer a concordar com a sua proposta. Até onde estaria disposta a ir? O tempo o diria. Correspondeu à simpatia, analisando-a, adivinhando que deveria estar perto da sua idade, apreciando aquela beleza madura de mulher experiente que sabia o que queria e como queria.

No exterior ecoou a música habitual dos eventos desportivos para animar o público. Ainda nem metade da lotação se esgotara. No recinto relvado, alguns jogadores aqueciam e treinavam lançamentos.

— Então a Rachel foi o motivo do convite. — constatou Gabriel, olhando para o director.

O homem riu-se bonacheirão, segurando no copo de brandy.

— Espero que não estejas decepcionado. — desejou Rachel, fazendo uma espécie de beicinho.

— Se conseguir evitar que o Lewis saia dos Blue Jays, não fico. — retorquiu Gabriel, entrando no tom dela.

Rachel simulou um semblante magoado.

— Oh... Assim, serei eu a ficar desapontada.

O espaço era iluminado numa tonalidade creme. Porém, a luz pareceu perder força quando a iluminação dos holofotes mergulhou o campo numa onda de brilho.

— Vai começar. — chamou o director.

A zona reservada defronte de cada camarote tinha duas linhas de cadeiras confortáveis, as quais eram limitadas pela beira da bancada. Estavam no piso intermédio. Abaixo deles estava a bancada ao nível do relvado, acima deles os lugares mais distantes e menos caros.

O responsável do clube encaminhou os convidados de forma a que Gabriel e Rachel ficassem sentados ao lado um do outro. Depois, ele sentou-se ao lado de Gabriel, fazendo uma espécie de cerco ao agente desportivo para, juntamente com ela, o convencer a aceitar a proposta que tinham para Lewis. Se convencessem o empresário do jogador, convenceriam o jogador.

Ao longo do início do jogo, Rachel foi falado dos detalhes da proposta, os valores envolvidos para o jogador, o que o clube ganharia com a transacção e quanto caberia a Gabriel. Era mesmo uma proposta ao nível de quem a trazia, interessante, bem estruturada e que dava vontade de agarrar.

Porém, Gabriel não chegara ao estatuto que tinha, a facilitar os negócios à parte contrária, por isso permaneceu impávido como se lhe estivessem a oferecer um quilo de laranjas para concordar com o negócio. Para além disso, passou o jogo todo a elogiar a exibição de Lewis, o qual fez um daqueles jogos de valer o bilhete.

Astuta, Rachel colocou a mão no braço de Gabriel e com um ar sofrido, confessou:

— Não poderemos ir muito além disto.

— Então, é melhor irem até onde podem ir, Rachel.

— Terei de falar com os Nationals, Gabriel.

Ele franziu o rosto, não acreditando que uma empresária na posição dela não tivesse uma margem de manobra para aumentar a parada.

— A sério, Gabriel. — insistiu, afectuosa. — Quero trazer-te algo irrecusável.

— Tudo bem, ficarei à espera.

— Sou capaz de ter novidades, amanhã. Podemos discutir a nova proposta num jantar? — sugeriu ela.

— Não sei. — respondeu Gabriel, voltando-se para o director. — Tens disponibilidade?

Rachel apertou-lhe o braço, chamando o seu olhar para si.

— Acho que podemos resolver a questão entre nós. — Olhou para o director dos Blue Jays. — Não achas, meu caro?

— Claro que sim, Rachel.

Ela tornou a encarar os olhos de Gabriel.

— Então, que me dizes? Amanhã à noite?

Para surpresa dela, com certeza pouco habituada a ser rejeitada, Gabriel recusou e apresentou como alternativa que ela passasse no seu escritório no dia seguinte à tarde.

A empresária teria preferido um jantar, num ambiente intimista, onde pudesse fazer algum jogo de sedução para o convencer. Na verdade, não estava surpreendida, Gabriel era um dos melhores agentes de jogadores da América do Norte, por isso, teria de jogar nas regras dele.

 

O ambiente no gabinete de Gabriel estava luminoso, tal como a cidade que, naquele dia, trocara a chuva pelo Sol radioso. Ele aguardava sentado na sua cadeira atrás da mesa de trabalho, analisando o contrato que obtivera o parecer favorável do seu advogado.

Na hora marcada, Francis surgiu na entrada acompanhado pela pessoa que combinara aquela reunião com ele. Gabriel levantou-se e recebeu Rachel com um sorriso protocolar, enquanto Francis regressou ao seu posto na recepção.

Rachel apresentava-se no mesmo estilo de vestuário de mulher de negócios, como acontecera no Rogers Centre. Desta vez, o fato era mais escuro, mas combinava na perfeição com o seu tom de cabelo. Gabriel reparou que a camisa dela tinha dois botões a mais desapertados, certamente com o intuito de o distrair para o decote.

Gabriel convidou-a a sentar no sofá.

— Tens aqui um belo espaço. — constatou ela, sentando-se numa das pontas do sofá.

Ele não se pronunciou e sentou-se na extremidade oposta, deixando espaço suficiente, entre eles, para que outras duas pessoas se sentassem.

Abrindo a sua mala de trabalho, Rachel retirou uma folha impressa com as insígnias dos Nationals e entregou-a a Gabriel. Ele pegou no papel e leu-o com atenção. Não havia dúvidas que queriam mesmo o Lewis, uma vez que aumentavam bastante os valores envolvidos.

— É o máximo que podemos oferecer. — confessou ela.

Gabriel fez uma expressão desconfiada. Rachel contrapôs com um sorriso sedutor e num tom fingido de vulnerabilidade, revelou:

— Acredita, Gabriel. Eles não vão dar mais que isso. Acima desses valores, só se for eu a pagar. — Sorriu. — E eu não tenho dinheiro para isso.

Ele ia aceitar e sabia que Lewis aceitaria logo que visse a proposta. Era muito mais que aquilo que auferia em Toronto. No entanto, estava curioso com aquele jogo de sedução que Rachel vinha a fazer desde que a conhecera.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

— Esperava mais... — suspirou Gabriel.

Rachel revelou surpresa no olhar.

— Por favor, Gabriel. Isso é uma proposta multimilionária.

Ele ignorou a frase.

— Tu também vais lucrar bastante com isto, Rachel.

— Tal como tu.

Gabriel pareceu ponderar a questão. Percebeu que trazia uma certa irritação no espírito, uma irritação que o corroía desde que estivera a reviver os últimos anos em Portugal, na sala de Phil. Odiava quem se aproveitava dele, principalmente mulheres que faziam charme para o enganar. Sentia que Rachel o procurava seduzir para o levar a fazer o que ela queria, tal como Olga o enredara numa malha de amor que não fora mais que uma ilusão amarga de um falso sentimento. Olga usara-o até recuperar o ex-marido, Rachel queria usá-lo para lucrar com a mudança de Lewis dos Blue Jays para os Nationals.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

Seria Rachel capaz de se vender?

 

Na sua mente, Gabriel equacionou até onde estaria ela disposta a ir para o convencer. No dia anterior, sugerira um jantar. Todos os sinais que vinham dela apontavam para a selagem do acordo no quarto de hotel onde estava hospedada. A verdade é que não tinha paciência para esse tipo de jogos, gostava de ser prático, daí a lista de dez nomes quando se queria envolver com alguém. Dar-lhe-ia um certo gozo colocar-lhe as cartas na mesa, apresentar a contraproposta de "eu aceito o acordo se formos para a cama". Não. Queria algo mais imediato, do género "despes o casaco e a camisa, fazes-me uma mamada agora e eu aceito o acordo". Ia ainda a pensar noutra hipótese, quando a voz dela o despertou das fantasias.

— Olha, Gabriel, nós não nos conhecemos. Sei o que estás a pensar. — Não, não sabia. — Que estou a fazer bluff, que posso ir mais longe. Não posso. A sério que não posso. — Havia algo de genuíno na voz dela, falava com frontalidade, sem esquemas, longe do ar de sedução e numa postura profissional. — Tenho pena, não só pelo dinheiro que não vou ganhar, mas porque gostava de realizar um negócio com alguém com o teu prestígio.

— Sou apenas um empresário de desporto como tu. — retorquiu, sentindo-se estúpido pelas ideias que lhe passaram na cabeça.

— Já ando nisto há vários anos, mas não tenho o teu prestígio. — concluiu com um sorriso cansado.

Sem saber explicar porquê, Gabriel sentiu uma súbita simpatia por ela.

— Não te preocupes. — descansou-a. — Eu aceito esta proposta.

Ela ofereceu-lhe um sorriso radioso de uma felicidade genuína.

— Fico a dever-te uma.

— Não me ficas a dever nada, Rachel. — recusou, retribuindo o sorriso. — São negócios e ambos ganhamos com eles.

Gabriel calculou que a sua aceitação levasse ao fim daquela reunião. Contudo, Rachel não se mexeu e ficou a olhar para ele. Que quereria ela? Pensou em fazer aquele gesto típico de olhar para o relógio e dizer "bom, penso que está tudo tratado".

— Não te sentes só?

A pergunta dela atingiu-o com surpresa. Ficou confuso. Onde pretenderia chegar? Já tinha o que queria. Ponderou as intenções dela. Haveria algum interesse para além do comercial?

Rachel não esperou a resposta e continuou:

— Não sei o que pensas sobre isso, mas acho esta vida muito solitária. Eu sinto-me solitária.

E que tenho eu a ver com isso, interrogou-se Gabriel. Pouco ou nada lhe interessava a vida dela.

— Tenho quarenta e três anos. — Parecia mais velha. — Sou uma empresária de sucesso, realizada profissionalmente, mas.... Ando sempre de hotel em hotel, a atravessar a América de ponta a ponta ou o Canadá. Quando chego a casa... — Fez um ar triste sem qualquer pretensão de representar. — Enfim...

Gabriel percebeu que ela queria apenas desabafar, vendo-o como um igual, e procurando nele um espelho de si própria, como se Gabriel tivesse alguma solução. Perante o silêncio dele, ela acabou por dizer:

— Desculpa, Gabriel. Não quero estar a maçar-te com as minhas tretas. Imagino que tu não passes pelo mesmo. Nem te conheço, se calhar tens mulher e filhos... — Fingiu divertimento. — Talvez até quisesses é estar no meu lugar.

— Enganas-te! — exclamou sério. — Compreendo perfeitamente o que sentes. — No olhar dela surgiu a constatação de que, sem querer, encontrara outro solitário.

Uma expressão de grande seriedade brotou no rosto de Rachel, como se nesse instante tivesse percebido que poderia estar a dar sinais contraditórios ao seu objectivo.

— Desculpa, Gabriel. Acho que devo dizer-te uma coisa, tenho obrigação de ser bem clara nisto. Não sei bem porquê, comecei a desabafar isto contigo, mas... Não estou a atirar-me a ti. É mesmo só uma conversa de ami... — Interrompeu-se, encolhendo os ombros. — Bom, ia a dizer amigos. — Não reprimiu um semblante ingénuo. — Claro que não somos amigos, conhecemo-nos ontem. Porém, não me importava que o pudéssemos ser.

Gabriel observou-a inexpressivo. Não precisava nem queria amigos. Se os quisesse, comprava-os.

— Não pensei que te estivesses a atirar a mim. — mentiu. — Para te ser sincero, tu nem fazes o meu género.

Apesar de não estar a tentar seduzi-lo, nenhuma mulher gosta de ser rejeitada, daí que tivesse feito uma expressão torcida de quem não acreditava, questionando:

— E qual é o teu género?

Sem preocupação em ser frontal, Gabriel respondeu sem filtros:

— O género das que recebem dinheiro para fazer sexo e não chateiam.

Rachel não esperava tamanha sinceridade. Recompôs-se da revelação e retorquiu, perdendo alguma simpatia:

— Sim, tens razão, de facto não sou o teu género. E desculpa estar a chatear-te.

— Espera, Rachel. Percebeste mal. Não me referia a ti. Não me estás a chatear, nem tão pouco a aborrecer.

Aquilo pareceu agradar-lhe, apesar de abominar homens que pagavam a mulheres para terem sexo. Considerava-o uma exploração das necessidades de quem não tinha outra forma de sobreviver. Contudo, ele era um solitário como ela e Rachel sabia bem que disparates um ser humano poderia fazer para combater a solidão.

— Para ti, o sexo é um negócio.

— Não o diria dessa forma. Isso seria se ganhasse dinheiro a fazê‑lo. Digamos que é um fornecimento de serviços. — Gabriel falava num tom afável, sem complexos. — Se queres comer e não queres cozinhar, encomendas a comida ao domicílio ou passas num take-away antes de ir para casa. Eu, como não quero relacionamentos, prefiro contratar profissionais quando sinto necessidades sexuais.

Rachel sorriu.

— Desculpa, estar a rir. Acho curioso estarmos a falar nisto. Nós que mal nos conhecemos.

— Não tenho problemas em falar nisto. E tu puxaste o assunto.... Espero que não estejas chocada.

— Não, nada disso. — negou ela prontamente. — Aliás, como calculo que não seja algo que andes por aí a partilhar com toda agente, penso que me estarás... a abrir a porta para uma amizade.

— Talvez me tenhas interpretado mal. — contrapôs com distanciamento. — Não ando à procura de fazer amigos, estamos só a conversar.

Foi um balde de água fria ou, melhor, um balde de gelo sobre ela. Podia entender que alguém recusasse avanços de cariz sexual, mas não compreendia que outra pessoa recusasse uma sugestão de amizade.

— Não me digas... A amizade, para ti, também é um negócio?

— É algo que não me faz falta.

— Olha, a mim faz. — confessou magoada. — Ainda há pouco me declarei a ti como querendo ser tua amiga. — Foi a vez dela de não ter problemas em ser frontal e falar sem filtros. — Digo-te com toda a sinceridade... Bolas, acabaste de me magoar. És a primeira pessoa que vejo recusar um amigo, a primeira que me recusa como amiga.

Gabriel não duvidou que a magoara, era perceptível na voz dela e na expressão triste.

— Não é nada pessoal, Rachel. É um problema meu. Não quero amigos!

A empresária encaixou a frase como uma despedida. O assunto que a levara ali estava tratado, felizmente com sucesso. Lamentava ter aberto o peito a uma pedra de gelo que se escondia por baixo da capa de ser humano. Levantou-se do sofá, triste e séria sem lhe reconhecer direito a receber mais nenhum sorriso seu.

Gabriel copiou o seu movimento. Sabia que estava a ser injusto e cruel. Era o seu sistema defensivo contra a Humanidade a funcionar em pleno. No entanto, fora surpreendido pela vulnerabilidade demonstrada por Rachel, que desde o primeiro momento irradiava uma imagem de segurança e imponência, perante a rejeição da amizade.

— Espera um pouco. — sugeriu com arrependimento. — Talvez esteja a ser... Não sei como o definir.

— Estúpido? — atirou ela. — Desculpa a honestidade, mas para mim, alguém rejeitar um amigo só pode ser estúpido.

— Sou uma pessoa complicada. Tu não compreenderias.

— Coloca-me à prova!

— Coloco-te à prova? Que quer isso dizer?

Rachel cruzou os braços sobre o peito, olhando-o intensamente. Sentia algo por ele, algo que não era carnal ou sentimental, apenas gostava dele e continuava envolvida na sensação estúpida de que ele poderia ser alguém interessante para conviver, nem que fosse para trocar um email ou um telefonema sem nenhuma razão em especial. Curiosamente, verbalizou-o. Consciente que já "despira" tanto das suas inseguranças diante dele que não seria aquilo que a deixaria pior.

Ele ficou a observá-la. Porque seria tão difícil dar aquele passo tão simples de estender a mão e confessar que estava a atravessar um momento angustiante de merda e a viver uma solidão atroz? Bolas, pá, ela só quer um amigo, é uma solitária como tu.

Gabriel imaginou imensas coisas para dizer, mas não abriu a boca. Rachel interpretou-o como um caso perdido e uma completa perda de tempo.

— Bom, é melhor ir andando. — disse sem o encarar. Havia tristeza na sua voz.

— Ainda ficas por Toronto?

Que te interessa isso? Que merda queres tu de mim?

Apesar de o pensar, Rachel não o disse. Continuou a não o encarar e passou por ele.

— Parto amanhã de manhã para Seattle, tenho uma reunião.

— Espero que voltemos a falar.

Ela virou-se para ele. Tinha os olhos húmidos.

— Sim, é provável que sim. Estamos no mesmo negócio, Gabriel. É natural que nos cruzemos para uma qualquer transacção de jogadores.

— Desculpa! — pediu com sinceridade.

— Não tenho nada a desculpar-te. Não fizeste nada.

— Não desistas.

— Não desisto? — A pergunta foi feita numa mistura de surpresa e confusão. — Não desisto de quê?

Gabriel encolheu os ombros e passou a mão pelo cabelo, cansado, atrapalhado, inseguro.

— Estou a ser uma besta, eu sei. É maravilhoso que me estejas a oferecer a tua amizade. — Abanou a cabeça, decepcionado consigo próprio. — Fechei-me há muito tempo para as pessoas. Não sei como reagir.

Rachel percebeu o pedido de auxílio nas palavras. Esboçou um sorriso e aproximou-se dele. Não tinha nada a perder, por isso, abraçou-o. Sentiu toda a retracção do corpo dele.

Meu Deus, há quanto tempo ninguém te abraça?

— Não precisas de me abraçar, se não quiseres. — sussurrou-lhe. — Eu não desisto de ti. Quero ser tua amiga. Serei paciente.

— Obrigado. — agradeceu com a boca no seu cabelo.

— Sem más interpretações, Gabriel. Não quero mais que uma amizade.

— Eu sei. Eu nem a amizade sei se quero.

— Claro que queres. — afirmou ela.

Afastaram-se.

— Obrigado por tudo, Gabriel. O contrato do Lewis é importante, mas aquilo que começámos a criar aqui hoje, entre nós, é muito mais valioso. Pelo menos para mim.

Gabriel não disse nada. Para ele era... Nem sabia muito bem, mas não era melhor que dinheiro e saúde.

— Ligo-te um dia destes.

— Liga-me quando chegares a Seattle.

Rachel sorriu.

— Não é demasiado cedo? — Ele abanou a cabeça. — Será como queres... amigo.

 

A noite caíra, quando Gabriel saiu do Bay-Adelaide no seu Ferrari F8 Tributo rumo a casa. Ainda havia muito trânsito na cidade, mas ele não demorou mais que o habitual. Ao chegar ao seu apartamento, sentiu o cheiro perfumado resultante da visita da empresa encarregue de fazer a limpeza e manutenção do espaço, duas vezes por semana. Entrou na sala e olhou para a cozinha com o habitual tédio e desinteresse em cozinhar. Pegou no smartphone e abriu a aplicação que usava para encomendar comida. Escolheu algo simples e viu que demorariam meia hora entregar.

Sentiu cansaço e uma forte necessidade de descomprimir. Aquela conversa com Rachel fora estranha e, mal ela abandonara o seu gabinete, arrependeu-se de não ter fechado a porta à amizade que ela lhe oferecera. Estava tenso e sabia o que precisava. Voltou a olhar para o ecrã e abriu os contactos do telemóvel, procurando um dos dez nomes daquela lista especial. Ponderou quem haveria de escolher e decidiu-se, clicando no nome "artístico" dela. Fez uma conta rápida, enquanto ouvia o toque de chamada, meia hora para entregar a comida, outra meia hora para comer... Ela atendeu, reconhecendo o número e cumprimentando-o melosa como uma comercial empenhada em agradar ao cliente. Estava disponível, claro que estava, com o que ele pagava... Gabriel combinou para daí a hora e meia.

Para relaxar, foi tomar um duche rápido e lavar-se de um dia complicado como todos pareciam ser ultimamente. Quando tocaram à campainha, Gabriel recebeu o estafeta com a comida. Não se preocupou em vestir mais que um robe turco. Comeu alheado da realidade, sentado ao balcão com o olhar perdido na realidade escura do lago avistado através dos enormes vidros.

Há hora marcada, o som melodioso da campainha voltou a ecoar pelo apartamento. Gabriel permanecia com o robe, não perdera tempo a mudar de roupa. Lavara os dentes e perfumara-se antes de ela chegar. Lá porque estava a pagar não tinha que se despreocupar com a satisfação dela, recebendo-a com mau hálito e cheiro duvidoso.

A mulher que veio ao seu encontro era alta, mais alta que Gabriel devido aos saltos altos das botas. Tinha um longo cabelo louro penteado em trancinhas coladas à cabeça e vestia um sobretudo que a cobria do pescoço aos pés. Sorriu-lhe libidinosa e ele recebeu-a com a excitação a crescer. Ela entrou e despiu o sobretudo, revelando a minissaia, a camisola com decote generoso e as botas de cano alto pelos joelhos.

 

O mundo parecia não existir naqueles momentos, talvez os únicos em que se conseguia abstrair da angústia e das lacunas que lhe queimavam a alma. Estava sentado no sofá, encostado com a cabeça tombada para trás, os olhos fechados, a saborear o momento. Um friozinho ténue picava-lhe a pele da barriga. Tinha as pernas afastadas e os cotovelos dela apoiavam‑se nas suas coxas. Valia cada dólar, a loura. Gabriel abriu os olhos e rodou a cabeça para baixo. A mulher estava ajoelhada no chão, defronte de si, entre os seus joelhos. Acariciou-lhe o cabelo entrançado ao ritmo a que ela o chupava e lhe tocava com os dedos ternos.

O som do telemóvel ecoou na sala, era um sinal da chegada de novo email. A prostituta olhou para ele com a boca cheia e parou, largando‑o.

— Queres que pare? — perguntou, caso ele quisesse ver se era importante.

Gabriel cravou os olhos nela, excitado, vendo o peito volumoso, dois rochedos que o silicone aumentara.

— Não. Continua.

 

Sozinho no sofá, Gabriel deixou-se levar pela curiosidade. O email poderia ser alguma novidade interessante, uma proposta de comercialização de algum jogador ou a confirmação de um acordo de transferência. Pegou no aparelho, tocando no ecrã para que o sistema lesse a sua impressão digital. Esperava que não fosse uma qualquer mensagem de spam. Mesmo antes de abrir a aplicação do email, passou-lhe pela cabeça a hipótese de Rachel lhe ter escrito alguma coisa. No entanto, ao ver o nome do remetente e o assunto, empalideceu.

A loura regressou da casa de banho completamente nua. Sorria protagonizando aquele papel de quem estava louca de tesão e ansiosa para que ele a agarrasse e a fizesse sentir todo o desejo dentro de si. Contudo, reparou no estado perturbado dele.

— Está tudo bem?

Gabriel anuiu aturdido.

— Surgiu um imprevisto. Vais ter de ir embora. — Ela fez um ar decepcionado, mas não protestou. — Não te preocupes, pago-te a noite toda e vou chamar um Uber para te levar onde quiseres. — Ela anuiu. — Onde queres que ele te deixe?

Ela disse-lhe a morada e pegou nas roupas para se vestir. Fê-lo ali, onde ficara a camisola e o sutiã. Depois, retornou à casa de banho para ir buscar as cuecas e a saia.

— Espero que tudo se resolva. — desejou, enquanto calçava as botas.

— Não te preocupes com isso. — respondeu ele, entregando-lhe as notas de dólares. — Tens aí um bónus pela chatice.

Ela recebeu as notas, retirou o combinado e devolveu-lhe o resto.

— Não é preciso. — recusou com um sorriso atraente. — Não foi chatice nenhuma.

— Fica com ele. Considera-o um presente.

Ela abriu mais o sorriso, vestiu o sobretudo e beijou-o com paixão.

Despediram-se e a loura foi-se embora, esperar o Uber que deveria estar mesmo a chegar.

Novamente sozinho, Gabriel tornou a olhar para o smartphone, para a aplicação de email com a lista de mensagens, onde a primeira linha estava com as letras num negro carregado. O nome do remetente era Olga e o assunto continha "por favor, não apagues sem ler primeiro".

Ao fim de mais de quinze anos de inexistência na vida um do outro, Olga voltava a contactá-lo.

V

 

A chegada da mensagem de Olga quebrara-lhe completamente o clima e a vontade de continuar a usufruir dos serviços da loura. Nem precisou de ler, bastou-lhe a noção de que ela o voltava a contactar, após tantos anos, para o desinteressar daquilo que contratara.

A primeira vontade foi apagar a mensagem sem sequer ler, não lhe dar essa importância, não perder um segundo que fosse com aquilo. Porém, entre a vontade de ler e a de apagar, já lá iam muitos segundos. Sabia que, se apagasse sem ler, por muito que isso lhe parecesse a melhor forma de se vingar, também se recriminaria e iria andar nos tempos mais próximos a questionar-se acerca do que lá estaria escrito.

Ao fim de uns dez minutos, decidiu-se a ler.

A mensagem começava com um simples "Olá Gabriel".

 

“Olá Gabriel,

Como estás? Espero que estejas bem. Por vezes, até me custa a acreditar que já passaram quinze anos. Sei que não fui correcta contigo, mas espero que todo este tempo já tenha cicatrizado as feridas que te possa ter deixado. Deves estar a questionar-te o porquê de te contactar ao fim destes anos. É simples, quero pedir-te um favor. Não tenho ilusões, Gabriel, sei que não mereço, talvez não tenha sequer o direito de tentar pedir-te um favor. E é verdade. Só que, aquilo que peço, não é um favor para mim, é para alguém muito importante para mim e, acredito que também para ti, apesar de tudo. Ela é a pessoa que mais amo neste mundo. Estou a pedir-te um favor para a Íris, a minha filha. Lembras-te dela, não lembras? A Íris decidiu prosseguir os estudos no estrangeiro, vai frequentar uma Universidade em Montreal, a McGill. Não sei se conheces. Ela é uma miúda espectacular, trabalhadora, objectiva e empenhada em seguir os seus sonhos. A McGill é um sonho para ela e candidatou-se, apesar de não conhecer ninguém no Canadá, nem nunca ter viajado para tão longe de mim. É uma excelente aluna, formou-se cá com distinção, mas quer sempre mais, saber mais e mais. Terias orgulho nela. Conseguiu ser admitida e em breve mudar-se-á para Montreal. Como te disse, não conhece ninguém lá. Deves estar a perguntar-te o que tens tu a ver com isto. Eu explico. Há algum tempo, soube que estavas no Canadá. Não sei onde vives e o Canadá é muito grande. Mas, se de alguma forma pudesses ajudar a Íris a integrar-se, seria um favor impagável que me farias. Sei que não tenho o direito de to pedir, muito menos que aceites ajudar-me. Mas, também sei que sempre gostaste muito da Íris. Por isso, se a puderes ajudar... Não te culparei se recusares, nem ficarei magoada contigo. Aliás, se as feridas estiverem saradas, mesmo que não possas ajudar a Íris, não me importava que reatássemos o contacto, trocar umas mensagens ou conversar. Pensa naquilo que te peço com carinho. Beijinhos. Olga."

 

Gabriel ficou a olhar para o texto, imóvel, como se fosse uma estátua. Releu mais duas vezes, constatando que o seu português estava mais enferrujado que aquilo que pensava, para ter a certeza de tudo o que continha a mensagem. Indignou-se por ela perguntar como ele estava e por desejar que estivesse bem. Como se isso lhe interessasse. O bem-estar dele não lhe importou há quinze anos, não era agora que isso mudaria. E depois, escrevia como se há quinze anos tudo não tivesse passado de um afastamento de dois amigos que seguiram caminhos diferentes. Era preciso ter lata. E ainda falava em feridas? Em cicatrizes? E julgava que o tempo passara um pano em tudo. Odiava-a. Vinha pedir-lhe um favor. Pelo menos, nisso estavam de acordo, ela não merecia que lhe fizesse qualquer favor.

A partir dali algo atenuou a raiva de Gabriel. A referência a Íris fê‑lo retornar às memórias da criança pequena, doce e divertida que ele vira pela última vez com nove anos e que a mãe o impedira de se despedir dela. Pensou como estaria ela. Bolas, como o tempo passa. Fez contas de cabeça. Íris deveria ter vinte e quatro ou vinte e cinco anos. Sentiu-se velho. Constatou que estava a sorrir para o ecrã, lendo os feitos da pequena.... Qual pequena, Gabriel? Íris era agora uma mulher.

A tristeza regressou. Gostaria de ter acompanhado a evolução dela. Nunca pretendera ser um pai, nem nunca a vira como filha. Mas, gostava muito dela, não só por ser filha da sua namorada da altura, como porque entre eles sempre houve uma empatia fabulosa. Mais uma coisa que não perdoava a Olga, tê-lo privado daquela relação com Íris.

Continuou a ler. Sim, tinha orgulho nela.

Parou a leitura. Voltou atrás algumas linhas. Íris vinha estudar para o Canadá. Pensou se estaria na disposição de a ajudar. Claro que sim, mas.... Surpreendeu-se por perceber como ela era importante para si, uma espécie de sensação adormecida todos aqueles anos que despertara com aquele email. Sim, iria ajudá-la... Não, não ia.

Como seria a Íris de vinte e tal anos, a Íris adulta? Seria uma réplica da mãe? Teria o mesmo feitio interesseiro, aproveitador dos sentimentos alheios? Que expectativas traria consigo em relação a ele? Gabriel não queria ninguém na sua vida privada. Ela poderia querer ser sua amiga. Só que um dia regressaria a Portugal e a amizade ficaria com um oceano pelo meio. Habituar-se a ela, seria deixar-se contagiar por uma doença que acabaria com ele mais tarde.

Estava a exagerar. A miúda só queria alguém para a ajudar a instalar-se. Ele poderia fazer isso, mantendo algum distanciamento, deixando bem claro que a ajudava ao início e depois ela seguiria a sua vidinha. Toronto ficava a uma hora de avião de Montreal e cerca de cinco a seis horas se fosse de carro ou comboio. Não seriam certamente visita um do outro.

Leu a última parte "mesmo que não possas ajudar a Íris, não me importava que reatássemos o contacto, trocar umas mensagens ou conversar. Pensa naquilo que te peço com carinho. Beijinhos. Olga."

Gabriel colocou o telemóvel de lado e disse para o ar:

— Vai-te foder, Olga!

Nunca gostara de tomar decisões por impulso, nem nunca o fazia, excepto nalguns negócios que implicaram decisões rápidas. Por isso, optou por não responder ao email e foi para a cama.

A noite foi péssima, uma vez que mal dormiu com toda aquela situação a metralhar-lhe os pensamentos. Contudo, na manhã seguinte, ele tomou uma decisão e não teve dúvidas do que iria fazer. Iria responder à mensagem.

Se sucumbisse à vontade que lhe ia na alma, digitaria um texto enorme a lembrar Olga da cabra que era, a puta que fora e que não tinha o direito de o incomodar ou esperar que fizesse o que quer que fosse por ela. Em opção, pensou em dizer o mesmo, mas de forma sucinta e mais elevada. Ponderou melhor. Não lhe iria dar o gosto de revelar o quanto as feridas ainda estavam abertas. O melhor seria comportar-se com ela da mesma forma como havia vindo a fazer com todas as pessoas nos últimos quinze anos, ser frio e distante.

"Olga. A Íris que me escreva para o meu email. Verei com ela, o que posso fazer. Gabriel"

Se fosse esperta, Olga perceberia que Gabriel não queria falar mais com ela. E Olga era esperta e, de certeza, percebeu a mensagem sublinear que a mensagem levava. No entanto, uma hora mais tarde, Gabriel recebeu na sua caixa de email:

"Obrigado, Gabriel. Fico em dívida contigo. És um querido. Já dei o teu email à Íris. Ela vai escrever-te, como pediste. Vamos falando. Beijinhos. Olga"

Vamos falando? Vai pró caralho, Olga!

 

Gabriel passou o dia no escritório em Bay-Adelaide. Teve alguma dificuldade em concentrar-se, quando chegou, motivado pelos últimos desenvolvimentos, mas assim que os assuntos profissionais exigiram a sua máxima concentração, o resto ficou em segundo plano.

Francis trouxe-lhe o almoço, sushi dum take-away, conforme ele lhe pedira.

A meio da tarde, Rachel telefonou-lhe. Gabriel ainda se sentia inseguro em relação ao caminho que queria tomar com ela. Por isso, ignorou a chamada. Ela voltou a tentar, cinco minutos mais tarde, e obteve o mesmo resultado. Um minuto depois, ecoou o aviso de novo sms com a mensagem "deves estar ocupado, era só para te dizer que já estou em Seattle". Não estava ocupado, estava indeciso. Tinha sentimentos contraditórios em relação a ela, uma vez que tanto queria ser seu amigo como queria nunca mais a ver. Por ora, ela estava a mais de quatro mil e cem quilómetros de distância, por isso, não faria mal responder "estou numa reunião, desculpa, falamos depois". Falariam depois, numa altura em que nem ele saberia quando seria.

A tonalidade de luz foi diminuindo lá fora. Da sua secretária, Gabriel foi vendo a intensidade da iluminação dos prédios à volta a aumentar, enquanto se multiplicava em telefonemas e emails. Lewis ficara felicíssimo com a proposta dos Washington Nationals e pediu a Gabriel que avançasse com o processo, uma vez que tinha a sua concordância para a transferência.

Ao entardecer, chegou à caixa de email de Gabriel uma mensagem nova. Era de Íris. Sem saber explicar porquê, hesitou em abri-la. Porém, lá clicou sobre o assunto "Viagem para o Canadá".

 

"Olá Gabriel,

Sou a Íris. Não sei se ainda se lembra de mim... A minha mãe disse‑me que falou consigo para me ajudar na minha estadia em Montreal. Quero agradecer-lhe a disponibilidade em me ajudar. Tomei a liberdade de fazer alguma pesquisa no Google sobre si. Vi que está relacionado com o desporto e maioritariamente com os clubes de Toronto, pelo que deduzo que seja aí que vive. Não conheço muito ou mesmo nada do Canadá, para além das coisas que se podem ler na Internet e alguma geografia. Sei que Toronto não é já ali, mas, para um país com a dimensão do Canadá, não deve ser muito longe, nem uma realidade muito diferente. Por isso, tenho esperança que me possa dar algumas dicas sobre a cidade para onde me irei mudar em breve. Vou estudar para a McGill no curso de Microbiologia e Imunologia. Fico a aguardar notícias suas. E mais uma vez obrigado. Íris"

 

Gabriel leu o texto visualizando a menina de nove anos a dizer aquelas coisas. Não tinha outra imagem de Íris que não fosse a menina doce, fofa, redondinha e divertida. Não se deu ao trabalho de imaginar como seria ela agora. O tratamento formal também o levou de regresso àquela característica do português de Portugal, em que as pessoas se tratam por "tu" ou por "você", algo que não se encontrava no idioma inglês e ao qual ele se desabituara completamente. Não sabia se ela usara a formalidade para manter alguma distância do homem que fora namorado da mãe, enquanto os pais estavam separados, ou por estar a falar com alguém com quem não tinha proximidade.

Francis apareceu à porta, indicando que se ia embora. Gabriel acenou-lhe um “adeus” distante.

Novamente com a atenção no ecrã do computador, decidiu responder à pequena que já não era uma criança de nove anos.

 

"Olá Arco-íris,

Começo por te pedir que não me trates por "você", faz-me sentir velho. Como já percebeste, eu lembro-me bem de ti, Arco-íris. Era assim que te chamava, quando tinhas oito, nove anos. Lembras-te? Antes de mais, quero dar-te os parabéns, não é qualquer um que entra na McGill, ainda para mais vindo do estrangeiro. Para além disso, é corajoso da tua parte, vires sozinha para um país novo e estranho. E acredita que sei o que isso é, fiz o mesmo há quinze anos. Não te preocupes, tenho a certeza de que vais gostar. Eu conheço Montreal, posso dar-te algumas dicas, mediante o que precisares de saber. Não vivo em Montreal, tu não estás errada e foste muito perspicaz ao concluir que vivo de facto em Toronto. Quando pensas vir? Tens onde ficar em Montreal? Já pesquisaste alguma coisa? Naquilo que te puder ajudar, conta comigo. Gabriel"

 

Clicou no enviar. Sentiu um arrependimento súbito pela disponibilidade que demonstrava para com a filha da mulher que o traíra, que o magoara e o ferira de tal forma que comprometera a sua vida daí em diante. Porém, Íris não tinha culpa disso. A seguir, foi acometido pelo remorso de a tratar pela alcunha que lhe chamava em menina, "Arco-íris". Que iria ela achar disso? Possivelmente, tomá-lo-ia por um velho parvo. Bolas, não era velho, estava quase com cinquenta anos, mas não era velho. Pois... Mas, comparado com ela, era... velho.

Aguardou algum tempo, como se ela estivesse diante do computador, lá do outro lado do Atlântico, à espera do email dele e fosse logo responder. Gabriel olhou para o relógio, em Portugal era meia-noite. Talvez só lhe respondesse no dia seguinte ou quando precisasse efectivamente de lhe perguntar alguma coisa.

Antes de regressar a casa, Gabriel passou pelo sector de refeições, na zona comercial por baixo do edifício, comprando um jantar simples num qualquer restaurante de comida típica indiana para levar.

Ao entrar em casa, a notificação do smartphone alertou-o para uma nova mensagem. Ele largou o jantar sobre o balcão que separava a cozinha da sala e sentou-se num dos bancos, pegando no aparelho e desbloqueando o ecrã. Tinha uma mensagem de email nova. Remetente? Íris.

 

"Olá Gabriel,

Ou deverei dizer Gabi? Sim, eu lembro-me. Fizeste-me dar uma gargalhada enorme, quando abri o teu email — como vês, estou a tratar-te por "tu" — Foi uma gargalhada de saudade. Tu és a única pessoa que me chamava Arco-íris. E eu gostava disso. Para uma menina de oito anos, ser um arco-íris é tão bom. Tive pena quando foste embora. Desculpa estar a tocar no assunto, mas não quero que existam "elefantes na sala" nas nossas conversas. Percebes o que quero dizer? Seja como for, é assunto que não me diz respeito. Quero só que saibas que lamento. Agora, a minha viagem para o Canadá. Não tenho nada planeado, ainda. Pensei em reservar um quarto num hotel barato de Montreal até encontrar um lugar para arrendar e viver enquanto estiver a estudar lá. Podes dar-me uma dica sobre isso? Mas, olha, não quero de forma nenhuma ser um incómodo ou estar a maçar-te. Se não puderes ajudar, não levarei a mal, jamais. Já é espectacular da tua parte que estejas disponível para ajudar. Fico a aguardar a tua resposta. Um beijinho muito grande para ti, Gabi. P.S.: Se não gostares que te chame Gabi, diz. Afinal, eu já não tenho oito anos. A mim, podes continuar a chamar-me Arco-íris. As meninas de vinte e quatro anos também acham que é muito bom ser um arco-íris :) :) :)"

 

Gabriel ficou a olhar para o ecrã com uma expressão neutra. Adorara a mensagem, mas não queria gostar daquilo mais que o aceitável para alguém que dispensava pessoas extratrabalho na sua vida.

Comeu com o olhar vago na escuridão e nas luzinhas tímidas do exterior. Estupidamente, no seu conceito de ver as coisas, sentia-se tentado a responder ao email dela, como se quisesse manter a conversa e temendo que mais que meia dúzia de horas sem se corresponderem levasse a que ela desaparecesse. E se desaparecesse? Que diferença faria? Era uma criança, uma menina que ele não via há quinze anos. Seria bem melhor que não desse grande desenvolvimento àquilo, nem deveria voltar a responder, esperando que ela perguntasse algo quando quisesse, sem que o facto de o fazer ou não tivesse qualquer importância.

Dormiu bem melhor nessa noite. Talvez porque tivesse garantido a si mesmo que não responderia ao email. Adormeceu com essa certeza e acordou com o desejo de lhe escrever qualquer coisa. Que merda. Parecia um puto a querer falar com a coleguinha de escola. Não, não o faria. E talvez até desejasse que ela não precisasse nada dele e não voltasse a escrever-lhe. Não precisava de pessoas na sua vida. Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não precisava! Não...

O smartphone tocou. Ele ainda estava na cama. Eram seis e meia da manhã, meia hora para o meio-dia em Portugal. Pegou no aparelho para ver a causa. Tinha três mensagens novas, duas de trabalho e uma de... Íris.

 

"Olá,

Cá estou a maçar-te. Desculpa. Deves estar a pensar que miúda tão chata. Espero que não, a sério. Não gosto de me sentir um incómodo. Estava a fazer uma pesquisa de voos, tenho de começar a agendar a marcação da viagem. Tive uma ideia. Se calhar vais achar parva. Pensei em voar para Toronto, em vez de ir directa a Montreal. Que achas? Não quero atrapalhar a tua vida, calculo que sejas um homem muito ocupado. Enfim, foi só uma ideia. Beijinhos. Íris"

 

A ideia de ela o vir visitar agradava-lhe, gostaria de a rever, ver em que mulher se transformara a menina de nove anos. Porém, isso seria abrir a porta a que mantivessem uma proximidade que ele não queria... Não era uma questão de querer, não devia. Podia apegar-se àquela amizade e depois ela estaria longe em Montreal e mais tarde regressaria a Portugal e não quereria saber mais dele. Não precisava de desilusões, já tivera a sua quota parte na vida. Contudo, não lhe pareceu correcto sugerir que fosse directa a Montreal ou dizer que tinha uma vida muito ocupada para lhe ceder tempo na sua passagem por Toronto. Não sabia o que fazer e manteve o silêncio na resposta aos emails dela.

Optou por responder ao seu primeiro pedido, um hotel barato onde ficar em Montreal. Não tinha esse conhecimento, uma vez que os hotéis por onde se movia eram demasiado caros e, possivelmente, inalcançáveis para a carteira dela.

No escritório, pediu a Francis que lhe obtivesse essa informação e, já agora, hotéis em Toronto também. Ele conseguiu-lhe uma lista de hotéis em ambas as cidades e juntou-lhes alguns hostels que eram bem mais baratos.

Tal como era habitual, o dia fora atarefado. A baliza calendarizada para as transacções de jogadores aproximava-se do fim e os clubes não o largavam para a apresentação de propostas ou consumação de contratos.

Nessa noite, chegou a casa mais tarde que o costume. Nem sequer jantou. Só queria tomar um duche e enfiar-se na cama. Porém, não foi capaz de o fazer, sem antes escrever a Íris.

 

"Olá Arco-íris,

Vamos fazer um acordo? Tu paras de dizer que és chata e eu dir‑te‑ei que estás a ser, caso isso aconteça. E podes chamar-me Gabi, apesar que prefiro Gabriel. Admiro a tua frontalidade, demonstras muita maturidade na forma como escreves. A história entre mim e a tua mãe é passado. Não é assunto que goste de abordar, aliás nem quero abordar. Não te preocupes, nada tem a ver contigo. Não será um "elefante na sala" entre nós, mas não quero que voltes a tocar no assunto, por favor. Consegui-te uma lista de hotéis, não sei se será muito diferente daquilo que já possas ter pesquisado nos websites do género. Confesso que não conheço nenhum deles, mas têm boas referências e preços aceitáveis. Toronto vale bem uma visita, é bem mais bonita que Montreal, mas a minha opinião é suspeita. A lista também tem hotéis em Toronto, caso queiras optar por fazer cá escala. Tu não vais atrapalhar a minha vida, mas não sei quanto disponível estarei de tempo para te acompanhar, por isso, não decidas nada a pensar em mim. Beijinho para ti, Arco-íris"

 

Leu o texto várias vezes. Pensou em apagar "Tu não vais atrapalhar a minha vida", deixando ficar só a partir de "não sei quanto disponível estarei de tempo para te acompanhar". Seria uma forma de se revelar indisponível para ela.

A razão preferia que Íris fosse directa a Montreal. Outra coisa qualquer que o deixava confuso, preferia que ela viesse a Toronto.

Acabou por não alterar nada e enviou.

Para surpresa de Gabriel, e alguma decepção, não houve qualquer resposta nos dois dias que se seguiram. Calculou que ela pegara na lista, optara por excluir Toronto da viagem e estaria já a planear tudo, relegando-o para um plano a que só voltaria quando tornasse a precisar de alguma informação ou favor.

Recusou-se a aceitar que isso o afectava, apesar de notar que a angústia aumentara e a solidão ficara mais pesada.

Íris escreveu ao terceiro dia.

 

"Olá Gabriel,

Afinal, as coisas não vão ser como eu planeei. Queria ir algum tempo antes de começarem as aulas para me ambientar e conseguir um bom alojamento sem pressas. Também queria ir a Toronto visitar-te, mais não fosse só para um olá e agradecer-te pessoalmente a ajuda. Infelizmente, aconteceram uns problemas que implicaram despesas não planeadas. A viagem também vai ser mais cara que aquilo que esperava porque deixei passar demasiado tempo para as reservar. Enfim, de um momento para o outro, o universo parece conspirar contra mim. Assim, em princípio, irei só três ou quatro dias antes do começo do semestre. Vai ser tudo a correr. Estou triste. Desculpa, estares a levar com isto, mas precisava de desabafar. A minha mãe também ficou muito em baixo com estas contrariedades e eu não quero sobrecarregá-la com as minhas tretas. Tu também não tens de levar comigo. Mas, como temos um acordo de que me dirás se eu for chata.... Obrigado pelo que tens feito. Não irei a Toronto, mas gostava que pudéssemos manter o contacto por aqui e, eventualmente, por telefone quando eu arranjar um número no Canadá. Hoje sou um arco-íris em tons de cinza, mas como não desisto, tenho a certeza de que as minhas cores voltarão amanhã. Entretanto, se conheceres alguém que tenha um quarto para alugar em Montreal, lembra-te de mim. Beijinhos. Íris (para ti, Arco-íris)."

 

Gabriel sentiu um enorme vazio. Subitamente, percebeu que lamentava profundamente que ela não viesse a Toronto. Felizmente, era um homem que nunca agia por impulso, a menos que fosse nos negócios, em decisões rápidas que tinham de se tomar na hora e que valiam milhões. No resto, na sua vida pessoal, tudo era bem pensado para evitar que se magoasse. Daí que fosse inexplicável que tivesse clicado em "responder" e escrito:

 

"Olá Arco-íris,

Podes desabafar comigo, sempre que quiseres. É para isso que servem os amigos. No outro dia, disseste que estavas a ter uma ideia parva. Acho que hoje é minha vez. A minha vez de ter uma ideia. Se é parva, tu me dirás. Infelizmente, não conheço ninguém que tenha um quarto ou um apartamento para arrendar em Montreal. Mas, irei ajudar-te a procurar. Concordo contigo, vens muito em cima do tempo para poderes fazer uma boa escolha e encontrar algo que te satisfaça. É aqui que surge a ideia que pode ser parva. Se quiseres vir a Toronto, podes ficar em minha casa. Podes ficar lá o tempo que quiseres e fazer a tua pesquisa de Montreal a partir daqui. Claro que não é o mesmo que estar em Montreal, mas será certamente mais cómodo que tentar alugar algo a milhares de quilómetros de distância. A decisão é tua. Depois diz-me o que achas. Beijinho grande, Arco-íris. Gabriel"

 

Leu, arrependeu-se, pensou em apagar tudo e enviou sem respirar.

— Que foste tu fazer, Gabriel? — interrogou-se para os enormes vidros com vista para o lago Ontário.

O som do telemóvel a tocar quebrou-lhe os pensamentos. Olhou para o ecrã e viu o nome de Rachel. Atendeu.

— Se não for eu a ligar...

— Olá, Rachel!

— Olá, Gabriel!

— Desculpa.... Devia ter-te ligado de volta, mas...

— Não precisas de te justificar. Eu compreendo.

— Já sabes que sou um gajo complicado.

— Que não quer que desista dele. — completou ela. — Ainda continuas a querer isso?

Gabriel suspirou.

— Sim.

Ouviu-a sorrir no outro lado da linha.

— Eu continuo a querer ser tua amiga, Gabriel. — Interrompeu-se, respirando pausadamente. — Não é uma cobrança e estou disposta a esperar. Só que isto da amizade... Não posso ser só eu a remar, percebes?

— Nunca te escondi aquilo que penso das amizades, Rachel. Amizades e outras coisas. Não preciso disso na minha vida.

— Gabriel...

— Espera! Deixa-me terminar. — pediu, falando num tom pausado. — Sou um solitário por opção.

— Eu também sou uma solitária.

— Ouve! Não espero que me compreendas. Eu próprio tenho dificuldade em me compreender. Só quero que saibas uma coisa. E isto que te vou dizer, é sincero, apesar daquilo que as minhas atitudes ou ausência delas possa deixar transparecer. Eu não quero que saias da minha vida. Posso ter dificuldade em deixar-te entrar, mas não quero que te afastes. Digamos que estás no vestíbulo da minha vida, enquanto o resto da Humanidade está lá fora.

Rachel riu-se com a alegoria.

— Não me vou afastar.

— Ainda estás em Seattle? — questionou com a necessidade de mudar de assunto.

— Não. Regressei a Washington para finalizar o acordo do Lewis. Mais uma vez, obrigado por isso. Quando voltar a Toronto, pago-te um jantar.

— Combinado. — concordou ele sem intenção de ver a promessa cumprida.

— Depois, volto a Seattle. — continuou Rachel. — Sabes que a cidade vai ter uma equipa na NHL?

— Sei. Eles ganharam a vaga para a expansão da liga. Eu teria preferido que a escolha tivesse caído para o Quebec.

— Sabes bem que o peso dos dólares americanos é superior aos dólares canadianos.

— Sim, é verdade. Mas, uma liga profissional de hóquei sem uma equipa de uma das cidades mais tradicionais na modalidade...

— Seja como for. — prosseguiu entusiasmada. — Os proprietários da nova equipa convidaram-me a integrar o grupo de trabalho que está a estruturar tudo. Querem que seja parte activa na contratação de jogadores. Não vai ser um exclusivo, mas irei ficar mais dedicada a eles e poderei parar um pouco de andar a viajar de um lado para o outro. Acho que me vai fazer bem e, quem sabe, fazer algo por mim. Percebes?

— Fico feliz por ti.

— E tu? Tens novidades?

— Não.

Ela percebeu que ele não tinha mais nada para dizer. Gabriel não a tentou convencer do contrário. Despediram-se e o telefonema terminou.

Sozinho em casa, sentiu a solidão a envolvê-lo devagar, a tornar‑se mais pesada. A angústia dos momentos "mortos" acentuou-se. Deveria preparar ou encomendar algo para o jantar, mas não tinha fome. Foi tomar um duche para descontrair.

Ao voltar da casa de banho do seu quarto, envolto no robe turco, reparou no piscar ténue da luzinha pequenina no ecrã do smartphone. Era uma notificação nova. Seria uma mensagem? Um email? Uma chamada não atendida? Pegou no aparelho e desbloqueou-o com a impressão digital. Tinha duas mensagens novas no email. Uma era de Íris, a outra era de Olga. Abriu a primeira.

 

"Olá Gabriel,

Estou sem palavras. Não sei que te diga. Não sei mesmo o que te diga. A minha vontade é dizer-te que sim, que aceito ficar em tua casa até me mudar para Montreal. Só que sinto que estou a abusar da tua generosidade. Não mereço tanto. Não terei como te pagar e não acho justo que assim seja. Só que, de facto, a tua oferta facilitaria muito a minha vida. Não sei se tens família, mulher e filhos. Só agora me dei conta que, de tanto falar de mim, pouco sei de ti. Não quero transtornar a tua vida familiar, mas tenho a certeza de que se assim fosse, tu não me farias esse convite. Bolas, estou tão empolgada. Tens noção que me devolveste as cores com o teu email? Vou aceitar. Como poderia não aceitar? Mas promete-me que cumprirás o nosso acordo, se estiver a ser um incómodo, tu dizes-me imediatamente. Combinado? Obrigado, Gabriel. Não imaginas o quanto te estou grata pelo que estás a fazer. Em breve, dir-te-ei quando parto. Beijinhos. Íris (para ti, Arco-íris)"

 

Gabriel sentiu-se mergulhado num misto de emoções, feliz por ela ter aceitado, transtornado por ela ter aceitado.

Passou à mensagem seguinte.

 

"Olá Gabriel,

Obrigado pelo que estás a fazer pela minha filha. Nunca te poderei agradecer. És sem dúvida um grande homem e um grande ser humano. Podes não acreditar, mas lamento que as coisas não tivessem resultado de outra forma entre nós. Gostava de saber coisas sobre ti, o que tens feito, estes anos, sei lá.... Tenho saudades de falar contigo. Quando puderes... ou quiseres. Beijinhos. Olga"

 

Não respondeu a nenhuma das mensagens.

VI

 

Parecia-lhe incrivelmente estúpido e completamente absurdo, mas o facto de saber que se aproximava o dia da chegada de Íris fizera com que a angústia e solidão que o assolavam se atenuassem. Gabriel sabia que aquilo não lhe fazia bem. Sim, seria bom ter alguém lá em casa, uma improvável amiga, mas quando ela partisse...

Íris voltou a escrever-lhe no dia seguinte com a data do voo. Pediu‑lhe a morada dele ou se teria disponibilidade de a ir buscar ao aeroporto. Seria um voo muito longo com saída de Lisboa antes das seis da manhã com destino a Paris, onde faria uma escala de quase cinco horas para apanhar o voo que ligava o Aeroporto Charles de Gaulle ao Pearson International Airport onde chegaria depois das quatro da tarde, hora de Toronto. Havia voos directos, mas eram demasiado caros e aquela era a melhor solução para a sua carteira.

Gabriel respondeu-lhe que não se preocupasse, trataria do seu transporte quando chegasse a Toronto.

Foram trocando emails ao longo dos dias que antecederam a vinda dela. Íris quis saber mais coisas sobre ele, mas Gabriel era vago nas respostas, partilhando apenas que não havia uma esposa ou filhos, uma vez que a omissão disso, depois dela ter falado no tema, poderia parecer no mínimo estranho.

Na última mensagem trocada na antevéspera da viagem, Gabriel enviou-lhe o seu número de telefone e pediu se ela poderia ir dando notícias da viagem. Íris respondeu com o seu número para o WhatsApp dele e comprometeu-se a ir dando notícias pela aplicação, uma vez que seria mais económico que telefonar ou enviar sms, pois poderia ligar-se aos WiFi dos aeroportos.

Na noite que antecedeu a viagem, Gabriel chegou a casa cedo. Seria a última noite sozinho no apartamento, por isso, escolheu um nome da lista de dez. Eram oito da noite, uma da manhã em Lisboa. Íris já deveria estar a dormir, o seu voo seria daí a pouco mais de quatro horas. A companhia contratada chegaria mais tarde, tinha tempo disponível para um banho e uma mensagem rápida. Abriu o computador portátil e ligou‑se à caixa de email.

 

"Olá Arco-íris,

Chegou o dia. Imagino como deves estar ansiosa. Não te preocupes, vai tudo correr bem. Afinal, estarás a cumprir um sonho. Para além disso, não estarás sozinha. Faz boa viagem, Arco-íris! Beijinhos"

 

Qualquer uma delas era fenomenal na cama ou em outro lugar em que decidisse possuí-las. Daquela vez, a sua companhia era uma afro‑americana lindíssima com um tom de pele azeitona, olhos escuros e um rosto de beleza angelical. Tinha uns seios fabulosos e cheirava maravilhosamente bem. Naquele instante, saltava que nem uma louca sobre ele, fazendo-o sentir-se nas nuvens e quase a rebentar todo o seu prazer dentro do preservativo. Estava quase... quase, quase... quando ouviu uma notificação do telemóvel. Como se tivessem combinado, ambos olharam para o local onde o aparelho fora deixado.

— Não pares! — ordenou ele, cheio de curiosidade. — Estou quase a vir-me.

Após o orgasmo, a mulher tombou para o lado vago da cama. Gabriel virou-se para a extremidade oposta e segurou no telemóvel. Era meia-noite e o seu WhatsApp tinha uma nova mensagem de Íris, a primeira de sempre que lhe enviava por ali.

"Se calhar já estás a dormir. Estou prestes a embarcar. Obrigado pelo teu email. Aliás, obrigado por existires. Beijinhos da Arco-Íris."

Como ele sabia que ela veria o visto de lido, respondeu "Faz boa viagem, Arco-íris. Até já"

Dormiu profundamente. Foi acordado pela prostituta já pronta para ir embora, o que não tinha memória de alguma vez ter acontecido, era sempre ele a acordar primeiro. Ela olhava-o com ternura profissional e pediu desculpa por o acordar. Estremunhado, ele saiu da cama e foi buscar o dinheiro para lhe pagar.

A mulher da lista de dez deixou-o sozinho no apartamento. Gabriel foi tomar um duche para despertar. Só quando voltou da casa de banho é que consultou o smartphone. Tinha uma mensagem recebida às quatro horas da manhã, dez horas em Paris.

"Se te acordar, bato-me :) Só para te dizer que a primeira parte correu bem. Estou no Charles De Gaulle. Agora é esperar. Beijinho e continua a dormir, sortudo :). Também queria. Estou cheia de sono."

Gabriel voltou a olhar para o relógio, eram sete e meia da manhã em Toronto. Pelas suas contas, Íris ainda não deveria ter embarcado no segundo voo.

"Bom dia, Arco-íris! Estás por aí?"

O visto tornou-se em dois e os dois ficaram azuis. Surgiu a indicação que ela estava a escrever.

"Bom dia, Gabriel! Já acordado? Que horas são aí?"

"Sete e meia. E aí?"

"Uma e meia da tarde."

"Deves estar quase a embarcar, não?"

"Daqui a cerca de uma hora."

Gabriel saiu do quarto com o robe vestido e atravessou a sala até à cozinha com o telemóvel na mão. Parou no balcão, junto à máquina do café e preparou um para si. Sentou-se num dos bancos altos virado para a paisagem exterior, dividindo a atenção entre o lago Ontário e o ecrã do aparelho. Ficaram a trocar mensagens até ela embarcar.

A manhã ia a meio, quando Gabriel chegou ao seu escritório no Bay-Adelaide Centre. Encarregou Francis de fazer uma reserva com a empresa de transporte que usavam para lhes irem buscar ou levar figuras importantes ao aeroporto ou aos hotéis, usualmente jogadores, representantes de clubes ou outros elementos ligados ao negócio desportivo. Era um serviço luxuoso que usava viaturas de gama alta e motoristas privados.

— É para ir buscar uma amiga minha ao Pearson. Quero que a vão buscar e a levem para minha casa. — explicou a Francis. — O tipo que a for buscar deve ter um cartaz com o nome dela.

Gabriel escreveu num papel "Íris (Arco-íris)" para que o funcionário transcrevesse na solicitação que iria fazer à empresa.

— Isto é o nome. — constatou Francis. Apontou para a palavra entre parêntesis. — E isto?

— É para ela reconhecer. Significa Rainbow.

Francis riu-se.

— Uma amiga chamada Rainbow? — interrogou com humor.

— Não te metas onde não és chamado. — admoestou Gabriel, sério. — Ela aterra por volta das quatro. Tens aqui o número do voo. — Escreveu a referência no mesmo papel. — Vem de Paris. Trata disso, por favor. Fico a aguardar que me confirmes.

Naquele dia, a angústia e solidão pareciam ter desaparecido da vida de Gabriel. Ao invés, a ansiedade consumia-o. Tratou de todos os assuntos que tinha a tratar. Antes de sair para uma reunião com o seu advogado Matt, Francis confirmou-lhe que estava tudo tratado. Mesmo sabendo que ela só veria a mensagem depois de aterrar, enviou-lhe logo a informação de que estaria um motorista privado à sua espera na zona de chegadas do Pearson a segurar um cartaz com "Íris (Arco-íris)".

Desde que Íris lhe dissera a data do voo e a hora a que chegaria, a agenda de Gabriel ficou ocupada para o que quer que fosse a partir das quatro da tarde.

O Sol brilhava radioso dando um brilho cativante a Toronto. A tarde amena agradável permitia um último saborear do tempo que antecedia o Outono e o regresso do frio crescente.

Gabriel conduzia ansioso pelas ruas da cidade. Regressava a casa sem conseguir afastar o nervoso miudinho pelo aproximar da hora em que a menina de nove anos voltaria a estar na sua presença. Tinha tantas saudades daquele tempo... Agora que se permitia a pensar nisso, concluía que os dois anos de relação com Olga haviam sido os mais felizes da sua vida. Nunca quisera ser um pai para Íris, mas gostava muito da menina. Doera-lhe horrores que a mãe não tivesse permitido que se despedisse dela. Fora talvez a coisa que mais o magoou, a seguir à traição de Olga.

Tinham passado quinze anos. Íris já não era uma menina de nove anos, era uma jovem mulher de vinte e quatro que se mudava para o Canadá, tal como ele fizera nessa altura, sendo a diferença entre ambos, que ela vinha a prazo e ele viera para nunca mais voltar.

Estacionou na garagem do prédio. Subiu o elevador com a calma de um condenado. Temia o desconhecido, a chegada de alguém que estivera tão presente na melhor fase da sua vida, a criança divertida, a menina feliz. Nos últimos tempos, as recordações esquecidas pelo tempo voltaram, a lembrança da empatia que havia entre eles, as brincadeiras. Trancara a saudade com tanto afinco e agora ela parecia querer explodir‑lhe do peito. Tinha medo. Receava que deixar Íris entrar, ser sua amiga, pudesse destruir todos os escudos que construíra, desde que a mãe dela o abandonara.

Entrou em casa. Consultou o telemóvel e a aplicação de mensagens. Ela ainda não lera a última, sinal que ainda não tinha aterrado. Despiu o casaco do fato Ermenegildo Zegna. Não estava habituado a estar em casa àquela hora. Caminhou até aos vidros e abriu o acesso à larga varanda. O vento soprava intenso, mas não era frio nem desagradável. O lago evidenciava um azul forte atiçado pelos raios solares. Tornou a olhar para o ecrã. Os vistos permaneciam cinzentos.

— Vou arrepender-me disto? — perguntou ao céu.

Regressou ao interior. Ligou o computador portátil sobre o balcão da cozinha e sentou-se no banco alto. Aproveitou para trabalhar mais um pouco, procurando abstrair-se da ansiedade. Leu as notícias de desporto, analisou a possível veracidade de alguns boatos de interesses de clubes e olhou mil vezes para o ecrã do telemóvel.

A notificação surgiu inesperada entre esperas.

"Já aterrei. Estou à espera que abram as portas do avião"

"A viagem foi boa?"

"Cansativa."

"Viste a mensagem? Vai estar alguém à tua espera para te trazer."

"Pensei que me viesses buscar ;) Estou a brincar."

O telefone tocou, quebrando o diálogo e raptando-o do WhatsApp. Era uma chamada de Matt. Gabriel rejeitou-a e regressou à aplicação.

"Vamos desembarcar agora. Vou para o controlo alfandegário. Já volto a falar, quando for esperar a bagagem. Até já."

Gabriel ligou a Matt. Não era nada importante, apenas a comunicação do parecer favorável a mais um contrato.

A ansiedade quase que o deixava enjoado. Queria que o tempo passasse, tanto quanto desejava que ele parasse e Íris não chegasse. Seria aquilo uma atitude desesperada de quem sofria a angústia da solidão? Seria o instinto de sobrevivência a deixar-se abrir ao mundo das pessoas? Não. O seu instinto de sobrevivência fechara-o para as pessoas.

Levantou-se do banco e caminhou novamente até aos vidros. Observou a paisagem, uma daquelas vistas que fazia aquele apartamento ter custado uma pequena fortuna, dinheiro que não lhe fazia falta. Aliás, nada lhe fazia falta.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Então para que estava a fazer aquilo? Porque não deixar Íris desenrascar-se sozinha? Para quê, convidá-la a vir a Toronto, ficar em sua casa? És uma besta, Gabriel. Vais deixar entrar alguém que um dia vai partir sem olhar para trás. Que tinha ela de especial? Era a menina divertida de nove anos que compusera o melhor período da sua vida. Estaria ele a tentar recuperar esse tempo? Definitivamente, és uma besta, Gabriel. O passado não volta. E se voltasse, seria para te repetir o sofrimento que lhe sucedeu.

Nova mensagem.

"Já me deixaram entrar ;p"

Gabriel ficou imóvel a olhar para os caracteres.

"Vou agora buscar a bagagem. Espero que não demore. Estou a cair de sono.”

Ele continuou imóvel. Foi como se estivesse a ver um precipício a aproximar-se e não tivesse reacção para evitar a queda.

Ao fim de um minuto, teve consciência que não estava a responder-lhe. Respirou fundo.

"Com sorte, não deve demorar"

Ela leu, mas não digitou nada de imediato.

Lá fora, o horizonte ganhava tonalidades mais escuras. O fim da tarde aproximava-se e o Sol não tardaria muito a começar a esconder-se atrás dos altos arranha-céus de Toronto.

Nova notificação.

"Já tenho tudo. Vou agora procurar a minha boleia :) Até já."

Gabriel olhou para o interior do apartamento, fazendo uma vistoria distante. Sabia que estava tudo limpo e arrumado, deixara indicações à empresa de limpeza para lá passar na sua ausência. Numa passada apressada, atravessou a sala para o átrio e dirigiu-se ao quarto que escolhera para a sua hóspede. Confirmou que as empregadas haviam feito a cama e deixado tudo impecável como se fosse um quarto de hotel.

Tornou a olhar para o telemóvel, vendo as horas. Imaginou-a a circular pelo aeroporto, uma mulher como tantas outras com a cara de Íris de nove anos. Calculou os tempos, dez minutos até ao motorista privado, encontrá-lo e chegar ao carro, meia hora para vir de Pearson até ali, se tivessem sorte com o trânsito... Não chegaria em menos de quarenta e cinco minutos.

O nervoso intensificava-se. Pensou em fazer um café, mas acabou a segurar um copo de whisky. Assistiu ao entardecer com o olhar vago no lago, sentado no banco alto e a ouvir a sua própria respiração.

Passaram dez minutos, depois vinte, trinta, trinta e cinco, quarenta, quarenta e um, quarenta e dois, quarenta e três, quarenta e quatro.... Seria a qualquer momento. Íris não voltou a comunicar com ele, nem ele lhe enviou qualquer mensagem. Esperou. Limitou-se a esperar. Cinquenta minutos. Cinquenta e cinco... Uma hora. Mais de uma hora.

O silêncio no apartamento foi quebrado pelo tom melodioso da campainha. Gabriel viu a realidade como um contador digital com números em contagem decrescente que se aproximavam fatalmente do zero.

Respirou fundo. Pela sonoridade da campainha, diferente de quem tocava da rua, Gabriel sabia que Íris já estava do lado de lá da porta do apartamento. Deu passos lentos, nervosos. Só naquele momento, teve real consciência do absurdo que fora convidá-la. Por vezes, pareces o teu pior inimigo, Gabriel.

Parou e colocou a mão na maçaneta da porta. Respirou fundo e rodou-a, puxando o rectângulo vertical blindado para si.

O sorriso... O sorriso foi a primeira coisa que lhe roubou toda a atenção.

— Olá, Gabriel! Cheguei.

Custou-lhe a acreditar. Que esperava ele, ao abrir a porta? Ver uma menina de nove anos? Claro que não. E mesmo sem a ver há quinze anos, e com todas as alterações físicas e de personalidade que esse tempo faz a uma criança, algo nela o faria identificá-la em qualquer lugar. Diante dele estava uma menina de vinte e quatro anos, uma mulher, uma bela mulher. Tinha os olhos da mãe, as amêndoas brilhantes cativantes. A cara era parecida, mas mais jovial, o que não era de estranhar, pois conhecera a mãe já trintona. O rosto era muito expressivo, exemplo daqueles que atraem simpatia, revelador de alguém feliz. Naquele momento, era uma felicidade cansada. Íris era ligeiramente mais baixa que Gabriel. O cabelo era comprido em tons escuros de castanho. O nariz tinha a ponta ligeiramente empinada, como o da mãe, a boca fazia covinhas por estar sempre a sorrir. Vestia calças de ganga, uma camisola de malha e um blusão de cabedal. Calçava sapatilhas Nike e trazia uma mochila às costas. A seu lado, duas enormes malas que lhe chegavam à cintura e uma outra mais pequena pendurada na mão.

— Olá, Arco-íris!

Ela não tirou os olhos dele. Não o achou muito diferente da imagem que a sua memória guardara. Estava mais grisalho no cabelo e tinha mais rugas no rosto. Porém, não teria dificuldade em reconhecê-lo noutro lugar, se eventualmente se cruzassem na rua. Decidida, avançou para ele e espetou-lhe dois beijos nas faces.

Ele foi apanhado completamente de surpresa, perdera aquele hábito, uma vez que a cultura da América do Norte não era dada a cumprimentos com beijos. Íris julgou que agira mal.

— Desculpa. — pediu envergonhada.

— Desculpa, eu. — contrapôs com um sorriso. — Ao fim de tantos anos no Canadá, desabituei-me do calor humano português. O pessoal aqui não é muito de beijos.

— Gosto do teu sotaque. — confessou, divertida e descansada por não ter sido insolente.

— Sotaque? — interrogou ele.

Íris brindou-o com uma gargalhada deliciosa.

— Calculo que nem te apercebas, mas pareces um turista americano a tentar falar português. — Ele pareceu envergonhado. Ela percebeu. — Oh... Desculpa, Gabriel. Não quis...

— Não faz mal. Já é uma sorte, ainda saber falar português.

— Também não acredito nisso.

Subitamente, perceberam que estavam a conversar à entrada do apartamento.

— Que anfitrião que eu sou. Anda. Entra! — convidou, segurando‑lhe as malas grandes assentes em rodinhas.

Íris entrou com o olhar a absorver todo o espaço e decoração. Largou a mochila e a mala pequena no chão.

— Tens uma casa muito bonita.

— Não me posso queixar. — retorquiu ele, encostando as malas na entrada do átrio dos quartos. — Vem, vou mostrar-te o apartamento.

Encaminhou-a para a sala e mostrou-lhe a vista. Íris ficou encantada com a paisagem.

— Agora já está a escurecer, mas amanhã, verás melhor.

A seguir, indicou a cozinha. Parecia um agente imobiliário a mostrar uma casa. Íris deixou-se conduzir, lutando contra o cansaço.

— Este é o teu quarto. — apontou, abrindo a porta da divisão que destinara para ela.

Íris ia para dizer qualquer coisa, mas não conteve um bocejo.

— Deves estar cansada.

— Desculpa. Sinto-me como se já fosse madrugada.

— Para o teu organismo, é quase meia-noite.

— E acordei às três da manhã.

Gabriel afastou-se para ir buscar a bagagem dela. Íris entrou no quarto e despiu o casaco, sentando-se no colchão fofo. Ele trouxe as malas grandes e colocou-as junto às portas do roupeiro embutido na parede. Voltou a sair. Íris permitiu-se a cair para trás e saborear o conforto da cama. Gabriel tornou a entrar, trazendo a mochila e a outra mala.

— Queres comer alguma coisa? Posso encomendar...

— Acho que vou dormir. — concluiu, olhando-o com a cabeça na almofada. — Desculpa. Que raio de hóspede que chega e vai logo dormir.

— Estás cansada, é natural.

— Não te importas?

— Achas, Arco-íris? — Ela fez um esforço e voltou a sentar-se. O sorriso era genuíno e cansado. — Tens casa de banho privada, tens toalhas e gel de banho, champô...

— Devias dedicar-te ao ramo hoteleiro. — interrompeu ela, feliz. — Obrigado por tudo, Gabriel.

Ele encolheu os ombros.

— O meu quarto é ali. — apontou para a porta oposta àquela. — As outras portas são do terceiro quarto e da casa de banho geral. Fica à‑vontade. Sente-te como se estivesses em tua casa. Se precisares de alguma coisa, chama-me.

— Obrigada, Gabriel.

— Dorme bem, Arco-íris! — despediu-se, saindo e fechando a porta.

VII

 

O Sol entrou-lhe pelo quarto sem pedir permissão. A claridade acabou por o despertar. Nos últimos tempos tinha tendência a acordar aos primeiros sinais de luz, mas naquela manhã deixou-se dormir. Deitara-se à hora do costume. O seu consciente lembrou-o que tinha uma hóspede. Será que ainda estaria a dormir? Não seria de estranhar, o dia da viagem fora cansativo. Evitaria fazer barulho para não a incomodar.

Saiu da cama nu. Sempre dormira nu. Vestiu o robe, apesar de o ambiente climático do apartamento ter todas as divisões com a temperatura automaticamente afinada pelo ar condicionado. Encurtou a distância para os vidros, o seu quarto tinha a janela na mesma direcção que a vista da sala. Adorava ver o Sol a nascer, mas naquela manhã o astro já ia numa subida bem avançada. Regressou à cama e sentou-se no colchão. Pegou no telemóvel, desbloqueou-o e viu se havia novidades. Apenas emails de trabalho e chamadas que não ouvira por ter o aparelho no silêncio. Nada que merecesse a sua atenção urgente. Foi tomar um duche.

Aquele seria o primeiro dia de Íris em Toronto. Por isso, ele determinara na sua agenda que iria trabalhar donde estivesse e não estaria disponível para nada que não fosse importante. Deixou os fatos no armário e vestiu uma calças clássicas às quais juntou uma camisa e um pulôver de malha. Por fim, calçou um par de sapatos a conjugar com o resto.

Ao abrir a porta, sentiu o cheiro agradável a café e torradas. Há quanto tempo não sentia aquele cheirinho ali? Ah.... Pois... Nunca sentira. Saiu para o átrio. A porta do quarto onde Íris dormira estava aberta e o espaço arrumado. Ouviu movimento na sala. Caminhou até lá.

Íris estava sentada num dos bancos altos com a atenção no seu computador portátil, ligado ao lado do de Gabriel que ali ficara desligado na noite anterior. Ela estava concentrada a ler algo no Facebook e nem deu pela chegada dele. Gabriel observou-a, satisfeito por notar que ela se instalara sem cerimónias. Vestia uma camisola de lã, calções curtos e estava descalça. Tinha umas pernas lindas, magníficas como as da mãe.

Merda! Tinha de parar com aquilo. Tinha de parar de pensar na mãe dela.

Sentindo a sua presença, Íris voltou-se e brindou-o com um sorriso fascinante.

— Bom dia, Gabriel!

— Bom dia, Arco-íris.

Enquanto se aproximava, ela saltou do banco. Olhou-o hesitante.

— Posso dar-te um beijo?

— Claro que sim, Arco-íris.

Íris beijou-o e abraçou-o.

— Dormiste bem?

— Maravilhosamente. — confirmou satisfeita, contornando o balcão. — Acordei às cinco da manhã. Não tinha sono e levantei-me. Espero não te ter acordado ou feito barulho que te incomodasse.

— Não. Eu até acordei mais tarde que o costume.

No lado oposto do balcão, ela aproximou-se da máquina do café.

— Posso fazer um para ti? — Gabriel anuiu. — Como queres?

— Expresso.

— E para acompanhar? Posso fazer-te uma torrada.

— Não é preciso.

— Nunca ouviste que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia?

— O meu médico repete-me isso sempre que me vê.

— Então, vai sair uma torrada. — decidiu ela sem dar hipóteses de recusa.

Gabriel encostou-se ao balcão e ficou a olhar distraidamente para o ecrã do portátil dela, vendo uma foto em que Íris estava na companhia de uma amiga.

— Quem é? — perguntou por perguntar.

Íris fez um ar culpado, meio envergonhado. Não respondeu logo, talvez a ponderar se haveria de lhe contar. Acabou por ser totalmente sincera.

— É a minha ex-namorada.

— Ex-namorada? — interrogou ele, pensando não ter ouvido bem.

— Sim. — confirmou com uma expressão envergonhada. — Chocado?

— Chocado?

— Chocado pela minha orientação sexual?

Gabriel abanou a cabeça.

— Chocado não. Surpreendido, nada mais.

— Mas, é algo que te incomode? — questionou ela, muito séria.

— Nadinha, Arco-íris. — Gabriel soltou uma gargalhada que não conseguiu controlar. — Nunca o nome te assentou tão bem.

— Eu sei. — confirmou, correspondendo ao sorriso. — Lembras‑te de te contar da gargalhada que dei, quando li o teu primeiro email? Sim, foi saudade, mas mais que isso, foi pela analogia. Arco-íris tem uma simbologia especial, como bem sabes.

— Que não restem dúvidas. Não me incomoda minimamente. Além disso, irás descobrir que Toronto é uma cidade muito... como se diz? Acho que o termo inglês é o que descreve melhor. É muito gay friendly.

— Fico feliz que penses assim. E desculpa! Devia ter-te contado, antes de vir.

— Não, não devias. Nem precisavas de me dizer agora. Ninguém tem nada com a tua vida íntima e privada.

Íris anuiu, estava feliz.

— Queres o pão muito ou pouco torrado?

— Pouco.

Ela retirou a fatia de pão da torradeira, colocou-a num prato pequeno e foi buscar a manteiga ao frigorífico. Movia-se como se vivesse ali há muitos anos. Juntou-lhe uma faca e empurrou tudo na direcção dele, dizendo:

— Só falta o café.

Gabriel estava encantado por a ter ali, mas repetia mentalmente que não devia deixar-se entusiasmar com aquilo. Seria algo muito efémero na sua vida e, quanto mais se deixasse enredar por aquela amizade, mais sofreria depois.

— Ora aqui está. — disse ela, entregando-lhe a pequena chávena com o café. — Deseja mais alguma coisa, caro senhor?

— Não, obrigado, cara menina.

Ambos sorriram com gosto.

Íris regressou ao seu lugar no banco defronte do computador. A seu lado, Gabriel mastigava silenciosamente o pão e bebia o café.

— Foi por vires para o Canadá? — interrogou ele do nada.

Arregalando os olhos, resgatada da distracção do computador, Íris olhou para ele.

— Não percebi, desculpa.

— A tua ex-namorada. Terminaram porque tu vinhas para o Canadá?

— Não. — negou sem revelar se o assunto era ou não doloroso. — Acabou antes disso, muito antes.

Silenciou-se, como se revisse algo na sua memória.

— Não quero estar a intrometer-me.

— Não tem mal, Gabriel. Não me importo de falar nisso. Namorámos durante três anos. Por isso... Como deves calcular, foi alguém muito especial na minha vida.

— Porque é que acabou?

Íris fez um sorriso atípico que em nada combinava com ela, era um sorriso sofrido, triste.

— Eu amava-a profundamente. Terminei o Ensino Superior, tinha perspectivas de emprego. Por isso, quis casar. — Encolheu os ombros. — Pedi-a em casamento.

Gabriel fez uma expressão confusa. Ela descodificou a dúvida dele.

— Em Portugal, as pessoas do mesmo sexo já podem casar.

— E ela?

— Disse-me que não. Nem pensou. Ou se pensou, deve ter sido para aí uns cinco segundos. Percebi logo que aquilo nunca seria mais que... Peço que me desculpes a honestidade, mas não há outra palavra, era só sexo. — Atento, ainda surpreendido e curioso, Gabriel escutava-a com toda a atenção. — Sabes. Talvez isto possa ser estranho para a maioria das pessoas. Não levo a mal que até possa ser estranho para ti. Mas, o facto de ser lésbica não invalida que não queira casar. Mais, até. Eu queria casar e que adoptássemos uma criança. Sim, também já é possível os casais homossexuais adoptarem crianças em Portugal.

— Acho perfeitamente lícitas as tuas expectativas para o futuro.

— Pois... Mas, ela não as partilhava. E quando percebi isso, terminei a relação.

Gabriel olhou para o ecrã.

— Ainda a amas?

— Amo aquilo que tivemos, as recordações. — respondeu, olhando para a foto. — É isso que faço quando venho ver as nossas fotos, permitir-me a recordar o que passámos, consciente que já não a quero na minha vida.

— Bolas. Revelas uma maturidade muito acima da tua idade.

Íris sorriu e agradeceu o elogio.

— E tu, Gabriel?

— Eu?

— Sim. Existe alguém?

Ele baixou o olhar para o fundo da chávena, como se procurasse algo nos restos de café.

— Não. — respondeu num tom distante, tornando a apreciar as amêndoas lindas que o observavam. — Não tenho tempo para isso.

Íris falou com a frontalidade que começava a habituar-se a ter com ele:

— É assunto tabu?

— Outro "elefante na sala"? — retorquiu, esboçando um sorriso. Ela assentiu. — Não, não é. Nem seria correcto que não fosse tão honesto contigo, como estás a ser comigo. — Pousou a chávena no balcão. — Não faço vida de padre. Mas, assumo que não voltei a ter uma relação séria, desde que vim para o Canadá. — Íris pareceu ir fazer uma pergunta, ele adivinhou qual seria. — Sim, agora seria entrar no assunto tabu.

— A minha mãe... — sussurrou.

Ele anuiu.

Íris passou o polegar e o indicador pelos lábios como quem simula o fechar de um zipper. Não iriam falar naquilo.

— Tens planos para hoje? — perguntou Gabriel.

— Não tinha pensado em nada. Talvez vá começar a fazer mais umas pesquisas.

— Pensei que talvez pudéssemos passear pela cidade, que achas?

— Eu ia adorar. — confessou com entusiasmo. Depois, ficou séria. — Não quero estar a atrapalhar a tua vida, Gabriel. Sei que és um homem ocupado.

— Vou ter um dia calmo, hoje. — inventou. — Gostava de te mostrar Toronto.

A felicidade voltou a irradiar no seu rosto.

— Vou só mudar de roupa.

 

Os calções foram trocados por calças de ganga, a camisola de lã por uma mais fina de malha. Calçara as sapatilhas, segurava o blusão no braço e tinha uma malinha pequena pendurada no ombro oposto.

Desceram o elevador até à garagem.

— É o teu carro? — interrogou Íris boquiaberta a olhar para o Ferrari.

Gabriel confirmou como se aquele fosse o automóvel mais comum a qualquer pessoa.

— Entra. — convidou, enquanto contornava o veículo para se sentar ao volante. — Confortável?

— Estás a gozar comigo, Gabriel? Claro. Até tenho medo de tocar nalguma coisa.

Ele riu, divertido com o fascínio e estupefacção dela.

O motor rosnou, como se um trovão tivesse irrompido pelo subsolo do prédio. Íris assustou-se. Gabriel arrancou devagar e saiu para o trânsito citadino.

Com o olhar no exterior, Íris ia fascinada com a cidade e sentia-se o centro das atenções por estar dentro do Ferrari F8 Tributo, o qual roubava olhares em todo o lado por onde passavam.

— Os prédios são enormes. É com cada torre... Parece Nova Iorque, não achas, Gabriel?

— Já foste a New York?

— Não. Digo isto pelo que vejo na televisão.

— New York tem edifícios ainda mais altos.

— Estes já metem respeito.

Gabriel conduziu pelo mesmo percurso que fazia quando ia para o escritório. Iria deixar o carro estacionado no lugar do costume e passear com Íris pela cidade. Claro que aproveitou para lhe mostrar o seu espaço no Bay-Adelaide.

Francis ficou deslumbrado com Íris, como se lhe tivesse entrado na recepção a Miss Universo. Gabriel apresentou-os. Francis levantou-se e estendeu-lhe a mão que ela apertou com simpatia protocolar.

— Adorava trabalhar num sítio assim. — confidenciou Íris, observando o exterior do gabinete dele, através dos vidros enormes.

— Um dia trabalharás num sítio ainda melhor.

Íris caminhou pelo gabinete, demorando-se nas estantes com inúmeras molduras.

— Desculpa a minha ignorância, mas quem são? — questionou, apontando para as várias fotos em que ele aparecia com outros indivíduos.

— São jogadores de basquetebol, hóquei e basebol. Ah... Este é de futebol americano. Foi um dos poucos negócios que fiz na modalidade, mas rendeu mais que muitos dos outros.

Ela olhou para ele, trocista.

— Não se ganha lá muito bem na tua actividade, pois não? A avaliar pelo carro.

Gabriel riu-se.

— Pouco acima do ordenado mínimo. — ironizou. — Ganha-se muito bem, Íris. Tenho noção da sorte que tenho, nesse aspecto.

— Costumas passar aqui os dias?

— Não. Ando sempre de um lado para o outro, principalmente, nas semanas em que se podem negociar os contratos dos jogadores. Nem sempre se pode abordá-los, depois os clubes precisam que eu... Enfim...

Gabriel fez um gesto de que não interessava continuar a dissertar sobre aquilo. Íris assentiu novamente com o olhar na vista.

— Isso é tudo muito confuso, mas também nunca liguei muito a desporto, Gabriel.

Francis apareceu na entrada do gabinete, trazendo uns papéis para Gabriel e com interesse em Íris. Observou-a directamente, sorrindo-lhe, enquanto entrava e saía.

— Parece que ganhaste um admirador. — assinalou Gabriel com humor.

Ela ironizou no mesmo tom.

— Ainda nem cá estou há vinte quatro horas e já parto corações?

Sorriram um para o outro.

— Então? Onde me vais levar?

— Por aí.

O Sol continuava a brilhar intenso. Claro que na Bay Street era complicado que os raios solares chegassem directamente aos transeuntes, por causa dos gigantescos prédios. Gabriel e Íris caminharam pelo passeio em direcção a norte, subindo a rua. Ele explicou-lhe que aquela zona era conhecida como Old Toronto e estavam a deslocar-se pelo centro da cidade. No cimo da Bay Street avistava-se um edifício de arquitectura mais antiga, paradoxal à maioria daqueles que o rodeavam.

Enquanto esperavam permissão do semáforo para atravessar a Queen Street, Gabriel apontou para a torre com o relógio e disse:

— Este é o Old City Hall, a antiga... como é que dizemos em português? Ah... a Câmara da cidade.

Os automóveis pararam e eles puderam atravessar, seguindo para noroeste, continuando na Bay Street e entrando numa praça com um lago artificial onde haviam sido colocadas na margem oposta as letras grandes com a palavra "TORONTO".

— É mais bonito à noite. — explicou Gabriel. — As letras acendem e fazem efeitos luminosos.

— E aquilo? — perguntou Íris, apontando para as duas gigantescas torres atrás das letras, as quais se encaravam num formato concavo, o que lhes dava um efeito circular, vistas do céu.

— É o City Hall actual.

— Acho o antigo mais bonito.

— Acredita que não deves ser a única.

Caminharam um pouco pelo relvado envolvente. O verde bonito era espicaçado pelo Sol que incidia intenso na praça. Muitas pessoas circulavam de um lado para o outro. Pelo meio, muitos turistas a metralhar fotos.

— Já comia qualquer coisa. Ainda estou com os horários todos baralhados.

Gabriel olhou para o relógio.

— É meio-dia. Em Portugal estarias a lanchar.

— Não costumo lanchar, Gabriel.

— O meu médico diz que se deve comer de três em três horas.

— O teu médico preocupa-se contigo.

— É um chato. E ainda lhe pago para isso.

Ele sugeriu que atravessassem a Bay Street e entrassem no centro comercial. Enquanto caminhavam pelos corredores de lojas, Gabriel explicou:

— Em Toronto temos uma coisa a que chamamos The Path. É uma rede de túneis pedestres que ligam a grande maioria dos edifícios da cidade. Podes ir desde aqui até à Union Station, à zona residencial nas margens do lago, à CN Tower... Enfim, são quilómetros de passagens. Criaram isso porque no Inverno, o frio não dá tréguas. Se seguires pelo The Path, consegues ir a imensos sítios sem meteres o nariz na rua.

— Coisas de cidades evoluídas. Costuma nevar aqui?

— Sim.

— Se neva aqui, imagino em Montreal.

— Não te preocupes, Íris, também existe um Path em Montreal.

Ela anuiu, mas a informação não a deixou muito entusiasmada.

— Já estive a ver alguns preços. Acho que vou ter de encontrar algo nos subúrbios de Montreal, num lugar que me permita ter transportes para a McGill. Não creio que essa coisa... esse Path vá tão longe.

— Montreal tem uma boa rede de transportes. Não conheço de memória o Path de Montreal, mas calculo que se tiveres transporte para o centro da cidade, tens o Path daí até à McGill.

— Quando for lá, vou começar por passar na Universidade para saber se me podem indicar alguma residência para estudantes.

Alcançaram a zona de restauração. Ainda era cedo e os espaços comerciais de comida estavam a abrir. No interior dos restaurantes não se viam muitos clientes e os poucos que lá estavam davam ar de turistas. Para além disso, era dia de semana, dia de trabalho, e as pessoas que trabalhavam nas centenas de escritórios, ali à volta, preferiam passar num take-away e comprar algo simples para comer na esplanada do centro comercial, nos jardins exteriores ou mesmo no local de trabalho.

— Tens preferência?

— O que é que o teu médico recomenda que comas? — interrogou provocadora.

— Fazes-me parecer um velho.

— Estou a meter-me contigo.

— Essencialmente, couves.

— O quê?

— Quer que coma vegetais.

— Queres comer vegetais? — Ele atirou-lhe uma expressão torcida. — Bem me parecia.

Escolheram um restaurante de comida tradicional.

Um funcionário recebeu-os com simpatia e indicou-lhes que escolhessem uma mesa. Apenas duas tinham clientes. Optaram por uma aleatória e sentaram-se.

— Como é que estás a pensar fazer, em relação a Montreal? Quando é que vais?

— Hoje de manhã, dei uma olhadela na Internet. Pesquisei pequenos apartamentos para alugar. Mas, é tudo tão caro... Eu já tinha visto que não era barato viver em Montreal, mas não contava ter de ir para tão longe do centro da cidade. Por isso, é que me lembrei de ir à Universidade pedir informações. Podia contactá-los daqui, mas tenho de ver... Não posso deixar isso para quando me for embora para lá.

— Sim, concordo contigo. Convém ires ver, antes.

— Estive a ver a melhor forma para viajar até Montreal? E tenho de reservar quarto num hotel. Pelo menos, uma noite terei de passar lá. Pensei em ir e vir de avião, mas é muito caro... Bom, para mim é caro. — O funcionário trouxe-lhes os pedidos. — Vou de comboio. Estive a ver e fica mais em conta. Claro que são seis horas para lá e seis para cá. Daí ter de passar, pelo menos, uma noite em Montreal.

Gabriel olhava-a atento e ia anuindo às suas ideias. Quando ela terminou, indagou com naturalidade:

— Queres que vá contigo?

Ela sorriu.

— Não posso pedir-te isso. Já estou a ocupar em demasia a tua vida.

— Não digas isso, por favor. — pediu ele sério. — Não me ocupas minimamente e tenho muito gosto em ajudar-te.

— Seis horas... Doze horas de comboio é um suplício, não te posso fazer isso.

— Sim, tens razão. — concordou ele. — Sendo assim, não vou contigo.

Ela pareceu surpreendida, até decepcionada, por ele desistir da ideia tão rapidamente. Aceitou a decisão, mas ele riu-se.

— Convido-te a vir comigo a Montreal.

— Como assim?

— Como sou eu que convido, sou eu que escolho o transporte. Vamos de avião. A viagem é pouco mais de uma hora.

— Não posso, Gabriel. Não tenho dinheiro para isso.

— Sou eu que convido.

— Não, Gabriel, não posso aceitar. Tu já estás a fazer tanto por mim.

— Vais recusar o meu convite?

— Gabriel...

— Arco-íris! Vais?

Ela sorriu afectuosa.

— Sabes bem que não.

— Então é só escolheres quando queres ir.

— Vou apontar os gastos. Um dia irei pag...

— Não, não vais. — A recusa dele revelou-se séria e intransigente. — És uma miúda espectacular, admirável. — Desviou o olhar para o lado. — Sabes, quando eras uma criança, eu acreditava que poderia acompanhar o teu desenvolvimento. Nunca quis ser um pai para ti, nem tu precisavas porque felizmente o teu pai sempre esteve muito presente no tempo em que eu e a... e a tua mãe namorámos. — Íris fez uma expressão de surpresa por ele abordar o tabu. Não disse nada e ouviu-o. — Achava que seriamos amigos. Tínhamos empatia, nessa altura, e sinto que ainda a temos. — Íris sorriu e confirmou que sim. — Quando... No fim da... Quando acabou, acreditei que talvez te reencontrasse quando crescesses, quando fosses maior de idade e pudéssemos reatar a nossa amizade. Parece parvo, estar a falar assim de amizade entre uma menina de nove anos e um gajo de trinta e tal...

— Pelo contrário, Gabriel. Acho muito querido da tua parte.

— Seja como for, quando tomei a decisão de vir para o Canadá, aceitei que nunca mais te veria. — Abriu um sorriso satisfeito. — Mas, tu estás aqui. E como teu amigo, farei tudo o que estiver ao meu alcance para te ajudar.

As amêndoas lindas cravaram-se nele. Íris ficou em silêncio, simplesmente a observá-lo.

— Eu chorei quando foste embora. — disse de repente. — Mesmo quando o meu pai voltou a viver com a minha mãe, eu chorava por ti. Eles não sabiam, eu não deixava que vissem. À noite, na minha cama, sentia saudades tuas e chorava. — Gabriel ficou surpreso com a revelação. — Eras muito importante para mim. Tens razão, não eras um pai porque eu já tinha um, mas eras alguém muito presente na minha vida. — Abanou a cabeça. — Não te teres despedido de mim também não ajudou.

— A tua mãe...

— Eu sei. Ela só me contou alguns anos mais tarde que tu quiseste ver-me uma última vez. — Encarou-o honesta. — Não disse que tu foste embora sem querer saber de mim, mas só após esses anos é que me contou a verdade, que não te deixara despedires-te de mim.

— Nunca pensei que... a minha ausência tivesse tido esse impacto em ti.

Íris encolheu os ombros.

— Também não sei explicar, mas teve.

Ficaram a olhar os olhos um do outro por alguns instantes, em silêncio, sem assunto, mas confortáveis. Pareciam encontrar-se neles, como se um fosse o espelho do outro.

O momento foi interrompido pelo aproximar do funcionário para levantar os pratos vazios. Sugeriu algumas sobremesas, mas eles só quiserem café.

O passeio prosseguiu pela Yonge Street até à Dunda Street onde Gabriel lhe mostrou a Dundas Square, uma praça ampla vocacionada para eventos audiovisuais, uma espécie de Times Square de Nova Iorque mais humilde. O lugar tinha imensos turistas e, como era local de paragem dos autocarros de passeios turístico, estes juntavam-se em filas para entrar nos veículos. Íris ficou encantada pelo aspecto moderno futurista dos ecrãs colossais com vídeos de publicidade, promoções de acontecimentos e reportagens.

Desceram pela Yonge Street até à Richmond Street, a qual percorreram a dialogar, a apontar para os edifícios e indiferentes a quem passava por eles. Novamente na Bay Street, a caminhada terminou no Bay‑Adelaide. Entraram no átrio que dava acesso aos escritórios, mas Gabriel não pretendia regressar ao seu e ambos desceram no elevador para a garagem, onde o Ferrari os esperava.

— Algum sítio que queiras ver? — indagou ele, ao chegarem.

— Não sei... Não conheço nada, nem fiz pesquisa sobre Toronto como uma turista. Dediquei-me mais a conhecer virtualmente Montreal.

— Posso levar-te a conhecer as arenas e pavilhões de Toronto. — sugeriu na brincadeira, consciente que era coisa que não lhe interessava.

Íris olhou-o de lado e sorriu-lhe.

— Qual é a outra hipótese?

— Hoje está um dia bonito. Que me dizes a uma bebida na varanda do meu apartamento.

— Acho uma óptima ideia. — concordou ela, sentando-se novamente com receio de tocar o interior do veículo. — Mas, podes levar‑me a um supermercado primeiro?

— Um supermercado?

— Sim. Tu não tens nada em casa. E eu quero cozinhar, quero fazer-te o jantar.

— Podemos encomendar. Não precisas de estar com trabalho...

— Um supermercado, Gabriel. Pleeeeeeese!

Ele anuiu e iniciou a marcha para fora do estacionamento.

Quando o F8 já roncava pelas ruas de Toronto, Gabriel tinha já um novo destino para levar Íris. Ainda era cedo e o St. Lawrence Market ainda deveria estar aberto. Tinha a certeza de que ela ia gostar do local.

Não era um lugar onde fosse fácil estacionar, mas ele conseguiu lugar na Front Street. Poderia levar Íris a qualquer espaço comercial, mas quis mostrar-lhe um lugar diferente.

O edifício datava do início do século XX, o qual fora restaurado na década de setenta. Apresentava os traços típicos da época e ganhava destaque pela diferença e cariz histórico. Íris adorou-o.

No interior, cerca de uma centena de bancas de comerciantes dividiam-se por dois pisos, vendedores das mais diversas áreas, desde comida, utilidades, lembranças...

Íris passeou pelas bancas, algumas já desprovidas de muitos produtos, uma vez que de manhã é que era o ponto alto de venda. Circulou atenta, interessada, comprando uma coisa aqui e outra ali. Para Gabriel, aquilo era novidade, comprava tudo o que precisava na Internet, a comerciantes que lhe entregavam em casa.

Ao longo de quase uma hora, Íris comprou tudo o que considerou necessário para ter em casa dele e recusou as muitas vezes que Gabriel insistiu em pagar.

— Era o que faltava, Gabriel. Já basta não me cobrares a estadia.

O Ferrari nunca transportou tantas mercearias.

Íris receou que o cheiro das frutas, legumes, pão e outros ficasse no carro. Gabriel descansou-a. É para isso que existem empresas de limpeza de veículos.

 

O manto aquático do lago parecia uma placa imóvel, somente cortada pelas linhas provocadas pelos trajectos dos barcos que navegavam pelo lago Ontário. O Sol começava a desaparecer e a intensidade de luz, vinda do lado contrário do prédio, ia diminuindo.

Na larga varanda, Gabriel e Íris repousavam em duas cadeiras, ele com um copo de whisky na mão e ela com um sumo de pêssego.

O som da cidade ouvia-se ténue, vindo da mesma direcção que os raios solares a enfraquecer. Não estava frio e soprava uma brisa vinda do lago. Íris voltara a trocar de roupa, enfiando-se na camisola de lã e nos calções curtos que lhe destacavam as pernas. Ele manteve-se igual a como chegara da rua.

— Podemos ir a Montreal depois de amanhã? — sugeriu ela com o olhar na paisagem. — Quero orientar as coisas o mais rápido possível.

Gabriel pegou no telemóvel e marcou um número ao mesmo tempo que dizia que sim. Ligou para Francis e pediu-lhe que marcasse voo de ida para Montreal daí a dois dias, duas noites de estadia num hotel e regresso depois disso.

— Duas noites? — interrogou ela, quando ele desligou.

— Para ficarmos com tempo para o que for preciso.

— Estou a ficar-te muito cara e a consumir-te muito tempo.

— Estou a apontar tudo. — fingiu, divertido.

Ela atirou-lhe uma expressão torcida, consciente que ele não lhe cobraria nada. E ele sabia que ela sabia disso.

Ficaram em silêncio alguns momentos, a desfrutar da vista e a escutar os sons da cidade de Toronto. Ao fundo, o céu ganhava tonalidades cada vez mais escuras.

— É uma vista fabulosa, Gabriel.

— Foi por ela que comprei o apartamento.

Íris apontou para o lago.

— O que fica do outro lado?

— Ali. — indicou para sul. — Ainda é o Canadá. — Rodou o braço para norte. — Para ali já é os Estados Unidos. A margem de lá é dividida pelo rio Niágara.

— E as cascatas?

— Ficam no seguimento do rio. A corrente do rio Niágara vem desaguar ao Lago Ontário, vinda do Lago Erie. Se houver oportunidade, um dia levo-te às Cataratas do Niágara.

— Combinado. — concordou, levantando-se. — Vou preparar o jantar.

Gabriel não se recordava de alguma vez ter jantado tão cedo. Porém, Íris ainda estava a adaptar-se ao jet lag. Comeram sentados nos bancos altos com a mesa posta sobre o balcão que dividia a sala da cozinha.

— Eu trato da louça. — avisou Gabriel no final da refeição, vendo‑a pegar no prato, e sem aceitar recusas.

Íris não o contrariou, revelando um ar cansado. Era uma hora da madrugada em Portugal.

— Acho que vou para a cama. Não te importas?

— Claro que não.

Contornando o balcão, Íris aproximou-se dele e abraçou-o com ternura.

— Obrigado por tudo, Gabriel.

Ele recebeu-a nos braços, permanecendo sentado no banco.

— Vais agradecer-me a cada frase?

— Nunca é demais.

Beijou-lhe a face e despediu-se com um "boa noite".

Gabriel ficou sozinho na sala, sentado no banco, imóvel a pensar em tudo. Repetia mentalmente que deveria evitar habituar-se àquilo. Tinha noção que era por momentos daqueles que afastava toda a gente de si, para evitar a hora em que tudo acabava e ele voltava a ficar sozinho. Infelizmente, não conseguira fugir ao enredo que ele próprio criara. Afinal, se não a tivesse convidado para Toronto, nada daquilo estaria a acontecer. Íris tinha tudo para ser a amiga que ele julgara que um dia ela seria, quando ainda namorava com a sua mãe. A empatia entre eles era incrível. Reencontraram-se havia pouco mais de vinte e quatro horas e ninguém diria que tinham passado quinze anos sem se verem.

Saltou do banco e levou a louça para a máquina de lavar. Evitou pensar que a solidão voltaria a ser a sua única companhia, quando Íris partisse em definitivo para Montreal, caso contrário, a angústia aproveitaria a brecha para o deprimir.

Sentou-se no sofá e ligou a televisão sem som para ver as notícias, mas nem prestou muita atenção nas imagens a passar. Olhou para o relógio do smartwatch. Que horas seriam em Seattle?

Desbloqueou o smartphone pressionando o polegar no ecrã. Procurou o número e carregou no ícone verde.

— Que surpresa. — disse a voz que o atendeu.

— Olá Rachel! Espero que seja uma boa surpresa.

— Sabes bem que sim.

— Estás em Seattle?

— Não. Mas, não estou longe. Estou num hotel em Vancouver.

— Como estás?

— Bem. — respondeu, distanciando o tom. — Até ouvir o telemóvel a tocar e ver o teu nome, pensei que te tivesses esquecido que eu existo.

— Já sabes como sou.

— Sei. — apressou-se a confirmar. — Foi um desabafo. Não estou a cobrar nada. E fico feliz que me tenhas ligado.

— Estás sozinha ou estou a interromper alguma coisa?

— Ligaste mesmo no momento em que estou na cama com um tipo que conheci no bar do hotel. — informou séria. Depois, brindou-o com uma gargalhada melodiosa. — Estou a brincar. Não está aqui ninguém comigo.

— Podia estar.

— Somos dois solitários, Gabriel.

— Sabes como combato isso, não sabes?

— Não estou a pensar em contratar prostitutos, Gabriel.

— Queres conversar um bocado?

— Que se passa?

— Nada.

— Onde estás?

— Em casa.

— Estás sozinho?

— Sim.

Sim, estava sozinho na sala. Gabriel não encontrou uma justificação imediata para o fazer, mas não quis partilhar a existência de Íris com ela. Poderia dar uma ideia errada, fazê-la pensar algo absurdo... Que interessava a opinião de Rachel? Talvez não interessasse... Talvez ele não lhe quisesse dizer que permitira a alguém, algo que recusara a ela, entrar na sua vida pessoal. Talvez um dia lhe contasse, mas não por telefone.

— Então?

— Então o quê? — repetiu ele, percebendo que se distraíra.

— Perguntei se nenhuma delas estava disponível esta noite.

— Quem?

— Tu sabes quem.

— Não sei se estão. Não as procurei.

Houve um silêncio breve, como se ambos procurassem assunto para falar. Gabriel queria ouvi-la, queria falar com ela, mas não sabia o que haveria de dizer. Acabou por escolher o que tinham em comum:

— Como têm corrido os negócios?

— Ligaste-me para saber de compra e venda de jogadores?

— Liguei-te porque... — Travou-se, percebendo que iria fazer uma confissão. Teria importância? Talvez não. — Não liguei para saber de negócios.

— Então?

— Tem de haver uma razão?

— Normalmente há. Mais não seja "cliquei sem querer no teu número".

— Não foi o caso.

Novo silêncio. Ele ouvia a respiração dela no outro lado. Não sabia o que dizer e calculou que ela o tomaria por um idiota com aquela atitude. Contudo, Rachel surpreendeu-o:

— Podemos ficar em silêncio, se quiseres.

— Sinto-me ridículo. Telefonei-te e agora... Acho que só queria ouvir a tua voz.

— Que tem isso de ridículo?

— Não sei...

— Fazemos assim. Como queres ouvir a minha voz, eu conto-te o que tenho feito. Quando estiveres farto, avisas e desligamos.

Gabriel sorriu.

— Parece-me bem.

Rachel iniciou o relato do seu trabalho nos últimos dias. A sua vida profissional estava cada vez mais centralizada em Seattle e na costa oeste. O futuro novo clube da NHL oferecera-lhe um contrato de colaboração irrecusável e ela teria de passar os próximos tempos entre a capital do estado de Washington, Seattle, e a Califórnia por causa da equipa satélite sediada em Palm Springs. Estava muito satisfeita e ainda mais realizada profissionalmente.

— Pensas vir a Toronto em breve? — perguntou Gabriel, interrompendo o relato.

— Não. — A resposta foi dada sem nenhuma entoação especial, não revelando qualquer emoção. — Nem tenho nada previsto que me faça viajar até à costa leste.

— Se vieres, avisas-me?

— Achas que se fosse a Toronto, não te dizia nada?

— Não.

Mais silêncio. Gabriel tinha receio que se aqueles silêncios se repetissem muitas vezes, ela desistiria e a chamada terminava. Ele não queria que isso acontecesse.

— Queres que vá a Toronto?

A pergunta apanhou-o de surpresa.

— Se quero que venhas a Toronto?

— Acho que não falei chinês, Gabriel.

— Não de propósito. — recusou com distanciamento. — Só mesmo se tivesses algo a fazer por aqui.

— Gostavas que tivesse?

— Como assim?

Rachel suspirou no outro lado da linha.

— Não consegues responder sem fazer uma pergunta?

— Ok. Desculpa. — pediu ele, aproveitando para não responder, para não confessar que gostava que ela fosse a Toronto.

Isso pareceu exasperar Rachel.

— Sei que não o admites, mas a mim não me custa admiti-lo. Tenho saudades tuas e gostava de te voltar a ver. Tenho pena que não estejamos mais próximos, geograficamente. — Fez uma pausa, esperando que ele comentasse. Gabriel permaneceu mudo. — Se eventualmente tiveres que viajar à conta oeste, se quiseres... se tiveres interesse nisso, podemos encontrar-nos.

— Sim...

Só "sim"? Só um "sim" deslavado, desprovido de emoção? Não és capaz de mais que isso, Gabriel? Tentou dizer algo, mas a voz de Rachel travou-o:

— Olha! Vou ter de desligar...

— Ok.

— Liga sempre que quiseres, Gabriel.

— Ok.

— Beijinhos. Fica bem!

— Tu também.

E desligou.

VIII

 

Para aproveitar o tempo ao máximo, Gabriel orientara Francis para que lhes marcasse o voo para de manhã. Também lhe dissera que reservasse dois quartos individuais no hotel onde costumava ficar em Montreal.

O voo da Air Canada partiu de Toronto às dez horas da manhã. Ao ver o bilhete, Íris protestara por estarem a viajar em primeira classe. Gabriel riu-se e respondeu que não sabia viajar doutra forma.

Aterraram em Montreal antes das onze e meia da manhã.

Como só iriam passar duas noites na cidade, decidiram viajar unicamente com bagagem de mão, evitando ter de despachar malas para o porão e esperar a sua entrega à chegada.

O céu em Montreal estava como em Toronto, cinzento e triste. Porém, ao sair do aeroporto, a chuva apareceu. Gabriel usou o smartphone para chamar um Uber. Ambos vestiam blusões impermeáveis e quentes. Ele alertara-a para a temperatura mais baixa a norte e tivera esperança que não chovesse.

Aguardaram no sector reservado às paragens dos veículos da Uber. Gabriel vestia calças de ganga, pouco usual nele, e uma camisola de malha por baixo do blusão. Íris trajava algo semelhante numa versão feminina.

Gabriel não deu pormenores da viagem a Íris, apesar da sua insistência. Ela só sabia que ia a Montreal.

O transporte deles foi um Toyota conduzido por um individuo com ar de ter nascido numa qualquer antiga colónia francesa das Caraíbas, uma vez que falava um francês carregado, típico dessa zona. Gabriel tinha algum conhecimento de francês, o suficiente para se desenrascar em caso de necessidade. Porém, preferia sempre o inglês como idioma corrente. Para sua surpresa, Íris falava fluentemente francês.

— Falo melhor francês que inglês. — disse-lhe.

Nas vezes em que a vira falar inglês, notara que falava bastante bem.

— Sabes mais alguma língua? — indagou orgulhoso dela.

— Sei espanhol, um pouco de italiano e arranho no alemão.

— Bolas...

— E tu?

— Português e inglês. Safo-me no francês.

A viagem chuvosa prolongou-se até ao centro da cidade. O motorista ia animado e conversava simpaticamente com eles, sendo que era Íris quem ia respondendo.

O Toyota parou defronte do hotel que tinha como destino indicado aquando da reserva pela aplicação. Íris olhou para a fachada, para o nome e depois para Gabriel com um semblante recriminatório.

— Não havia nada mais caro? — questionou. — O Ritz de Montreal? A sério?

— É o que conheço. Sei que é bom.

— É caríssimo, Gabriel.

— É? — interrogou ele, divertido. — Tenho desconto de cliente habitual.

— A sério?

— Não. — negou com uma gargalhada.

Íris bateu-lhe no braço por estar a gozar com ela.

Entraram no luxuoso átrio do hotel. Todo o interior era opulento e os hóspedes revelavam ares de um estatuto social elevado. Não se viam os comuns turistas que vinham conhecer a cidade.

— Vê a vantagem. — disse ele, ainda divertido com o protesto dela. — A McGill é já ali.

A Universidade McGill ficava a dez minutos a pé do hotel.

Íris adoptou o tom dele e concluiu irónica:

— Bem pensado. Se calhar, em vez de procurar um apartamento, vou reservar um quarto aqui para ficar a viver enquanto estiver a estudar na McGill.

Alcançaram o balcão do hotel. Um funcionário olhou para eles com simpatia e uma expressão reveladora de que conhecia Gabriel.

— Bom dia, Monsieur Gabriel. — cumprimentou, antes deste abrir a boca.

Gabriel cumprimentou-o, tratando-o pelo apelido e informando que tinha dois quartos reservados em seu nome. O outro confirmou, tratou eficientemente dos procedimentos normais e entregou-lhe dois cartões, um para a porta de cada quarto, desejando uma boa estadia.

— Não me sinto bem com isto, Gabriel. — confidenciou Íris, enquanto subiam no elevador.

— Porquê?

— Parece que estou a abusar da tua generosidade.

— Eu sei que não estás, Íris. Além disso, é uma opção minha.

Caminharam pelo corredor silencioso até às duas portas com os números correspondentes aos seus quartos.

— Tens preferência? — perguntou Gabriel, mostrando-lhe os dois cartões.

Íris abanou a cabeça e retirou um dos cartões da mão dele.

Cada um abriu a sua porta. Ao entrar, Íris sugeriu:

— Podemos ir comer qualquer coisa e depois passávamos pela McGill. O que achas?

— Sim, podemos fazer isso.

— Vou só arrumar as coisas.

— Quando estiveres pronta, chama-me.

— Combinado.

O quarto era composto por uma cama larga com um móvel em frente e um ecrã de televisão pendurado na parede. Perto da janela com vista para a cidade arrumava-se uma mesa e uma cadeira. As paredes eram em tom amarelo, o tecto e as portas brancas, e a oposta à janela continha um roupeiro embutido. Na parede defronte da cama, uma porta para o WC privativo.

Gabriel pousou a mala na cama e despiu o blusão. Segurou o telemóvel e verificou se tinha alguma novidade. Uma mensagem nova no seu email informava-o que tinha um problema em mãos para resolver.

Bateram à porta.

Ele voltou a vestir o blusão e reencontrou Íris no corredor.

Optaram por comer qualquer coisa num restaurante ali perto. Não perderam muito tempo e só não foram mais rápidos porque esperaram novo intervalo na chuva.

Caminharam pelas ruas de Montreal rumo à zona universitária. Viam-se muitos jovens e poucas pessoas da geração dele. Gabriel sentiu-se como um pai que leva a filha à escola. Perto do edifício que Íris procurava, ele sugeriu:

— Importas-te de ir sozinha? Tenho uns telefonemas... Uns assuntos para resolver.

— Não, claro que não.

Gabriel apontou para um café a uns vinte metros.

— Eu espero ali por ti.

— Ok.

Íris prosseguiu em direcção ao recinto que antecedia o pavilhão que procurava, o lugar descrito no website da Universidade como recepção e apoio aos estudantes.

Já não chovia e as nuvens pareciam querer dar alguma trégua. Gabriel entrou no café, sentou-se ao canto do espaço e pediu uma cerveja. Por fim, pegou no telemóvel e ligou a Matt.

— Que se passa? Li o teu email.

— O Anderson quer rescindir o contrato contigo. — informou o advogado. — Recebi uma carta do advogado dele.

Anderson era um jogador de basquetebol que os Toronto Raptors haviam adquirido no Draft, uns anos antes, e que Gabriel representava desde então. Naquela altura, Anderson jogava em Boston, nos Celtics, e pelos vistos fora sondado por outro empresário para o representar.

— Apresenta razões?

— É um pedido amigável. Não fala em razões, apenas no interesse do Anderson em mudar de representante.

— Ok. Eu vou falar com ele. Depois dou-te notícias.

Logo que desligou a chamada, Gabriel ligou ao basquetebolista. Pensou que o outro evitasse atendê-lo, deixando tudo a cargo dos advogados, mas Anderson atendeu logo.

— Recebi a carta do teu advogado. Que se passa?

Anderson revelou-se envergonhado no discurso e explicou‑lhe que recebera uma proposta multimilionária para se transferir para Brooklyn, mas em contrapartida teria de aceitar ser representado pelo empresário que trazia a proposta. Confessou que se sentia mal por o estar a fazer, mas era uma oportunidade de ouro.

— Sabes bem que jamais te prejudicaria. Podias ter falado comigo antes. Não te vou criar problemas, mas sabes que existe uma cláusula de compensação, não sabes? — Ouviu a resposta. — Lamento, Anderson. Não te prejudico, mas não aceito ser prejudicado. E aquilo que te oferecem dá perfeitamente para tirares umas migalhas e pagar a cláusula.

O outro concordou e Gabriel deu indicações ao advogado para prosseguir com o assunto, logo que tivesse a garantia bancária do pagamento.

Ao desligar o segundo telefonema com Matt, Íris entrou no café.

— Então?

— Não está fácil. — respondeu ela, desmotivada, sentando-se diante dele. — Deram-me alguns contactos de residências, mas também me falaram por alto dos preços. É caro, muito caro. Vou ter de ir para a opção de procurar casa nos subúrbios.

— Que queres fazer agora?

— Voltar para o hotel e fazer pesquisa.

Levantaram-se das cadeiras. Gabriel deixou uns dólares canadianos na mesa.

No resto da tarde, reuniram-se no quarto dele para pesquisar opções de alugueres em conta. Encontraram algumas hipóteses viáveis que tinham uma relação interessante entre o preço e a distância. A rede de transportes em Montreal é boa, mas não evitaria a Íris a perda diária de muito tempo entre o local que escolhesse para viver e a Universidade.

Gabriel sugeriu que alugassem um carro. Íris queria fazer tudo de transportes públicos, justificando que assim poderia ter uma percepção melhor dos tempos e distâncias. Ele contrapôs que poderiam visitar mais opções se tivessem autonomia de deslocação.

Nessa noite, após o jantar no hotel, Íris recolheu ao quarto cansada e ainda em habituação com o fuso horário. Gabriel aproveitou a solidão no seu para fazer a sua pesquisa. Estava com curiosidade em saber quanto custaria arrendar um apartamento próximo da McGill. Descobriu que era uma pequena fortuna. E comprar um apartamento? Era outra fortuna.

Na lista de imóveis que viu, pertencente a uma conceituada multinacional imobiliária, Gabriel destacou um que lhe chamou a atenção. Era um apartamento com dois quartos, moderno, num edifício construído recentemente que não ficava muito longe do hotel e, pelo que vira no mapa, localizava-se a quinhentos metros da McGill.

Na manhã seguinte, a seguir ao pequeno-almoço, Gabriel pediu a Íris algum tempo antes de irem na sua viagem pelos subúrbios, uma vez que tinha de fazer uns telefonemas de trabalho. Ela pediu-lhe que não se demorasse e esperou-o no átrio do hotel.

No quarto, Gabriel ligou à agente imobiliária cuja foto acompanhava a promoção do imóvel. Falou com ela alguns minutos, apresentou uma proposta de compra e explicou como queria que tudo se processasse. Antes de descer, ligou a Matt para o alertar que iria receber um contrato de compra de um apartamento em Montreal e que deveria tratar de todos os assuntos processuais.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Íris aguardava-o impaciente. Sentada no sofá do amplo átrio, ficou intrigada com o ar sorridente dele ao aproximar-se.

— Não imaginas o que aconteceu. — começou ele. — Estava a falar com o... — Fez um gesto de que o nome não era importante. — Já fizemos alguns negócios juntos. É um amigo de longa data. — A mentira tinha pernas porque Íris desconhecia o facto de que Gabriel não tinha nem queria ter amigos. — Em conversa, acabei por lhe contar o que estava a fazer aqui. — Sorriu feliz. — Imagina tu que me disse que tem um apartamento em Montreal que não usa. Dispôs-se logo a emprestar-mo para ti. — Íris ficou boquiaberta. — Não queria receber nada, mas eu já sei como tu és, então combinámos um valor.

— Quanto? — Gabriel disse o valor. — Estás a gozar? Isso é menos que aquilo que cobram por um quarto nos subúrbios.

— Podes acreditar.

— Espero bem que não estejas a pagar...

— Achas? Daqui a pouco, estás a dizer que comprei um apartamento para tu viveres, Arco-íris.

— Isso também não.

Gabriel explicou-lhe que podiam ir ver o apartamento nessa tarde, uma vez que o amigo deixara a chave com uma senhora que vive lá perto e que estaria à espera deles.

— Fica perto dos transportes, Gabriel?

— Podes ir a pé para a McGill.

Íris ficou sem fala.

Foi a primeira de duas vezes que emudeceu naquele dia. A segunda foi quando foram ver o apartamento.

A senhora amiga do amigo de Gabriel parecia uma vendedora. Gabriel comentou que ela trabalhava numa correctora. Disse que não se podia demorar e deixou a chave com ele.

O prédio não tinha mais de dois anos e o apartamento localizava‑se no décimo quinto andar. Tinha uma vista fabulosa para a cidade, uma vista que começava logo na entrada. Não tinha propriamente um vestíbulo. Entrando em casa, ficava-se de frente para uma parede envidraçada que se alongava para o interior que funcionava em open space. Ao entrarem, viraram à esquerda para uma sala ampla com área de estar e refeições juntamente com a cozinha. Íris observava tudo à sua volta, incrédula e fascinada. O chão era de madeira, as paredes em tom pastel claro para intensificar a luminosidade exterior. Deram alguns passos pelo open space. Ela continuava muda, fascinada. Gabriel não tirava os olhos dela, esperando que se pronunciasse. Ela continuou a admirar tudo.

— Gostas? — perguntou ele.

— Adoro. — suspirou. — E mesmo que não gostasse, a distância a que está da McGill... Meu Deus, nem consigo acreditar como foi possível.

Ele sorriu.

— Há coincidências assim.

— Não sou muito de acreditar em coincidências...

— Então passa a acreditar.

O apartamento alongava-se no comprimento da parede envidraçada, terminando numa parede que deveria fazer fronteira com o condómino ao lado. No oposto aos vidros, o open space findava noutra parede, a qual escondia os dois quartos do apartamento. As portas eram pintadas num tom escuro para contrastar com a claridade do resto. Um pouco mais ao lado, entre a cozinha e os quartos, a única casa de banho do apartamento.

Íris abriu a porta de um dos quartos e espreitou. A seguir, repetiu o movimento no outro. Os quartos eram semelhantes, não muito grandes, o suficiente para dormir.

Todo o apartamento estava mobilado e cheirava a novo.

— O teu amigo nunca viveu aqui, pois não?

— Não faço ideia.

Íris aproximou-se dos vidros.

— Até assusta. — disse, olhando lá para baixo.

— Espero que não tenhas vertigens.

Ela continuou a observar a casa, fazia-lhe lembrar um andar modelo numa urbanização com apartamentos para vender.

— Vou querer agradecer pessoalmente a este teu amigo.

— É pouco provável. Vive em Los Angeles.

Foi o mais longe que lhe veio à cabeça.

— Então, telefono-lhe. Tens o número?

— Não é preciso. Já lhe agradeci em teu nome.

— Como é que lhe pago a renda?

— Pagas-me a mim e eu pago-lhe a ele.

— Gabriel! — chamou ela, intrigada. — Isto começa a não me cheirar bem.

— É por não estar habitado.

— Não é isso, Gabriel. Espero que não estejas a pagar a renda exorbitante que, se calhar, ele cobra.

— Acreditas em mim?

— Acredito.

Gabriel olhou-a nos olhos.

— Juro-te que não existe nenhuma renda para além do valor que te falei.

Íris não duvidou da sua palavra, mas questionou:

— Então porque não lhe pago directamente?

— Porque acordámos assim. E agora não lhe vou ligar para recombinar tudo.

Ela ficou a olhar para ele por uns momentos. Parecia duvidar de algo. Porém, avançou na direcção de Gabriel e abraçou-o com força.

— Não sei como te agradecer. Se não fosses tu...

— O apartamento não é meu. — mentiu. — Não tive nada a ver com...

— Não digas isso, Gabriel. — protestou, mantendo o abraço. — É graças a ti, seja directa ou indirectamente, é graças a ti que a minha vida no Canadá está a encaixar-se. — Afastou-se. Não mais que um passo. As amêndoas aterraram no rosto de Gabriel. — Nunca te poderei pagar tudo o que estás a fazer por mim.

— Não precisas de pagar, Arco-íris. Ver a tua felicidade é recompensa suficiente.

No resto da tarde, Gabriel e Íris passearam um pouco pela cidade. Ela revelava-se bastante feliz. Ter um sítio onde viver em Montreal passou a ser um peso a menos para si. Não foram com nenhum destino em especial, seguiram numa passada tranquila pelas ruas citadinas até à zona portuária, junto ao Grand Quai du Port de Montreal. Continuaram o passeio pela margem do rio São Lourenço, a tirar fotos e a conversar sobre nada em especial.

Jantaram num restaurante na Place Jacques Cartier, ao entardecer. Era um local com muitos turistas, muitas pessoas a circular em todas as direcções e muitos clientes para os restaurantes. A escolha poderia ter sido aleatória, mas a beleza da recepcionista de um deles chamou a atenção de Gabriel.

— É muito gira. — disse Íris, quando se sentaram à mesa que a jovem indicara, apontando com o rosto para a rapariga.

— Sim, muito bonita. — confirmou ele, notando que Íris estava tão atraída pela funcionária quanto ele.

Um minuto depois, um rapaz aproximou-se da mesa para apontar os pedidos. Gabriel pediu uma sugestão para a escolha do prato. O empregado debitou algumas hipóteses, dividindo a atenção entre ele e Íris. Ambos optaram pela mesma escolha.

— Posso fazer-te uma pergunta pessoal? — pediu Gabriel, quando voltaram a ficar sozinhos.

— Claro. Nem precisas de pedir.

— Mesmo que seja muito pessoal?

Íris encolheu os ombros.

— O mais que pode acontecer é eu não querer responder. E sei que não vais insistir.

Ele anuiu.

O rapaz regressou, trazendo uma garrafa de vinho tinto e dois copos de pé alto. Mostrou o rótulo, sacou a rolha do gargalo e verteu um pouco no copo de Gabriel para que este provasse. Após a aprovação, o funcionário encheu metade de cada copo.

— Estão? Qual era a pergunta? — indagou Íris, após o brinde que haviam feito a comemorar a nova casa dela.

— Como é que foi, quando descobriste a tua orientação sexual?

A pergunta inesperada não incomodou Íris.

— Acho que comecei a questionar-me sobre isso no início da puberdade, naquela altura em que sentimos o corpo a sofrer alterações, o aparecimento do período... Ouvia as minhas colegas e amigas na escola a falar de rapazes, paixões, atracções... E eu não encontrava isso em mim. Os rapazes não me diziam nada, até me irritavam.

— E falavas sobre isso com alguém?

— Sim, com a minha mãe. Nunca tive segredos para ela. Claro que não lhe disse "mãe, acho que sou lésbica". — Sorriu numa expressão reveladora de como vivia bem com a sua homossexualidade. — Ela dizia‑me que as coisas aconteciam a seu tempo e era uma idade em que temos tendência a sentir atracção por ambos os sexos. Mas, na verdade, eu não sentia nada por rapazes, enquanto algumas raparigas me deixavam o coração a palpitar. — Novo sorriso, meio envergonhado. — Um pouco como me senti há bocado com a menina que nos atendeu.

— É bem gira.

— Espero que não fiques chocado, mas acredita que se ela quisesse...

Gabriel riu-se encantado.

— Compreendo-te. Eu também a "fazia".

— Voltando à tua pergunta, Gabriel. Para te ser sincera, acho que sempre soube o que queria. Não sei se por nunca me ter cruzado com algum rapaz que me fizesse o coração ficar aos pulos ou porque... — Travou-se, quebrando o relato, hesitante. Encarou Gabriel com intensidade, procurando sentir-se segura para prosseguir. Encontrou nele uma confiança que nunca sentira com quase ninguém. — Eu namorei com um rapaz. Tinha catorze anos. Ele era bonito, eu gostava da companhia dele... Era um amigo, mas longe de me dar o que eu procuraria num namoro. Era desleixado, beijava-me como se me quisesse comer...

— Nessa idade, temos as hormonas ao rubro. Não duvido que te quisesse mesmo "comer".

— Pois... Mas, eu não queria, nem me sentia à vontade na intimidade com ele.

Nova interrupção para que o empregado colocasse os pratos defronte deles e lhes desejasse bom apetite.

— Só houve beijos e... amassos. — confessou com humor. — Mas, era tão pouco ou nada gratificante que acabámos por terminar o namoro no fim desse ano escolar. Acho que ninguém o lamentou. Pelo menos, eu não o lamentei.

— Calculo que, só por si, o fim do namoro não te tivesse levado a uma certeza da orientação sexual.

Íris abanou a cabeça.

— Quase. Porque, pelo menos, tomei a decisão de que não queria voltar a namorar. Ou melhor, não queria voltar a namorar com um rapaz. — Bebeu um pouco de vinho. — Comecei a aceitar que talvez gostasse sexualmente de mulheres. Tinha várias amigas, sempre fui muito sociável. — O seu rosto revelou-se envergonhado. — Um dia aconteceu com uma delas, talvez porque também andava com as mesmas dúvidas existenciais que eu. Enfim... Experimentámos. Era para ser só uns beijos, mas acabou por ser a primeira vez que fiz amor com uma rapariga. E foi fenomenal.

— Que idade tinhas?

— Dezasseis.

— E a partir daí, assumiste-o.

— Não andei a gritá-lo ao mundo. — refutou com um semblante torcido. — Mas, assumi-o para mim e contei aos meus pais.

— E eles?

— Apoiaram-me incondicionalmente, apesar que sei que o meu pai não aceitou tão bem quanto queria deixar transparecer. — O olhar ficou distante, como se recordasse. — Eu tinha muito mais proximidade com a minha mãe porque vivia com ela.

— Vivias com ela? E o teu pai?

Íris hesitou, encarando-o séria.

— Queres falar no assunto tabu?

Gabriel ficou curioso, mas o assunto "Olga" continuava a ser uma ferida aberta e falar nisso era como lhe deitar sal.

— Não. Querer não quero. Mas, fiquei curioso. O teu pai voltou a separar-se da tua mãe?

— Um ano depois de se terem reconciliado.

Gabriel ficou estupefacto, boquiaberto, estupidificado, revoltado.

— Nunca deixou de ser um pai presente. — continuou Íris. — Mas, não foi como antes. Sabes porquê, não sabes?

— Porque eu não estava lá?

Íris anuiu, revelando a tristeza que teria sentido nessa época.

— Bom, mas não vamos falar disso, Gabriel.

— Concordo, Arco-íris.

A refeição continuou com assuntos mais leves, essencialmente das expectativas de Íris em relação a Montreal.

No final, já noite, optaram por regressar ao hotel a pé, numa caminhada tranquila, a conversar e com a certeza inquestionável de que adoravam a companhia um do outro.

Quando estavam a chegar aos respectivos quartos de hotel, Íris despediu-se de Gabriel com um abraço. Porém, antes de lhe desejar uma boa noite, ela disse:

— Posso pedir-te um desejo?

— Bom... Há muito tempo que me demiti de génio da lâmpada. — alertou com humor procurando desanuviar a seriedade que ela revelava.

— Não brinques, Gabriel. Estou a falar a sério.

Houve um certo receio pelo desconhecido que era aquele pedido.

— Diz. Sabes que naquilo que te puder ajudar...

— Não é uma ajuda. Isso, tens-me dado de sobra. É algo mais... — Interrompeu-se, envergonhada. — Quero que me prometas que não nos voltaremos a afastar como aconteceu nos últimos quinze anos. Na altura, eu era uma criança sem voto na matéria. Agora, sou adulta e não te quero fora da minha vida. És um amigo muito importante para mim. Quero que saibas isso.

Íris entrava cada vez mais no seu mundo, era a representação mais real de uma amiga, a única com quem partilhava o conceito genuíno de amizade. Adorava-a, tanto ou mais como gostava dela em criança. Conviveram ao longo de dois anos, estiveram quinze sem se verem e, agora, após esse tempo, reencontraram-se três ou quatro dias antes e parecia nunca se ter separado.

— Juro-te pela minha vida que jamais serei eu a afastar-me.

Íris sorriu e tornou a abraçá-lo, ainda com mais força.

Despediram-se e cada um recolheu ao seu quarto.

IX

 

O dia da mudança definitiva de Íris para Montreal chegou.

Depois de regressarem a Toronto, ela não quis ficar mais que três dias. Gabriel não voltou a ter muito tempo para estar com ela, assoberbado pelos negócios que se multiplicavam devido aos fechos de calendários para contratações. Para além disso, Íris sentia que abusava da generosidade dele, mesmo que Gabriel insistisse em fazer-lhe sentir o contrário. Íris justificou a partida precoce com a ideia de que seria melhor ir‑se ambientando à nova cidade.

Naquela manhã, Gabriel acordou sem qualquer vontade de sair da cama. Sabia que Íris iria partir e deixaria de ter aquela presença sorridente e feliz no seu apartamento ou a fazer-lhe companhia quando chegava. O tempo lá fora também não ajudava, um manto acentuado de nuvens que cobria a região e dava ao lago um tom cinza-azulado. Lamentava aqueles dias... Não. Estava a ser estúpido, não os lamentava, tinham sido os seus melhores dias desde há muito tempo.

Pensou em Íris durante mais alguns minutos. Bolas, ela só lá estava há uma semana. Como se deixara agarrar assim? Íris não tinha culpa, não a podia recriminar por ser sua amiga, por ter entrado onde ele não devia ter deixado, mas deixara.

Quando saiu do quarto, já vestido com um dos seus fatos elegantes, encontrou Íris na cozinha a preparar o pequeno-almoço. Vestia uma camisola polar colorida e calças de ganga brancas. Para não variar, recebeu-o com um sorriso luminoso como o Sol. Como iria ele sobreviver sem aquele sorriso nos dias seguintes? Teve vontade de a agarrar e nunca mais a largar. Ela aproximou-se e ele não resistiu a abraçá-la.

— Bom dia, Gabriel! — cumprimentou, envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço.

— Olá, Arco-íris!

— Que se passa?

— Nada. Coisas que tenho para tratar. — mentiu.

Ela voltou ao balcão, estivera a fazer panquecas e empurrou um prato com duas para ele.

— A que horas partes?

— Por volta das onze.

Ele calou-se. Não tinha nada para dizer que não viesse mergulhado numa névoa de amargura. Na véspera, chegara a ponderar levá-la à Union Station e despedirem-se na entrada do comboio. Sim, ela quisera ir de comboio, mesmo depois de ele se oferecer para pagar a viagem de avião. Ir com ela para a estação só prolongaria a dor de a ver partir. Estava a ser estúpido. Que queria ele? Ela fizera escala ali, fizera escala na vida dele... Merda! Foda-se! Pela segunda vez, iriam afastar-se. A culpa era dele, fora Gabriel quem deixara que a presença de Íris se tivesse tornado tão intensa em tão pouco tempo.

— Vou ter saudades tuas. — confessou ela com ternura.

Não! Não digas isso. Não fales em saudades!

Gabriel engoliu em seco e disfarçou o melhor que conseguiu.

— Também vou ter saudades tuas, Íris.

Ela notou a tristeza nele, mas teve medo de abordar o assunto. Íris também lamentava. Num mundo perfeito, ele vivia em Montreal ou ela teria vindo estudar para uma Universidade em Toronto. Mas, a vida era imperfeita.

— Como vais para a estação?

— Chamo um Uber.

Gabriel abanou a cabeça.

— Eu peço ao Francis que te mande o motorista que te trouxe do aeroporto.

— Não é preciso, Gabriel.

— Eu insisto.

Íris acabou por concordar e disse:

— Depois deixo a chave no balcão.

Gabriel dera-lhe uma chave do seu apartamento para que ela entrasse e saísse na sua ausência.

— Fica com ela. Aquele quarto é teu, sempre que quiseres vir até cá. — Forçou um sorriso. — Obrigado por estes dias.

As amêndoas olhavam-no com um carinho extremo e Gabriel percebeu que estavam a humedecer. Não quis prolongar mais a despedida.

— Tenho de ir, Arco-íris.

Íris voltou a abraçá-lo.

— Gosto muito de ti, Gabriel.

— Também gosto muito de ti.

Afastaram-se.

— Vai dando notícias.

— Claro.

— E quando chegares.

— Combinado.

Gabriel deu-lhe um beijo sentido na face e abandonou o apartamento sem olhar para trás.

Não memorizou qualquer pormenor da viagem de carro entre o seu prédio e o Bay-Adelaide. Ao chegar ao escritório, incumbiu Francis de tratar do transporte de Íris. Entrou no gabinete, despenhou-se na cadeira e ficou com o olhar vago perdido na paisagem de edifícios para lá das enormes paredes envidraçadas.

A paz durou cinco minutos até o seu telemóvel tocar, o trabalho chamava-o. Funcionou como um analgésico à dor que sentia, um calmante para a angústia, um distrair da solidão que já marcara viagem para regressar à sua vida.

O seu ritmo de trabalho só abrandou com a notificação de uma mensagem no WhatsApp a meio da manhã.

"Já estou no comboio. Ligo quando chegar."

Ele escreveu em resposta:

"Faz bom viagem, Arco-íris"

Quem lhe dera que houvesse uma avaria no comboio, um contratempo que a impedisse de partir. Recriminou-se por continuar a desejar o impossível. Qualquer atraso dela em ir para Montreal só adiaria a dor. Já sabia que iria sofrer, por isso, quanto mais depressa abrisse a ferida, mais depressa de adaptaria e a deixaria cicatrizar.

Recusou um almoço de negócios com um director dos Maple Leafs. Nem sequer almoçou, não tinha fome, o estômago permanecia embrulhado. Francis ofereceu-se para lhe trazer algo, mas ele também recusou.

A azáfama no seu gabinete abrandou ao início da tarde, por poucos minutos, o que o levou de novo a pensar em Íris. Ela não dissera mais nada. Observou o relógio e calculou que estaria quase a meio da viagem. O resto da tarde decorreu ao ritmo da manhã. Quando deu por si, Gabriel viu que àquela hora Íris já deveria ter chegado a Montreal. Contudo, não dissera nada.

A claridade exterior foi diminuindo, trazendo o crepúsculo e as luzes da cidade lá em baixo. Gabriel terminou um telefonema com um representante dos Los Angeles Lakers por causa de um basquetebolista seu agenciado que estava em fim de contrato com os Golden State Warriors, onde ficaram definidas as linhas gerais de uma proposta para apresentar ao jogador.

Francis passou pelo gabinete, informando que se ia embora. Eram quase sete e meia e Íris continuava a não dar notícias. Ficou preocupado, mas não quis ter a iniciativa de lhe ligar ou enviar uma mensagem. Talvez a viagem a tivesse feito esquecê-lo, talvez agora que estava longe, ele já não fosse assim tão importante.

Já nada tinha a fazer no seu escritório no Bay-Adelaide, mas a vontade de ir para casa era menos que nula. Sabia o que ia encontrar, um apartamento vazio imerso em solidão. Sabia o que não ia encontrar, um sorriso caloroso, um abraço e companhia.

Espreitou o ecrã do telemóvel. Podia não ter ouvido a chamada. Nada, não havia qualquer registo de uma tentativa de telefonema dela. Viu os sms. Nada. Abriu o WhatsApp. Ela estivera online duas horas antes, já depois da hora prevista de chegada a Montreal. Para ele, não houve qualquer mensagem. Se calhar, era a forma que ela encontrara para não sofrerem com a distância.

Quando ganhou finalmente coragem, desceu ao parque subterrâneo onde estacionava o Ferrari e regressou a casa.

A surpresa atingiu-o ao entrar no apartamento. A luz da sala estava acesa. Seria possível?

— Íris! — chamou ao fechar a porta. — Íris!

Não conseguiu controlar a esperança de que algo tivesse acontecido e a tivesse obrigado a voltar para trás. Com a esperança, uma alegria ingénua, quase uma criancice, procurava explodir nele, enquanto avançava pelo apartamento.

— Íris! — continuou a chamar sem ver ninguém. Aproximou-se da porta aberta do quarto onde ela dormira. — Íris?

Vazio. Não estava ninguém no apartamento. Sem ter essa intenção, Íris deveria ter tocado no interruptor da luz ou acendeu-a e esquecera-se de a desligar.

Aquela vaga esperança rasgara-lhe o peito. Gabriel despenhou-se no sofá, mergulhado na tristeza. Foi quando o seu telemóvel tocou.

— Olá, Gabriel! — disse a voz, quando ele atendeu.

— Olá, Íris. — retribuiu, disfarçando a mágoa. — Já estava a ficar preocupado.

— Desculpa! Só agora parei. Era para te mandar uma mensagem quando o comboio chegou, mas depois...

— Não faz mal, Íris.

— Sabes como é, a confusão de todas as pessoas a procurar as suas bagagens, tudo em fila para sair...

— Correu bem, a viagem?

— Foi tranquila. Menos cansativa que aquilo que esperava. Foi muito confortável, nem dei pelo tempo passar.

— Já estás em casa?

— Sim. Apanhei um Uber da estação até aqui. Depois, fiquei sem bateria no telemóvel. Acabei por deixá-lo a carregar aqui em casa e fui às compras. Cheguei há pouco. Assim que o liguei, a primeira coisa que fiz foi telefonar-te.

— Estás confortável? O apartamento...

— É tudo maravilhoso, Gabriel. Graças a ti.

— Graças ao meu amigo.

Calaram-se sem saber o que dizer. Ouviram a respiração um do outro.

— Agora é uma questão de hábito. — disse ela num tom sentido. Sim, agora era uma questão de hábito. No caso de Gabriel, uma questão de reabituar-se ao vazio. — É a primeira vez que vivo sozinha.

— Primeiro estranha-se e depois entranha-se. — replicou Gabriel.

— Sim... Mas... Não quero habituar-me a isso. Não nasci para estar sozinha.

E eu nasci, não? Foi o que passou na mente de Gabriel.

— É temporário. Vais ficar... quanto tempo?

— Em princípio, um ano. — informou. A sua voz doce revelava-se tranquila. — Depois, depende. Posso ficar mais algum tempo ou regresso a Portugal.

Gabriel queria continuar ao telefone com ela. Se pudesse, manteria aquela chamada por tempo indeterminado. Contudo, sabia que isso só o amarguraria mais, por isso...

— Ainda bem que fizeste boa viagem e já estás instalada.

Íris percebeu a despedida na voz dele.

— Sim. Vou descansar e deixar-te descansar.

— Ok, Arco-íris. Vai dando notícias.

— Combinado, Gabriel. E olha!

— Sim?

— Gosto muito de ti.

— E eu de ti, Arco-íris.

O fim da chamada abriu ainda mais o vazio que se respirava no apartamento. Gabriel olhou em volta, tudo parecia triste. Lá fora, a noite caíra por completo. Deveria comer qualquer coisa, mas não tinha fome. Levantou-se do sofá e passou pela cozinha. Viu o prato sobre o balcão, coberto com um pano, com as panquecas que haviam sobrado do pequeno‑almoço. Pegou numa e mordiscou-a.

Ponderou a hipótese de ligar para um dos dez nomes e evitar a solidão da noite. Nem era pelo sexo, na verdade nem sentia vontade disso. Desistiu da ideia.

Levou a panqueca ratada consigo e retornou ao sofá, acomodando‑se defronte da televisão. Ligou o ecrã no canal de desporto para ver um jogo da pré-temporada de hóquei. Ele adorava aquele desporto. O interesse foi efémero, não mais que trinta segundos.

Voltou a segurar no telemóvel. Não ia ligar a ninguém, nem mandar qualquer mensagem. Abriu o ícone de acesso à galeria de fotos, às inúmeras tiradas com Íris naquela sua breve passagem por ali, pela sua vida, e deixou-se envolver em recordações, como quem folheia um álbum de fotografias.

Não tinha dúvidas que era um erro, só lhe faria mal contemplar as fotos, as gravações dos momentos alegres. Custava a acreditar que tudo aquilo se resumia a menos de uma semana juntos. Aquilo era mau para o seu organismo, para o seu espírito, para o seu coração. Porém, ele agarrava-se às recordações como um drogado ressacado se injecta a jurar que será a última vez, vendo nisso um remédio envenenado para atenuar a dor.

A solidão consumia-o. Vinha a consumi-lo há já algum tempo. Fora o caminho que escolhera, afastar tudo e todos de si. Só que a angústia doía mais e mais a cada ano, a cada mês, a cada semana, a cada dia... a cada hora. Phil alertara-o para o risco de cair numa depressão. Gabriel recusava‑se a encarar esse cenário.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Pois... Só que ele não encontrava o remédio para a cura, daí que o dinheiro de pouco valesse, se a saúde o abandonasse como todos os que o abandonaram ou ele abandonou.

Sozinho... Sozinho parecia ser a palavra que a sua mente mais visualizava. Sozinho, ergueu-se do sofá para se prostrar à janela a admirar a noite. Que poderia ainda esperar da vida? Tinha quase cinquenta anos, completá-los-ia em breve. Valeria a pena continuar?

Olhou para as garrafas de whisky. Poderia beber até atingir um coma alcoólico. Seria uma forma calma de partir, de soltar-se da angústia, de sorrir para a solidão e dizer "não me apanhaste".

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Gabriel poderia comprar quase tudo o que quisesse. Só que a felicidade não se compra, adquire-se por... Como é que se adquire felicidade, Gabriel? Bom, a extemporânea consegue-se com uma chamada telefónica e um maço de notas. Mas, seria assim que ele queria envelhecer? Só? A comprar amor... Ou já só a comprar companhia?

Segurou a garrafa de whisky. Encheu um copo quase até ao topo. Decidiu-se a beber de uma só vez, mas desistiu ao primeiro golo. Afinal, és um cobarde, Gabriel. Podes colocar um fim a tudo de forma indolor e preferes sofrer.

Caminhou lentamente para o átrio dos quartos com o copo na mão. Parou na porta daquele que fora de Íris. Acendeu a luz e olhou para a divisão desabitada da sua hóspede. Pára de pensar nela, estúpido. É uma miúda ao teu lado. É uma miúda, mas fora a sua companhia, a razão dos seus sorrisos. Apagou a luz e recolheu ao seu quarto, bebendo mais um pouco do líquido caro.

Junto da cama, depositou o copo na cabeceira. Despiu a roupa e enfiou-se na cama, sentado a olhar para o negrume do céu visível pela janela do quarto. Terminou o whisky. Escorregou na cama, desligou a luz e aceitou o seu destino solitário.

X

 

Íris adaptou-se melhor a Montreal que aquilo que esperava. A mudança para um lugar novo é sempre complicada, mas ela era uma presença cativante que atraía a simpatia dos outros. Para além disso, as pessoas também eram muito simpáticas, dando a Íris a percepção do povo canadiano como sendo afável e hospitaleiro. Talvez a parte mais difícil da sua adaptação tenha sido a vida solitária no apartamento alugado ao amigo de Gabriel. Íris não tinha apetência para estar sozinha, habituada a estar rodeada de pessoas desde pequena. Mesmo a viver com uma mãe divorciada, havia sempre amigos e amigas lá em casa. Curioso que, após a segunda separação dos pais, Íris não voltou a conhecer nenhum namorado da mãe, apesar de saber que a mãe tinha uma vida íntima activa. Gabriel fora o único namorado da mãe que Íris conhecera. Talvez Olga tivesse percebido como ela sofrera com o afastamento dele e tivesse optado por nunca mais deixar que outro namorado criasse laços com a filha.

Íris falava com a mãe todos os dias por telefone. Chamadas rápidas por causa do roaming, mas não falhava um dia. Mãe e filha nunca haviam estado tanto tempo e tão longe uma da outra. Íris gostava de ter a mesma relação com Gabriel, ligar-lhe todos os dias, mas... Fizera-o na primeira semana, todas as noites lhe ligava para contar o seu dia e saber do dele. Gabriel mostrou-se sempre distante, ouvia-a paciente e era vago no seu relato, sem adiantar muita coisa. Íris falhou uma primeira noite propositadamente para ver se ele lhe ligava. Ele não ligou. Por causa disso, foi aumentando os intervalos dos telefonemas e mandava-lhe mensagens. Ele atendeu-a sempre e respondeu a todas as mensagens. Contudo, Íris sentia que se não o contactasse, ele também não a contactava. Calculou que estivesse muito ocupado com a sua vida, fosse profissional ou pessoal, desconhecendo que não existia nada na segunda.

Como forma de partilhar a sua vida no Canadá com os amigos e família em Portugal, Íris tinha uma conta no Instagram, onde publicava muitas fotos da sua vida "in the other side of the ocean".

Na Universidade, a vida de Íris também corria sobre rodas. Desde o primeiro dia lá que se sentia uma criatura exótica, uma vez que para o povo da América do Norte, os europeus são umas criaturas fascinantes e curiosas. Íris juntava ao facto de vir do lado oposto do Atlântico, o facto de ser de um país que a maior parte não sabia onde ficava e alguns tentavam adivinhar com as sugestões mais absurdas como Portugal ficar em África ou no Pacífico. A curiosidade que despertava nos colegas, a juntar à sua beleza e simpatia, tornavam-na deveras cativante, daí que tivesse uma excelente relação com todos e o seu grupo de amigos fosse aumentando facilmente. Claro que a sua personalidade e imagem despertavam paixões nos rapazes, mas Íris sabia declinar com cortesia esses interesses. E não partilhou com ninguém a sua orientação sexual, seguindo aquilo que, um dia, Gabriel lhe dissera, "ninguém tem nada com a tua vida íntima e privada".

O avançar do Outono trouxe o frio, mais dias de chuva, mais manhãs e tardes de céu cinzento. Íris criara as suas rotinas diárias, de casa para as aulas, das aulas para casa. Por vezes, fazia o trajecto até à McGill pela rua, mesmo tendo a ligação pelo Path entre ambas, para sentir aquele friozinho gostoso. Ia às compras, combinava cafés com os amigos, participava em actividades com os colegas.

Não convidava ninguém para sua casa, o apartamento era o seu porto de abrigo e tinha enorme receio que algo pudesse estragar-se ou ficar danificado durante a sua estadia. Também evitava dizer onde vivia para que isso não lhe trouxesse uma etiqueta de miúda rica ou herdeira de alguma fortuna lá na Europa. Não mentia em relação a isso, apenas omitia. Se o assunto viesse à baila, dizia a verdade e contava a história do amigo que fora namorado da mãe em Portugal, há muitos anos, que por sua vez vivia em Toronto e tinha um amigo que era dono da casa que ela alugara por um preço à medida da amizade entre o desconhecido e Gabriel.

Íris estava feliz em Montreal. Só não seria uma felicidade plena porque tinha a mãe e os amigos portugueses longe. E porque Gabriel parecia estar a afastar-se progressivamente...

Cerca de dois meses passados, aconteceu algo que balançou a sua vida. Íris deparou-se com um dos seus maiores receios.

Apesar de muito sociável, Íris só ia a festas esporadicamente, não era algo que lhe despertasse muito interesse e, sendo predominantemente à noite, ela preferia ficar por casa.

Naquela noite de Novembro, Íris acompanhou o seu grupo de amigos a uma festa organizada num edifício da McGill pelos estudantes. Era um evento de confraternização, longe daquelas festas malucas a que ela se habituara a ver nos filmes, em miúda, cenas de jovens americanos afogados em álcool e sexo. Não tinha nada a ver.

O espaço amplo do pavilhão universitário recebeu muitas dezenas, talvez centenas, de jovens que se reuniram para ouvir música e conversar. O grupo de Íris era composto por rapazes e raparigas, todos seus colegas de curso. Ela segurava um copo de cerveja para ir molhando a garganta aos poucos, enquanto conversava. A música ecoava pelo espaço num volume ambiente que não impedia os diálogos. No grupo dela, falava-se das aulas e de alguns mexericos que algumas amigas gostavam de comentar. Íris ouvia mais do que falava e nunca se pronunciava sobre boatos, uma vez que também não gostava que os lançassem sobre si.

A noite ia avançada quando aconteceu. Vagueando com o olhar pelo salão, as amêndoas encontraram uma rapariga. Íris não soube explicar, mas ficou imediatamente aprisionada àquela imagem. Não a conhecia, aliás, não se lembrava de alguma vez a ter visto. Estava rodeada por rapazes e algumas raparigas e parecia ser o centro das atenções. Íris nem se deu conta que não tirou os olhos dela durante muito tempo, analisando-a. A desconhecida era uma jovem de cabelos louros encaracolados que emolduravam um rosto muito expressivo. Não era muito alta, vestia uma camisola de lã grená com gola a cobrir o pescoço, uma minissaia em tons escuros e meias grossas de lã que lhe cobriam totalmente as pernas esguias. Calçava uns botins de salto alto, era toda curvilínea e Íris sentiu-se imediatamente atraída por ela.

— Quem é? — perguntou à amiga mais próxima de si.

A outra encolheu os ombros, desconhecendo a identidade.

No entanto, um dos rapazes do grupo disse:

— É a Ashley. É aluna de Anatomia e Biologia Celular.

— Conheces? — questionou Íris, curiosa.

O colega confirmou:

— Conheço o namorado, aquele rapaz louro que está ao lado dela. — informou, indicando sem apontar, um jovem alto atlético que estava junto dela.

A informação decepcionou Íris.

Sem lhe passar minimamente pela cabeça o teor do interesse de Íris, ele continuou:

— A Ashley é inglesa. Veio estudar para Montreal há um ano e ingressou na equipa universitária de natação sincronizada.

Natação sincronizada. Íris sorriu distraidamente, sempre gostara de ver as provas olímpicas de natação sincronizada com nadadoras lindas.

O namorado de Ashley reconheceu o amigo de Íris e decidiu aproximar-se para o cumprimentar, vindo de mão dada com Ashley. Íris sentiu o coração a palpitar com força. Os rapazes cumprimentaram-se, ao mesmo tempo que os olhares de Íris e Ashley se cruzaram.

Íris não conseguiu desviar a atenção de Ashley, analisando-a. A inglesa tinha um rosto simpático, olhos azuis sobre uma bochechas proeminentes resultantes de quem estava sempre a sorrir. Nariz singelo, queixo angular e uma boca bem delineada que, naquele serão, tinha os lábios pintados de vermelho-escuro. Íris sentiu um desejo obsceno de a beijar.

O rapaz que dera as informações a Íris olhou para ambas e disse:

— A Íris estava agora a perguntar se te conhecia. — Íris desejou ter um buraco para se enfiar, envergonhada por ele dizer aquilo. Por seu lado, Ashley abriu ainda mais o sorriso para Íris. — Estava a contar-lhe que és nadadora.

— Olá! Eu sou a Ashley. — apresentou-se afável, estendendo-lhe a mão.

Íris apertou-a, controlando o choque eléctrico na espinha ao sentir o toque da pele da outra.

— Eu sou a Íris.

— A Íris veio da Europa, como tu. — continuou o colega desprovido de tacto.

— A sério? Donde?

— Portugal.

Ashley fez uma expressão de surpresa exagerada que Íris interpretou como brincadeira.

— Os nossos mais antigos aliados.

Íris ficou encantada, para além de linda era inteligente.

— Aliados? — questionou o namorado.

Ashley fez um gesto a desvalorizar, como se tivesse dito uma piada que só elas entenderiam.

O namorado apresentou-se a Íris. Ela retribuiu o cumprimento, mas não fixou o nome dele, era irrelevante.

Para surpresa e satisfação de Íris, o casal deixou-se ficar à conversa no grupo. O namorado de Ashley começou a falar com o amigo sobre algo do curso, enquanto os outros permaneciam nos seus assuntos. Ashley aproximou-se de Íris e tocou-lhe o braço gentilmente.

— Que estudas?

— Microbiologia e Imunologia.

Ashley pareceu impressionada.

— Anatomia e Biologia Celular. — retorquiu, apontando para si. — Vieste de Portugal há muito tempo?

— No fim do Verão. E tu?

— Há cerca de ano e meio.

Ficaram a olhar uma para outra. Ashley encarava-a com um semblante interessado, mas pareciam não ter assunto. Íris receou que a outra mudasse a sua atenção para outra pessoa, por isso, atirou-se ao primeiro assunto que lhe veio à cabeça.

— Fazes natação sincronizada?

— Sim. Na equipa da universidade. Gostas?

De ti? Bastaria uma palavra tua e podias fazer de mim o que quisesses.

— Sim... — respondeu, meio engasgada, tentando afastar as fantasias. — Costumava ver na televisão, na altura dos Jogos Olímpicos. Infelizmente não passava muito na televisão, para além disso.

Ashley anuiu, como se a realidade fosse semelhante no país dela.

— Gostavas de assistir a um treino?

Se gostava de te ver em fato-de-banho?

— Sim, claro.

O sorriso de Ashley foi ainda mais cativante.

— Pareces ser porreira, Íris.

Íris adorou ouvir o seu nome na voz dela, algo que soava a "Háiresse". Ficou envergonhada com o elogio e não foi capaz de dizer nada.

Nesse instante, o namorado chamou-a e o casal despediu-se do grupo, afastando-se e desaparecendo no meio da massa estudantil.

O resto da noite foi sensaborão para Íris. Não conseguiu dar atenção a mais nada, nem tirar Ashley da cabeça. A despedida fora tão súbita que nem trocaram contactos para combinar a ida aos treinos da outra. Sendo assim, o mais certo seria Ashley não passar de um rosto bonito... um rosto lindo, que se cruzara uma noite com ela e que Íris nunca mais veria, mesmo estudando ambas no complexo universitário da McGill.

Íris recusava-se a aceitá-lo, mas guardava o desejo secreto de se voltar a cruzar com Ashley na Universidade. O que não aconteceu... até início de Dezembro.

O clima em Montreal era cada vez mais frio e quem lá vivia comentava que não faltaria muito para nevar na cidade. Íris nunca enfrentara temperaturas tão baixas, mas tinha a vantagem de viver num apartamento que, tal como todas as construções da cidade, era pensado para o clima agreste. Para além disso, o Path dava-lhe cobertura para as deslocações.

Naquela tarde, Íris fora à biblioteca depois das aulas para procurar um livro sobre a matéria que estava a estudar. Poderia ficar por ali, mas preferiu requisitar o livro e ir para o seu apartamento. Ao sair do edifício, ouviu uma voz chamar:

— Íris! Íris?

Curiosa, virou-se na direcção da voz e viu Ashley a chamá-la. O seu coração duplicou os batimentos e parecia ir explodir-lhe do peito.

— Olá, Íris! — cumprimentou Ashley, aproximando-se vinda do edifício adjacente.

 Íris ficou tão surpresa e encantada que nem conseguiu falar. Ashley pensou que ela não se lembrasse dela.

— Sou eu, a Ashley. Lembras-te? Na outra noite...

— Sim, claro. — Claro que se lembrava, Ashley não lhe saíra da cabeça desde então. — Por aqui?

— Também cá estudo. — ripostou com um sorriso torcido.

Sem que o esperasse, Íris viu-se envolvida num abraço.

— Sim, claro, que parvoíce...

Ashley ofereceu-lhe um sorriso radioso, estava sempre a sorrir e tinha uma alegria contagiante. Vinha enfiada num sobretudo almofadado que a cobria da cabeça aos pés e a cabeça tinha um gorro colorido por onde escapavam várias madeixas de cabelo louro.

Íris apontou para a biblioteca e, sem que lho tivessem perguntado, disse:

— Vim requisitar um livro para estudar.

— Queres ir beber qualquer coisa quente? — convidou Ashley, como se nem a tivesse ouvido.

Íris aceitou com entusiasmo.

— Sim, podemos ir.

Foram até ao bar da biblioteca, um sítio tranquilo para conversar um pouco. Escolheram uma mesa entre as muitas vagas. Íris despiu o blusão de Inverno e pendurou-o nas costas da cadeira, enquanto Ashley tirou o sobretudo, dobrou-o e colocou-o na cadeira a seu lado. Íris disfarçou o interesse com que a observava, vendo a camisola de lã de gola alta que se ajustava ao corpo atlético da outra, as leggings grossas que se colavam às pernas e as botas de cano alto.

— Que queres beber? — indagou, tirando o gorro e passando os dedos pelo cabelo para se pentear.

— Um chocolate quente. — respondeu Íris, fascinada com a sensualidade da outra.

Ashley afastou-se em direcção ao balcão para fazer o pedido. Íris ficou sentada, olhando para a sua roupa, a camisola quente e as calças de Inverno, confirmando se estava bem arranjada. Reparou que ainda tinha o seu gorro Nike na cabeça e puxou-o com uma mão, penteando-se com a outra. Questionou-se se a inglesa a acharia bonita.

Ashley regressou sorridente e sentou-se na cadeira defronte de Íris, depositando os copos de chocolate quente na mesa.

— Duas europeias no Canadá. — disse sem razão aparente. — Estás a gostar de Montreal?

— Sim. E tu?

Ashley assentiu.

— O que te fez vir para o Canadá estudar?

— Tinha o sonho de estudar na McGill, enriquecer o meu curso.

— Vieste sozinha?

— Sim.

— Eu também.

— Como é que foi, Ashley? Vir viver para um país estranho?

Ashley pareceu ponderar a questão, olhando para o lado, recordando.

— Não foi fácil. Aliás, confesso que tive dificuldade em me adaptar. Além disso, sempre me chateou um pouco a forma como olham para os europeus. Não sei se acontece o mesmo contigo, mas comigo, principalmente junto da malta dos Estados Unidos, sinto-me um papagaio numa loja de animais.

Íris soltou uma gargalhada.

— Desculpa...

— Não peças desculpa. — recusou Ashley com uma expressão afectuosa. — Gosto da tua gargalhada. Acho vou tentar fazer-te sorrir mais vezes.

O comentário deixou Íris envergonhada. Porém, disfarçou, dizendo:

— Eu noto que as pessoas ficam meio confusas, quando digo que venho de Portugal. Algumas nem sabem onde é. Mas... Ainda não me senti um animal exótico.

— Vives nalguma residencial estudantil? — perguntou a inglesa. Só que não a deixou responder. — Desculpa, estou só a fazer perguntas, deves achar-me uma coscuvilheira.

— Não, não acho. E não me importo que faças perguntas. — confidenciou Íris, desejando que ela tivesse um rol infinito de perguntas para que aquele momento não tivesse fim. — Não vivo muito longe daqui, num apartamento de um amigo de um amigo.

— Amigo de um amigo? — repetiu Ashley curiosa.

— Sim, é uma longa história.

— Eu tenho tempo, Íris. A menos que estejas com pressa.

Não, Íris não tinha pressa. Por ela, só sairia dali quando as galinhas tivessem dentes.

— Tenho um amigo que vive em Toronto.

Amigo. — Ashley fez uma expressão cúmplice, subentendendo que o amigo de Íris seria um namorado.

Íris percebeu e apressou-se a explicar:

— É mesmo um amigo, Ashley. Foi namorado da minha mãe quando eu era miúda. Mudou-se para o Canadá há vários anos. E agora ajudou-me a organizar a minha vinda. Ele tem um amigo que é dono do apartamento onde vivo e que, em atenção a esse ex da minha mãe, me cobra uma renda que eu posso pagar.

Ashley não duvidou da história.

— Quem me dera ter essa sorte. Eu vivo numa residência de estudantes no outro lado da cidade, perto do rio Prairies. É a cerca de uma hora de transportes públicos daqui.

— Não vives com o teu namorado?

A pergunta foi feita por impulso, sem pensar. Íris arrependeu-se, mal a fez. Ashley não estranhou e respondeu com naturalidade:

— Ele também vive longe, a norte de Montreal. Mas, tem a vantagem de ter carro. Mesmo assim, ainda não estamos numa fase da relação em que queira viver com ele.

— Ele é de cá?

— Nascido e criado no Quebec.

Ashley bebeu um pouco do chocolate quente. Íris copiou o seu movimento, mantendo os olhos nela.

— E tu? Tens namorado, Íris?

— Não.

— Algum potencial candidato? — insistiu a inglesa num tom cúmplice.

Sim. Tu!

— Não, não estou muito virada para relacionamentos. Vim para estudar.

— Eu também vim para estudar. Isso não impede que uma rapariga não se divirta.

— Não está nos meus planos.

— Deixaste alguém em Portugal, é isso?

— Não. Só a família e os amigos. — Ashley anuiu, como se estivesse com a curiosidade satisfeita.

— A família é o mais difícil. — acabou por dizer a inglesa. — Custa-me estar longe dos meus pais, dos meus avós e dos meus irmãos.

— Para mim também não é fácil estar longe da minha mãe.

— Não tens mais família?

— O meu pai. Mas, não somos tão próximos. Os meus pais divorciaram-se há muitos anos.

— O tal amigo de Toronto?

— Mais ou menos. Essa história é mais longa.

— Talvez ma possas contar noutro dia.

— Sim, se quiseres repetir o chocolate quente.

— Óbvio que sim. És a única amiga europeia que tenho.

— Somos amigas? — questionou Íris feliz num tom provocador.

— Só se não quiseres. — ripostou Ashley.

— Seria parva, se não quisesse ser amiga de alguém tão... — Ia a dizer linda, mas... — ...tão bem-disposta e animada.

— Ainda bem que estamos em sintonia. — congratulou-se Ashley, pegando no telemóvel. — Diz-me o teu número. — Íris debitou o seu contacto. — Tens Instagram?

Íris confirmou e disse-lhe qual era. O seu telemóvel tocou.

— É o meu número, Íris. — Fez uma pausa com atenção no ecrã do aparelho. — E já te estou a seguir no Instagram. Se também me quiseres seguir...

Terminaram o chocolate quente. Íris quis pagar, mas Ashley recusou.

— Pagas na próxima.

Levantaram-se das cadeiras, vestiram os casacos e cobriram as cabeças com os gorros. Caminharam juntas para o exterior. Na rua, os seus destinos tinham direcções opostas, Íris iria entrar num acesso ao Path, enquanto Ashley tomaria outra entrada do Path que a levaria à estação onde apanharia o transporte para o outro lado da cidade.

— Gostei muito deste bocado, Íris. — confessou Ashley em despedida.

— Eu também.

Ashley abraçou-a com amizade e ambas se uniram num abraço forte. Íris adorou o cheiro do cabelo da outra, quando este lhe tocou no rosto.

Nessa noite, no sossego e paz do seu apartamento, Íris foi ver o Instagram de Ashley e clicar em "seguir". Depois, deixou-se ficar a ver as fotos, encantada.

Ashley tinha um Instagram com imensas fotos suas. Notava-se que era uma rapariga muito orgulhosa de si, havia imensas fotos dela com roupas sensuais, em biquíni e até mesmo em topless, se bem que devidamente censuradas para não ter problemas com a rede social que tinha regras muito específicas em relação a nudez. Não viu o namorado em nenhuma das mais "quentes", apenas naquelas em que estava com amigos. Íris fixou-se muito tempo nas fotos sem roupa, encantada, apaixonada, sentindo-se muito atraída pela inglesa. Ashley tinha um corpo tonificado, os braços e as pernas tinham os músculos sensualmente salientes, o rabo curvilíneo e os seios firmes. Íris achava-a linda em todas as fotos, desde os momentos partilhados com amigos, às expressões estremunhadas de quem decide tirar uma selfie ao acordar, ao ar feliz numa praia, ao sorriso provocador a olhar para trás com as costas nuas.

Íris não tinha qualquer dúvida que estava apaixonada, mas teria de saber lidar com esse amor não correspondido.

XI

 

Gabriel continuava na sua luta interior contra a angústia, a solidão e a vontade férrea de não deixar ninguém entrar na sua vida pessoal. Desde que Íris partira para Montreal que o sorriso nunca mais lhe voltara ao rosto, excepto nas vezes em que sorria hipocritamente numa reunião de negócios. A amizade com ela também esfriara para níveis quase polares, uma vez que sentiu que ela se afastava e nada fez para o travar. A última vez que falara ao telemóvel com Íris fora quase um mês antes e a última mensagem talvez há mais de uma semana. Tinha saudades dela, uma saudade tão dilacerante como cortar um dedo com uma faca de cozinha. Não a queria perder, mas também não queria que ela retornasse à sua vida, como acontecera no pequeno período que estivera em Toronto. Decidiu fazer algo em relação a isso e escreveu-lhe um email.

 

"Olá Arco-íris,

Como estás? Desculpa andar tão ausente, não quero que penses que estás esquecida, só que os dias passam a voar... Espero que continue tudo a correr bem contigo e a vida em Montreal seja tudo o que ambicionas. Fica descansada que tenho transferido religiosamente o dinheiro da renda que mandas para o meu amigo. Se precisares de alguma coisa, sabes onde me encontrar, seja o que for. Quando puderes, dá notícias, pode ser por email. Beijinhos. Gabriel"

 

Chovia abundantemente na cidade, no lago Ontário, em todo o lado que a sua vista alcançava da parede envidraçada da sala que dava acesso à varanda larga. Terminara o jantar que comprara antes de vir para casa e deixara a louça suja na máquina.

O fim do ano estava a chegar, a primeira quinzena de Dezembro ia a meio. O passar dos dias tinham reconstruído a sua carapaça de segurança em relação à Humanidade e a solidão era combatida a espaços, como dantes, com um telefonema e a visita de um dos nomes da lista de dez. Naquela noite não quisera companhia, queria apenas descansar, mesmo que a vida não estivesse tão stressante de trabalho como no fim do Verão e o início do Outono.

Ligou a máquina de lavar louça, a qual já tinha pratos, copos e talheres de vários dias. Depois, sentou-se no sofá para ver na televisão o jogo de hóquei entre os Maple Leafs e os Kings em Los Angeles.

O jogo estava a correr bem aos de Toronto e Tiivu até já tinha marcado dois golos. No primeiro intervalo, o telemóvel tocou.

— Espero não estar a incomodar, Gabriel. Escolhi o intervalo para ligar.

— Olá Rachel!

— Como estás, Gabriel?

— Bem. E tu?

— Também. — Riu-se. — Há espera que me ligues.

— Fiquei de te ligar?

— Sabes ao que me refiro.

— Rachel...

— Estou a brincar, Gabriel. Não estou a cobrar. — afirmou num tom mais sério. — Estou a ligar-te porque tenho uma notícia para ti. Aliás, é mais uma decisão que gostava que me ajudasses a escolher.

— Diz.

— Vou ter de fazer uma viagem à Europa, mais precisamente à Suécia.

— Negócios?

— Sim, mas não é sobre isso que quero a tua opinião. Não me esqueço que és um adversário nos negócios.

Ambos riram com aquele quadro.

— Então, em que te posso ajudar? Se não é para pedires a opinião do mestre dos negócios, a que se deve o telefonema?

Rachel percebeu o tom afável e bem-humorado dele. Porém, ela falou mais séria:

— É uma viagem muito longa. Pensei em fazer uma escala. Que achas de Toronto?

Houve um silêncio breve. Gabriel sabia que opinião ela queria, se valeria a pena parar em Toronto, se ele a queria ver.

— Tu é que sabes. — foi a resposta.

Mas que besta que tu me saíste, Gabriel.

Rachel interpretou-o como desinteresse.

— Talvez não seja grande ideia. — concluiu, decepcionada. — Se calhar, vou por New York.

— Tu é que sabes. — repetiu, consciente da besta que estava a ser. Mas, pelo menos, teve o discernimento de ir a tempo. — No entanto, eu gostava que a tua escala fosse em Toronto.

Ouviu-a sorrir no lado de lá da linha.

— Ofereces um jantar?

— Claro.

— Pode ser na CN Tower? Nunca lá fui.

— Está combinado.

— Agora, só me falta tratar do hotel.

— Em que hotel vais ficar?

— No mesmo em que fiquei, quando aí estive para o negócio do Lewis.

— Não preferes outro? — interrogou Gabriel, perdendo a noção para onde estava a ir, consciente do que queria e sem ligar aos avisos da razão.

— Qual sugeres?

— Tenho um quarto vago no meu apartamento.

A sugestão apanhou Rachel de surpresa. Primeiro, julgou que ele estivesse a gozar. Depois, certa de que ele falava a sério, questionou-se se era recomendável aceitar. Hesitou em responder.

— Então?

— Não sei se será boa ideia, Gabriel.

Ele riu-se.

— Não estou a preparar-te uma armadilha, Rachel. Já deixámos bem claro que não nos queremos envolver a esse nível.

— Não quero incomodar.

— Se incomodasses, não te convidava. E sempre é uma forma de aproveitarmos mais o tempo para conversar e estarmos juntos.

— Se colocas isso dessa forma, não tenho como recusar.

No final do telefonema, Gabriel pareceu acordar para a realidade. Que estava a fazer? Procurava uma substituta para Íris, a única mulher que tivera um cantinho seu no apartamento? Agora, feita a oferta, não havia como voltar atrás.

O jogo terminou com a vitória dos Maple Leafs por cinco golos contra três dos adversários. Mais uma vitória. Gabriel acreditava que, naquela época, Toronto recuperaria a Stanley Cup.

Antes de ir para a cama, Gabriel consultou a sua caixa de email. Tinha uma mensagem nova.

 

"Olá Gabriel,

Eu estou bem, muito bem mesmo. E não me esqueço que é tudo graças a ti. Eu também tenho estado ausente, não és só tu. Por vezes, penso em ligar-te, mas sei que és uma pessoa ocupada e não quero estar a perturbar-te com simplicidades da minha vida em Montreal. Mas, vou aproveitar este email para te contar algo que não contei a ninguém. Para já, nem à minha mãe. Conheci uma rapariga. Não, não é isso que estás a pensar... ou talvez seja. É uma amiga. Ela é heterossexual e tem namorado. Mas, é uma miúda incrível e eu gosto muito dela. Sim, a ti posso confessar, estou apaixonada. Sei que não há possibilidade de sermos mais que as amigas que já somos. E sinto-me muito bem com ela. Temos saído juntas, divertimo-nos imenso. Gostava que um dia a conhecesses. Não costumo trazer ninguém aqui a casa, mas gostava que ela cá viesse. Achas que o teu amigo se importa que eu tenha visitas? As aulas antes do Natal estão quase a acabar. Vou passar a quadra com a minha mãe. Gostava de estar contigo antes ou depois da ida a Portugal. Que achas? Tens disponibilidade? Uma visita a Montreal? Lamento que não estejas mais perto, não te quero perder da minha vida, mas sinto que nos estamos a afastar. Gosto muito de ti, Gabriel. Beijinho da Íris (Arco-íris, para ti)"

 

Gabriel leu tudo. Ficou num misto de felicidade e tristeza, felicidade por ela estar bem, tristeza por se ter apaixonado por alguém que não partilhava os mesmos sentimentos. Apesar de cansado, não quis ir dormir sem lhe escrever uma resposta.

 

"Olá Arco-íris,

Um dia disse-te que te avisava quando me incomodasses. Não o fiz, pois não? Tu nunca me incomodas. E estou sempre disponível, mesmo para ouvir as simplicidades de um arco-íris em Montreal. Não te recrimines pelos silêncios entre nós, se há um culpado sou apenas eu. Não sou muito talhado para relações humanas, mesmo com pessoas de quem gosto muito, como é o teu caso. Nunca me afastarei, não te preocupes. No que respeita à tua amiga, se te provoca sentimentos tão bons é porque é boa pessoa. Haverá possibilidade de a conhecer, tenho a certeza. Lamento que ela não partilhe de tudo o que sentes por ela, mas estou certo que o amor da tua vida se encontrará contigo. Ela anda por aí, Arco-íris. Em relação à casa, estás à vontade. Não me parece que vás trazer um grupo de vândalos para o apartamento. Podes convidar os teus amigos à vontade. O teu senhorio não se importa, tenho a certeza. Vai ser difícil ir a Montreal, a minha agenda está um caos. Talvez consiga fazer-te uma visita no início do ano. Beijinho muito grande, Arco-íris. Gabriel"

 

Não seria difícil ir a Montreal. Ele sabia-o e Íris também o saberia pela facilidade com que ele planeara a viagem com ela em plena época de negócios de jogadores das principais ligas profissionais. Contudo, para a sua sanidade sentimental, era melhor não ir.

No dia em que Rachel deveria chegar a Toronto, Gabriel passou a tarde no seu gabinete. Ela iria ao seu encontro lá, quando chegasse à cidade. Estava uma daquelas tardes invernosas, com muita chuva e um frio cortante. Não deveriam faltar muitos dias para que a neve começasse a cair.

Não houve mensagens a dizer que estava a embarcar ou que acabara de chegar. Pura e simplesmente, ela apareceria.

Rachel chegou ao fim da tarde, quando o exterior já estava bastante escuro. Trazia o cabelo molhado e o longo casaco manchado pela chuva. Francis não a acompanhara até ali, não era necessário, ela sabia o caminho. Segurava uma pequena mala de viagem com rodinhas que rebocava consigo. O rosto revelava cansaço, mas o sorriso foi genuíno, ao entrar no gabinete.

— Olá, Gabriel!

— Olá, Rachel!

Gabriel levantou-se da sua cadeira para a receber. Rachel parou e despiu o sobretudo, pendurando-o num cabide junto à porta. Olharam-se sem saber muito bem o passo a dar. Foi ela quem tomou a iniciativa de o abraçar.

— Fizeste boa viagem?

— Sim. — respondeu, procurando o sofá para se sentar. — Melhor a de avião que a do táxi que me trouxe até aqui.

Vestia uma saia comprida escura e uma camisola de malha bege quente. As botas eram de cano médio e também estavam manchadas pela chuva.

— Desculpa, estou a molhar-te o tapete.

— Não te preocupes com isso. — disse ele, sentando-se na outra ponta do sofá. — Viagem para a Suécia.

— Sim. Cerca de dois meses na Europa.

— Tanto tempo? Não me tinhas falado nisso. Pensei que fosse só uns dias.

— Querem que trate de umas parcerias e o olheiro deles tem alguns jogadores referenciados. Precisam que faça algumas apresentações oficiais das propostas. Depois da Suécia, viajo para a Finlândia e termino na Alemanha.

— Estou a ver que se vão abastecer de talentos na Europa.

— Não comento. — retorquiu ela com um sorriso sedutor.

— Em quem é que vocês estão de olho em Toronto?

— Sabes bem que não te posso responder a isso, Gabriel. — respondeu com seriedade. — Mas, se for algum dos teus agenciados, claro que saberás.

— Espero que Seattle não tente passar por cima de mim.

— Sabes bem que nunca o permitiria. Não é assim que trabalho, muito menos agiria dessa forma contigo.

— Eu sei, Rachel.

Trocaram um olhar afectuoso. Gabriel tomou a iniciativa de desviar a atenção para a chuva a bater nos vidros.

— Dois meses na Europa...

— Não seria preciso tanto. — explicou Rachel. — Para o que lá vou fazer, três a quatro semanas eram suficientes. Só que quero aproveitar para passear um pouco por lá. Já fui a países europeus, mas sempre de fugida. Quando me propuseram tratar deste assunto, aceitei com a condição de ter direito a uma estadia prolongada com tudo pago. Eles aceitaram.

— Vais acabar por passar o Natal e o Ano Novo longe da família.

— Sabes bem que sou uma solitária, Gabriel. — lembrou com semblante triste. — Já falámos sobre isso.

— Nunca me falaste na tua família.

— Se calhar porque ela não existe.

Gabriel percebeu e pediu:

— Desculpa.

Ela sorriu a desvalorizar.

— Somos dois solitários, Gabriel.

— Por opção.

— Fala por ti. — atirou ela, olhando-o com carinho.

Gabriel olhou para o relógio.

— Vamos andando?

— Sempre reservaste mesa na CN Tower?

— Claro.

Saíram do gabinete. Rachel segurava o longo casaco no braço com cuidado para o telemóvel e a carteira não caírem. Gabriel oferecera-se para transportar a mala. Desceram no elevador até ao parque subterrâneo. Ele abriu a porta do copiloto do Ferrari e arrumou a mala atrás dos bancos, convidando Rachel a ocupar o lugar.

Rachel não se mostrou tão encantada com o bólide como acontecera com Íris. Para Rachel, carros desportivos eram uma banalidade. Ela própria tinha um potente Ford Mustang em Seattle.

O trânsito estava complicado, mas a viagem não era longa e os canadianos mostravam civismo a conduzir. Como a chuva não dava sinais de querer parar, Gabriel telefonou para um seu conhecido, enquanto conduzia, pedindo se poderia usar o seu lugar no parque do Rogers Centre. Claro que o pedido foi imediatamente concedido.

A praça localizada entre o Rogers Centre, a CN Tower e o Ripley's Aquarium of Canada é um lugar apinhado de pessoas, essencialmente turistas a deambular ou em filas para subir ao topo da torre. Seria de esperar que a chuva os tivesse demovido, mas as filas lá estavam. A chuva abrandara para uns fugazes aguaceiros, quando eles saíram do edifício da arena desportiva. Atravessaram o parque verdejante Bobbie Rosenfeld com o seu pequeno lago de água a escorrer em cascatas pelas escadinhas circulares. Em passos apressados, alcançaram o centro de recepção a visitantes da CN Tower.

Quem tinha reserva para o restaurante no cimo da torre não tinha de aguardar nas filas para os elevadores. Logo que um dos funcionários confirmou a reserva, encaminhou-os para subirem no próximo ascensor disponível.

A subida era relativamente rápida. No interior do elevador era possível observar-se o exterior e a ascensão progressiva até ao topo.

Gabriel reservara mesa para dois no 360, o restaurante circular panorâmico giratório e caro. Logo que saíram do elevador, Gabriel e Rachel dirigiram-se à entrada. Gabriel já ali fora muitas vezes e conhecia bem os acessos. Na recepção do restaurante 360, uma funcionária atendia as reservas, curiosamente, alguém que reconheceu Gabriel. Com grande simpatia, acompanhou-os à mesa.

O sector de mesas era composto por três linhas que giravam no interior, permitindo aos clientes uma vista a trezentos e sessenta graus enquanto desfrutam da refeição. A mesa que lhes foi atribuída ficava na linha exterior, oferecendo-lhes uma vista desimpedida.

Um outro funcionário acercou-se da mesa e entregou uma ementa a cada um.

— Que recomendas?

Gabriel sugeriu alguns dos seus pratos predilectos. Rachel concordou com a terceira hipótese e com um vinho tinto para acompanhar.

— Que estarias a fazer, se eu não estivesse aqui? — perguntou ela, fazendo assunto.

Ele encolheu os ombros.

— Estaria a comer sozinho e essa cadeira estava vazia.

Rachel riu-se divertida.

— Sabes o que quero dizer.

— A esta hora, se ainda não estivesse no escritório, estava em casa.

— É assim que passas os teus dias, entre o escritório e o apartamento?

— E em reuniões de trabalho, idas aos clubes, conversas com os jogadores, análises de propostas... Queres mais?

— Não é muito diferente da minha vida.

O funcionário regressou. Trazia a garrafa de vinho e mostrou o rótulo a Gabriel. Ele anuiu. O empregado sacou a rolha da garrafa e verteu um pouco no copo de Gabriel que provou o vinho com ar entendedor. Saboreou-o e autorizou que ele despejasse uma porção em cada copo.

— Costumas vir aqui muitas vezes?

— Algumas. Normalmente para impressionar.

— As mulheres impressionam-se contigo por as trazeres aqui? — questionou Rachel surpreendida.

— Não estás impressionada?

— Com o local, sim. Mas isso nada tem a ver com ficar impressionada contigo.

Gabriel riu-se.

— Não é para impressionar mulheres, a menos que sejam desportistas que eu queira representar. — explicou. — É para impressionar em negócios. Resulta bem, combinar reuniões aqui.

— Isto tem uma vista soberba, Gabriel.

— Pena que esteja a chover.

As gotas de chuva nos vidros perturbavam a visão. Era possível observar a cidade de Toronto, o lago escuro, as ilhas defronte da costa citadina.

Os pedidos chegaram e cada prato foi colocado diante de cada um deles. Começaram a comer tranquilamente. O espaço estava quase lotado. Houve algumas trocas de olhares, mas o silêncio manteve-se. Gabriel observou a paisagem esbatida, mastigando um pedaço de carne. Rachel observava-o a ele.

— Como tens passado, Gabriel?

Ele encarou-a com uma expressão neutra.

— A que te referes?

— À tua vida pessoal.

— Nada a declarar. — respondeu com um sorriso torcido. Bebeu um pouco de vinho. — E a tua? Não me esqueci das tuas expectativas para uma vida mais estável em Seattle.

— Ainda é cedo para isso. Só estou lá há cerca de três meses.

— Ainda não apareceu ninguém?

Rachel riu com gosto. Aproximou-se mais dele e sussurrou:

— Agora preocupas-te com a minha vida sexual?

Gabriel abanou a cabeça.

— Estamos só a conversar.

— Não é o melhor dos assuntos para falar em público. — ripostou divertida. — Mais tarde, poderei esclarecer-te melhor sobre isso.

— Dito assim, posso ser levado a interpretar isso como um... flirt?

— Estás enganado, Gabriel. — Rachel revelou um ar sério. — Dois amigos podem falar nesses assuntos, sem que haja outras intenções. Não concordas?

— Sim, Rachel. Estava a brincar contigo.

O jantar prosseguiu com tranquilidade. Rachel observava a vista fascinada e Gabriel ia apontando e informando o que eram alguns dos lugares que se viam dali.

— Deixa-me partilhar a conta. — pediu Rachel, quando o funcionário trouxe a soma.

— Fui eu que convidei.

— Mas, fui eu que quis vir aqui.

— E então?

Ela mostrou-lhe as palmas das mãos em sinal de rendição.

Gabriel pagou a conta e deixou uma gorjeta generosa. Rachel estava um pouco tonta, ao levantar-se, e o chão a rodar também não facilitava. Ele percebeu e deu-lhe o braço.

— Não estou bêbada. — sussurrou, ao saírem do restaurante.

E não estava, fora apenas um desequilíbrio. E ele sabia-o.

Aguardaram algum tempo por um elevador disponível, aquele que estaria a trazer passageiros para cima. Rachel manteve-se agarrada ao braço dele. Para descer não havia prioridades, era ir para a fila e esperar.

Não estavam muitas pessoas na fila. Conseguiram descer no seguinte. Novamente ao nível do solo, caminharam devagar para o exterior. A chuva dera tréguas, estavam com sorte. Atravessaram a praça, o parque verde obscurecido pela noite e reentraram no complexo desportivo para descerem ao estacionamento subterrâneo.

Meia hora mais tarde, Gabriel e Rachel estavam a entrar no apartamento dele. Mais uma vez, como um cavalheiro, ele carregava a mala dela. Convidou-a a entrar para a sala ampla e deixou a bagagem no átrio dos quartos.

— Queres beber alguma coisa, Rachel? Ou preferes ir descansar?

— Estou com menos três horas que tu. Ainda é um pouco cedo para ir dormir. Mas, se tu quiseres ir descansar...

— Nem por isso. — negou, despindo o casaco. — Que bebes?

— O mesmo que tu. — Olhou para o átrio. — Mas, antes, podes dizer-me onde vou dormir. Gostava de mudar de roupa.

— Claro.

Gabriel conduziu-a ao terceiro quarto da casa, aquele que ficava entre o seu e o que Íris ocupara na sua curta estadia. Estava já preparado para receber a hóspede com a cama feita de lençóis ali colocados naquele dia pela empresa responsável pela limpeza do apartamento. Ele guiou-a pelo espaço, mostrando-lhe onde estava tudo e depois deixou-a sozinha para que tivesse toda a privacidade.

Novamente na sala, Gabriel parou junto do bar com as garrafas, retirou dois copos largos e escolheu um dos melhores whisky que ali tinha. Encheu um terço de cada copo.

— Melhor que um hotel. — ouviu a voz de Rachel atrás de si.

Virou-se. Ela trocara a saia por leggings elásticas e as botas por meias de lã. Manteve a camisola de malha.

Gabriel pegou nos copos e ofereceu-lhe um deles, convidando-a a sentar-se no sofá. Ela ocupou uma ponta, ele a outra.

Rachel saboreou a bebida, ciente da sua qualidade. Depois, encarou o rosto de Gabriel.

— Queres que responda à pergunta do restaurante?

— Qual?

— A tua curiosidade acerca da minha vida sexual.

— Não estou curioso com isso, Rachel. É assunto teu.

Ela riu.

— Também não havia nada para contar.

Gabriel não se manifestou e bebeu o seu whisky devagar.

— Tens um apartamento espectacular. E a vista...

— Agora à noite não se vê grande coisa.

— Dá para imaginar.

— Também és capaz de arranjar algo semelhante em Seattle. A cidade não me parece muito diferente de Toronto. Pelo menos, uma torre do género da CN Tower, eles têm.

— A Space Needle não é bem a CN Tower. — Rachel observava o copo e brincava com o líquido, fazendo-o baloiçar. — Aluguei um apartamento com vista para Baía de Elliot. — Tornou a olhar para Gabriel. — Alguma vez foste a Seattle?

— Sim, uma vez. Ia para Portland, mas o avião teve de fazer um desvio por causa do mau tempo. Passei lá uma noite. Não deu para visitar.

— Bom, se um dia quiseres conhecer, eu retribuo esta estadia. Podes ficar em minha casa.

— Fica registado. — concordou, piscando-lhe o olho.

Ficaram à conversa mais algum tempo. Fugiram aos temas respeitantes às suas vidas privadas, mais por vontade dele, e focaram-se em contar histórias de negócios, cenas acontecidas em várias alturas, opiniões sobre conhecidos comuns.

Ao fim de duas horas a tagarelar, Rachel disse:

— Já é tarde. E tu deves querer descansar.

— Estou bem. Mas, tens razão, já é tarde.

Levantaram-se do sofá. Fora um serão muito agradável. Caminharam para o átrio. Gabriel apagou a luz da sala, ficando ambos iluminados somente pela luz daquela pequena divisão comum aos quartos.

— A que horas é o teu voo, amanhã?

Junto à porta daquele que seria o seu quarto, Rachel respondeu:

— Ao fim da manhã.

Ele assentiu, deslocando-se para a sua porta.

Houve uma espécie de impasse, como se ambos ponderassem a despedida. Um beijo? Um abraço? Gabriel acabou por dizer:

— Dorme bem, Rachel! Se precisares de alguma coisa...

— Obrigado, Gabriel. Dorme bem.

Cada um entrou para o seu quarto e Gabriel fechou a porta. Lá dentro, caminhou até à janela e espreitou a noite escura. O céu estava carregado e a chuva voltara a cair com intensidade. Lá em baixo, as luzes desfocadas da rua e o negro indistinto onde estaria o lago. Regressou à cama, largou o telemóvel e o relógio na cabeceira. Despiu a camisa e as calças do fato. Foi até à casa de banho. Regressou ao quarto, puxou os lençóis para trás e enfiou-se na cama. Por fim, apagou a luz.

Não tinha sono. Não sabia porquê, mas não tinha sono, nem lhe parecia que fosse adormecer tão cedo. Ficou deitado de barriga para cima a olhar para o tecto e para as sombras reflectidas pela luz fraca proveniente do exterior. Evitou pensar muito na vida, senão é que não dormia mesmo. Fechou os olhos e esperou o sono. Ao fim de alguns instantes, sentiu algo. Abriu os olhos e viu o telemóvel com uma luzinha a piscar ténue e a alertar para uma notificação nova.

Gabriel pegou no aparelho e desbloqueou-o com o polegar. Era uma mensagem do WhatsApp. O seu primeiro pensamento foi para que o remetente fosse Íris, mas não era. Quem enviara estava no quarto ao lado.

"Estás a dormir?"

Ele calculou que ela precisasse de alguma coisa. Ainda bem que não adormecera, caso contrário não teria dado pela mensagem.

"Não. Estou sem sono. Precisas de alguma coisa?"

"Ia pedir sono, mas pelos vistos também não tens :) :)"

"Pois... Isso não tenho"

A mensagem foi vista, mas não pareceu haver reacção. Depois, surgiram os caracteres verdes a indicar que ela estava a escrever. Gabriel esperou.

"Cá para mim, isso é falta das tuas amigas profissionais ;)"

Ele riu-se para o ecrã e ripostou:

"E tu? Não tens sono porquê?"

"Fuso horário da costa oeste."

Estava esclarecido, pensou para si. Não sabia o que haveria de escrever. E se continuassem a trocar mensagens, então é que nenhum dormiria.

Nova mensagem de Rachel.

"Se estás a precisar de descomprimir, porque não ligas a uma delas? Não te prives por eu estar aqui."

Gabriel não tinha a mínima intenção de ligar para um dos nomes da lista de dez. Contudo, deixou-se ir no jogo dela e escreveu:

"É capaz de ser tarde para o fazer"

Não houve resposta, apesar de a mensagem ter sido lida. Ao fim de um minuto, surgiu a indicação de que Rachel estava a escrever.

"Tenho uma confissão. Não é só por causa do fuso horário que não tenho sono"

E não escreveu mais nada.

— Ora bolas, agora deixaste-me curioso. — disse ele para o ecrã.

"Estás indisposta?"

"Não"

Então? Rachel não disse mais nada. Gabriel não sabia o que se passava. Se ela não se sentisse bem, ele não estava longe. Decidiu não dizer mais nada, mas pareceu-lhe mal deixar o assunto no ar. Ia para digitar algo, quando viu que ela tornara a escrever. Esperou a mensagem e arregalou os olhos quando leu:

"Queres dar uma queca?"

Pronto, não tinha sono e estava a gozar com ele.

"Pára com isso. Vamos dormir"

A resposta foi imediata.

"Não queres?"

Gabriel começou a interrogar-se se ela estaria a brincar ou a falar a sério. Antes de considerar a segunda hipótese, respondeu:

"Já te disse que não fazes o meu género"

Rachel ripostava logo de seguida.

"Eu sei. Não sou das que recebe dinheiro para foder"

Onde é que ela queria chegar com aquilo?

Nova mensagem.

"Tenho vontade de o fazer. Preciso de uma queca para dormir"

"Pára com as brincadeiras, Rachel!"

"Não estou a brincar", foi a resposta.

Não sabia o que deveria dizer. Gabriel colocou o telemóvel de lado. Se a ignorasse, ela desistiria... Só que ele próprio ficara com vontade. E Rachel era uma mulher bastante atraente. Para não a deixar sem resposta, tentou quebrar-lhe o entusiasmo.

"Que fazes, quando estás sozinha em casa?"

Julgou que ela o fosse mandar dar uma curva, lhe sugerisse satisfazer-se a si próprio ou nem sequer lhe respondesse. A terceira hipótese ficou colocada de lado, quando percebeu que ela estava a digitar.

"Tenho uns objectos ou uso os dedos. Mas, tendo em conta que estás aqui ao lado..."

Rachel falava mesmo a sério. O cérebro de Gabriel alertava-o para o errado da situação, mas o corpo começava a desejar sair da cama e ir ao outro quarto.

Nova mensagem.

"Não me importo de fazer o teu género, esta noite. Trazes uma nota de dólar e deixas na cabeceira"

"Não sejas tola"

As comunicações suspenderam-se. Gabriel aguardou. Teria ela desistido. Se o tivesse feito, ele lamentava não ter aproveitado. Que deveria fazer? Não poderia rejeitá-la sem uma palavra de conforto.

"É capaz de não ser boa ideia. Não é que não gostasse, mas talvez seja melhor não o fazermos"

O sinal de que ela escrevia voltou.

"Sem cobranças, Gabriel. É só uma queca. Não é um pedido de casamento. Não, isso não te comprometerá comigo. Se me disseres que não tens vontade de dar uma, ok, eu não te chateio mais. Mas, se te apetece tanto quanto a mim, é só estúpido não aproveitarmos"

Ele ficou a olhar para o ecrã, estático, deitado na cama a pensar. Hesitava como se tivesse um anjinho num ombro e um diabinho no outro. Ambos lhe falavam através da sua consciência e davam opiniões contraditórias.

"Estás a falar a sério?"

"Porque não vens descobrir?"

Gabriel acendeu a luz e sentou-se na cama.

"Tens a certeza, Rachel?"

A resposta foi:

"Traz preservativos."

Aquilo era tão errado, pensou. Porém o diálogo deixara-o excitado e, agora, seria complicado suportar o desejo. Há muito que não fazia sexo sem ser com profissionais a quem pagava. Enviou uma última mensagem a dizer que ia ter com ela.

Gabriel saiu da cama nu. Foi buscar o robe e vestiu-o. A seguir, abriu uma gaveta e retirou um preservativo que guardou no bolso. Sentiu um frio no estômago, uma mistura de ansiedade, desejo e condenação. Abriu a porta e reparou que a do quarto de Rachel estava entreaberta. Caminhou até lá. Bateu à porta e entrou.

O quarto estava iluminado apenas pela luz da cabeceira da cama. Rachel esperava-o sentada na cama, completamente nua com os braços cruzados sobre o peito, cobrindo os seios. Sorriu ao vê-lo, meio envergonhada, quase como se dissesse "desculpa, mas foi mais forte que eu".

Gabriel fechou a porta, o que foi estúpido, uma vez que estavam sozinhos em casa. Caminhou até ela. Rachel seguia-lhe os movimentos com uma expressão de desejo. Ele parou defronte dela.

— Devemos estipular alguma regra? — sugeriu ela.

— Como assim?

— Isto é só sexo.

— Sim, já tínhamos concordado nisso.

Rachel anuiu e questionou:

— Trouxeste?

Gabriel analisou-lhe o corpo nu, era ainda mais atraente que aquilo que ele imaginara. Levou a mão ao bolso e tirou a embalagem, entregando‑lha. Rachel esticou o braço esquerdo na sua direcção para receber o que lhe entregava, mas manteve o outro a cobrir os seios.

— Não tiras isso? — reclamou, indicando o robe dele.

Sem perder tempo, Gabriel abriu o robe e despiu-o, ficando nu na sua frente. Em resposta, ela afastou o outro braço, oferecendo-lhe a visão do seu peito firme.

— Tens uns seios lindos.

Rachel olhou para ele e sorriu, ao mesmo tempo que rasgava a embalagem.

— Já o vais colocar?

— Não queres?

Gabriel encolheu os ombros e fez um ar de quem esperava mais.

— Talvez mais tarde.

— Mais tarde? — repetiu ela, vendo a erecção a um palmo do seu rosto. — Que queres, antes de eu te colocar isto?

— Não sei... Surpreende-me.

Ela atirou-lhe um olhar torcido. A seguir, colocou a embalagem aberta sobre o colchão.

— Afasta um pouco as pernas, Gabriel.

Ele obedeceu. Rachel segurou-lhe os testículos com uma mão, carinhosa, e com a outra envolveu a erecção, iniciando uma massagem.

— Era isto que querias?

— Pode ser...

Rachel abriu o sorriso, provocador e olhou-o nos olhos. Manteve os olhos nos dele, mas baixou a erecção para si e beijou-lhe a ponta. O beijo foi só o início. Olhos nos olhos, abocanhou-lhe o pénis, saboreando-o como se fosse um gelado de morango numa tarde de Verão.

Aquilo estava a ser bom, muito bom. Porém, ao fim de alguns minutos, nenhum deles saberia dizer quantos, ela parou e recuperou a embalagem donde tirou o preservativo. Com ternura, colocou-lho.

Gabriel puxou-a para si, fazendo-a levantar-se da cama. Quis beijá-la e apalpar-lhe os seios empinados. Ela gostou do movimento. Abraçou-o com força, mordeu-lhe a orelha e sussurrou-lhe:

— Fode-me, Gabriel. Quero que me fodas.

Ele olhou-a nos olhos.

— Como queres?

Rachel não respondeu, virando-lhe as costas e deitando-se na cama. Puxou-o atrás de si e fê-lo deitar-se sobre ela. Abriu as coxas e abraçou-o com as pernas. Delirou com a sensação do membro rijo a deslizar para dentro de si.

Foi intenso, muito intenso. Foi bom, muito, muitíssimo bom.

No final, ficaram a olhar nos olhos um do outro. Gabriel parecia desconfortável. Rachel leu-o na perfeição.

— Vou voltar para o meu quarto. — despediu-se ele, levantando‑se da cama.

— Não queres dormir comigo?

— Foi só sexo. — lembrou ele, num tom mais duro que o pretendido.

Rachel não se pronunciou e puxou o lençol para se cobrir. Ele percebeu que fora rude, não era preciso ser assim. Vestiu o robe e disse:

— Foi muito bom.

— Obrigado pela queca. — atirou-lhe ela.

Gabriel colocou um joelho no colchão, debruçou-se sobre ela e beijou-a na boca.

— Eu é que agradeço. Foi das melhores quecas da minha vida.

— Mentiroso. — retorquiu Rachel com um sorriso terno.

— Dorme bem!

Virando-se, ele caminhou para a porta.

— Gabriel! — chamou. Ele tornou a olhar para ela. — Sem culpas, sem cobranças. Foi só sexo.

— Eu sei, Rachel. Dorme bem.

Novamente na sua cama, Gabriel não teve dificuldade em adormecer. E dormiu profundamente e até mais tarde que o habitual.

Quando acordou na manhã seguinte, ouviu passos no átrio. Rachel já se levantara. Ele olhou para as horas, não ouvira o despertador ou desligara-o inconscientemente. Saltou da cama e vestiu o robe.

Ao sair do quarto, caminhou até à sala. Rachel bebia um café na cozinha. Vestia o estilo da véspera, saia e camisola de malha.

— Bom dia! — cumprimentou ele, sem se aproximar.

— Bom dia! — retribuiu ela com uma expressão sedutora.

— Já vais?

— Daqui a pouco.

— Vou tomar um duche.

— Ok.

Gabriel voltou ao quarto e foi tomar um duche rápido. Barbeou‑se, perfumou-se e vestiu um dos seus fatos caros.

Rachel aguardava junto aos vidros, observando a paisagem. Ele entrou na sala e parou atrás dela. Rachel virou-se. Olharam-se.

— Dormiste bem, Gabriel?

— Dormi demais. E tu?

— Uma maravilha.

Ele sorriu. Contudo, parecia querer reservar alguma distância.

— Não quero que isto seja estranho, Gabriel. — disse ela. — Podemos falar do que aconteceu ontem à noite?

— O que queres falar?

— Quero dizer-te que adorei. — Levantou a mão para o travar, julgando que ele ia falar. — Espera. Não estou a cobrar nada.

— Não disse que estavas.

— Podemos continuar amigos?

— Não vejo o que nos impede. — retorquiu ele, simpático.

— Podemos ser amigos e repetir o que fizemos ontem?

Gabriel encurtou a distância entre eles.

— Foi muito bom, o que aconteceu ontem.

— Mas... — interrompeu ela. — Sinto que vem aí um "mas".

Ele baixou o olhar. Sem intenção, aterrou no peito dela, o que lhe recordou como ela tinha uns seios perfeitos.

— Não procuro compromissos. Não quero isso. — confessou ele. — Mas, ontem foi... Foi muito bom. Não quero mais que aquilo. Tu és uma mulher linda, uma amante espectacular. Compreendo que não queiras só isso. Talvez mereças melhor que eu.

Rachel colocou um braço à volta do pescoço dele.

— Não achas que essa decisão me cabe a mim? — Ele não respondeu. Ela beijou-o na boca e ele retribuiu. Findo o beijo, foi ela quem voltou a falar. — Não devemos nada um ao outro. Eu gostava de o repetir numa próxima oportunidade. É contigo. E, por mim, podes continuar a usufruir das tuas profissionais do sexo. Não me importa. Quero ser tua amiga. E quero que sejas meu amigo. — Sorriu libidinosa. — Se pelo meio, fodermos, melhor. — Ficou séria. — Só peço uma coisa. Se te envolveres com alguém que não seja prostituta, quero saber, quero que mo digas para eu "tirar a minha equipa de campo". Pode ser?

Gabriel assentiu.

Voltaram a beijar-se, um beijo intenso, sôfrego.

— Tenho de ir. — alertou Rachel com desejo no olhar.

— Queres que te leve?

Ela recusou, já pedira um Uber.

— Estou de volta dentro de dois meses, Gabriel. Posso regressar pelo mesmo caminho, se quiseres.

Gabriel percebeu a sugestão. Posso passar por aqui e voltar a ir para a cama contigo. Ele hesitou e não respondeu. Ela percebeu a hesitação e interpretou-o como uma recusa.

— Bom... Depois falamos melhor sobre isso.

Deram um último beijo e Rachel saiu do apartamento, rebocando a sua mala.

XII

 

O Natal era a pior época do ano para Gabriel. O Natal representava tudo aquilo que não tinha e não queria na sua vida: família, amor, amigos, trocas de emoções e sentimentos.

A neve caía em Toronto, dando a toda a paisagem uma cobertura branca e fria, o que parecia acentuar ainda mais a sua angústia e a sensação de solidão.

Rachel não voltara a falar com ele, ligara-lhe na chegada à Europa e dois dias depois. Como ele não retribuiu os telefonemas, ela não voltou a ligar. Sempre que pensava nela, recordava a noite no apartamento que antecedeu a sua viagem, mas recusava a ideia de que gostava da sua companhia.

Íris também partira para a Europa, regressando temporariamente a Portugal para passar o Natal com a mãe. Falaram ao telefone antes da partida, por mensagem à chegada e foi tudo.

Tal como fazia, sempre que precisava de conversar um pouco, Gabriel marcou consulta com Phil para uma tarde, dois dias antes do Natal. Aquele estado de espírito de Gabriel não era novidade para o terapeuta, uma vez que era tradicional a visita antes daquela quadra.

Phil estava ao corrente da vida de Gabriel, quase como um padre que ouve confissões e guarda sigilo. Contudo, Gabriel não confessava tudo a Phil, uma vez que havia coisas que Gabriel não conseguia sequer confessar a si próprio. Phil sabia da vinda de Íris, a afeição que Gabriel tinha por ela, tudo o que ele fizera para a ajudar e a luta por a manter longe da sua vida pessoal, para que fosse uma amiga distante. Em relação a Rachel, Phil apenas sabia do interesse dela em ser amiga dele, desconhecia o envolvimento sexual.

Lá fora, a neve caía devagar. Há já alguns dias que o jardim de Phil deixara de ser verde para se manter branco. A sala era aquecida pelo sistema de climatização da casa. A luminosidade era toda artificial, pois o céu invernoso não produzia claridade suficiente para iluminar aquele espaço.

— Custou-me ter recusado o pedido dela para ir a Montreal. — contava Gabriel perante um Phil atento como sempre. — Adoro estar com ela. Só que a angústia que me deixa, quando temos que nos afastar... Prefiro que se mantenha longe.

— Achas que é o melhor caminho?

— É o menos doloroso. Sei o que me custaram os primeiros dias, depois de a Íris partir para Montreal. Se puder evitar...

— Não desfrutas para não sofrer no fim.

— Sim, talvez seja isso.

— Sabes que a angústia e a solidão não vão desaparecer, enquanto não deixares que as pessoas entrem na tua vida, não sabes?

— O problema de elas entrarem, Phil, é que, mais tarde ou mais cedo, irão sair.

— Não sabes isso.

— Sei, Phil. Acredita que sei. — insistiu Gabriel. — E quando saem, deixam mossa.

O terapeuta encolheu os ombros.

— A Rachel deixou mossa? — questionou do nada. — Ela queria ser tua amiga. E eu fiquei com a ideia que tu, na forma que melhor encontraste para lidar com isso, a deixaste entrar um bocadinho.

— Não é uma amizade, Phil. Poderia vir a ser, mas acho que já estragámos tudo.

— Como assim?

— Fomos para a cama.

A revelação não surpreendeu Phil, mas deixou-o curioso.

— Há aí uma alteração no teu padrão comportamental.

— Vá lá, Phil, não fales comigo como se fosse um caso de estudo num simpósio de psiquiatria.

— Ok, ok. Tu só tens sexo com prostitutas. O que aconteceu para alterares isso?

— Gostar dela. — confessou, arrependendo-se de imediato.

Phil notou o arrependimento dele em verbalizar o sentimento.

— Estás em terreno seguro, Gabriel. Nada do que aqui é falado algum dia se virará contra ti.

— Eu sei, Phil.

— A que ponto gostas dela?

Gabriel respondeu com uma honestidade crua:

— Gosto da companhia dela e de... do sexo com ela.

— E o que é que está mal aí? — interrogou Phil, procurando mostrar ao seu paciente que o caminho era deixar que as coisas naturais da vida fluíssem na sua.

— Quando pagas para sexo, usas à tua vontade e despachas o serviço. Não há cobranças... — Riu-se. — Tirando o dinheiro, claro.

— A Rachel cobra-te? — Mal terminou a pergunta, Phil fez um gesto de quem se expressara mal. — Refiro-me a sentimentos.

— Eu percebi, Phil. A Rachel não me cobra nada, nem sequer a amizade que quer partilhar comigo. Deixa-me à vontade, mas vai-se afastando se eu não fizer alguma coisa. E não a posso recriminar por isso, afinal, o que procuramos ter é uma via de dois sentidos. — Fez uma pausa, pensando no que sentia. — Acho que, se calhar, sou eu que me cobro. Resisto a que ela entre demasiado na minha vida, mas ao mesmo tempo, sinto saudades dela e gosto de estar com ela.

— Porque é que resistes?

— Porque, um dia, ela vai seguir a sua vida e passar a ser mais um espaço vazio na minha.

— Não há possibilidade de se manter na tua vida?

Gabriel abanou a cabeça.

— Implicaria coisas que não quero para mim.

— Como o quê?

— Relacionamentos.

— Achas que a tua vida amorosa se deve resumir às prostitutas?

— Isso é vida sexual, Phil. Nada tem a ver com amor.

— Sim, tens razão. E a Rachel? É amor ou sexo?

— É uma forma estranha de amizade que pode envolver sexo.

— Amigos coloridos?

— Continuo a não saber se a quero como amiga.

— E a Íris?

A introdução do nome de Íris no meio da conversa apanhou Gabriel de surpresa.

— O que tem a Íris?

— É amizade, é amor, é... sexo?

— Sexo, Phil? Estás parvo?

Phil ignorou a reprimenda.

— Como caracterizas da tua relação com a Íris.

— Não estávamos a falar da Rachel?

— Estamos a falar de ti, ambas fazem parte da tua vida, agora quero saber o que sentes pela Íris.

— Gosto muito da Íris. Sempre tive uma enorme empatia com ela em criança. Agora... — Interrompeu-se. Teve uma sensação diferente. — Sinto que recuperámos aquilo que tivemos quando eu namorava a mãe. Agora somos os dois adultos e a Íris tem uma personalidade fascinante. É bom estar com ela, é talvez o que tenho mais próximo de uma amiga. Mas...

— Mas?

— Como tenho dito sempre. Um dia partirá e será apenas mais uma recordação e um espaço vazio na minha vida.

— Não estarás a ser cruel com elas, ao afastá-las da tua vida?

— Não as afasto. Mantenho-as a uma distância de segurança.

— Vai dar ao mesmo, Gabriel. Um dia, elas vão fartar-se dessa postura.

— E partem. — completou Gabriel. — Irão partir sempre, Phil. Só que, desta forma, o impacto em mim é menor.

O terapeuta não insistiu.

 

Na véspera de Natal, Gabriel recebeu um email inesperado. Pensara que ela já desistira de o contactar, uma vez que nunca lhe respondia, mas Olga tornou a escrever-lhe.

 

"Olá Gabriel,

Desculpa estar a incomodar-te com mais uma mensagem. Tu nunca respondes e eu não sou idiota, sei perfeitamente que não queres falar comigo. Mesmo assim, não esqueço tudo o que tens feito pela Íris e jamais poderia deixar passar esta data sem te mandar uma mensagem de Feliz Natal e, acima de tudo, uma palavra de enorme agradecimento. Estarei em dívida contigo para o resto da vida. Sei que estás a dizer para ti que não te devo nada. Aliás, eu conheço-te, não deverás ter mudado muito do Gabriel que eu amei. Deves estar a dizer isso e a desejar que eu vá morrer longe. Não te condeno por isso. Aliás, acho de uma grandiosidade enorme como ser humano que tu, depois do que te fiz, te tivesses disponibilizado para ajudar a minha filha. Desculpa estar a usar uma mensagem que pretendia ser apenas um agradecimento e os votos de um Feliz Natal para estar a trazer o passado à baila, mas sinto que tenho que te dizer que me arrependo de te ter abandonado há quinze anos. Podia dizer que o fizera pelo bem da Íris, para lhe devolver o pai, mas... Seria mentira. O pai nunca se afastara dela, só não vivia na mesma casa. A verdade é que eu sempre amei muito o pai da Íris e, quando aconteceu, quando nos voltámos a envolver, tu perdeste importância, deixaste de fazer sentido na minha vida. Fui cruel, fui muito cruel nisso e também em não te deixar despedir da Íris. Fui cruel para ti e para ela. Só mais tarde tive noção de como fora duro para a Íris. Naquela época, eu estava louca de paixão pelo pai dela e tu eras um incómodo. Estou a relatar-te tudo sem filtros, mesmo que isso te faça odiar-me ainda mais que aquilo que já me odeias. Eras um incómodo e queria que desaparecesses rapidamente da minha realidade. Não te peço perdão porque eu própria não sinto que o mereça. Seja como for, arrependo-me. Não sei se a Íris te contou. Aliás, a Íris é extremamente reservada em relação a ti. Só me disse que eu era um assunto a não falar contigo, por isso, se não falava em mim contigo, também não deveria falar de ti comigo. É justo. Sinto que, muitas vezes, ela é mais madura que eu, tem um sentido de estar e de pensar que me orgulha. Como não sei do que falaram, mas sei que não falaram de mim, quero contar-te o que aconteceu depois. A reconciliação com o pai da Íris foi uma espécie de... a montanha pariu um rato. Percebes o que quero dizer? A tesão inicial da reconciliação esfumou-se e deixámo-nos conduzir para os problemas que levaram à primeira separação. A reconciliação durou um ano. Nesta segunda vez, fiquei muito magoada. Não só por perceber que ele não mudara nada, como pela consciência que à custa disso te tinha perdido a ti. Mantivemos uma relação cordial pelo bem da Íris, mas conforme ela foi ganhando maturidade para agir sozinha, eu fui-me afastando do pai até cortar completamente relações com ele. Felizmente, a Íris continua a ter uma boa relação com o pai e compreende e aceita muito bem a minha posição para com ele. Se pudesse voltar atrás... Não posso, eu sei. Mas, se pudesse... tu nunca terias saído da minha vida. Seja como for, quero que saibas que te agradeço tudo, mesmo tudo, não só o que fazes pela Íris, como todos os bons momentos que passámos juntos. Sei que não vais responder a este email, não há problema, eu mereço o teu ódio. Só não te deixes consumir por ele, por favor, pois irá fazer-te pior a ti que a mim. E eu não quero que nada de mal te aconteça. Se um dia encontrares espaço para... não para um perdão, mas para uma trégua. Se um dia conseguires encontrar esse espaço, gostava de voltar a falar contigo, que tivéssemos a oportunidade de deixar de ser um golpe na vida um do outro, uma ferida, uma lasca, um defeito num quadro antigo a precisar de restauro. Aconteça o que acontecer, em mim só encontrarás amor. Um grande beijo, Gabriel. Feliz Natal!"

 

Gabriel leu aquele email ao fim da manhã da véspera de Natal. Estava em casa e o mundo parecia mais preocupado com a ceia de Natal e a troca de presentes que com negócios, daí que nada justificasse a sua saída. Para além disso, estava um frio cortante na rua. Leu-o uma, duas, três vezes. Questionou-se se Íris teria conhecimento daquilo. Porque haveria de ter? Teria incentivado a mãe a continuar a contactá-lo? Não lhe parecia lógico. Fosse como fosse, optou por não responder.

A noite de Natal seria passada sozinho. Custava-lhe a solicitar os serviços de qualquer um dos nomes da lista de dez porque sabia que tinham família, uma delas tinha um filho, todas tinham pais ou pelo menos um deles... Resumindo, não iria perturbar o Natal delas, sabendo que se lhes ligasse, qualquer uma aceitaria vir ganhar umas centenas de dólares para passar a noite de Natal a ser fodida por um cliente. No entanto, uma delas enviou-lhe um sms a oferecer-se para lhe fazer companhia. Gabriel calculou que lhe fizesse falta o dinheiro, daí que estivesse a voluntariar‑se... Não, que se estivesse a vender numa época daquelas.

Todas elas conheciam o seu historial de homem sem laços familiares. Aquela fora esperta e tomara a iniciativa de se antecipar para ganhar mais algum, talvez até com a intenção de ser uma noite mais cara que o habitual. Gabriel não desperdiçou e combinou com ela uma hora antes do anoitecer para lhe evitar a travessia do frio ainda mais intenso da noite.

Ao início da tarde, Íris ligou-lhe numa videochamada via WhatsApp para lhe desejar um Feliz Natal. Em Portugal já era noite. Íris quis ligar-lhe antes do jantar e quis fazê-lo por vídeo para ver e ser vista. Não conversaram muito tempo, apenas uns minutos para os desejos mútuos de uma quadra feliz. Íris não lhe cobrou a recusa em a visitar em Montreal antes do Natal, nem insistiu que ele o fizesse no início do ano. Gabriel não comentou a mensagem de Olga, nem Íris deu sinal de ter conhecimento disso. O sorriso e o rosto feliz de Íris funcionaram como um abraço caloroso na alma de Gabriel.

A meio da tarde, Gabriel lembrou-se de outra pessoa muito importante, alguém que conhecera naquele ano prestes a findar. Olhou para o relógio e fez uma conta rápida para saber que horas seriam na Suécia. Eram quase dez horas da noite.

— Olá, Gabriel! — atendeu a voz melodiosa com sotaque do sul dos Estados Unidos.

— Olá, Rachel!

— Que bom ouvir a tua voz.

— Como tens passado?

— Bem. — respondeu sem parecer muito convicta disso. — E tu?

— O mesmo de sempre.

— Não voltei a ligar porq...

— Porque deveria ser eu a fazê-lo. — completou Gabriel. — Sei que não sou o melhor dos amigos.

— És um homem maravilhoso, Gabriel. E um amigo muito especial.

— Não exageres, Rachel. — contrapôs num tom afável. — Tenho saudades tuas. Sei que não parece, uma vez que deixo passar tanto tempo sem te...

— Não penses nisso. Sei o que significo para ti, Gabriel. Estou no vestíbulo, enquanto o resto da Humanidade está lá fora.

Gabriel riu-se por a ouvir repetir a analogia que um dia fizera para descrever o que Rachel significava para si.

— Já passaste o vestíbulo, Rachel.

— A sério? — interrogou ela, exagerando a entoação.

— Sim.

— Então, agora, onde estou?

— Onde gostarias de estar?

Rachel não soube o que responder e ficou em silêncio alguns segundos. Depois, acabou por dizer:

— Não quero dizer algo que possa parecer uma cobrança. Quero estar onde queres que eu esteja. Por mim está bem, desde que possamos continuar na vida um do outro.

— Como têm corrido as coisas na Suécia? — indagou ele, mudando intencionalmente de assunto.

— Bem. Para já, tenho tratado dos assuntos que me trouxeram cá e aproveitado para visitar alguns locais.

— Tens estado sozinha?

A pergunta saiu-lhe sem pensar. Gabriel verbalizou um pensamento, a curiosidade de como ela passaria a sua estadia solitária. Para sua surpresa, ela deu uma gargalhada.

— Sei o que queres saber, Gabriel. Mas, não me parece que seja justo colocares a questão. — disse ela com frontalidade num tom terno. — Se um dia quiseres ter esse tipo de informação, então eu tenho de cobrar um outro papel na tua vida.

— Sim, tens razão. Não tenho nada com isso.

Gerou-se um silêncio, ambos à espera que o outro falasse.

— Também tenho saudades tuas, Gabriel.

— Vou tentar ligar mais vezes.

— Não deve ser uma obrigação.

— Não disse que era, Rachel.

Ele ouviu-a sorrir.

Nesse instante, o som da campainha ecoou pelo apartamento.

— Estão à tocar à porta.

— É a tua companhia para a ceia de Natal? — adivinhou ela.

Gabriel caminhou para a porta, questionando:

— Não acabámos de combinar não fazer esse tipo de perguntas?

Falou com a preocupação de transmitir que o fazia de forma humorada e não como admoestação.

— Tens razão.

— Não me importo de te responder. — contrapôs, carregando no botão para abrir a porta do prédio. — Tu fizeste um pedido, quando saíste daqui. E eu irei cumprir. Quem aí vem, vai receber por isso. Podes manter a equipa em campo.

— Ok. — ouviu do outro lado, percebendo alguma tristeza na voz. — Então, não te prendo mais. Feliz Natal, Gabriel!

— Feliz Nat... — Rachel desligou antes de ele terminar.

O resto da tarde, a noite e a manhã seguinte nada tiveram a ver com Natal. A profissional, a fornecedora de serviços sexuais abandonou o apartamento de Gabriel ao fim da manhã. Ela fizera-se cobrar bem, mas ele ainda lhe deu um bónus.

No dia de Natal, quando ficou sozinho, Gabriel passou a maior parte do tempo a dormir, uma vez que pouco o fizera na companhia da mulher que ali estivera com ele.

Ao anoitecer, quando foi verificar as mensagens na sua caixa de email, voltou a cruzar-se com a mensagem de Olga. Em momento algum tivera intenção de lhe responder, mas... Talvez estivesse na altura de fechar aquele capítulo em definitivo. Sim, talvez pudesse não o admitir a ninguém, porém sabia que Olga continuava a ser uma ferida aberta na sua alma, a ferida que o transformara no homem que era. Não responder, era manter a ferida incapaz de se cicatrizar. Clicou em "reply" e começou a escrever:

 

"Olá Olga,

Não era para te responder. Estavas certa, não tenho a mínima vontade de falar contigo. Mas, era a única coisa em que estavas certa. Eu não te odeio e muito menos desejaria a tua morte, longe ou perto. Não desejo a morte de ninguém, nem sequer a tua. Referiste que escrevias sem filtros, eu retribuo-te a cortesia. O que fizeste há quinze anos foi cruel, mas não mais que a crueldade natural de um casal que termina uma relação. Poderia perdoar-te a escolha, foi um direito teu preterires-me em prol do teu ex-marido que te tinha traído. Infelizmente, nunca te conseguirei perdoar o corte abrupto com a Íris. Fico feliz por a ter reencontrado e conhecer a mulher espectacular em que ela se tornou. É um ser humano fabuloso e merece tudo de bom. E no que depender de mim, a vida nunca lhe ficará a dever nada. Agora nós? Desculpa, o “nós” já deixou de existir há muito tempo, há quinze anos. Agora eu e tu? A ferida sarou, cauterizou e não passa de uma cicatriz imperceptível. Já encontrei o espaço para a trégua há muito tempo. É uma trégua simples de compreender, tu na tua vida e eu na minha. Estiveste ausente quinze anos, podes ficar mais quinze ou trinta. Eu não te odeio, Olga. Não nutro qualquer sentimento por ti. Por isso, não te preocupes que nada disso me vai consumir. É-me indiferente o que encontraria em ti. Em mim nunca encontrarás nada porque nada tenho para ti. Fica bem e sê feliz. Gabriel"

 

Nos dias que se seguiram não houve qualquer resposta. Gabriel congratulou-se por isso, finalmente ela tinha percebido.

Na penúltima tarde do ano, ao chegar a casa, Gabriel deparou com a luz da sala acesa. Ficou imediatamente alerta, uma vez que não se recordava de ter acendido a luz antes de sair pela manhã. Teria sido a equipa de limpeza que se esquecera? Não, aquele não era dia da empresa prestar esse serviço. Abriu a porta devagar, espreitando para a sala. Sem fechar a entrada, levou a mão ao bolso para pegar no telemóvel e chamar a polícia. Nesse instante, ouviu alguém circular na sala, alguém que o fazia com naturalidade e não como um assaltante receoso em ser descoberto. Gabriel fechou a porta silenciosamente e caminhou como uma pena para a divisão iluminada. Espreitou e o que viu provocou-lhe um sorriso no rosto.

— Arco-íris?

Perto do balcão, Íris estava debruçada a ler uma revista. Ao ouvi‑lo, virou-se e brindou-o com o seu sorriso radioso. Sem perder tempo, atravessou a sala e atirou-se para os braços deles.

— Gabriel! Que saudades.

— Que fazes aqui? — questionou, trocando dois beijos com ela.

— Vim visitar-te. — explicou com naturalidade. — Optei por regressar a Montreal por Toronto. Gostaste da surpresa?

Gabriel deu por si a abraçá-la sem vontade de a largar. Porém, abriu os braços e deu um passo atrás.

— Adorei, Arco-íris! Que surpresa maravilhosa.

— Não sei se tens planos para amanhã... Vim com a ideia de passarmos o ano juntos. Que dizes?

— Digo que sim.

Íris voltou a abraçá-lo sem problemas em lhe demonstrar como tinha saudades da sua companhia.

Tal como sucedera na primeira vez que Íris viera a Toronto, o jet lag levou a melhor naquela noite. Comeram qualquer coisa encomendada, conversaram sobre a viagem e Íris foi descansar para o quarto que se tornara só seu em casa dele.

Na manhã seguinte, Gabriel teve de sair cedo por causa de uma reunião no Bay-Adelaide. Íris ainda dormia, numa tentativa de se readaptar ao horário da costa leste da América do Norte. Quando voltou ao apartamento, Gabriel não a encontrou, apenas um bilhete a dizer que saíra para fazer compras. Ambos tinham combinado comemorar a entrada no novo ano em casa, sem ir a lado algum, desfrutando da companhia do outro.

Íris chegou meia hora depois. Gabriel não a conseguiu demover de cozinhar o jantar. Por ele, poderiam muito bem encomendar. Como ela argumentou que ele talvez não gostasse da comida dela, ele não insistiu.

Quando os relógios passaram as seis da tarde, o telemóvel de Gabriel tocou. Um telefonema rápido de Rachel, que já entrara no novo ano, a desejar-lhe uma boa entrada. Não tinham voltado a falar desde o Natal e ela ligou para dizer:

— Estou no futuro, Gabriel. Não tenhas grandes expectativas, está tudo igual.

Partilharam uma gargalhada, desejaram um bom ano ao outro e desligaram.

Uma hora mais tarde, foi a vez de Íris começar a receber telefonemas, primeiro a mãe, depois alguns amigos em Portugal, todos a festejar o novo ano. Em Toronto, ainda faltavam cinco horas.

Gabriel sentou-se ao balcão, enquanto Íris circulava pela cozinha atarefada, pensando que aquele espaço estava finalmente a ser usado como merecia, com alguém a dar uso a toda a capacidade. Íris conversava com ele sobre as férias em Portugal.

— Sei que a minha mãe te escreveu. — partilhou, aguardando uma recusa em abordar o assunto.

— Quis agradecer. — respondeu ele de forma vaga, levantando-se do banco.

— Ela disse que tu respondeste... — continuou Íris, tacteando o assunto com cuidado.

— Sim.

Como não houve uma recusa evidente em falar na mãe dela, Íris desabafou:

— Achei a minha mãe um pouco abatida, quando regressei a Portugal. Acho que a minha ausência está a ter um efeito negativo nela.

— Não está habituada a que estejas longe. — atirou Gabriel, mantendo o olhar no ecrã que passava alguns resultados de jogos.

— Sim, isso é verdade. Mas, não pensei que a afectasse tanto.

Gabriel olhou para Íris que o observava, esperando uma reacção ao que lhe estava a contar.

— Ela habitua-se.

Gabriel não se pronunciou mais que aquilo. E Íris achou por bem não alongar o tema.

O último dia do ano, em Toronto, fora de Sol e um frio de rachar. A neve continuava em cada canto, mas o céu limpo deixava adivinhar uma noite propícia aos fogos de artifício. O anoitecer não trouxe nuvens, mas a temperatura diminuiu para números bem negativos.

No interior do apartamento, era como se fosse Verão. As casas no Canadá eram construídas a pensar em tudo, em todo o conforto e comodidade.

Gabriel ajudou Íris a preparar a mesa. Não chegava colocar pratos e talheres? Não! Encararam aquilo como um evento de gala. Afinal, havia que dar as boas-vindas ao novo ano com alegria e abundância.

— Onde estarias, se não tivesse vindo? — questionou ela, quando ambos observavam o resultado do seu trabalho na preparação da mesa do jantar.

— A esta hora? Talvez a ver algum jogo.

— Não ias sair? Comemorar para a rua?

— Com este frio?

— Não é na rua. Noutro sítio com amigos?

— Não faço ideia. Não tinha nada planeado. — confidenciou. Sorriu-lhe. — Ainda bem que vieste. Vai ser uma das melhores passagens de ano dos últimos tempos.

Talvez dos últimos quinze anos.

O telemóvel de Íris voltou a tocar. Ela pegou no aparelho deixado sobre o balcão e o seu rosto iluminou-se, quando viu o nome de quem a chamava.

Gabriel ouviu-a atender em inglês, percebendo igualmente que era Ashley, a amiga por quem Íris nutria um carinho especial. Teve a cortesia de lhe dar privacidade, abandonando a sala e indo para o quarto onde foi tomar um duche. Enquanto saboreava a água quente a escorrer pelo corpo, pensou em Rachel e nas saudades que se recusava a admitir que sentia dela. A americana partira há três semanas, tinha ainda mais de um mês de estadia no outro lado do oceano, e a saudade queimava-o. Apesar disso, ponderava sucessivamente declinar a sugestão dela de voltar a fazer escala em Toronto, no regresso a Seattle.

Para não decepcionar as expectativas de Íris em encarar aquela noite como um grande acontecimento, Gabriel escolhera um dos seus melhores e mais caros fatos, em tons grená com uma camisa escura. Saiu do quarto como se fosse a um daqueles espectáculos de entregas de prémios, algo que não lhe era completamente estranho, uma vez que já fora galardoado com alguns. Não encontrou Íris na sala ou na cozinha, mas pelo som percebeu que ela estava também a tomar um duche.

Íris saiu do quarto num magnífico vestido de noite em tons escuros brilhante que comprara em Lisboa para usar no Canadá em alguma ocasião especial. E maquilhara-se, o que acentuava a beleza do seu rosto.

A conversa durante o jantar foi animada. Íris preparara um prato tipicamente português, o que trouxe a Gabriel recordações longínquas da comida do seu país de origem. Acompanharam com um vinho canadiano proveniente de uma região vinícola perto da fronteira entre o estado canadiano de Ontário e o estado norte-americano de Nova Iorque.

— Delicioso. — foi a palavra que Gabriel mais vezes repetiu.

No final, a mesa ficou unicamente com alguns doces a aguardar a meia-noite. Gabriel e Íris ficaram sentados com um copo de vinho diante de si.

— Como estão as coisas com a tua amiga? — perguntou Gabriel, curioso, recordando-se da chamada de algumas horas atrás.

Íris olhou para o copo e brincou com o pé de cristal.

— Estão bem. Foi ela que ligou antes do jantar.

— Eu percebi. — disse Gabriel com um sorriso. — A tua expressão ao ver que era ela dizia tudo.

Ela encarou-o envergonhada.

— Tenho de ter cuidado com isso. Não quero que ninguém perceba.

— Já pensaste em contar-lhe?

— Contar-lhe que gosto dela? — Gabriel anuiu. Íris abanou a cabeça. — Ela nem sequer sabe que sou lésbica. — Fez uma expressão preocupada. — Acho que lhe devia contar isso. Devia dizer-lhe qual é a minha orientação sexual.

— Porquê? Isso é um assunto que só a ti diz respeito.

— Não é bem assim, Gabriel. Nós damo-nos muito bem. A Ashley é a minha melhor amiga no Canadá. Não sei se serei a melhor amiga dela, mas sei que sou uma das mais importantes. Sinto que estou a trair a nossa amizade ao não lhe contar.

— Continuo a achar que isso só te diz respeito a ti.

— Ninguém sabe que eu sou lésbica. Não partilhei a minha homossexualidade com ninguém no Canadá, além de ti. Não tenho problemas em assumi-lo, mas nunca me pareceu relevante fazê-lo, até conhecer a Ashley.

— Porque estás apaixonada por ela e tens esperança de que ela possa sentir algo parecido por ti.

— Não sente. — negou Íris com um sorriso triste. — Tenho a certeza que não sente. Tem namorado, gosta muito dele e nunca lhe notei qualquer interesse em mulheres. — Encolheu os ombros. — É cem porcento hetero.

— Então, não tens que lhe dizer.

Íris bebeu um pouco do vinho. Tornou a pousar o copo, mas manteve o polegar e o indicador no pé de cristal, brincando distraída, mais como um tique nervoso.

— Prefiro contar-lhe, mesmo que isso possa prejudicar a nossa relação. Prefiro isso, a deixar que ela descubra e corte relações comigo por lho ter escondido.

— E porque é que achas que ela irá descobrir?

— Não sei, Gabriel. Nós temos passado algum tempo juntas. Eu posso descair-me com alguma coisa.

— Como ficar com um sorriso enternecedor a falar com ela? — questionou ele, divertido.

Íris voltou a ficar envergonhada.

— Estás a ver? Tu reparaste logo.

— Porque tu, no outro dia, me contaste o que sentes.

Pelo rosto de olhar perdido, Gabriel percebeu que Íris estava a pensar em Ashley. Sem que ele perguntasse, contou:

— Ligou para me dizer... — Encarou o olhar dele com timidez, insegura pelo que ia partilhar. — Quis desejar-me um feliz Ano Novo, mas acabou por dizer que eu fui uma das melhores coisas que lhe aconteceram este ano. — Esboçou um sorriso ingénuo. — Eu disse-lhe o mesmo. Claro que eu fui apenas uma dessas coisas. O namorado, o sucesso nos estudos, as vitórias nas competições...

— Ela enunciou-te isso tudo?

— Sim, ela teve um ano memorável. — Bebeu o resto do vinho. — O meu também não foi mau. Vim para o Canadá estudar, reencontrei-te... — Trocaram um sorriso cúmplice. — Obrigado por tudo o que tens feito por mim. — Gabriel desvalorizou com um gesto vago. — E o teu ano, Gabriel? Que balanço fazes?

Foi a vez de ele ficar a olhar para o resto de vinho no copo. Que balanço fazia ele daquele ano? Fora igual a todos os últimos, com a diferença que a solidão e a angústia estavam com tendência a crescer. Os negócios continuavam um sucesso, ganhava mais dinheiro que aquele que conseguia gastar e a sua vida pessoal era uma merda.

— Foi um bom ano. — Uma resposta que poderia ser caracterizada com "verdadeiro, mas...". — Não me posso queixar.

Íris manteve-se calada, esperando mais. Contudo, Gabriel não disse mais nada.

— Não sei se a nossa amizade mo permite. — iniciou ela. — Se estiver a ser intrusiva, por favor, diz-me. — Ele anuiu, atento à voz dela. — Tu nunca falas na tua vida pessoal. Não te vejo referir ninguém que não esteja ligado ao teu trabalho. Vives sozinho. — Fez uma pausa. — Se estiver a ser...

— Não, Íris. Não estás a ser intrusiva. Não tenho problema em te responder ao que quiseres saber.

— Existe alguém? Tens alguém? — Íris fez a pergunta, olhando em redor. — Sou estúpida a fazer estas perguntas porque sinto que sei a resposta. Se tivesses alguém, estarias com ela agora, não comigo. Ou, no mínimo estaríamos todos aqui.

— Não és estúpida, Íris. És até bastante astuta e perspicaz.

— Porque é que não há ninguém?

— Porque eu não quero.

A resposta foi pronta e concisa.

— É uma opção de vida?

— É a escolha mais confortável que me deixa mais seguro em relação às pessoas.

Ela percebeu que ele falava com uma honestidade crua. O ambiente ficou pesado, não entre eles, mas por Gabriel parecer cair num estado de espírito infeliz. Para desanuviar, Íris forçou um sorriso e disse:

— Maldita canadiana que te deixou essa ferida.

Sim, Íris era astuta, perspicaz e muitíssimo inteligente. Contudo, não alcançou todos os factos. Isso só aconteceu, quando ele retorquiu:

— Não era canadiana, era portuguesa.

Íris fez uma expressão de "quem seria", sendo logo atingida pela verdade.

— Não... — O choque era bem visível. — A minha mãe? — Gabriel assentiu. — O assunto tabu...

— Contigo já não é tabu, Íris. Aliás, és a única pessoa com quem falo sobre isso. Só não falo mais porque receio dizer algo mau, algo motivado pela mágoa do que aconteceu há quinze anos. Sobre tudo isso, não te posso falar sem filtros. A Olga é tua mãe.

— Nunca pensei, Gabriel. A sério. Calculei que te pudesse ter marcado, claro. Aliás, quando referiste que era um assunto tabu e que não o querias abordar comigo, achei natural, mas... Ter sido tão duro que te tenha criado essa autoprotecção?

— Vou ser honesto contigo, Íris. Caímos neste assunto, acho que é uma boa oportunidade para te explicar... — Calou-se, ponderando as palavras. — Sei que passo uma imagem de desprendimento, sei que pareço longe, que te pareço longe. É a minha forma de ser. Como costumo dizer, sou um gajo complicado. Não sou de fazer amigos, evito relacionamentos... Sei que não é a melhor forma de viver, mas foi aquela que encontrei para mim e que se tornou mais cómoda. Isso acaba por fazer com que me distancie das pessoas e talvez me tenha distanciado um pouco de ti, quando foste para Montreal. No entanto, peço-te que nunca duvides da minha amizade por ti.

— Eu não duvido.

Nesse instante, Gabriel olhou para o smartwatch no pulso.

— Está quase na hora. — disse ele, levantando-se da cadeira para ir buscar uma garrafa de champanhe. — Faltam cinco minutos.

Íris foi buscar o seu blusão quente e vestiu-o. Gabriel entregou-lhe a garrafa e as duas flutes para também ir buscar um blusão quente. Saíram para a varanda. Dali poderiam assistir ao fogo de artificio.

— Dez, nove, oito, sete... — começou ele.

— ...seis, cinco, quatro... — juntou-se ela.

— ...três, dois, um... — continuaram os dois. — Feliz Ano Novo!

XIII

 

Íris nunca vira tanta neve na sua vida. Os primeiros dias no regresso a Montreal foram de neve, neve e mais neve. A cidade parecia mergulhada num enorme manto branco e frio. Por vezes, o Sol espreitava e oferecia manhãs bonitas, mas a temperatura raramente subia aos zero graus. Tirando as idas à McGill para as aulas, Íris não saía do seu apartamento quentinho e solitário.

Ashley andava ausente da sua vida. Talvez não ausente, mas não tão presente como Íris gostaria. A inglesa atravessava um período muito complicado, para além dos estudos, com os treinos intensivos na equipa de natação sincronizada que lhe ocupavam imensas horas do seu dia a dia e o que sobrava era dedicado ao namorado. Cruzavam-se esporadicamente na Universidade e iam mantendo o contacto por mensagens. Íris também ia seguindo as publicações da amiga no Instagram. Na última, Ashley publicara uma foto em fato-de-banho com a legenda "mais um dia de treino". Íris deve ter estado meia hora a olhar para a foto e para o corpo dela.

Íris não era uma solitária, sempre fora muito social, e confraternizava bastante com os colegas e amigos na Universidade, mas reservava o apartamento só para si. Já convidara Ashley a ir lá, mas depois meteram-se as férias de Natal e ainda não acontecera. Para além de tudo isto, Íris continuava a debater-se com a questão de contar a Ashley que era lésbica. Nunca sentira necessidade de partilhar isso com ninguém do seu grupo de amigos, mas... Ashley era diferente, Ashley provocava-lhe borboletas na barriga, batimentos acelerados do coração e um desejo imenso de a beijar. Nos seus momentos solitários em casa, Íris fantasiava cenários com a amiga, uma realidade alternativa em que ambas se amavam. Fosse como fosse, Íris acabou por decidir que tinha de lhe contar. Faltava só encontrar a altura ideal.

No entanto, aconteceu algo que precipitou tudo.

O Sábado não diferira dos últimos dias, neve, frio e um solzito que lá aparecia a espaços. Íris não tinha o mínimo interesse em sair, poucos teriam, não fosse mesmo por obrigação. Porém, ao início da tarde, Ashley ligou-lhe.

— Que andas a fazer?

— Estou em casa. Com este tempo... E tu?

— Tive treino de manhã, mas cancelaram o da tarde. Queres ir beber qualquer coisa? — Íris ia a responder, mas Ashley respondeu por ela. — Se preferires, posso ir a tua casa. — Riu divertida. — Para não saíres do quentinho.

— Se não te importares, eu faço-te um chocolate quente. — ofereceu Íris.

Cerca de meia hora mais tarde, Ashley estava a tocar à campainha. Íris recebeu-a na entrada do apartamento. Mudara de roupa, largando o pijama quente com que circulava em casa, para vestir uma camisola de lã e umas calças de ganga justas. Ashley surgiu enfiada num longo casacão felpudo com capuz caído para as costas e um cachecol que ainda lhe tapava parcialmente o rosto. Saiu do elevador a sorrir, aquele semblante cativante e feliz que Íris adorava. Sem parar, caminhou até ela e abraçou-a com força.

— Oh... Desculpa. — pediu, percebendo que trazia neve no casaco.

— Não faz mal. — Íris deu-lhe um beijo na face. Ensinara-a que em Portugal as amigas se cumprimentavam assim. — Entra.

Ashley entrou e despiu com cuidado o casacão que lhe chegava aos tornozelos, pendurando-o no cabide do vestíbulo juntamente com o cachecol. Ficou fascinada com a vista através das paredes de vidro, mesmo que não se visse mais que a cidade envolta na névoa fria e no branco invernoso que cobria as ruas, os topos dos prédios ou as copas das árvores nos jardins. Íris também estava fascinada, não com a paisagem, mas com a beleza da amiga que, por baixo do casacão, vestia uma camisola de malha polar e calças de tecido almofadado, o qual entrava dentro de botas possantes de caminhar na neve. Antes de passar o vestíbulo, teve a iniciativa de descalçar as botas.

— Queres uns chinelos?

Ashley abanou a cabeça, gostava de caminhar descalça e o chão do apartamento era aquecido.

— Tens um apartamento espectacular. — constatou a inglesa, entrando no open space e continuando a visualizar a paisagem citadina mergulhada naquele cenário invernoso. Passou a mão pelos cabelos louros, penteando-os com os dedos, descontraída. — Cancelaram o treino da tarde. — relatou, olhando em volta. — Isto é fantástico. Quem me dera viver num lugar assim.

— Eu nem quis acreditar, quando aqui vim.

— O apartamento é de um amigo teu?

— De um amigo de um amigo. — corrigiu Íris.

Ashley fez uma expressão torcida, pouco crente no que ouvia.

— Diz-me a verdade, Íris.

— Como assim?

— É um amigo... especial? Colorido?

— Já te contei a história, Ashley, é amigo de um antigo namorado da minha mãe. Eu nem conheço o senhorio, o Gabriel... O Gabriel é o meu amigo, o ex-namorado da minha mãe. O Gabriel é que o conhece.

Íris encaminhou-a para o sofá e foi à cozinha terminar a preparação do chocolate quente. Ashley acomodou-se nas almofadas confortáveis.

— E esse teu amigo? — continuou Ashley. — Esse ex‑namorado da tua mãe? Vocês... — Parou propositadamente, esperando que Íris percebesse onde queria chegar.

— Nós o quê?

Ashley atirou-lhe um semblante escarninho.

— Tu sabes. Tu e ele...

— Não! — exclamou Íris, quase chocada. — Tem idade para ser meu pai.

— E?

— Pára com isso, Ashley. — pediu Íris, aborrecida. — O Gabriel é um grande amigo. Gosto muito dele, mas não nesse sentido.

Além disso, sou lésbica e não tenho interesse sexual em homens.

Ashley compreendeu que a brincadeira estava a ter um resultado perverso, por isso, mudou de assunto e voltou a olhar para o exterior.

— Se vivesse num lugar assim, nunca quereria sair.

O espaço estava iluminado pelos apliques ténues na zona de estar e pela luz mais forte do sector da cozinha. Íris preparou duas canecas e trouxe-as a fumegar para o sofá, dando uma à amiga.

— Ao fim de algum tempo habituas-te. — Íris sentou-se ao lado dela no sofá. — E voltas a querer sair.

— Foi isso que aconteceu contigo?

— Gosto de sair, mas desde que vivo em Montreal que o tempo não convida a isso. Então desde que veio a neve... — Sorriu sem esconder a ternura no olhar cor de amêndoa. — Mais vale ficar no quentinho.

— Foi o que pensei. — Ashley piscou-lhe o olho. — Quando te liguei. E nem imaginava que a tua casa era assim.

Ficaram a observar a tarde fria para lá dos vidros. O ambiente no apartamento estava acolhedor, tanto em temperatura como na iluminação ténue que as fazia sentir envolvidas e repousadas.

— Hum... Delicioso. — elogiou Ashley, lambendo os lábios.

Íris notou que ficara um pouco de chocolate no canto da boca de Ashley. Hum... Que vontade de a lamber...

Para sua surpresa, Ashley esticou o braço na sua direcção e passou-lhe o polegar pelo lábio superior. Íris sentiu os mamilos a enrijecer com aquele toque. Só depois de lhe limpar o cacau derretido no lábio é que Ashley sentiu que poderia ter sido invasiva.

— Desculpa... Vi que tinhas um pouco de...

— Não faz mal. — descansou-a, divertida, lamentando que ela não a quisesse tocar mais e noutros pontos do seu corpo. Contudo, aproveitou. — Posso? — O pedido foi para lhe limpar o cantinho dos lábios. A inglesa anuiu. E Íris quase tremeu ao passar o indicador na boca da amiga.

A temperatura no open space parecia ter duplicado para Íris. Para atenuar as sensações que lhe picavam o corpo, convidou Ashley a vir conhecer o resto da casa. Não havia muito para ver, apenas os quartos e a casa de banho.

O quarto de Íris tinha o seu toque pessoal. A cama tinha um edredão colorido que ela comprara já em Montreal. O móvel de gavetas tinha no topo molduras com fotos e frascos de perfumes. Existia um espelho alto emoldurado num suporte de madeira. O roupeiro estava ligeiramente aberto, um esquecimento do momento em que fora mudar de roupa para receber a amiga.

— É a tua cara. — disse Ashley.

— Porque dizes isso?

— É colorido e alegre, tal como tu.

Passaram ao outro quarto, um espaço intocado por Íris, o qual mantinha a sua decoração impessoal, uma divisão vaga, quase como uma solução para um hóspede. Tinha mobília, uma cama e um móvel de gavetas vazio. O roupeiro estava aberto e sem nada, mantido assim para não ganhar qualquer cheiro por estar fechado.

— Já pensaste em alugar este quarto? — questionou Ashley.

Íris bebericou um pouco do chocolate. Nunca pensara nessa hipótese, até porque a casa não era sua. Além disso, já era uma sorte o senhorio não ter tido essa ideia e querer que ela partilhasse o apartamento com outra pessoa.

— A casa não é minha, Ashley. — disse Íris como se a outra não o soubesse. — Eu só a alugo para o tempo que estou em Montreal.

— Sim, eu sei. Mas, podias fazer algum dinheiro com isso. — insistiu a inglesa, continuando a lamber os lábios distraidamente, sem lhe passar pela cabeça o quanto isso excitava a amiga. Olhou para Íris. — Eu não me importava de te alugar este quarto.

— Tu?

— Sim, eu. — Sorriu descrente. — Calculo que seja caro. — Olhou para Íris com ternura. — Seria maravilhoso poder viver tão perto da Universidade.

— Pensei que ias dizer, comigo. — atirou na brincadeira.

— Nós damo-nos bem. És boa companhia. Não me importava de partilhar casa contigo.

A afirmação foi algo tão inesperado que deixou Íris sem reacção. Seria maravilhoso partilhar a casa com ela, mas...

Antes que conseguisse dizer algo, Ashley pareceu acordar-se para a realidade:

— Deve ser caro. O que pagas é um valor especial para ti. Não sou amiga do teu amigo, nem do amigo dele. Para mim, seria o preço normal, ou seja, incomportável.

— Não és amiga deles, mas és minha amiga.

— Achas que me fariam um bom preço, Íris?

— Nunca pensei na possibilidade de ter alguém a viver aqui comigo. — foi a resposta.

— Ah... Ok. Compreendo. — Ashley revelou-se decepcionada, interpretando aquilo como uma recusa.

— Posso falar com o senhorio, saber se quer alugar o quarto. Se for para tu o ocupares, não me importo.

— A sério? — O entusiasmo de Ashley era notório. — Se ele concordasse, era maravilhoso. Só o que eu pouparia todos os dias em viagens nos transportes públicos...

Íris pegou no telemóvel e enviou uma mensagem a Gabriel para saber se lhe podia ligar.

— Que fazes, Íris?

— Saber se é viável o que sugeres.

Em vez de responder à mensagem, Gabriel ligou a Íris.

— É ele. — informou Íris, antes de atender.

— O senhorio?

— O Gabriel.

Ashley ficou a observá-la, expectante. Claro que não perceberia nada da conversa, uma vez que Íris e Gabriel falaram em português.

— Queria pedir-te um favor. Achas que o teu amigo teria interesse em alugar o outro quarto do apartamento?

— Não faço ideia, Íris. Ele só te emprestou o apartamento. Pagas um aluguer simbólico porque eu sei que te sentirias mal em aceitar sem pagar.

— Sim, isso é verdade.

— Mas, explica lá o que tens em mente.

— Lembras-te daquela amiga que te falei?

— Aquela de quem tu gostas?

Íris ouviu a pergunta com os olhos em Ashley que a ouvia sem perceber nada. Sorriu-lhe e respondeu a Gabriel:

— Sim. Ela veio visitar-me e perguntou-me se eu queria alugar o quarto vago. Ela vive a uma hora da Universidade. Imaginas como adoraria ficar mais perto da McGill.

— E como tu adorarias tê-la a viver contigo.

— Não comento. — retorquiu alegre.

— Eu falo com ele, Íris. Mas, se aceitar, irá com toda a certeza cobrar um aluguer equivalente ao sítio. — lembrou, procurando dar veracidade à sua mentira. — Achas que ela pode pagar?

— Calculo que só tenha capacidade para o que já está a pagar na residência de estudantes.

— E quanto é?

— Mais ou menos aquilo que eu pago aqui.

Íris ouviu-o suspirar do outro lado. Num tom sério, Gabriel preocupou-se em não dizer algo que pudesse criar suspeitas. Aceitar tudo com normalidade, seria estranho.

— O que pagas é por ser para ti.

— Eu sei, Gabriel. E agradeço-lhe isso a ele e a ti. Mas, se fosse possível ele fazer uma atenção por ela ser minha amiga...

Íris ouviu-o sorrir.

— Eu falo com ele. Assim que tiver uma resposta para ti, eu ligo.

— Obrigado, Gabriel.

— Íris! — chamou num tom paternal. — Tens a certeza que é isso que queres?

— Tenho.

Íris desligou e explicou a Ashley o que haviam conversado. Tal como Íris calculara, a amiga não poderia pagar mais que aquilo que já pagava a uma hora de distância numa residência para estudantes.

Claro que Gabriel não precisava de perguntar a ninguém, ele era o dono do apartamento. O preço também não era relevante, ele não precisava do dinheiro. Para não se denunciar ou criar suspeitas a Íris, deixou passar uma hora, antes de lhe ligar.

No apartamento, Íris e Ashley regressaram ao sofá e ficaram a conversar. Não sabiam quando iriam ter uma resposta, poderia ser naquela tarde, no dia seguinte ou na próxima semana. Era evidente que gostavam muito da companhia uma da outra.

O telemóvel de Íris tocou.

— Ele não estava muito inclinado para alugar a mais uma pessoa. — inventou Gabriel. — Mas, eu expliquei-lhe que era uma grande amiga tua e eu próprio me sentiria mais descansado sabendo que tinhas companhia em casa. Ele acabou por concordar e cobra o mesmo que a ti.

— Não sei o que dizer, Gabriel.

— Basta saber que estás feliz.

— Eu adoro-te!

— O apartamento não é meu, Íris.

— Mas é graças a ti que aqui estou.

Íris e Ashley tinham passado o tempo a dialogar sobre a vida, mais a inglesa que era uma faladora nata, enquanto a portuguesa a olhava inebriada. Depois do telefonema de Gabriel, fora Ashley a perder a fala, ansiando pela decisão.

— Se puderes pagar o mesmo que eu, ele aluga-te o quarto.

— A sério? — Ashley nem queria acreditar.

Num impulso e em resposta, avançou para Íris e abraçou-a com força.

— Há condições, Ashley. — alertou Íris, aproveitando o abraço. A inglesa olhou-a atenta, anuindo e à espera de saber quais eram. — Não podes trazer o teu namorado cá para casa.

Era a vez de Íris aproveitar para algumas invenções.

— É justo. — concordou. — Calculo que te tenha imposto o mesmo. — Sorriu. — Apesar que não estou a ver como controla ele isso.

— Tudo se sabe. — contrapôs Íris com seriedade. — E não quero fazer nada que lhe possa desagradar. Fez-me um grande favor em permitir-me viver aqui. E agora está a fazer outro, ao permitir-te a ti.

— Sim, Íris. Tens razão. Estava a brincar. Não te preocupes, eu não o trago cá.

Ficaram a olhar-se. Ashley suspeitou que as condições não tinham acabado e aguardou o resto da lista. Contudo, Íris não tinha mais condições, tinha uma confissão.

— Preciso que saibas uma coisa, Ashley. Algo a meu respeito. — Pensou naquilo que Gabriel lhe dissera, que ninguém tinha nada com a sua orientação sexual, nem a amiga por quem estava apaixonada. Só que agora, a amiga ia viver ali, tinha de saber. — Algo que te pode deixar... não sei, talvez desconfortável.

— Como assim?

Íris equacionou em segundos a melhor forma de o dizer, mas não encontrou melhor frase que:

— Eu sou lésbica.

A revelação surpreendeu Ashley, mais pela novidade e por nunca lhe ter passado pela cabeça tal hipótese.

— Gostas de mulheres?

— Sim. Ser lésbica é isso. — confirmou Íris, nervosa, receosa do resultado da revelação na amizade delas. — Isso deixa-te desconfortável?

Ashley encolheu os ombros, fez uma expressão de desinteresse e sorriu.

— Não tenho qualquer problema com isso, Íris. Porque me haveria de sentir desconfortável?

— Não sei. Nunca falámos sobre os nossos pontos de vista acerca disso.

Ashley tornou a encolher os ombros, dando a entender que aquilo era irrelevante.

— Não me causa qualquer desconforto. Podes ficar descansada.

Talvez por insegurança ou por ter ponderado a questão demasiado tempo, Íris encarou a naturalidade da outra com desconfiança. Seria mesmo a sua homossexualidade irrelevante para a inglesa ou estaria a outra a reagir daquela maneira para não perder a oportunidade de viver num lugar melhor?

Íris convidou-a para ficar e jantar com ela. Porém, Ashley justificou que queria evitar as temperaturas muitos baixas do fim da tarde e anoitecer.

— Quando achas que me posso mudar?

— Quando quiseres, Ashley.

— Amanhã?

Íris não esperava que a amiga quisesse fazer a mudança tão cedo. Contudo, estando as coisas acertadas, porque haveria de adiar? Assim, no Domingo, Ashley trouxe as suas coisas com a ajuda do namorado.

— Aí! — ordenou ao rapaz na brincadeira, impedindo-o de passar a porta do apartamento. — Não podes entrar. São as regras.

— Não exageres. — disse Íris, ajudando a transportar a bagagem.

Ashley tinha algumas malas, roupas e calçado variado, o normal a uma estudante europeia a milhares de quilómetros de casa. Logo que tudo fora trazido para o apartamento, ela despediu-se do namorado. Íris evitou olhar para eles enquanto trocavam beijos.

A vida no apartamento não correu como Íris esperava, se bem que nem ela saberia muito bem o que esperar. Ashley não era a companheira de apartamento ideal, longe disso, um tanto ao quanto desorganizada, deixava a roupa suja espalhada na casa de banho e louça usada na cozinha, como se esperasse que os objectos ganhassem vida e fossem tomar um duche na torneira ou enfiar-se na máquina de lavar. Íris protestou e Aslhey passou a ter mais cuidado.

Talvez Íris tivesse pensado que, ao partilharem o apartamento, iriam ter uma convivência semelhante aos encontros de amigas que faziam antes. Não foi o caso, Ashley vivia independente de Íris. Nem era de propósito, a inglesa é que tinha uma agenda complicada entre estudos, treinos e namorado.

Para Íris, a vantagem que compensava os pontos menos bons era ter Ashley perto de si, vê-la todos os dias, conversar com ela... A orientação sexual de Íris não se revelou um problema entre elas, nunca mais falaram sobre isso e Ashley continuou a lidar da mesma forma com Íris, sem qualquer complexo em ser carinhosa nos abraços que lhe dava todas as manhãs, ao cruzarem-se na sala ou na cozinha. Outra vantagem para Íris era o facto de Ashley andar completamente à vontade em casa, ou seja, o seu traje típico no apartamento era uma camisola larga de manga comprida e bainha até às coxas. Íris ficava excitada sempre que lhe via as pernas nuas, curvilíneas e musculadas, fosse sentada no sofá ou a circular pela casa na sua passada elegante. Todos os movimentos de Ashley eram graciosos, fruto do treino intenso de natação sincronizada, onde as nadadoras têm todos aqueles gestos elegantes, como se fossem bailarinas do Bolshoi. Nada escapava ao olhar de Íris, a forma como Ashley colocava os pés no chão, caminhava, os gestos das mãos... A inglesa fazia tudo de forma automática, um comportamento completamente enraizado em si, e nem percebia a graciosidade de cisne que tinha aos olhos de Íris.

Para além do convívio no apartamento, Íris e Ashley tinham uma vida diária separada. Os horários das aulas também não eram coincidentes, raramente faziam o trajecto entre o prédio e a Universidade juntas. Talvez por viverem na mesma casa, já não passeavam pela cidade como dantes, nem se divertiam em conjunto. Ashley procurava ocupar o tempo disponível com o seu grupo de amigos, o que também levou a que Íris se dedicasse mais aos seus.

Ao fim de duas semanas a viver juntas, Íris questionava-se se partilhar o apartamento com a inglesa fora benéfico ou não.

Em finais de Janeiro, a neve e o frio continuavam a não dar tréguas. Íris sabia que o Inverno era rigoroso no Canadá, mas não contava que exercesse aquela pressão nela. Felizmente, tinha o Path para circular entre casa e aulas protegida do clima agreste.

Naquele fim de semana, Ashley não estava nada bem. Chegou a casa com uma dor de cabeça horrível e indisposta. Tivera treinos na piscina pela manhã, mas sentira-se mal e acabou por pedir dispensa. Passou por Íris com um esgar de sofrimento e disse que ia para o quarto descansar.

Íris começou a fazer imensos filmes acerca do que se poderia estar a passar com ela, que pudesse estar doente, que algo tivesse acontecido... Chegou mesmo a pensar que a amiga pudesse estar grávida, quando a ouviu passar a correr para a casa de banho. Ashley nem sequer almoçou e, a meio da tarde, Íris bateu na porta do quarto dela para lhe oferecer um chá. A amiga permanecia deitada na cama, envolta no escuro, e aceitou a oferta.

Na cozinha, Íris aqueceu a água e escolheu um chá da variedade que tinha em casa. Adorava chá e tinha muitos diferentes. A opção ganhadora fora a erva cidreira, conhecida por fazer bem a quem estava indisposto. Preparou um bule e uma chávena, transportando ambos num tabuleiro até ao quarto da amiga. Encontrou Ashley sentada na cama com a luz acesa e o rosto estremunhado.

— Obrigado, Íris. És um amor.

— Se precisares de mais alguma coisa, chama-me.

A inglesa anuiu e sorveu um pouco do chá quente.

Íris foi ao balcão buscar a chávena que preparara para si e foi sentar-se no sofá a ver televisão, um programa canadiano de entretenimento que se habituara a ver, quando não havia nada melhor para fazer.

O tempo passou sem que Íris ouvisse a amiga, calculando que a outra adormecera. Lá fora, a tarde foi ficando cada vez mais escura e os flocos de neve singelos embatiam nos vidros. Íris levantou-se do sofá, desfilando pela sala em pijama, e foi fechar os longos blackouts que tapavam a parede de vidro para o exterior. Regressou ao seu lugar de telespectadora do canal televisivo.

Alguns minutos mais tarde, ouviu movimento atrás de si. Virou‑se e viu Ashley a sair do quarto com o tabuleiro na mão.

— Podias ter chamado, eu ia lá buscar.

— Não vou fazer de ti minha criada.

— Não é nada disso, Ashley. Tu estás indisposta...

A amiga sorriu-lhe.

— Obrigado pelo chá.

— De nada.

Ashley largou o tabuleiro no balcão da cozinha e regressou à sala. Passou em frente a Íris e sentou-se a seu lado, esticando as pernas nuas.

— Já me sinto melhor. — partilhou.

— Sabes porque ficaste assim?

— Calculo que tenha sido por não ter tomado pequeno-almoço, de manhã. Saí apressada para o treino... Enfim. Fiz o que nunca se deve fazer. O organismo reagiu mal.

— O importante é que estás melhor.

As duas ficaram sentadas, encostadas uma à outra, no sofá a ver televisão. Ia começar uma série que Ashley e Íris gostavam de ver.

Enquanto viam as imagens no ecrã, Ashley disse do nada:

— Obrigado por cuidares de mim.

Íris olhou para ela, sorrindo e desvalorizando:

— Não foi nada de mais. Foi só um chá.

Ashley encarou-lhe o olhar em silêncio.

— Que foi, Ashley?

— Nada. — respondeu, sem se mexer.

Íris revelou-se divertida para disfarçar o nervosismo provocado por a ter tão perto de si.

— Vais ficar assim a olhar fixamente para mim?

Ignorando a pergunta, Ashley lembrou:

— Estavas com um ar muito preocupado, quando me levaste o chá.

— Tu não estava bem. Fiquei preocupada. És minha amiga.

Ashley deitou a cabeça no ombro de Íris sem pedir autorização.

— Foi só uma indisposição. Já estou bem.

— Estavas tão enjoada e maldisposta... Cheguei a pensar que pudesses estar... sei lá, que pudesses estar grávida.

A gargalhada com que a inglesa brindou a amiga foi deliciosa.

— Isso tenho eu a certeza que não era. — ripostou com humor. — Não sou doida, Íris. Eu faço sexo com todas as precauções.

— Parvoíce minha.

— Tu és tudo menos parva. — Ashley colocou a sua mão sobre a de Íris. — E és a minha melhor amiga.

Íris olhou para ela que, num movimento automático, voltou a levantar a cabeça do ombro onde se apoiara.

— Tu também és a minha melhor amiga, Ashley.

As duas uniram-se num abraço apertado. Íris sentiu-a a respirar no seu cabelo. Ashley deu-lhe um beijo na face, depois deu outro e outro e outro e outro...

— Já chega, Ashley. — pediu Íris, pensando que Ashley estava a brincar com ela.

A amiga parou, afastou-se e olhou-a nos olhos. Íris ficou confusa, uma vez que não encontrou uma expressão divertida, era algo mais carnal, quase selvagem. Viu o seu olhar baixar dos olhos para a boca. E sem que nada o fizesse adivinhar, Ashley avançou e beijou-lhe os lábios.

Íris começou por ficar petrificada pela surpresa do momento. Colocou as ideias em ordem, em poucos segundos, ao mesmo tempo que os lábios da inglesa chocavam com os seus. Não perdeu tempo com perguntas, limitou-se a desfrutar.

Não houve palavras nem frases. Não disseram nada uma à outra. Limitaram-se a deixar passar os minutos enquanto se beijavam ardentemente. Ambas pareciam ter receio de se tocar e mantinham-se abraçadas no sofá, sentadas e encostadas às almofadas.

Foi Ashley quem teve a iniciativa de interromper os beijos. Íris não conseguiu esconder o ar aparvalhado por tudo aquilo estar a acontecer. Ia para dizer algo, mas Ashley colocou o indicador na sua boca para que não dissesse nada.

— Desculpa, foi um impulso. — justificou. — Espero que não leves a mal.

— Estou surpreendida, Ashley. Só isso.

Observaram-se sem saber o que dizer. A inglesa acabou por desviar o rosto e dizer:

— Eu não sou lésbica.

Íris já esperava aquilo. Demonstrou algum desprendimento pela situação e lamentou:

— É pena. Beijas muito bem.

Apesar de tudo, havia mágoa na voz. Ashley percebeu-o.

— Desculpa! Não quis dizê-lo como se tivesse alguma coisa contra a que sejas.

— Eu sei que não tens problemas com isso.

— Não quero que me interpretes mal. Gosto muito de ti. Foi um impulso.

Íris atirou-lhe um semblante irónico.

— Não serás tu a interpretar mal?

— Porque dizes isso?

A resposta foi um gesto de "não interessa".

Para Íris, aquilo parecia ter sido... Nem sabia muito bem como o caracterizar. Ashley avançara para ela com um desejo ardente e, agora, dava sinais de arrependimento. Considerou que o melhor seria afastar-se para colocar as ideias em ordem, ir cada uma para o seu quarto e reencontrarem-se na sala, daí a uns minutos, como se nada tivesse acontecido.

— Estou confusa. — confessou Ashley, quando Íris deu sinal de querer sair dali. — Agi por impulso. — Agarrou-lhe a mão. — A verdade é que adorei beijar-te e estou a olhar para ti com vontade de continuar.

— E porque não o fazes? Eu também adorei beijar-te.

— Não sei como reagir. — A forma como a inglesa falava era genuína e indiferente à vulnerabilidade que demonstrava. — Nunca senti isto por uma mulher. Não sei como agir...

— Não é muito diferente a estares com o teu namorado.

— Não tem nada a ver. — contrariou Ashley, fazendo uma expressão torcida.

— Não? — Íris sentiu que a amiga estava um pouco perdida. — Queres que te ensine a estar com uma mulher?

Semelhante ideia seria algo bizarro para Ashley. Seria numa outra altura, não quando estava completamente atraída pela bela portuguesa de olhos cor de amêndoa. O silêncio foi o abrir da porta ao desejo que a consumia.

Íris gostaria de ter tido uma resposta, uma confirmação de que queria aquilo tanto quanto ela. Não se deixou desmotivar e despiu a camisola do pijama, sem complexo por lhe revelar os seios nus. Viu Ashley contemplá-los inexpressiva. Mesmo assim, estava decidida a continuar e desfez-se das calças do pijama, ficando somente em cuecas. Sentou-se de frente para ela. Com carinho, pegou-lhe nas mãos e encaminhou-as para o seu peito.

— Alguma vez tocaste os seios de outra mulher?

— Não.

— Gostas?

— São lindos.

Íris aproximou-se mais, abraçou-a e voltou a beijá-la. Ashley não reprimiu a vontade e ambas voltaram a envolver-se num beijo apaixonado. Durou mais alguns minutos e foram mais profundos que os anteriores. Mais uma vez, foi Ashley quem os interrompeu.

— Espera. — pediu, levando as mãos à bainha da camisola e puxando-a para a despir pela cabeça.

Houve alguma decepção em Íris, quando viu que a amiga tinha sutiã, um sutiã desportivo elástico. Sorriu ao ver os mamilos a empurrar o tecido.

Retomaram os beijos. Íris gostaria que ela se despisse mais, mas não o verbalizou, deixando as coisas fluir. Estavam ambas muito excitadas. Íris procurava perceber aquilo que Ashley gostava, enquanto a outra andava ainda a tentar saber o que fazer.

— Sou tua, Íris. Faz o que quiseres comigo.

Olharam-se nos olhos.

— Tira o sutiã para mim.

Ashley concedeu-lhe o desejo, enfiando os dedos esguios por baixo do elástico e puxando o tecido devagar. Quantas vezes Íris imaginara o peito da amiga, quando via as suas fotos sedutoras no Instagram, fantasiando como seria ela completamente nua? Permitiu-se a apreciar o momento em que as mãos elegantes puxaram o pano para cima, vendo dois seios firmes com mamilos hirtos a apontar para si.

Íris saltou do sofá para o chão. Ashley observou-a confusa. Íris ajoelhou-se diante de si e puxou-a pelas ancas, fazendo-a deslizar no assento fofo. Acomodou-a como achou melhor e puxou-lhe as cuecas pelas coxas musculadas, passando pelos joelhos e parando nos pés, acabando por as atirar para longe. Levantou-lhe as pernas e afastou-as. Ashley deixou-se conduzir. Íris ficou deliciada com a forma como ela dobrou os joelhos e esticou os pés, qual bailarina do Lago dos Cisnes.

A partir daí, a sala foi tomada pelo som ofegante da inglesa, misturado com a sonoridade de uma língua húmida portuguesa a tocá-la nos lugares mais íntimos onde jamais mulher alguma tocara.

XIV

 

As bancadas da arena estavam lotadas, o que não era estranho em jogos dos Toronto Maple Leafs. O jogo de hóquei no gelo estava no seu primeiro de dois intervalos. Para quem não sabe, os jogos de hóquei no gelo têm três partes de vinte minutos de tempo útil. Na pista de gelo, veículos especializados poliam o gelo com o apoio de vários assistentes, afinando o piso para os próximos vinte minutos de jogo.

Gabriel assistia ao desafio, que naquela noite opunha a equipa da cidade aos New Jersey Devils, no seu camarote no ScotiaBank Arena. O espaço era semelhante ao camarote do Rogers Centre onde ele conhecera Rachel. Para Gabriel, era quase um desperdício ter um espaço tão grande só para ele. Também a vida parecia ser um desperdício sem ninguém a fazer parte dela para além do mundo empresarial desportivo em que se movia. No final da primeira parte, Toronto já levava dois golos de vantagem. A época continuava a correr com sucesso aos azuis e brancos, bem como aos vários jogadores da equipa agenciados por si, entre eles Tiivu que continuava goleador.

Ser proprietário daquele camarote, a juntar ao seu estatuto, faziam de Gabriel uma pessoa conceituada por ali. Muitas vezes, os directores do clube vinham cumprimentá-lo, sabendo que ele ali estava. Gabriel não marcava presença em todos os jogos, não tinha vida para assistir a mais de trinta a trinta e cinco desafios ao longo da temporada. Escolhia alguns de maior rivalidade, como defrontar os Canadiens de Montreal, um ou outro em que tivesse disponibilidade e os jogos decisivos dos playoffs. Naquela noite, até ao momento, ninguém viera visitá-lo ao camarote, somente a rapariga que exercia funções de RP para saber se ele queria alguma coisa e mostrar-se muito solícita.

Nesse primeiro intervalo, Gabriel aproveitou a pausa para consultar a caixa de email no seu telemóvel. Encontrou uma mensagem nova de Íris, enviada dez minutos antes.

 

"Olá Gabriel,

Tenho algo para te contar. É capaz de ser extenso, por isso, optei por te enviar um email. Espero que não te importes de fazer de ti meu confidente, mas é um assunto que não partilho com qualquer pessoa. E neste momento, és o único com quem sinto confiança para falar nisto. No caso, escrever :) Como te tinha contado antes, eu gosto muito da minha amiga Ashley, muito mesmo. Sou apaixonada por ela. Não te cheguei a contar que... Infelizmente, tu e eu deixamos passar os dias com a certeza que estamos na vida um do outro, mas com pouco contacto. Não é uma crítica, é um facto. Temos silêncios demasiado prolongados. Sei que já falámos sobre isto, mas... Desculpa a honestidade, gostava que não se passassem tantos dias sem falarmos. Não me esqueci do que disseste, acho que estou a referir isto mais como uma crítica a mim que me deveria esforçar mais para não te deixar cair nessa distância de protecção. Seja como for, mesmo com estas ausências, nunca duvides que te adoro do fundo do coração. Mas, voltando ao motivo deste meu email. Não te cheguei a contar que, quando a Ashley veio viver para cá, eu contei-lhe que era lésbica. Ela aceitou-o com a maior naturalidade, o que acabou por ser um alívio para mim. Agora, a parte que só partilho contigo porque preciso de o partilhar com alguém e só tu me mereces essa confiança e só contigo me sinto segura para desabafar as minhas tretas e inseguranças. Eu e a Ashley envolvemo-nos sexualmente. Sei que deves estar surpreendido, não tanto como eu fiquei na altura, uma vez que ela nunca dera qualquer sinal de sentir interesse em mim ou em qualquer mulher. Só que aconteceu. Ela continua a dizer que não é lésbica. O que é certo é que dormimos juntas e fazemos sexo regularmente. Sei que ela está muito confusa e encara isto como uma espécie de guilty pleasure. Pediu-me paciência, tempo para se entender a ela própria. Recusa-se a assumir a nossa relação e quase implorou para que nunca contasse a ninguém. Estou a quebrar a promessa contigo, mas tu estás num patamar muito elevado na minha vida e contigo sou um livro aberto. A Ashley continua com o namorado e não põe sequer como hipótese terminar o namoro e assumir o que temos. Sei que talvez não devesse aceitar isto, mas o Mundo perde toda a importância quando ela me olha nos olhos e diz que me ama. Pelo menos, nisso ela parece não ter dúvidas. Repete-mo inúmeras vezes quando estamos sós. É inexplicável a felicidade de a ouvir dizer com toda a sinceridade e paixão "Amo-te Íris", já para não falar em tudo o resto que partilhamos aqui em casa. Seja como for, sei que não é a situação ideal, nem me deveria sujeitar a ser uma espécie de amante, mas... Não espero que dês qualquer conselho acerca disto, eu sei o que irias dizer, talvez o mesmo que a minha consciência. Como alguém um dia disse, o amor é fodido. Vou deixar andar... Só queria mesmo partilhá-lo com alguém. Não! É mentira. Só queria mesmo partilhá-lo contigo. Adoro-te! Beijinhos, Íris (para ti, Arco-íris)."

 

Gabriel foi resgatado à realidade pelo apito do árbitro a iniciar o segundo período de jogo. Ficou a pensar no que acabara de ler. Por um lado, ficava feliz por ela. Por outro lado, receava que a outra a magoasse.

Não teria pretensões a dar-lhe conselhos. Olha quem, o tipo mais complicado com relações. Iria responder-lhe mais tarde. Pensou na parte que lhe dizia respeito a si...

O pavilhão explodiu em uníssono à sua volta, Toronto voltava a marcar um golo. Gabriel constatou que já não dava atenção ao jogo. Voltou ao texto. Ela tinha razão, estavam a deixar-se afastar com a premissa que pertenciam à vida um do outro. Um dia, quando dessem por isso, tinham decorrido anos e não passavam de uma recordação na memória de ambos. Tinha de fazer concessões. E não era só com Íris.

A neve permanecia em Toronto como um hóspede que ninguém convidara e que insistia em não desaparecer. Felizmente, a cidade estava capacitada para enfrentar aquele clima, não era propriamente como em Portugal em que as estradas fecham quando caiem meia dúzia de flocos. Conduzir com aquele tempo era sempre uma tarefa que exigia muita atenção, até para um Ferrari. Também Gabriel já se habituara a isso, quase todos os anos nevava.

No seu apartamento, acomodou-se no sofá com um copo de whisky e olhou para a noite escura e fria lá fora. Sentiu a solidão normal de todas as noites a envolvê-lo, aquela angústia que se cravava na pele, procurando sugar-lhe a esperança e empurrando-o para a constatação de que a vida não seria mais que aquilo.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Começava a questionar a utilidade de tanto dinheiro, se não sentia alegria. Porque não se podia comprar alegria? Se podemos comprar prazer porque é que não podemos comprar alegria? O que é que lhe poderia dar alegria? Nem ele sabia. Se não sabes o que tens de comprar, como é que queres encontrar onde o comprar?

Pelo menos, tinha saúde. Ou queria acreditar que sim, que tinha. Seria tudo aquilo que sentia, falta de saúde? Poderia estar a passar por uma depressão? Seria uma crise de meia-idade? Talvez...

Não, aquelas coisas nada tinham a ver com saúde. Sempre achara que quem se escondia atrás de problemas psicológicos não eram mais que cobardes. Phil dizia que não, que as doenças mentais eram doenças. Irritara-se com ele, quando lho disse, pensando que lhe estava a chamar doente mental. Contudo, Phil recusava-lhe medicação, justificando que não lhe queria criar uma dependência, quando Gabriel conseguiria resolver aquele problema com a abertura do seu mundo a quem gostava de si.

Íris regressou ao seu pensamento. Olhou para o relógio. Não era demasiado tarde, poderia ligar-lhe... Acabou por recusar a vontade a si mesmo. Levantou-se do sofá e foi até ao balcão da cozinha onde costumava estar o seu computador portátil. Ligou-o e abriu o email no aparelho, uma vez que lhe dava mais jeito escrever naquele teclado que no ecrã do smartphone.

 

"Olá Arco-íris,

Obrigado pela confiança que tens em mim. Serei sempre o abrigo, o confidente, o amigo que precisares. Atribuis-me um papel muito importante na tua vida e farei tudo para nunca te decepcionar. Em relação ao que partilhaste comigo, achaste mesmo que eu ia dar-te algum conselho? Logo eu que não me sei aconselhar a mim mesmo? Apesar de todas as lacunas dessa relação, só te posso dizer que a aproveites. Deixa fluir, como disseste. De que vale fazer planos, se a vida nos prega partidas? Sabes ao que me refiro, aconteceu comigo há quase dezasseis anos. Não conheço a Ashley, mas se te encanta tanto é porque tem algo de especial e é bom ser humano. E quem tem essas características não usa o verbo amar em vão. Por isso, acredito que, no turbilhão de emoções que possa estar a atravessar, te ame mesmo. Dá-lhe tempo. Pelo que contas, tens de a deixar assumir-se a ela própria primeiro. Quando ela aceitar o amor que partilham como um tesouro e não como um guilty pleasure, tenho a certeza que estará preparada para se assumir e vos assumir. Para já, não penses muito nisso e desfruta do que têm. Claro que isto é a opinião do pior conselheiro que poderias ter. Um grande beijinho para ti. Gabriel."

 

Tal como dissera a si próprio, não era só com Íris que tinha de fazer concessões, se bem que não havia muito mais a conceder-lhe, ela atravessara com facilidade o seu escudo defensivo.

A outra pessoa era Rachel.

Desde o Ano Novo que não voltaram a falar, limitando-se a trocar mensagens esporádicas. Em finais de Janeiro, Rachel escreveu-lhe a dizer que iria regressar da Europa no início de Fevereiro e que faria escala em Toronto. Queria saber se deveria reservar quarto num hotel. Gabriel respondeu-lhe que preferia que ela passasse a noite de escala no seu apartamento.

Gabriel continuava a debater-se com sentimentos contraditórios em relação a Rachel. Gostava dela, não tinha dúvidas disso. Gostava da amiga que ela se propunha ser e da amante que havia sido naquela noite em sua casa. Seria fácil construírem uma relação, fosse de amizade, amorosa ou meramente sexual. Gabriel não sabia qual o deixava mais confortável, sendo que suspeitava que qualquer das possibilidades o deixavam desconfortável. Para ele, todas as relações tinham um fim, daí que não valesse a pena começar algo que lhe provocaria sofrimento mais tarde. Fosse como fosse, ela não perguntara se ele queria que fizesse escala em Toronto, como deixara no ar no momento em que se haviam despedido à porta do apartamento. Rachel tomara a iniciativa de passar por lá, deixando-lhe a decisão de a querer ver ou não. Seria impensável, saber que ela vinha à cidade e não estar com ela. Já o seria se fossem só amigos, quanto mais depois de terem feito sexo. Mesmo assim, ele estava relutante em voltar a vê-la.

Para tentar perceber-se um pouco, Gabriel visitou Phil na véspera do regresso de Rachel.

— Quer-me parecer que tu gostas dela.

— Phil! Não te pago para me dizeres o que eu já sei.

— Então, que queres que te diga?

— Como combater isto.

— Combater isso? — questionou Phil, surpreso, sentado na sua poltrona diante de Gabriel. — Porque haverias de o fazer?

— Não preciso disto na minha vida.

Phil abanou a cabeça.

— Já me pediste várias vezes para te receitar algo que te atenue a angústia e a solidão. Bom, aí tens. Receito-te a Rachel.

— Vai-te lixar, Phil!

— Gabriel, quando perceberes que a solução está em deixares as pessoas entrarem nesse coração de pedra, verás que a vida é um lugar bem mais bonito que aquilo que vês.

— Pois, pois... Sei bem o resultado de o fazer.

A resposta à argumentação foi um encolher de ombros.

— Se achas que é esse o caminho, Gabriel, afasta-a da tua vida. Mas, acho que te vais arrepender.

A neve continuava a não dar tréguas em Toronto. Gabriel mantinha-se em contacto com Íris, uma vez que ela estava decidida a não deixar passar mais de dois dias sem dizerem algo um ao outro. Não o admitia, mas estava grato por ela ser assim. Nessas mensagens, Íris descreveu-lhe um cenário ainda mais invernoso em Montreal. Com humor e visivelmente feliz, confessava estar a adorar aquele Inverno, pois Ashley aquecia-a todas as noites.

Na última manhã na Europa, mais precisamente em Frankfurt, Rachel telefonou a Gabriel. Eram sete da manhã em Toronto e ele tinha acabado de acordar.

— Acordei-te?

— Não. — respondeu ele com a voz aos tropeções.

— Mentiroso.

— São sete horas aqui, Rachel. Já costumo estar a acordado a esta hora.

— Liguei-te para te dizer que chego hoje.

— Eu sei. — retorquiu, estranhando o propósito do telefonema. — Tu disseste-me.

— Sim... Bom... Quero saber uma coisa.

— Diz.

— Sempre te prometi que não haveria cobranças, mas... — Rachel hesitou e Gabriel sentiu que a conversa se dirigia num caminho que ele não precisava. — Preciso de saber que Rachel queres que chegue a tua casa.

— Como assim?

— Queres a amiga? Ou queres a Rachel que aí esteve na última vez?

— Não são a mesma pessoa?

— Sabes ao que me refiro, Gabriel.

— A amiga. — respondeu ele, prontamente.

— Ok. — Não foi perceptível na voz dela a reacção à decisão dele. — O meu voo é daqui a duas horas. A viagem são nove horas. Chego a Toronto às seis da tarde daí. Bagagem e verificação de passaporte... Não devo estar em tua casa antes das oito.

— Cá estarei à tua espera. — Pigarreou para aclarar a voz. — Depois, quando é o teu voo para Seattle?

— Bolas, Gabriel! Ainda nem cheguei, já estás a pensar quando me vou embora?

— Não é nada disso, Rachel. Só para saber.

— Ao fim da tarde de amanhã. Devo ficar aí menos de vinte e quatro horas. Espero que não seja muito para ti.

Agora sim, agora era notória a decepção na voz dela.

— Que disparate, Rachel. Até podias ficar mais tempo.

Ela acreditou, mas ele estava a mentir, uma vez que talvez preferisse que ela nem sequer lá fosse.

A noite caíra por completo, os dias estavam a ficar mais compridos. Gabriel aguardava no seu apartamento, sentado no sofá a beber um whisky para acalmar a ansiedade da chegada dela. Encomendara o jantar ao serviço de entregas habitual e tinha a refeição dentro do forno para não arrefecer. A televisão estava ligada na transmissão do jogo de basquetebol entre os Toronto Raptors e os Brooklyn Nets disputado em Nova Iorque. Também no basquetebol a equipa da cidade dava sinais se poder chegar longe.

A campainha tocou por volta da hora prevista. Ao contrário do habitual, Rachel surgiu informal, blusão robusto e calças de ganga, botas altas e o cabelo solto em desalinho. Rebocava uma pequena mala de viagem.

— Olá! — cumprimentou com um sorriso neutro, algo expectante.

Gabriel abraçou-a sem demonstrar intenção de a beijar. Ela percebeu a mensagem.

— Só trazes isso? — indagou ele, apontando para a mala. — Depois de dois meses na Europa, só trazes uma malita.

Rachel percebeu o tom humorado dele, mas não o partilhou, limitando-se a responder séria, enquanto entrava no apartamento:

— Despachei o resto da bagagem directamente para Seattle. Só trouxe comigo o necessário. — Olhou para ele. — Fico no mesmo quarto?

— Sim. — confirmou, procurando entender o que lhe ia em mente. — Encomendei o jantar.

— Não estou com muita fome. — Ela fez uma expressão cansada. — Mas, faço-te companhia. Deixa-me só largar a mala e mudar de roupa.

Gabriel caminhou até ao balcão entre a sala e a cozinha. Não tinha o menor jeito para receber convidados e nem se lembrou de preparar a mesa para jantarem, optando por compor dois lugares no balcão. Mirou o ecrã de televisão, os Raptors venciam por vinte pontos. Retirou o jantar do forno, desembalou-o e arrumou-o entre os dois lugares. Abriu uma garrafa de vinho e verteu uma porção em cada copo para que o líquido fosse respirando.

Alguns minutos mais tarde, Rachel entrou na sala a prender o cabelo na nuca. Vestira uma saia desportiva curta e mantivera a camisa. Propositadamente ou não, desapertara vários botões, permitindo um vislumbre do sutiã. O rosto revelava cansaço. Caminhava descalça. Percebeu onde iriam fazer a refeição e sentou-se num dos altos bancos, cruzando as pernas esguias.

Gabriel sentou-se a seu lado sem evitar um olhar para as coxas dela. Entregou-lhe um par de pauzinhos e convidou-a a servir-se do sushi.

— Só um pedaço. — disse ela, segurando agilmente nos pauzinhos. — Não estou com fome.

Começaram a comer em silêncio, ouvindo-se em fundo o narrador do jogo emitido pelo ecrã. Rachel tinha o olhar perdido nos móveis da cozinha, enquanto Gabriel não evitou uma olhadela à abertura da camisa, sentindo alguma excitação ao recordar os seios dela naquela última noite.

— Como correu a estadia na Europa?

Ela mastigou lentamente, engoliu e bebeu um pouco de vinho.

— Foi muito bom. Consegui tratar daquilo que me foi proposto e ainda pude passear.

Ele anuiu, sem saber que mais haveria de dizer.

Rachel pousou os pauzinhos ao fim de três pedaços de sashimi. Apoiou um cotovelo no balcão, virou-se para ele e questionou:

— Tiveste saudades minhas?

Gabriel encarou-lhe o olhar. Queria evitar grandes proximidades. No máximo, uma amizade distante. Porém, era difícil resistir-lhe assim tão sedutora. Até o ar cansado lhe dava uma aura de atracção. Sorriu-lhe e olhou propositadamente para o decote.

— Sim. — acabou por confessar. — Gosto da tua companhia.

Ela retribuiu-lhe o sorriso.

— Eu também gosto de estar contigo.

No jogo, alguém fizera uma jogada espectacular que deixou o comentador ensandecido. Rachel saltou do banco e foi ver as imagens.

— Toronto está imparável, esta época. — disse ela.

— Seria espectacular, se conseguissem ganhar a NBA. — adicionou ele, saltando do seu banco.

Rachel virou-se para ele. Gabriel sentiu uma atracção enorme por ela, misturada com um carinho especial. Sem dizer nada, inclinou-se para a beijar.

— Disseste que querias só a amiga. — recordou ela, travando-lhe o movimento, sem tirar os olhos dos dele.

— Pensei melhor...

Ela sorriu e esticou-se para lhe beijar os lábios. Foi um beijo curto que ela própria interrompeu.

— Estou cansada. Preciso dormir.

— O jet lag.

Ela anuiu.

— No meu horário são quase três da manhã.

Gabriel abraçou-a com ternura, beijou-lhe o cabelo e sugeriu:

— É melhor ires descansar. Amanhã conversamos melhor.

— Vou seguir o teu conselho.

Afastaram-se. Rachel não perdeu o sorriso fatigado, mas a sua expressão denotava uma satisfação incontida. Caminhou pela sala sem dizer nada.

— Dorme bem, Rachel. — desejou ele.

Ela voltou-se.

— Só preciso de dormir duas ou três horas. — Olhou para o relógio. — Se quando te fores deitar, quiseres passar pelo meu quarto...

— Precisas de descansar. — lembrou Gabriel.

Rachel assimilou a recusa e encolheu os braços.

— Como queiras.

— Precisas de descansar. — repetiu ele. — A porta do meu quarto fica aberta. Dorme descansada. Quando acordares, não me importava que fosses ter comigo.

— Combinado. — concordou, mordiscando o lábio inferior.

Gabriel terminou o seu sushi sentado no sofá a ver o resto do jogo. Os Raptors venciam mais uma partida e estavam a comandar a sua divisão e a Conferência Este. Seria fabuloso a única equipa canadiana vencer um campeonato contra as outras vinte e nove dos Estados Unidos.

No final, desligou a televisão e arrumou a desarrumação sobre o balcão, enfiando tudo na máquina de lavar ou no caixote do lixo. Serviu‑se de mais um copo de vinho e voltou ao sofá.

Curiosamente, naquele momento, não encontrou sinais de solidão ou angústia em si. Não estava sozinho. E a mulher que dormia no quarto de hóspedes não lhe provocava angústia, mesmo que ele tivesse todos os medos à flor da pele, cada vez que ela se aproximava.

Talvez fosse isso que simplificava tudo com as profissionais do sexo. Não havia sentimentos, era um negócio. Usas, pagas e dispensas.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Gabriel não precisava de comprar nada com Rachel. Ela era sua, assim ele a quisesse como ela o queria a ele. Dava para perceber, mesmo que não houvesse cobranças, mesmo que fosse só sexo ou nem isso. Ele não era parvo. Sim, podes continuar a contratar putas, eu não me importo e vou continuar a querer sexo contigo. Mas quando, na noite de Natal, ele lhe disse que esperava uma prostituta, percebeu a decepção dela, ao desligar-lhe o telefone na cara.

Se pudesse usar o dinheiro com ela, tudo seria mais fácil. Se pagasse a Rachel pelo sexo, sabia que não haveria sentimentalismo, ninguém sofreria, ele não sofreria. Pagaria quando a queria, certo de que não lhe estaria a alimentar esperanças, cada vez que o faziam. Não a queria magoar, mas tinha a certeza que se não a magoasse agora, afastando-a, seria ela a magoá-lo a ele mais tarde, quando o abandonasse.

O apartamento envolvera-se no silêncio. Não se ouvia qualquer som. Sem dar pelo tempo passar, Gabriel esteve a trabalhar no seu computador, analisando as propostas que lhe chegavam, bem como a analisar as notícias desportivas, atento a uma oportunidade para angariar alguma estrela promissora. Actualmente, começava a não ser fácil agenciar as estrelas do desporto, quase que era preciso apanhá-las logo à nascença. Gabriel tinha a vantagem do seu prestígio, um nome que só por si valia a perspectiva de um futuro contrato multimilionário com uma equipa profissional de basquetebol, hóquei ou basebol.

Já passava da meia-noite, quando ele decidiu ir para a cama. Lá fora, a neve caía na madrugada fria e na paisagem escura que escondia o lago Ontário. Gabriel apagou as luzes da sala e caminhou para o átrio. A porta do quarto de Rachel estava aberta. Ele parou na ombreira e espreitou lá para dentro, conseguindo ver o vulto dela na cama, fracamente iluminado pela claridade das luzes do átrio. Estava de costas para ele e a sua respiração tranquila adormecida era audível. Tendo o cuidado de não a incomodar, encostou a porta do quarto dela, apagou a luz do átrio e entrou no seu quarto.

Não tinha sono. Aliás, sentia que cada vez dormia menos e não encontrava uma explicação para isso. Não acendeu qualquer luz, ficando imerso no escuro atenuado por alguma luminosidade urbana, vinda lá de baixo, que entrava pela larga janela. Deixou-se ficar alguns minutos perto dos vidros com o olhar perdido na paisagem negra ponteada de flocos em queda.

A solidão voltara, o ambiente era propício a isso e a culpa era dele que se deixava cair naquilo. Se não tivesse cuidado, com a solidão viria a angústia, aquela sensação de que algo pesa e nos empurra para baixo, tirando as forças e levando a derrotas e desistências. Por vezes, parecia que não valia a pena acordar no dia seguinte.

— Estás bem?

A voz de Rachel trouxe-o à realidade. Estava escuro, mas o contorno do corpo dela era evidente nas sombras. Estava nua.

— Pensei que estivesses a dormir.

— E estava. Acordei.

Gabriel caminhou para ela.

— Vou acender a luz. — avisou, esticando o braço para a parede.

Ela fez uma expressão dorida com a explosão de luz. Afinal não estava completamente nua, vestia cuecas e cobria os seios com os braços cruzados.

— Não me respondeste. — lembrou ela com os olhos semicerrados, procurando habituar-se à luz. — Estás bem?

Ele sorriu e anuiu.

— Porque não haveria de estar?

— Quando alguém está no escuro, imóvel a olhar para a noite...

Gabriel abraçou-a com carinho.

— Não te preocupes, Rachel. Estou bem.

Ela não retribuiu o abraço, mantendo os braços a proteger o peito. Por qualquer razão, sentia-se pouco confortável ali.

— Dormi umas horas. — disse para a orelha que os seus lábios tocavam. — Se quiseres...

Ele afastou-se, olhando-a com ternura.

— Quero que descanses.

— Ok. — concordou, virando-se para regressar ao seu quarto.

— Espera. — pediu ele, meio engasgado. — Queres ficar aqui? Podes dormir aqui comigo, se quiseres.

— Tens a certeza? — A dúvida era evidente no rosto dela. — Sexo é uma coisa, dormir com alguém é outra.

Para Gabriel era a mesma coisa, qualquer nome da lista de dez fodia e dormia com ele sem que isso alterasse o que quer que fosse. Naquele momento, a única coisa que fazia sentido era que se sentia sozinho e seria agradável se ela dormisse ali com ele.

— Também quero o sexo. — confessou. — Mas, é evidente que tens sono.

— Estou bem.

Ele atirou-lhe uma expressão torcida.

— Temos tempo, Rachel.

Ela sorriu.

— Não sei se me sinto segura, se mantiveres essa capacidade de me ler assim tão bem.

— Nada tens a temer comigo.

— Eu sei. Estou a brincar.

Gabriel virou-se para a cama e abriu os lençóis. Apontou para o colchão.

— Se quiseres ficar... Eu vou tomar um duche.

E seguiu para a casa de banho privativa do quarto. Despiu a roupa e entrou no duche. Iria saber-lhe bem um chuveiro quente antes de ir para a cama. Enquanto sentia os fios de água a percorrerem-lhe o corpo, a fustigar o coro cabeludo, fechou os olhos e pensou em Rachel, em como ela o excitava, o quão atraente e sedutora ela era. Não era fácil resistir-lhe, mas não era homem para obter prazer de uma mulher visivelmente cansada depois de um dia extenuante entre aeroportos, com uma travessia transatlântica de nove horas e os fusos horários todos trocados.

Saiu do duche e secou-se com uma enorme toalha turca. Questionou-se o que teria ela feito. Teria regressado ao quarto de hóspedes? Estaria à espera na cama de Gabriel? Ao voltar ao quarto, a luminosidade forte do tecto fora substituída pela claridade ténue da lâmpada da cabeceira. Nem se preocupou em vestir o roupão, a temperatura no apartamento era gerida pelo sistema inteligente de ar condicionado e temperada para um ambiente acolhedor. Ao olhar para a cama, encontrou Rachel deitada nela, virada de costas. Ele entrou na cama e percebeu que ela adormecera. Enfiou-se com cuidado nos lençóis, apagou a luz e deixou-se dormir.

Sonhou. Sabia que sonhara, mas não se lembrava do quê, apenas que fora algo que o angustiara, algo que lhe deixara uma sensação de perda. Depois, o seu corpo sentiu uma sensação agradável... Percebeu que já não estava a dormir e a sensação agradável era provocada por uma mão marota que o massajava. Gabriel abriu os olhos, tudo continuava escuro, ainda era noite. Colocou a sua mão sobre a mão que o acariciava.

— Estás acordado? — perguntou a voz sensual atrás de si.

— Agora estou.

— Desculpa, foi sem intenção.

— Mentirosa.

Ouviu-a rir no escuro. Tinha um riso melodioso.

— Já descansei o suficiente. — disse ela, encostando-se mais às costas deles. — Estou com muita vontade... — Tornou a rir. — E pelo que sinto na mão, não me parece que tenhas menos.

Gabriel não disse nada, largou-lhe a mão e esticou-se para a gaveta lateral à cama onde guardava os preservativos. Tirou um tacteando no escuro. Rodou na cama, ficando de barriga para cima.

— Deixa-me ser eu a pôr-to. — pediu ela com uma voz terna. Sentiu a mão dela procurar a sua e pegar na embalagem. Encostou mais o corpo ao seu e segredou-lhe ao ouvido. — Posso colocar já?

— Sim...

As mãos de Rachel tocavam-no com carinho. Massajou-o devagar, deixando-o no ponto, e depois desenrolou a borracha vagarosamente com os dedos suaves e delicados. Por fim, rolou para cima dele, apoiando um joelho de cada lado e encaminhando-o para dentro de si.

Rachel era uma amante fenomenal. O sexo com ela era tão bom ou melhor que aquele que obtinha com qualquer um dos dez nomes da sua lista. Era fogosa, apaixonada, intensa, carinhosa, luxuriante...

Quando ambos se saciaram, a manhã nascia lá fora e os primeiros raios de claridade entravam no quarto. Não havia Sol, esse continuava com dificuldade em passar as nuvens, mas a luz chegava-lhes ténue.

No fim, ela tombou para o lado, caindo de novo na sua metade na cama dele. Não houve palavras, apenas as respirações ofegantes de dois seres extasiados. Contudo, foi ela quem falou, ao recordar-se como terminara da última vez.

— Queres que vá para o meu quarto?

Gabriel virou o rosto para ela. A luz natural já lhe permitia vê-la para além de sombra. Adorava o rosto dela, a expressão de paz e prazer depois do orgasmo. Fez aquilo que teve vontade, beijou-a na boca, um beijo cheio de desejo.

— Não. — acabou por responder. — Só se quiseres. Eu prefiro que fiques aqui comigo.

Ela sorriu. Gabriel notou-lhe algo no olhar, algo que não queria. Os olhos dela revelavam que havia ali algo mais que atracção, havia...

— Claro que fico contigo.

Nos minutos que se seguiram, permaneceram em silêncio, a olhar nos olhos um do outro e foram trocando alguns beijos.

— Tens sono não tens? — questionou ela, sorridente.

— Tu não tens?

— Não. Mas, não me importo de ficar aqui a ver-te dormir.

— Não quero. — retorquiu ele, tranquilo e sentindo uma paz estranha. — Vira-te de costas.

Rachel franziu o rosto.

— Agora vai ser de costas?

Ele abanou a cabeça.

— Faz o que te peço, por favor.

Ela rodou na cama, ficando de costas para ele. Gabriel aproximou‑se, colou o peito às costas dela e abraçou-lhe a cintura.

— Importas-te que durma assim?

— Claro que não, meu querido.

O silêncio voltou. Ao fim de uns instantes, Rachel sussurrou:

— Gabriel!

Ele ouviu-a, mas fingiu que não, como se já tivesse adormecido.

— Gabriel. — voltou a sussurrar. — Eu amo-te!

Tal como ele calculava, havia amor nos olhos dela. Gabriel não sabia lidar com aquilo e continuou a fingir que dormia. Não respondeu.

Há muito tempo que não se sentia tão bem. Adormecera com Rachel nos braços e dormira tranquilo. O ambiente era tão pacífico que ela também se deixou dormir.

Acordaram algumas horas mais tarde, mas não saíram da cama. Não saberiam quando voltariam a ter oportunidade para estar juntos. Por isso, o sexo continuou, cheio de paixão, desejo, luxúria...

A meio da tarde, muito contra sua vontade, Rachel saiu da cama dele. Tinha um voo daí a algumas horas e precisava de tomar um banho, arranjar-se e preparar-se para partir. Não se conseguiam largar, beijavam‑se, tocavam-se... Ela acabou por lhe pedir ajuda.

— Vá lá Gabriel. Segura-te a ti que eu seguro-me a mim.

Riram com gosto um para o outro.

Rachel voltou ao quarto de hóspedes para tomar um duche. Gabriel ainda sugerira que o fizessem em conjunto, mas ela lembrou-o que isso só os iria atrasar.

Gabriel foi para a sua casa de banho. Entrou na cabine, abriu o chuveiro e colocou-se por baixo da água. Enquanto se lavava, revia as horas de paixão com Rachel, todo o prazer...

A voz sussurrada dela a dizer que o amava embateu nas imagens como uma pedra atirada a um vidro.

Não, não podia haver amor. Ele não queria. Ela vivia a mais de quatro mil quilómetros dele e ainda bem que assim era, pois essa tinha sido a razão para que ele deixasse que tudo tivesse acontecido, a certeza de que ela partiria para longe no dia seguinte. Não precisava... Não queria um relacionamento amoroso. Se o permitisse, iria habituar-se a amar e ser amado. E depois? Quando ela o abandonasse?

O seu estado de espírito modificara-se radicalmente, quando saiu do quarto perfeitamente arranjado para um dia de trabalho, apesar de a tarde ir a mais de meio.

Reencontraram-se na sala. Rachel vestia o traje da véspera e rebocava a mala.

— Vais chamar um Uber?

— Sim. — confirmou com o olhar apaixonado nele.

— Ligas quando chegares a Seattle?

— Sim.

Continuaram a observar-se mutuamente. Havia algo pendente entre eles. Ambos o sabiam, mas pareciam relutantes em pegar no assunto. Foi Rachel quem tomou a iniciativa:

— Foi muito bom. Adorei a escala em Toronto.

— Ainda bem. — A entoação da voz dele era neutra. — Também gostei.

— Estava a pensar... Gostava muito de te receber em Seattle.

Gabriel anuiu sem demonstrar grande interesse.

— Sim, se algum dia lá for, combinamos.

A resposta fria revelou a Rachel que os sentimentos deles não estavam em sintonia.

— Se preferires, posso vir a Toronto, de tempos a tempos.

Ela nem dava por isso, mas começava a falar como se implorasse uma abertura dele para darem continuidade a qualquer coisa que se pudesse ter criado ali.

— Depois vemos isso.

Mais uma resposta fria.

Rachel largou a mala e aproximou-se dele. Parou diante de si e confrontou-lhe o rosto. Ao início, Gabriel pareceu ter dificuldade em encará-la, mas depois olhou-a nos olhos.

— Sei que te prometi que nunca haveria cobranças, que seria só sexo. — lembrou ela. — Não estou a cobrar, só quero saber em que pé estamos.

— Nada mudou.

— Nada mudou? Ok. Então, como ficamos?

— Vamos falando.

O rosto de Rachel revelou toda a incredulidade.

— Vamos falando? — Abanou a cabeça. — Bolas... Isto é assim tão insignificante para ti? O que temos é tão...

— O que temos é sexo, Rachel! — afirmou Gabriel, rude. — Disseste, e bem, que não há cobranças entre nós. Gosto do sexo contigo, podemos repetir, quando a ocasião o voltar a proporcionar.

Ela não sabia o que dizer. Ficara com uma ideia completamente diferente quando saiu do quarto dele. Entrara no jogo do sexo pelo sexo, mas ele comportara-se de tal forma com ela, naquela noite, manhã e tarde... Ele fora tão carinhoso, tão apaixonado, tratara-a como uma rainha... Sentira que ele a amara. E agora sentia-se estúpida porque se deixar apaixonar por ele e, afinal, ele continuava o mesmo gajo frio e insensível de sempre, o tipo que lhe recusara inicialmente uma simples amizade. Que género de pessoa recusa amizade?

— Percebo... — foi a única coisa que conseguiu dizer.

Sem perder tempo, virou-lhe as costas e voltou ao lugar onde deixara a mala. Subitamente, tinha uma necessidade voraz de sair dali. E sabia porquê, tinha de sair antes que as lágrimas lhe chegassem aos olhos. Pegou no smartphone à procura da app da Uber.

— Queres que te lev...

— Não! — recusou num tom duro.

— Rachel...

— Não digas nada, por favor.

Rachel continuou a dedilhar no ecrã, ao mesmo tempo que se afastava para a porta, arrastando a mala atrás de si. Gabriel seguiu-a. Ela abriu a porta do apartamento, saiu e olhou para trás, num esforço colossal para permanecer forte.

— Obrigado pela escala, Gabriel. — agradeceu num tom distante, revelando que não queria que ele se aproximasse. Gabriel ficou junto da porta. — Obrigado por... — Fez um gesto semelhante a afastar uma mosca. — Até um dia.

— Liga quando chegares a Seattle.

Ela assentiu e acenou-lhe um adeus ao entrar no elevador.

Quando se encontrava na segurança do interior do elevador, longe do olhar dele, Rachel permitiu-se chorar. As lágrimas correram-lhe pela face ao longo da descida. Tentou recompor-se ao sair para o átrio do prédio e usou os óculos escuros para disfarçar a mágoa. Menos de cinco minutos passados, um Uber recolhia-a para a levar ao Pearson International Airport. Chegou a Seattle ao anoitecer, mas não ligou a Gabriel.

XV

 

Diante dos vidros do seu apartamento, Íris segurava uma chávena de chá quente e observava os prédios da cidade com o olhar vago. Lá fora, a neve começava a derreter e a temperatura já não baixava tanto, fazendo os flocos gelados darem lugar à chuva. O céu continuava cinzento. Que saudades ela tinha do Sol e do calor.

Não tinha nada para fazer, nem onde ir. Ficara em casa, em pijama a pensar na melhor forma de matar o tempo. Estava sozinha, uma vez que Ashley saíra para se encontrar com o namorado. Sabia o que iriam fazer e não conseguia evitar que essa certeza a torturasse. Mas, o acordo era esse, Ashley era sua amante sem prejuízo do namoro. Porém, custava‑lhe pensar que ela estaria a partilhar amor com outro ser humano que não ela.

Lamentava que Montreal não ficasse mais perto de Toronto, ou então, que Gabriel não vivesse naquela bela cidade da região do Quebec. Se assim fosse, iria ter com ele e ficar à conversa sem dar pelo tempo passar. Gostava muito dele, aliás, adorava-o. Gabriel era sem dúvida o seu melhor amigo. Era uma relação curiosa, nascida há tantos anos quando ele namorara a mãe dela. Sempre gostara dele, desde miúda, não como um pai, mas como um amigo. E ele não a desiludira, nunca a desiludira, nem mesmo quando ela pensara que ele partira sem se despedir. Afinal, a culpa não fora dele.

Aquilo que se tornou mais impressionante para si foi o reencontro. Lembrava-se de a mãe lhe dizer "Lembras-te daquele meu ex, o Gabriel? Sei que vive no Canadá. Pensei em escrever-lhe para te ajudar". Íris achou que aquilo seria inconsequente. Se calhar, ele nem se lembrava da mãe ou dela. Concordara com a mãe só porque sim, sem esperar nada dali. Pouco tempo depois, ela disse-lhe que Gabriel respondera sem se alongar muito, pedindo para que fosse Íris a corresponder-se com ele para ver o que poderia fazer. Isso surpreendeu-a e ficou sem saber muito bem como o abordar.

Fosse como fosse, ter alguém a ajudar do outro lado do Atlântico atenuava toda a complicação da mudança que se avizinhava. Fez uma pesquisa pelo nome, procurando saber mais e acabou por descobrir que ele era um empresário desportivo ainda mais bem-sucedido que no tempo em que a mãe o conhecera. Pela associação de notícias, calculou que ele não estava em Montreal, mas sim em Toronto. Pelo mapa parecia já ali, mas o Canadá era um país enorme. Ele disponibilizou-se a ajudá-la e sabia que o seu destino seria Montreal. Contudo, Íris não sabia bem como se dirigir a ele, quando se preparou para escrever. Lembrava-se do homem simpático que a mãe lhe apresentara após a separação do pai. Não gostou dele ao início, achando que aquele tipo queria tomar o lugar do seu pai. Só que ele tratou-a sempre com grande frontalidade, disse-lhe desde cedo que não pretendia ser substituto de ninguém. Irra, pensou com um sorriso nos lábios, ela só tinha sete anos e ele mostrava-lhe a realidade crua sem rodeios. A verdade é que ela, nos seus sete anos, passou a olhar para ele como um amigo mais velho, o namorado da mãe que ajudava a cuidar dela, que brincava consigo, que lhe lia histórias ao deitar, deturpando todo o enredo e divertindo-a com piadas.

A chuva intensificara-se e caía forte nas ruas de Montreal. Da sua janela, Íris recordou o sofrimento da partida dele, o quanto chorara às escondidas, temendo ser vista e que isso voltasse a provocar a separação dos pais, caso a mãe tentasse recuperar Gabriel para alegria da filha. Íris não queria isso, queria Gabriel na sua vida, mas sem separar os pais. Com nove anos, quase dez, aprendeu sozinha a ultrapassar a perda do amigo. Ele acabou por se tornar uma recordação, alguém que passara no troço da sua vida e partira. Quando o destino o colocou novamente no seu caminho, Íris não sabia como o tratar. Por isso, começou a escrever o primeiro email que lhe enviou com formalidade. Depois de enviar, pensou em Gabriel como um velho que leria aquilo como se tivesse sido escrito pela miúda de nove anos e a quem ele concederia o seu tempo precioso para lhe prestar uma ajuda distante e simpática.

Bebeu mais um pouco do chá. Adorava chá, principalmente para beber num dia frio de chuva no Inverno. Voltando às memórias, não soube como descrever, nem explicar o que sentiu. Ao abrir a resposta dele, bastou-lhe ler a primeira frase para perceber que falava com o Gabriel do seu passado. “Olá, Arco-íris", ele não esquecera a forma carinhosa como a tratava. Subitamente, os quinze anos eram como se não tivessem existido e ele tivesse estado a brincar com ela na véspera. Leu tudo como se o estivesse a ver a falar consigo. Mais uma vez, como era hábito nele, não a desiludia e trazia-lhe ao pensamento a memória de como gostava dele. Para além disso, "arco-íris" tinha um significado especial para si.

Íris afastou-se dos altos vidros e caminhou até ao balcão da cozinha, pegando no bule e despejando mais um pouco de chá na chávena. A emoção de voltar a falar com ele foi grande. Não sabia explicar, mas de repente, não entendia como podiam ter passado tantos anos sem comunicar com ele. Sem perder tempo, escreveu-lhe a resposta, ainda antes de dizer à mãe que ele lhe respondera. Ripostou o "Arco-íris" com o nome que ela lhe chamava, "Gabi", apesar de saber que não teria a mesma importância para ele, o que se confirmou mais tarde quando lhe escreveu que preferia Gabriel.

Sorriu sozinha para a paisagem chuvosa de Montreal, perdida nas memórias. De um momento para o outro, ele estava novamente a falar consigo. Sentiu toda a saudade reprimida ao longo dos anos a vir ao de cima. Sem saber porquê, teve medo de o perder novamente. Talvez por isso, na resposta, tenha exposto logo tudo o que sentia, o lamento quando ele foi embora, o fracasso da relação com a mãe e a possibilidade de isso ser um factor desconfortável entre eles. Explicou-lhe que a viagem para Montreal ainda necessitava de muito planeamento. Gostava que ele a pudesse ajudar, mas temia ser um incómodo na vida dele, que a aceitasse por não ter coragem de lhe dizer que não tinha disponibilidade para a aturar, por isso, quis deixá-lo à vontade para se descartar sem que isso mudasse o que quer que fosse. Mandou-lhe um beijinho e ia a clicar em "enviar", quando se lembrou de lhe abrir o coração:

"Se não gostares que te chame Gabi, diz. Afinal, eu já não tenho oito anos. A mim, podes continuar a chamar-me Arco-íris. As meninas de vinte e quatro anos também acham que é muito bom ser um arco-íris :) :) :)"

A mensagem original, a que escrevera primeiro, em vez de "As meninas de vinte e quatro anos também acham que é muito bom ser um arco-íris", tinha "A Íris de vinte e quatro anos continuar a querer ser o teu Arco-íris". Só que teve receio de ser mal interpretada.

Recordava-se que, após enviar aquela mensagem, fora começar a fazer as suas pesquisas de voos para ter uma ideia de preços e horários. Obteve diversas opções, voos directos, voos com escala, preços altos em todos. Contudo, uma das primeiras opções dava-lhe a hipótese de fazer escala em Toronto. Nesse instante, veio-lhe à cabeça a ideia mais absurda. E se fosse por Toronto? E se o fosse visitar, antes de seguir para Montreal? Não, não seria uma escala entre voos, teria de ser uma estadia.

O chá delicioso fazia-a sentir-se bem. Pensou como agira por impulso, ao escrever a Gabriel a partilhar aquela hipótese. Algo que lhe parecera uma excelente ideia, tornou-se absurdo depois de enviar. Sentiu‑se abusadora, a impor a sua presença. Ele disponibilizara-se a ajudá-la e ela queria ir aborrecê-lo, ocupar-lhe o tempo já muito limitado? Bolas, ele ainda nem tinha escrito a resposta e ela já lhe atirava outra mensagem?!

Só que Gabriel era "o" Gabriel, o Gabi, o homem que a fazia sentir um arco-íris. A resposta foi como um abraço no seu coração. Tal como imaginara, o assunto da relação dele com a mãe dela era para não ser tocado, mas deixava claro que isso em nada beliscava a amizade deles. Mostrou-se mais ou menos disponível para ela, caso optasse por ir a Toronto. Encarou aquilo como natural, ele não iria alterar o seu dia a dia por causa de Íris. E ainda lhe enviara uma lista de hotéis em ambas as cidades. Gabriel era um tipo espectacular.

No dia seguinte a ter recebido aquele email, o seu mundo desabou. A viagem para o Canadá dependia do dinheiro da mãe. Íris também pedira auxílio ao pai para a temporada de estudante na McGill, mas ele desculpara-se com falta de liquidez, prometendo que tentaria ajudá-la mais tarde. Por mais que não quisesse aceitá-lo, sabia que poderia contar com o pai para quase tudo, menos dinheiro. Por seu lado, Olga tinha uma boa poupança para que a filha concretizasse o seu sonho. Só que aconteceram uns problemas financeiros que a mãe tinha de resolver e uma importante fatia da verba ficou comprometida, daí que já não havia lugar para uma viagem com tempo suficiente para estruturar a sua vida em Montreal antes das aulas e muito menos para uma passagem por Toronto.

Começava a escurecer lá fora. Íris dirigiu-se à parede e carregou no botão que estendeu os balckouts, tapando o quadro citadino que se avistava da sala em open space. Íris jamais esqueceria a tristeza desses momentos em que quase ficara com a frequência na McGill comprometida. No entanto, agora que olhava para trás, para essa recordação, aceitou que muita dessa tristeza fosse provocada por perder a oportunidade que se abrira de rever Gabriel. Talvez tivesse sido pela certeza de que já não se iriam reencontrar que não se importou de partilhar com ele tudo o que estava a sentir, a mágoa e a infelicidade pelo contratempo. Explicou a existência de complicações sem dar grandes pormenores e preocupou‑se em que o contacto com ele não se perdesse, não por ele estar no Canadá e ajudá-la, mas porque ela não queria voltar a perdê-lo da sua vida. Agradecera-lhe tudo e finalizou com um desabafo "Hoje sou um arco‑íris em tons de cinza, mas como não desisto, tenho a certeza que as minhas cores voltarão amanhã".

O chá terminara e o que sobrara no bule já arrefecera. Íris não sentiu vontade de ligar a televisão e preferiu estender-se ao comprido no sofá. Fechou os olhos e manteve-se introspectiva, recordando a resposta dele e sorrindo feliz. Ela nem quis acreditar, quando leu a mensagem. Sabia que ele era um amigo, um grande amigo, uma pessoa espectacular, mas nunca pensou que ele se dispusesse a tanto. E isso só a fazia considerar o quão única e transcendental era a relação deles que, após quinze anos, sendo ela filha da mulher que o abandonara, ele se mostrava capaz de virar o seu mundo para lhe abrir a porta dos sonhos. Ele fizera-a chorar com a sua mensagem, chorar de alegria, chorar de felicidade, chorar pela sorte de o ter novamente na sua vida. Recordando as palavras que ele lhe enviara, Íris teve uma certeza que esconderia de todas as pessoas, inclusive de si: Se gostasse de homens, seria tão fácil apaixonar-se por ele...

Os seus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Ashley. A inglesa entrou em casa e viu Íris deitada no sofá. Não evitou o ar culpado, mas elas não falavam sobre isso. Aqueles momentos eram uma espécie de relação suspensa.

— Olá! — cumprimentou, passando pela sala para o quarto.

— Olá! — atirou Íris para as costas da outra.

Ashley largou a roupa quente no seu quarto, cuja cama não usava há bastante tempo, e atravessou o espaço em cuecas e sutiã para a casa de banho, onde iria tomar um duche.

Quando Ashley se mostrou intransigente em manter o namoro com o namorado, Íris acabou por aceitar com a condição de que não queria qualquer contacto com ela, após esses encontros. Ashley compreendeu a posição de Íris. Combinaram que, a cada regresso, ela tomaria um banho, qual mergulhador de profundidade que tem de aguardar algum tempo para descompressão, antes de vir à superfície. Os duches eram o período de desinfecção do namorado. Por isso, quando a inglesa entrou, limitou os cumprimentos a um "olá".

Enquanto ouvia o som da água a correr no duche, Íris voltou ao balcão da cozinha. Observou o interior do apartamento. Se ali estava, devia-o a Gabriel. Voltou às lembranças, a ansiedade quando chegou a Toronto, o trajecto entre o aeroporto e a casa dele com o nervosismo à flor da pele. A chegada. Vê-lo, depois de quinze anos, mais velho, mas com a sensação de que essa última vez há quinze anos acontecera na véspera.

Lamentava que ele fosse uma pessoa tão fechada, mas percebia as razões, a sua mãe fora a grande culpada. É natural que alguém se proteja de sofrimentos. Íris já tivera uma relação muito séria e cheia de expectativas de futuro. Quando acabou, sentiu o vazio. Sofreu, mas fechar‑se ao mundo nunca foi opção. E naquele momento, partilhava uma relação sem qualquer futuro com uma inglesa linda que jamais assumiria que gostava dela para lá das paredes do apartamento.

Íris não duvidava da importância que tinha na vida de Gabriel. Uma importância que começara naquela tarde em que a mãe a fora buscar a casa do pai e lhe apresentou o namorado, uma importância que se suspendera durante quinze anos e voltara com toda a intensidade meses antes, quando as suas vidas se voltaram a cruzar. Mesmo assim, ele continuava distante, sempre disponível para ela, pronto a ajudá-la em tudo o que precisasse, mas... Existia sempre uma névoa de defesa, como se um muro invisível o mantivesse à margem da sociedade por sua própria vontade. Íris sabia que, se não tomasse a iniciativa de o contactar, Gabriel não lhe diria nada. Ao início, interpretou-o como desinteresse. Porém, após aquela conversa na noite de passagem de ano, ela percebeu e comprometeu-se consigo mesma que o arco-íris não o largaria.

Pegou no telemóvel, abriu o WhatsApp e clicou na linha de conversas com Gabriel.

"Olá! Só para te mandar um beijinho"

A resposta veio logo a seguir.

"Olá! Outro para ti. Estás bem?"

"Sim. E tu?"

"Também"

O som da água extinguiu-se. A porta da casa de banho abriu-se e Ashley saiu, vestindo unicamente a camisola de andar por casa. Caminhou até à cozinha, vindo ao encontro de Íris. Não disse nada e beijou-a com carinho nos lábios.

— Sabes que te amo, não sabes?

A pergunta deveria ser ouvida como "sabes que te amo, apesar de ter estado a fazer amor com o meu namorado, não sabes?".

— Eu também te amo, Ashley!

A inglesa sorriu e abraçou Íris com força. Voltou a beijá-la. A troca de beijos prolongou-se sem que dessem pelo tempo passar, ali na cozinha, encostadas ao balcão.

— Vem! — convidou Ashley, puxando-lhe a mão.

— Tenho de fazer o jantar. — recusou Íris.

— Não sejas tola. Temos tempo.

— Que queres?

— Quero levar-te para o quarto.

XVI

 

Desde que regressara a Seattle que Rachel nunca mais dera notícias. Gabriel pedira-lhe que lhe ligasse quando chegasse a casa, mas ela esquecera-se, esquecera-o. Isto era o que ele repetia a si mesmo como justificação, fugindo à verdade em que a magoara na despedida e ela retaliara ignorando o seu pedido.

Tinha saudades dela, das conversas, da companhia, do sexo... Podia pegar no telefone e ligar-lhe, mas ela estava longe e não valia a pena prolongar algo que não tinha pernas para andar. Nada como aproveitar o afastamento dela para também se afastar.

Nessa noite, não quis ficar sozinho. Já lá ia cerca de uma semana em solidão e angústia. Era para combater aquilo que tinha a lista de dez nomes. Escolheu um e combinou uma visita lá a casa.

A eleita fora a ruiva, a tal que ele encontrara casualmente a sair do hotel na King Street, em finais do Verão, quando teve a reunião com os dirigentes dos Maple Leafs acerca da colocação de Tiivu. Que bestas que aqueles tipos eram. Se não lhe tivessem dado ouvidos, a equipa tinha menos vinte e quatro golos, os que Tiivu já marcara nesta temporada.

A ruiva chegou pontualmente à hora combinada. Mal passou a porta, despiu o longo casaco que a protegera do frio exterior. Não eram mulheres que andassem de transportes públicos colectivos, usualmente movimentavam-se em Ubers. Ela, tal como as outras nove, já o conheciam bem, sabiam como ele gostava de as ver, as saias curtas, as camisolas decotadas. Nunca o desiludiam.

Gabriel recebeu-a com um abraço e beijou-a com desejo. A ruiva protagonizava o seu papel na perfeição. Era a vantagem de pagar a profissionais de sexo, elas faziam tudo o que ele quisesse, representavam os papéis que ele desejasse. Gabriel era exigente na cama, mas no resto... Elas não precisavam de chegar a simular que o queriam loucamente, bastava serem sensuais, ardentes e luxuriantes.

Quando a encaminhava para o quarto, o telemóvel de Gabriel tocou. Olhou para o ecrã e viu o nome de Íris. Não era um telefonema, era uma videochamada.

— Vai andando para o quarto. Já lá vou ter.

A ruiva prosseguiu obediente para onde ele a mandou.

Gabriel atendeu, apontando o aparelho para si. No ecrã, surgiu a imagem de Íris sentada no sofá, sorridente com aquela expressão feliz tão característica.

— Já estavas a dormir? — perguntou divertida.

— Achas que pareço alguém que estava a dormir? — Gabriel sentou-se no sofá. — Como estás, Arco-íris?

— Bem.

— Que se passa?

— Desculpa ligar-te assim tarde. — lamentou, passando distraidamente a mão no cabelo, penteando-se. — Vi há pouco que a equipa de hóquei de Toronto, os... Monsters Kings?

Gabriel soltou uma gargalha.

— Maple Leafs.

— Isso. — confirmou, envergonhada. — Desculpa, eu e o desporto... — Encolheu os ombros. — Vi que vêm jogar a Montreal. Por acaso vens ver o jogo?

Não tinha pensado nisso. Nem sequer reparara no calendário que se aproximava o confronto entre rivais. Normalmente, ele iria assistir. Naquele ano, essa possibilidade passou-lhe ao lado. Teria sido o seu inconsciente a distraí-lo por causa de Íris estar a viver lá?

— Não sei. Porquê? — Gabriel atirou-lhe uma expressão humorada. — Queres ir ver o jogo?

— Não, obrigado. — recusou. — Já vi resumos. Aquilo é de uma violência...

— Eles não se aleijam. Já viste aqueles fatos? Estão bem protegidos.

— Seja como for. A questão é a seguinte. Pensei que, se viesses, podias vir visitar-me. Que dizes?

— Não está mal pensado. — respondeu, disfarçando o incómodo. — Vou ver se dá para ir. Se for, aviso-te.

Nesse momento, Íris desviou a atenção do ecrã e falou em inglês para quem estava com ela em casa. Gabriel percebeu que Ashley estava presente. Íris dizia-lhe que estava a falar com o seu amigo Gabriel e chamava-a para se aproximar.

— Vais conhecer a Ashley. Ela não sabe que tu sabes de nós, está bem? — alertou, voltando ao português.

— Podes ficar descansada.

Então, era esse o motivo da videochamada, apresentar-lhe a mulher por quem estava apaixonada.

Ashley apareceu no enquadramento do ecrã. Gabriel achou-a muito bonita, não havia dúvida que faziam um belo par. Tal como Íris, Ashley aparentava ser igualmente cativante, revelou-se sorridente e expressiva. Acenou-lhe e cumprimentou-o com um "olá senhor Gabriel".

— Não o trates por “senhor”. — corrigiu Íris, novamente em inglês.

No mesmo idioma, Gabriel disse:

— Sim, Ashley, tira o senhor. É só Gabriel. Prazer em conhecer-te.

— Obrigado por teres convencido o teu amigo a alugar-me o outro quarto.

Gabriel fez um gesto a desvalorizar, como se fosse algo sem importância.

— Estás a gostar de viver aí?

— É óptimo estar tão perto da Universidade. — Olhou para Íris, denunciando os reais sentimentos que tinha por ela. — E a minha colega de casa também é uma excelente companhia.

O rosto de Íris dizia tudo a respeito de como era bom tê-la ali. Porém, desviou a conversa para o assunto inicial.

— Estava a convidar o Gabriel para nos visitar, se viesse ver a equipa de Toronto.

— Os Raptors? — interrogou Ashley com estranheza.

— Quem? — ripostou Íris.

— Não Ashley, não é basquetebol, é hóquei. — respondeu Gabriel. — Toronto vai jogar a Montreal daqui a uns dias.

— E estava a convidar o Gabriel para nos vir visitar.

— É uma óptima ideia. — concordou a inglesa. — Podias vir jantar connosco. Quer dizer, não sei a que horas é o jogo...

Gabriel fez de conta que olhava para o relógio.

— Depois digo-te alguma coisa, Arco-íris. Gostei de te conhecer, Ashley.

— Igualmente. — retorquiu, piscando-lhe o olho e saindo do enquadramento.

Novamente em português, Íris questionou:

— Que achaste dela?

— Vocês fazem um casal bonito. — elogiou ele para grande satisfação de Íris. — Espero que esteja sempre à tua altura.

Íris encolheu os ombros.

— Já te falei sobre isso. Sei o que temos. É aproveitar enquanto dura.

— Depois digo-te alguma coisa em relação ao jogo.

— Ok, Gabriel. Faz um esforço. Ia gostar muito que nos viesses visitar.

Ele anuiu.

— Beijinhos, Arco-íris. Gosto muito de ti.

Aquilo saiu-lhe sem pensar. Íris não duvidaria do grande carinho que ele tinha por ela, mas era raro ele verbalizá-lo.

— Eu também gosto muito de ti, Gabriel. Beijinho grande.

E desligaram.

Gabriel ficou alguns instantes a olhar para o ecrã apagado. Como se analisasse as últimas frases. Acabou por não pensar muito nisso, uma vez que tinha uma prostituta à sua espera na cama.

Ao entrar no quarto, a ruiva encontrava-se estendida no colchão, nua, de olhos fechados. Para surpresa dele, ela adormecera enquanto o esperava. Teria demorado assim tanto? Ela dormia tranquilamente, em paz. Percebeu a confiança que tinha nele para se deixar adormecer.

Gabriel riu-se para si mesmo. Estava a pagar para ela dormir? Qualquer um dos dez nomes da sua lista eram mulheres fenomenais, soberbas e competentes. Não tinha mal nenhum que tivesse adormecido. Sem fazer barulho, despiu-se por completo e deitou-se a seu lado. Não tinha intenções de a acordar. Gabriel atravessava uma fase em que, mais que sexo, ele não queria era estar sozinho.

Ao deitar-se, a ruiva deu por ele e abriu os olhos. Fez uma expressão confusa e depois consciencializou-se que se deixara dormir.

— Oh... Desculpa, Gabriel! Eu...

— Deixa-te estar. — descansou-a com um sorriso afável. — Não há problema.

Ela elevou-se na cama.

— Não me pagas para eu dormir.

— Também. — corrigiu, demonstrando que não estava minimamente aborrecido. — Já temos dormido juntos.

A ruiva ofereceu-lhe um sorriso terno.

— És um homem maravilhoso, Gabriel. E não o digo por estares a pagar e seres um excelente cliente. Estou a ser sincera.

— Se estiveres cansada, não há problema.

— Não sejas parvo. — refutou, elevando-se mais e empurrando-o para trás. Olhou para a cintura dele. — Além disso, o teu "amigo" não parece concordar contigo.

— Esse gajo é um traidor. — reclamou ele com humor.

Ela deu-lhe um beijo terno nos lábios, uma espécie de agradecimento por Gabriel ser como é. A seguir, deslizou pelo corpo dele e começou a trabalhar.

A ideia de ir visitar Íris a Montreal era atraente, ele gostaria muito de estar novamente com ela. Desde o primeiro dia do ano que não estavam juntos e ele tinha saudades dela. Gabriel não tinha, nem queria amigos, mas Íris era uma pessoa muito especial na sua vida, uma amiga de quem ele gostava muito, alguém com quem tinha uma forte ligação, algo tão inexplicável. Sim, ele não conseguia explicar o que partilhavam. Íris poderia ser sua filha, apesar de nunca se terem olhado como pai e filha. Gabriel via-a mais como uma irmã mais nova, uma amiga de uma geração mais recente. Na vida, há coisas que não se explicam, pura e simplesmente aceitamo-las ou rechaçamo-las. A empatia que sempre tiveram não se explicava. Havia algo forte que os unia, isso ele não tinha dúvidas. Não era uma ligação de homem e mulher, era algo mais transcendental que isso. Só assim se poderia explicar, se é que existe explicação, a ligação que os fez reaproximarem-se tão facilmente quando ela o contactou pela primeira vez por email. Era quase como se ela tivesse crescido consigo, a pequena Íris, o arco-íris.

Contudo, Gabriel sabia o quão amargurado ficava após cada despedida. Também não o sabia explicar. Era dolorosa a sensação que lhe ficava na alma, quando se afastavam. Acontecera quando Íris partira para Montreal, acontecera quando ela regressara à cidade, após a passagem de ano. Nem Rachel, com quem tinha uma relação complicada, mas que era o mais próximo que tinha de uma amiga, lhe deixava tamanha tristeza a cada separação.

Ainda estava indeciso na decisão a tomar, na manhã em que chegou ao escritório. Francis tinha um recado para ele.

— Quem? — questionou Gabriel.

— Jean Michel, um jogador de futebol americano. — explicou Francis. — Conheces? Não é da NFL, é do campeonato canadiano. Pediu para falar contigo, se lhe podias ligar para falarem sobre a carreira dele.

— A carreira dele? Não deve ser lá grande coisa, se nunca ouvi falar nele.

— Que queres fazer?

— Liga para ele e passa-me a chamada. Se calhar é o novo Brady. — Era evidente o tom sarcástico. — Sabes alguma coisa sobre ele?

— Só que joga em Montreal porque me disse. É quarterback.

— Estás a ver? — insistiu no mesmo tom. — Se calhar é mesmo o novo Tom Brady.

Ao contrário do que acontece noutros desportos, na NFL, o campeonato profissional de futebol americano, não há equipas sediadas fora dos Estados Unidos. As equipas canadianas de futebol americano jogam um campeonato próprio, só com equipas do Canadá.

Enquanto a NFL era um campeonato que envolvia biliões de dólares, tinha os melhores e mais ricos jogadores do mundo e continuava a ter o evento de maior audiência mundial, o Superbowl, o campeonato canadiano não tinha qualquer expressão.

Apesar de Gabriel já ter representado jogadores da NFL e ter feito grandes contratos, não era o desporto onde movimentava mais activos, sendo mesmo raros os negócios que tivessem o seu dedo. Para ele, representar um jogador de futebol americano do campeonato do Canadá tinha menos interesse que zero. Porém, Gabriel tinha a sua reputação, poderia recusar representar qualquer um, mas recusar-se a atender alguém não seria correcto.

Sendo assim, foi para o seu gabinete esperar que Francis fizesse a ligação. Quando atendeu o telefonema, a voz que falou consigo tinha um sotaque francófono, inglês do Quebec, inglês de quem diariamente fala francês. Jean Michel era quarterback dos Alouettes de Montreal. Explicou a Gabriel que o seu contrato com o agente que o representava ia acabar e que não pretendia continuar com a parceria, uma vez que sentia que o indivíduo nunca lhe encontraria o caminho para os seus sonhos. O seu grande sonho era jogar na NFL, em qualquer equipa. E tinha a certeza de que Gabriel era o homem certo para o ajudar.

Ele ouviu-o com atenção e receptividade, ao mesmo tempo que pensava se o indivíduo teria potencial para ser mais que um suplente do suplente do quarterback titular de qualquer uma das trinta e duas equipas da NFL. Numa tentativa de o demover, informou-o que não costumava fazer muitos negócios no futebol americano. Porém, Jean Michel estava bem informado e lembrou-o de um dos seus mais bem remunerados contratos na modalidade.

— Vou dar uma olhadela aos teus jogos, Jean Michel. Ver uns resumos, ver o teu potencial. Se quiseres passar por Toronto, podemos reunir e conversar sobre isso no meu escritório.

A resposta de Jean Michel foi:

— Gostas de hóquei?

— Sim, gosto. — confirmou Gabriel, sem perceber onde ele queria chegar.

— Toronto vem jogar ao Bell Centre. Eu tenho lá um camarote. Que dizes a vir ver o jogo comigo a Montreal? Podemos conversar nessa altura.

O destino parecia conspirar para que ele fosse a Montreal.

— Tenho de ver a minha agenda. Depois digo-te alguma coisa.

Francis arranjou-lhe alguns links do Youtube com jogos dos Alouettes. Para surpresa de Gabriel, ficou impressionado com as capacidades de Jean Michel. Os agentes desportivos de futebol americano deveriam andar muito distraídos. Que andava Jean Michel a fazer na CFL?

Acabou por confirmar os dois convites que tinha para Montreal, iria ver o jogo ao Bell Centre e jantar a casa de Íris.

O frio ainda era uma realidade em Toronto, mas a neve desaparecera e já só se viam resquícios dela na cidade. Em Montreal, o frio era mais intenso e a neve ainda marcava presença.

Gabriel viajou de avião em primeira classe, como sempre, e chegou a Montreal ao início da tarde. O serviço de transporte com motorista privado que contratara levou-o do aeroporto até ao Ritz-Carlton, o hotel onde reservava quarto quando ia àquela cidade.

O Bell Centre era a maior arena de hóquei no gelo do Mundo com capacidade para mais de vinte e um mil espectadores. Corriam rumores que em breve deixaria de o ser, uma vez que existiam projectos de construção de duas arenas ainda maiores, uma em São Petersburgo e outra em Frankfurt. Gabriel fez o trajecto entre o hotel e a arena a pé. Estava frio, mas não chovia e a caminhada não lhe levaria muito mais que dez minutos, era só seguir a direito pela Rue Drummond.

Os adeptos trajados com as cores dos clubes já se encaminhavam para o pavilhão, quando ele atravessou a Avenue des Canadiens de Montreal. Caminhou pela praça frontal às entradas, um lugar com estátuas de homenagem aos mais consagrados jogadores dos Canadiens e uma parede com placas alusivas aos vinte e quatro títulos na Stanley Cup. Os Montreal Canadiens eram a equipa com mais títulos da NHL, sendo a segunda os Maple Leafs de Toronto com menos onze títulos.

Gabriel entrou pelo acesso VIP e ligou a Jean Michel que lhe indicou onde o encontrava. Gabriel viu algumas caras conhecidas, gente do meio desportivo, agentes como ele, antigos jogadores... Alguns pararam para conversar, mas ele não se demorou muito com eles.

O camarote era mais modesto que o seu no ScotiaBank Arena, uma área privada com meia dúzia de cadeiras. Jean Michel era um homem com quase dois metros de altura, robusto como um armário sem deixar de parecer esguio. Moreno, cabelo aos caracóis e um rosto simpático. Tinha vinte e poucos anos. Quando Gabriel entrou no camarote, Jean Michel saltou da cadeira e cumprimentou-o com um aperto de mão vigoroso.

Os lugares começavam a ficar compostos. Os bilhetes estariam certamente todos vendidos. Na pista de gelo, os jogadores de ambas as equipas faziam exercícios de aquecimento, patinando e executando passes e remates.

— Obrigado por teres vindo, Gabriel.

— Obrigado pelo convite para o jogo.

— Calculo que sejas adepto dos Maple Leafs. — Gabriel anuiu. Jean Michel falou num tom quase de culpa. — Eu sou um Canadien. — Convidou-o a sentar-se na cadeira ao lado da sua. — Não sabia que os agentes desportivos tinham clube.

A provocação não passava de uma tentativa de quebrar o gelo e fazer assunto.

— Toda a gente que anda no desporto tem clube. O segredo é não deixar a clubite prejudicar os negócios. És adepto dos Montreal Canadiens. Se fosses hoquista e te oferecessem um bom contrato para jogares em Toronto, não ias?

— Claro que ia.

— E ganharias mais vezes. — atirou em resposta, revelando boa disposição. Sentou-se com o olhar no recinto. — Já tive oportunidade de visionar alguns dos teus jogos.

— E?

— Como é que está a situação com o teu empresário?

— A prestação de serviços dele termina este mês.

— Estou a ponderar representar-te. — partilhou no momento em que os atletas regressavam aos balneários. — Mas, só depois de assinarmos contrato e o teu actual empresário já não ter nada a ver contigo.

— Algo me diz que viste potencial na olhadela que deste aos meus jogos.

— Se achasse que não tinhas potencial, não estaria aqui. — retorquiu Gabriel, no instante em que as luzes diminuíram e os jogadores foram apresentados com a tradicional espectacularidade do início do evento. — Mas, não te vou enganar, é muito complicado arranjar-te sequer um contrato, quanto mais um bom contrato.

— Eu sei. Tenho fé em ti.

— A NFL tem tradições, olham principalmente para os jogadores que vêm do campeonato universitário. Tu vens de fora dos Estados Unidos. Percebes?

— Sim, percebo onde queres chegar, Gabriel.

A música ecoou com enorme sonoridade, tornando-se quase ensurdecedora, para a apresentação dos jogadores da equipa da casa. Ambos ficaram a olhar para o gelo. O som diminuiu e as luzes voltaram ao normal para que os hoquistas tomassem as suas posições em campo e o jogo começasse.

— Eu sei que é difícil, Gabriel. — continuou Jean Michel. — Mas, tu sentes que é possível conseguires-me esse contrato. Caso contrário não estávamos aqui.

Gabriel não disse nada, limitando-se a assistir ao jogo. As oportunidades sucediam-se para ambos os lados, mas ninguém conseguia marcar um golo.

— Quantos representas? — indagou o canadiano, apontando para o recinto.

— Cinco de Toronto e três de Montreal.

Nesse minuto, Montreal marcou.

No primeiro intervalo, Gabriel retomou o assunto. Evitara conversar durante o jogo porque gostava de estar concentrado a assistir, sem distracções. Logo que os atletas recolheram aos balneários nessa primeira pausa, ele disse-lhe:

— Vou pedir ao meu advogado que te envie o contrato com as condições, a minha comissão, etc... Se estiveres de acordo com tudo, assinas e mandas novamente para ele. Assim que o nosso contrato esteja firmado, começo a tratar de te conseguir o teu sonho.

— Tenho a certeza que vais conseguir. — afirmou Jean Michel com entusiasmo.

— Não cries muitas expectativas, Jean Michel. — alertou, encarando-o sério. — Não vou prometer que consigo, isso não seria honesto contigo. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance, tal como faço sempre com os meus agenciados.

Não voltaram a falar do assunto ao logo do resto do jogo. No final, Montreal vencera por quatro golos contra um. Como tinha outro compromisso, Gabriel nem sequer esperou pelo fim do jogo, uma vez que não lhe pareceu provável que Toronto anulasse a desvantagem. Declinou o convite para jantar e aproveitou o facto de os espectadores ainda não terem saído dos seus lugares para abandonar o Bell Centre sem a confusão de gente a circular para as saídas.

Saiu para a noite, perfazendo parte do trajecto por onde viera do hotel. A meio caminho, virou para leste, rumo à rua onde Íris vivia.

O frio era cortante, mais uma noite gelada. Mesmo assim, não era completamente desagradável andar na rua. Ou não sentia que o fosse.

Íris recebeu-o com aquele magnífico sorriso e abraçou-o com uma saudade intensa. A casa tinha um ambiente bem mais acolhedor que quando ele ali a levara para lhe mostrar o apartamento do "amigo". Talvez o facto de os balckouts estarem corridos e a tapar a vista fizesse com que a noção de espaço fosse menor e mais intimista.

Ashley apareceu logo que ele entrou. Ambas vestiam calças de ganga azul e camisolas de algodão coloridas. A inglesa tinha a mesma alegria contagiante de Íris e recebeu Gabriel com a informalidade da companheira de casa, abraçando-o.

Por uma questão de educação e consideração por Ashley, todas as conversas foram feitas em inglês.

— Quem ganhou?

— Não falemos disso, Íris.

Ashley percebeu o resultado e exclamou:

— Força, Montreal! — piscou o olho a Gabriel. — Estou a brincar. Espero que não leves a mal.

— Nada disso.

Íris caminhou até à cozinha para continuar a tratar do jantar. Ashley convidou Gabriel a sentar-se no sofá e ofereceu-se para lhe servir uma bebida. Ele recusou a oferta.

Enquanto Íris finalizava o cozinhado que, pelo cheiro, parecia ser delicioso, Ashley encarregou-se de preparar uma mesa para três pessoas. Gabriel observou a inglesa a circular de um lado para o outro, elegante, graciosa, atlética, parecia uma bailarina. Era muito bonita, percebia porque Íris se apaixonara por ela. Parecia ter uma aura de felicidade. Também era sensual, uma mulher atraente... Sem se aperceber, Gabriel olhava-a com desejo, pensando que não se importava de pagar muitos dólares se ela os quisesse receber em contrapartida de ir para a cama com ele.

Íris tinha os olhos cravados nele. O sorriso desaparecera parcialmente. Merda, ela deve ter percebido o que ele estaria a pensar ao olhar para Ashley. Os olhares de ambos cruzaram-se. Íris disfarçou e Gabriel fez de conta que não reparara.

— Estou muito feliz que tenhas vindo. — confessou Íris.

Gabriel sorriu-lhe e ela correspondeu.

— Eu também gostei que tivesses aceite o convite. — corroborou Ashley. — Sei que és um grande amigo da Íris. E os amigos da Íris são meus amigos.

Se isso te faz feliz, pensou Gabriel, a mim passa-me ao lado a tua amizade. Sabia onde iam dar as amizades com mulheres. Que o diga Rachel. E depois... Depois queriam ser mais que aquilo que ele pretendia. Sim, demonstravam querer ser o seu grande amor para depois o ferirem e o abandonarem quando descobrissem que, afinal, já não era aquela relação que queriam. Só Íris escapava porque Íris era especial e não se viam como homem e mulher, somente como amigos sinceros.

— O Gabriel é o meu melhor amigo. — afirmou Íris, pegando na taça de porcelana com os legumes que salteara. Olhou para Ashley. — Tal como tu és a minha melhor amiga.

Ashley abraçou-a, quando ela pousou a taça na mesa. Um abraço de irmãs, de melhores amigas, diferente de outros abraços que aquela sala já presenciara, abraços de amantes.

Tanto Íris como Ashley evitavam comer carne, mas tal como Gabriel descobrira quando Íris permanecera aqueles dias em sua casa, ela sabia fazer óptimos cozinhados sem carne.

Gabriel foi convidado a ocupar um dos lugares à mesa. Ashley sugeriu que ele ficasse no topo. Íris foi abrir uma garrafa de vinho. Sentaram-se todos e começaram a comer. Ele elogiou a comida.

Conversaram animados durante todo o jantar, falando de várias coisas, a Universidade, a vida em Montreal... Ashley partilhou com Gabriel coisas simples sobre a sua vida na cidade, a vinda para estudar na McGill, a sua actividade desportiva como nadadora de natação sincronizada.

— Como é que vocês se conheceram? — questionou Gabriel.

— Numa festa. — respondeu Ashley prontamente. — Amigos comuns. Conversámos. A Íris é muito boa onda. — Olhou para a amiga. — Primeiro fiquei curiosa por ser europeia como eu. Depois...

— Depois? — interrogou Íris, provocadora.

— Depois percebi que eras inteligente, conversadora e agradável.

Íris sorriu e anuiu.

— E depois o teu namorado levou-te. — atirou Íris. Tal como te leva em todas as vezes que me deixas aqui e vais ter com ele para foderem. — Desapareceste de um momento para o outro.

Gabriel percebeu os segundos sentidos, tal como Ashley que desvalorizou por pensar que ele não sabia da relação íntima delas.

— Foi tudo tão rápido. — justificou Ashley, dirigindo-se a Gabriel. — Conhecíamos muito pessoal, naquela festa. Mais o meu namorado que eu. Andávamos a falar com todos. — Olhou novamente para Íris. — Na altura, tive pena de não lhe deixar um contacto. Gostava de voltar a falar com ela. A Íris tem uma presença muito positiva, faz-nos sentir bem.

— Sim, concordo. — disse Gabriel para Íris.

— Encontrámo-nos uns tempos mais tarde. — completou Íris.

— Sim. Estudamos na mesma Universidade, isso aconteceria mais tarde ou mais cedo. E quando nos voltámos a cruzar, tornámo-nos amigas. — Ashley falava com a atenção na amiga, de tal forma que perdeu alguma noção da presença de Gabriel. — Eu gosto muito da Íris.

Mal o disse, receou ter-se denunciado. Íris gostou da declaração, mas percebendo o seu incómodo, contrapôs:

— Eu também gosto muito de ti, Íris. És a irmã que nunca tive.

Ashley atirou-lhe um beijo.

— E vocês, como se conheceram?

A pergunta de Ashley deixou Íris apreensiva, uma vez que aquela pergunta poderia encaminhar a um assunto tabu para Gabriel, Olga, a mãe de Íris. Ia para dizer algo, mas...

— Conheço a Íris desde criança. — respondeu Gabriel com naturalidade. Ele próprio se surpreendeu por o fazer. No entanto, já notara que, desde o regresso de Íris à sua vida, o assunto "Olga" parecia já não o magoar tanto. — Eu namorei a mãe da Íris há muitos anos.

— Ah... Pois... Tu também és português. — compreendeu Ashley numa daquelas constatações que estão diante dos olhos, mas só em determinado momento se tem consciência disso.

— Talvez seja melhor falar de outro assunto. — pediu Íris.

Gabriel acariciou-lhe a mão numa expressão de agradecimento.

— Não há problema. — Voltou a dirigir-se à inglesa. — Conheci a tua amiga com sete anos. Já em criança, ela era este ser maravilhoso. — Sentiu os dedos de Íris acariciarem-lhe a mão com carinho.

Ashley detectou os toques entre eles e sentiu ciúme, daí que tivesse dito:

— Então, és quase como um pai para a Íris.

Gabriel riu-se. Íris não achou tanta piada.

— Eu tenho pai, Ashley!

Ele olhou-a, revelando-lhe uma expressão de "não tem importância" e retorquiu:

— Quanto muito, um irmão mais velho.

— Talvez... — concordou Íris. — Prefiro ver-te como amigo, um grande amigo. — Olhou séria para Ashley. — Um amigo que adoro!

— Sim, percebo porque falas tanto e tão bem dele. — ripostou Ashley, dando a entender que se sentia cativada por Gabriel, para além da simpatia.

Gabriel, subitamente, deu por si no meio de uma cena de ciúmes. Largou a mão de Íris para evitar que aquilo tomasse proporções absurdas. Contudo, Íris ia dizer alguma coisa, algo para retaliar. Ele antecipou-se:

— Está a fazer-se tarde.

— Já vais? — questionou Íris, esquecendo tudo o resto. — Ainda é cedo. Fica mais um pouco.

— Vou andando, antes que fique demasiado frio.

— Estás no mesmo hotel? — Ele anuiu. Íris sorriu-lhe e brincou. — Se quiseres, podes ficar no sofá.

— O amigo dele não ia gostar. — atirou Ashley a continuar a provocar. Íris fulminou-a com o olhar. — Estou a brincar.

Íris teve vontade de dizer "ele pode ficar na tua cama, já que dormes todas as noites comigo". Estava tão irritada com Ashley, por sentir que ela causara a súbita vontade de Gabriel ir embora, que esteve a um passo de ir mais longe e sugerir "talvez preferisses que ele ficasse na tua cama e lá fosses dormir esta noite".

Gabriel levantou-se da sua cadeira. Elas copiaram-lhe o movimento.

— Vais mesmo?

Ele anuiu e despediu-se de Ashley que voltou a abraçá-lo.

— Obrigado por teres vindo. Gostei de te conhecer.

— Eu também, Ashley.

— Se voltares a passar por Montreal...

— Eu aviso... a Íris.

Ashley sorriu sedutoramente despretensiosa.

Íris acompanhou Gabriel à porta e falou em português:

— Desculpa a minha amiga. Ficou parva...

Ele sorriu-lhe.

— Não te preocupes. Ela é boa rapariga. Aproveita, Íris! Ninguém sabe o futuro...

Ela encolheu os ombros.

— Não acredito que venha a ser mais que aquilo que é.

Abraçaram-se com ternura e carinho, apertaram-se já com a saudade que iriam sentir quando se afastassem. Íris beijou-lhe a face.

— Há pouco, foi de coração, não foi para a chatear. — referiu, meio envergonhada.

— A que te referes?

— Quando disse que te adoro. — recordou, encarando-lhe o rosto. — Adoro-te mesmo! És o meu melhor amigo.

Gabriel sorriu, sentindo uma paz e uma tranquilidade rara, algo que só sentia com ela.

— Eu gosto muito de ti, Íris. E sem que isso possa parecer estranho, uma vez que é a mais pura das verdades, tu és a pessoa mais importante da minha vida. — Íris ficou surpresa. — Por isso, mesmo que te pareça distante, tu estás sempre presente. — Abanou a cabeça. — Não sou teu pai, nem teu irmão mais velho. Sou e serei sempre um amigo com quem poderás contar hoje e sempre.

A realidade que os envolvia pareceu desaparecer. Íris olhou-o nos olhos com uma profundidade muito intensa. Nem se apercebeu que continuava a abraçá-lo.

— Tudo isto parece estranho. Sempre que estou contigo, é como se não tivesse existido um dia em que não estivéssemos juntos. É inexplicável, mas também não procuro explicação. Adoro o que temos. E, acredita que, o que tenho contigo é único, não tenho com mais ninguém. — Fez um sorriso torcido. — Nem com ela. — Voltou a ficar séria. — Não sei o que é, sei que é bom. Longe ou perto, sou feliz por existires na minha vida.

Ele sentiu a pressão dos sentimentos que ela lhe expunha. Não fosse saber a sua orientação sexual e quase o poderia interpretar de outra forma. Para aligeirar o momento, abriu o sorriso e disse:

— Isso quase pareceu uma declaração de amor.

Íris sorriu, captando o tom humorado. Tornou a apertá-lo num abraço de despedida. Quando tornou a encará-lo, o semblante era sério.

— Se é possível amar os amigos, não duvides que te amo, Gabriel.

O que estava a acontecer? Gabriel olhou para a sala e viu Ashley curiosa a observá-los. Voltou a encarar Íris. Notou que ela esperava algo. Não a desiludiria.

— Eu também te amo, minha amiga!

Era o que ela queria ouvir. Um último abraço, um beijo demorado no rosto.

— Vai mandando mensagens, Gabriel.

— Combinado. — concordou, acenando um último adeus a Ashley.

Quando fechou a porta do apartamento e regressou ao open space, Íris ouviu Ashley dizer:

— Que tanto cochicharam vocês?

— Nada que te interesse. — redarguiu aborrecida.

Ashley aproximou-se dela.

— Que foi?

— Aquela conversa de pai, irmão... Deixaste-o desconfortável.

— Se não te conhecesse, ia pensar que estavas interessada nele. — rosnou a inglesa. — És tão melosa com ele.

— É meu amigo.

— Tem idade para ser teu pai.

— Voltas a dizer isso e levas um estalo. — avisou Íris, furiosa.

A resposta de Ashley foi uma bofetada na cara de Íris.

— Desculpa, desculpa, desculpa... — pediu Ashley, perante o ar magoado e surpreendido de Íris. — Foi sem querer, eu não queria... — Tentou abraçá-la.

Íris empurrou-a para longe, segurando as lágrimas. Ashley bateu contra o balcão e aleijou-se, mas não se queixou.

— Tu bateste-me?! — Uma lágrima escorreu-lhe pela face. — Tu bateste-me?!

— Por favor, Íris, desculpa! Tu ameaçaste-me...

— Achas que te daria mesmo um estalo?

Ashley voltou a tentar aproximar-se e conseguiu abraçá-la.

— Desculpa, meu amor. Eu amo-te, Íris! Não sei o que me passou pela cabeça.

Aos poucos, a inglesa foi quebrando a resistência de Íris, tocando‑lhe a face com os lábios, lambendo-lhe as lágrimas até se beijarem com paixão.

Quando parecia completamente vencida e capaz de perdoar, Íris travou os beijos e encostou Ashley ao balcão, segurando-lhe o queixo. Cravou-lhe as amêndoas zangadas no seu rosto.

— Se mais alguma vez ousares levantar-me a mão, ponho-te na rua, Ashley.

O semblante de Ashley era vulnerável, defensivo.

— Pensei que ias dizer que, se te voltasse a bater, estava tudo acabado entre nós.

— Está implícito, Ashley. Acho que não preciso de o dizer.

— Mas devias. — insistiu. — Porque eu passo bem sem viver aqui ou tão perto da Universidade. Mas, não suporto a ideia de te perder.

Íris ficou desarmada.

— Vamos esquecer que isto aconteceu.

— Íris, eu...

Íris não a deixou dizer nada e voltou a beijá-la.

XVII

 

Soube bem o calor no interior do hotel. Gabriel entrou no luxuoso átrio, grato por sair do frio intenso da noite de Montreal. Enquanto subia no elevador, olhou para as horas e fez um cálculo mental. Em Seattle eram menos três horas, ainda não era demasiado tarde. Saiu para o corredor e caminhou até ao seu quarto. Entrou a procurar o nome de Rachel nos contactos, o que era simples, pois estava nos favoritos. Fechou a porta ao mesmo tempo que clicou no botão verde no ecrã.

Ouviu o som compassado de chamar, o qual se repetiu até passar para o voicemail. Desligou e voltou a tentar. Novamente a chamar sem que ninguém atendesse e indo parar de novo ao voicemail. Rachel deveria estar ocupada. Certamente que lhe devolveria a chamada quando pudesse.

No entanto, Rachel não lhe ligou nessa noite. Gabriel voltou a Toronto na manhã seguinte. Não foi ao escritório no Bay‑Adelaide e seguiu do Pearson International Airport directamente para casa. Alguns minutos depois de entrar no seu apartamento, voltou a tentar telefonar a Rachel. Desta vez, não foi parar ao voicemail, a chamada fora rejeitada por ela. Gabriel estranhou a atitude, mas voltou a justificar para si que ela estaria ocupada. Ia para enviar uma mensagem, quando o aparelho tocou. Não era Rachel, era Íris.

— Olá, Arco-íris! Recebeste a minha mensagem?

— Olá, Gabriel! Sim, a dizeres que já tinhas chegado a Toronto.

Houve algo na voz de Íris que o deixou apreensivo.

— Estás bem?

— Mais ou menos.

— Que se passa?

— Eu e a Ashley discutimos, ontem à noite, depois de ires embora.

Gabriel não ficou surpreendido, reparara no semblante da inglesa quando estava a sair de casa delas, tinha ciúme nos olhos.

— Que aconteceu?

— A parva ficou com ciúmes. Enfim... deve querer que seja só ela a ser minha amiga.

— Vê pelo lado positivo, onde há ciúme há amor.

Íris riu-se no outro lado da linha.

— Sim. Não posso dizer que não tenha gostado da reconciliação.

Não referiu a agressão, não era assunto para contar a ninguém, nem mesmo ao seu melhor amigo. Apesar de estar magoada com Ashley por esta a ter esbofeteado, Íris relevou o acontecimento, até porque notou que a inglesa ficara bastante perturbada com o sucedido. Ficara muito mais carinhosa e melosa, voltou a pedir-lhe desculpa e repetia constantemente que se sentia mal por o ter feito. Fora uma atitude estúpida e impensada. Íris respondia-lhe sempre que já lhe perdoara, mas não lhe disse que não esqueceria.

— Quero pedir-te desculpa, se houve alguma coisa que te deixou desconfortável, ontem.

— Nada me deixou desconfortável. Gostei muito de estar convosco.

— A conversa... Tive medo, quando o assunto foi para... a minha mãe. Não quis de forma alguma que te tocassem na ferida.

— Não te preocupes, Arco-íris.

— Não suporto que te magoem.

— Eu sei. Eu também não deixaria que ninguém te magoasse.

Houve um silêncio no telefonema, ambos à espera que o outro falasse. Gabriel queria dizer algo, mas não sabia o quê. No outro lado da linha, Íris tomou a iniciativa.

— Ontem...

— Sim?

— Gostei muito que tivesses vindo.

— Eu também gostei de ter estado aí.

— Gabriel... Eu sou cem porcento lésbica.

— E?

— Não sei. A conversa na despedida... Não quero ter dado uma impressão errada.

— E que impressão seria essa?

— A Ashley acha que eu...

— A Ashley não percebe português e muito menos entenderia o que partilhamos. — atalhou Gabriel, antes que ela dissesse algo que o tocasse, que lhe tocasse nas zonas protegidas, nos lugares inacessíveis do seu coração. Ele não queria ser tocado aí, nem por ela.

— Tens razão. — concordou. — Mesmo assim, fiquei com receio... ter dito que... tu sabes.

— Que me amas?

— Sim.

— Eu também te amo, Arco-íris, como amiga, tal como tu me amas como amigo. Não foi isso que falámos ontem?

— Sim, tens razão. Desculpa, tive necessidade de falar nisso. Tive medo.

— Medo?

— De ter dado a ideia errada e magoar-te.

— Nunca me magoarias.

— Porque tens tanta certeza?

— O teu amor por mim não deixaria.

— Oh... Gabriel. — sussurrou ela. — És tão querido.

— É melhor pararmos com as lamechices. — disse ele num tom afável.

Ela riu-se.

— Fica bem, Gabriel!

— Beijinho grande para ti, Arco-íris.

— Outro para ti, meu amigo amoroso.

— Olha a lamechice.

— Fui. — finalizou rindo.

Na solidão do seu apartamento, Gabriel caminhou até ao bar e serviu-se de um whisky. Pegou no copo e ficou a olhar para a paisagem cinzenta do lago Ontário. O céu anunciava chuva. Respirou fundo, tentando afastar os sentimentos profundos que Íris lhe provocara. Que tinha ela para conseguir furar tão facilmente as suas defesas?

O silêncio da sala foi quebrado pelo toque do telemóvel. Seria Rachel? Não, era Matt, o advogado.

— Olá, Matt!

— Vou enviar-te o contrato que pediste para a representação do tal jogador. Confirma se está tudo como queres para eu depois enviar para ele.

Gabriel abriu o email no computador. Não lhe dava jeito ler tanto texto num telemóvel, sinais da idade. Estava a ficar velho. Analisou rapidamente o documento, a maior parte não divergia muito do que habitualmente continham os seus contratos, quis apenas confirmar alguns pormenores. Ao fim de dez minutos, enviou uma sms para Matt com "podes avançar".

Voltou à observação do lago. Íris regressou à sua mente, mas ele afastou-a. Bebeu o resto do whisky no copo e despejou uma nova porção. Sentia-se só. Era normal, mas não se conseguia habituar a isso, mesmo que fosse um solitário há mais de quinze anos. Voltou a pegar no telemóvel, nova tentativa de ser atendido por Rachel. Nova rejeição de chamada. Que raio! Mas que merda se passa aqui? Ia para lhe escrever uma mensagem, quando a notificação do WhatsApp o travou. Finalmente, Rachel dava notícias:

"Pára de me ligar, Gabriel! Não temos nada a dizer um ao outro"

Por aquela não esperava. É certo que não falavam desde que ela estivera em Toronto, sabia que saíra magoada com o que ele lhe dissera, mas não antecipara que isso provocasse um corte tão radical entre eles. Pensou em perguntar-lhe o que se passava, mas ele sabia a resposta. Se era isso que ela queria...

"Estava a ligar-te por causa de um negócio. Interessa-te?"

Esperou a resposta, mas não viu qualquer indicação de que ela estivesse a escrever. Para sua surpresa, ela telefonou.

— Que negócio é esse? — questionou, quando ele atendeu, sem qualquer cumprimento.

— Pensei que fôssemos amigos.

— Eu também, Gabriel. Estávamos enganados. Que negócio é que estás a propor?

— O que é que te deu para essa atitude?

— Gabriel! Ou dizes que negócio queres falar ou desligo.

— Tens conhecimentos nas equipas da NFL?

— Alguns.

— Tenho um jogador com potencial para jogar na NFL. — explicou. — Pensei em ti, que talvez tivesses contactos... Podemos lucrar os dois.

— Quem é ele?

— Só te dou pormenores depois. Achas que consegues interessados?

— Sem saber quem é, duvido.

— Assim que fechar o acordo com ele, dou-te mais pormenores. — Adoptou um tom irónico. — Se me atenderes o telefone, claro.

— Para assuntos profissionais, claro que sim.

— E para o resto?

— Quando tiveres mais pormenores, diz.

E desligou.

Não a podia censurar pela atitude. Ela dera-lhe a entender que estava apaixonada por ele. Gabriel respondera fazendo-a sentir um objecto sexual.

A formalização do acordo com Jean Michel aconteceu com a chegada dos documentos assinados ao escritório de Matt. Gabriel visitou o advogado e também assinou para que uma cópia fosse enviada para Montreal. Como o contrato de Jean Michel com o antigo empresário só terminaria no final do mês, o assunto ficou pendente até ao início de Março.

A neve desaparecera de Toronto. O frio diminuíra. Na NHL os Maple Leafs estavam a um passo da qualificação para os playoff, na NBA os Raptors já tinham esse lugar assegurado. Aquela manhã do mês que traria a Primavera nasceu com Sol e luminosa. No seu gabinete, sentado na sua cadeira, Gabriel olhava para os prédios envolventes às suas janelas a reflectir o brilho solar.

Não voltara a falar com Rachel. Na altura em que o seu contrato de representação de Jean Michel se iniciara, Gabriel enviou a Rachel uma apresentação do jogador por email e alguns vídeos dos jogos dele nos Aloutte de Montreal. Dois dias depois, ela respondeu-lhe a informar que ia ver o que podia fazer e queria saber quanto lhe caberia a ela de comissão. Ele fez a proposta, ela aceitou-a.

Durante mais uma semana não teve notícias de Rachel. Chegou a pensar se teria esquecido o assunto ou desinteressado por ter de negociar com ele. Porém, ao fim desse tempo, ligou-lhe.

— Há uma possibilidade dos Redskins o contratarem, mas será para suplente.

Os Redskins eram a equipa de Washington.

— Foi o melhor que conseguiste?

— Se não te agrada, vai à merda. — respondeu, interpretando as palavras dele como uma crítica.

— Calma, Rachel. — pediu, paciente. — Estava só a perguntar. É a única proposta?

— Sim. — confirmou. — Tenho carta branca dos Redskins para negociar o contrato contigo. Posso deslocar-me a Montreal para falar com o jogador e contigo.

— Sabes bem que esses assuntos são tratados comigo e depois eu falo com o jogador.

— Como queiras.

— Quando podes vir a Toronto?

— Porque não vens tu a Seattle? O interesse é teu.

Gabriel não respondeu. Deixou o silêncio responder por alguns segundos. Depois, encarou aquilo como um caso perdido.

— Vou falar com alguns conhecimentos para ver se consigo mais alguma coisa.

— Espera lá, Gabriel! Não andei a perder tempo para me deixares na mão.

No seu inconsciente, Gabriel queria que ela viesse a Toronto, queria voltar a vê-la.

— Sabes bem como isto funciona.

— E se eu for a Toronto?

Ao demonstrar-se disposta a ceder à sua exigência, Rachel denunciou-lhe que os Redskins teriam mais interesse em Jean Michel que aquele que ela queria deixar transparecer.

— Posso debater a proposta contigo para chegarmos a acordo.

— Odeio-te!

— Não odeias nada. — respondeu ele, provocando-a.

— Foste uma desilusão. — atirou-lhe, zangada.

As palavras atingiram-no mais que o esperado. Sentiu que a amizade com ela estava fatalmente comprometida. Decidiu levantar os escudos todos e proteger-se, atacando-a.

— Se te desiludiste, foi porque criaste ilusões. Nunca te enganei e sempre te disse o que queria e o que não queria.

— Pediste para não desistir de ti. — lembrou-lhe, ríspida. — Querias a amiga, depois quiseste uma amiga colorida...

— Foste tu que quiseste isso. E acordámos que nunca haveria cobranças.

— Ok, Gabriel. Não vale a pena continuar a discutir isto. Vou marcar voo para ir a Toronto depois de amanhã. Depois ligo-te para reunirmos.

— Podemos combinar em minha casa.

— Nem penses, Gabriel. Não volto a tua casa. Será no teu escritório.

— Deixa-me compensar-te, Rachel. — sugeriu num tom de paz. — Os hotéis são tão impessoais. Fica em minha casa. Conversamos sobre o contrato para o Jean Michel e... sobre nós.

— Não há nenhum "nós". E se me queres compensar, dá-me a tua comissão!

Então era esse o caminho que ela queria seguir? Com ele, era um caminho perigoso. Se começassem a atirar dinheiro à cara um do outro, então, Gabriel colocaria a sua máxima sobre a mesa. Gostava dela, gostava do sexo com ela, gostaria de voltar a estar com ela.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

— Rachel! Só me reúno contigo em minha casa. Se quiseres prosseguir com o negócio, temos de esclarecer as coisas muito bem entre nós. E não será um assunto para o escritório, é para conversarmos com calma em minha casa.

— E tenho que dormir contigo, se quiser que o negócio avance?

Tens! Foi o que lhe apetecia responder. Porém, Gabriel não era assim.

— Estás a ser estúpida. Nunca te obriguei a nada. Só quero conversar contigo. Estou a pedir-te que fiques essa noite em minha casa para conversarmos com calma. — Fez uma pausa para a ouvir. Ela permaneceu calada. — Como é que vai ser?

— Se é a única forma de prosseguir com isto. Não quero que o Jean Michel fique prejudicado com os nossos desentendimentos. Mas, quero deixar bem claro que nunca mais nos envolveremos sexualmente. Estamos entendidos?

— Como queiras.

— Quando tiver as coisas acertadas para viajar, informo-te.

E desligou-lhe o telefone na cara.

Daí a dois dias, Rachel viajou para Toronto.

Os sinais da chegada da Primavera eram evidentes, os dias de Sol aumentavam e os dias de chuva diminuíam. Curiosamente, aquele era de chuva, apesar de a temperatura ser bem mais agradável que no mês anterior. Gabriel esperou Rachel em sua casa, ela ficara de chegar a meio da tarde. Enquanto via os aguaceiros a cair na cidade, Gabriel bebia um copo de whisky e esperava. Não duvidava que as negociações da proposta para Jean Michel chegariam a bom porto. Mais que ter um bom salário, ele tinha o sonho de jogar na NFL. Só que Gabriel queria resolver outros assuntos com Rachel e esses eram bem mais complicados para chegarem a um acordo satisfatório para as duas partes. Gabriel não queria perder a amiga, mas não queria compromissos, não queria relacionamentos. Porque não podiam continuar com aquela amizade com benefícios que julgou terem? Que acontecera? Ele sabia. Ele errara. Ele não se limitara ao sexo, naquela última noite, fizera amor com ela. Um erro. Um grande erro. Fora Gabriel quem lhe criara a ilusão que a fizera desiludir-se com ele. Magoara‑a, tinha a certeza, tanta quanto aquela que lhe dizia que não queria mais que aquilo, não queria uma namorada.

A campainha tocou.

Gabriel respirou fundo.

Rachel surgiu com a sua imagem de mulher empresária, elegantemente vestida num fato verde, um conjunto de calças e casaco de corte aprumado. Os caracóis penteados para o lado e a maquilhagem sóbria davam-lhe um ar sensualmente maduro. Calçava sapatos de salto alto, segurava uma pasta na mão esquerda e rebocava a mala de viagem com a mão direita. Olhou-o com uma expressão fechada e atirou um frio:

— Olá, Gabriel!

Visualmente, ele não lhe ficava atrás, envergando um fato Ermenegildo Zegna azul-escuro sobre uma camisa branca e uma gravata em riscas cinzentas e azuis. Sorriu-lhe, apesar da frieza dela.

— Olá, Rachel!

Pensou em abraçá-la, mas ela ficou parada na sua frente, colocando a mala de viagem entre eles.

— Posso entrar ou reunimos aqui? — questionou no mesmo tom gélido.

Gabriel afastou-se para o lado e apontou para o interior, convidando-a a entrar:

— Sabes o caminho.

Rachel passou por ele, puxando a mala. Parecia querer fazê-lo sentir o quanto se encontrava ali contrariada. Avançou pelo átrio e entrou no quarto que ocupara nas vezes em que ali dormira. Gabriel fechou a porta do apartamento e foi para a sala. Ela regressou uns minutos depois, sem o casaco do fato, revelando uma camisa fina e opaca em tons escuros.

— Queres beber alguma coisa?

Ela não respondeu, parando defronte dele e apontando-lhe a pasta contendo a proposta.

— Aí tens!

Paciente, Gabriel segurou nela e disse na tentativa de quebrar o gelo:

— É uma proposta de paz entre nós?

— É a proposta dos Redskins para o Jean Michel. — retorquiu inexpressiva.

Gabriel largou a pasta sobre o balcão que separava a sala da cozinha. Não mostrou interesse em ler e ficou a olhar para o rosto fechado de Rachel.

— Podemos conversar?

— Não é que estamos a fazer?

— Não.

— Que queres falar?

Ele apontou o sofá.

— Senta-te.

— Estou bem em pé.

— Eu quero sentar-me e não vou falar contigo de pé.

Rachel fez uma expressão exasperada e sentou-se na ponta do sofá. Gabriel ocupou a ponta oposta.

— Não queres beber nada?

— Não.

O ambiente era pesado e a luminosidade cinzenta do exterior não ajudava a desanuviar o clima entre eles. Gabriel adoptou uma postura de quem não teria problemas em assumir as culpas.

— Quero pedir-te desculpa, Rachel, se de alguma forma te magoei.

— Se? — interrompeu ela, ainda num tom ríspido. — Tens dúvidas?

Ele levantou as mãos em sinal de trégua.

— Ok, Rachel, eu magoei-te. Estou a pedir-te desculpa.

— As desculpas não se pedem, evitam-se!

Gabriel começou a perder a paciência.

— Que queres que faça? Estou a admitir a minha culpa. Tu desculpas ou não. Que raio! Também não cometi nenhum crime.

Rachel não disse nada, nem alterou o semblante fechado. Ao invés, levantou-se do sofá e caminhou até ao bar.

— Posso? — perguntou, apontando para a garrafa de whisky dezoito anos. Ele anuiu, observando-a atento. Ela encheu um terço do copo e bebeu um golo. Virou-se para a janela e olhou para o lago. — Não cometeste nenhum crime, é verdade. E posso desculpar-te, já que conseguiste assumir a culpa.

— Obrigado, senhora doutora juíza. — ripostou sarcástico.

Ela virou-se para ele, perdendo alguma da dureza no olhar.

— Que queres de mim? Não, não. Espera! A pergunta é: o que queres de nós? Foste tu quem enunciou um "nós" no outro dia.

— Gostava que pudéssemos voltar ao que tínhamos, antes da última vez que estivemos juntos.

— Amigos?

— Amigos que fazem sexo sem compromisso.

Rachel atirou-lhe uma gargalhada de desdém.

— Não vai acontecer, Gabriel. — Abanou a cabeça. — E lamento que depois de tudo, ainda penses que isso é possível.

— Ok. Então, o que propões?

Demonstrando que estava a pensar, caminhou até ao sofá e voltou a sentar-se no mesmo lugar. Bebeu mais um pouco do whisky e olhou para ele.

— Só tens duas possibilidades, comigo. Não. Tens três.

— E quais são?

— A mais simples, cada um segue o seu caminho e podemos cruzar-nos para interesses comuns nos negócios. Ou ficamos amigos, mas somente amigos, sem cenas íntimas e muito menos com sexo à mistura.

— E a terceira?

— Um compromisso. — afirmou, segura e sem dizer mais nada.

— Que tipo de compromisso?

— O tipo de compromisso que os casais têm.

— Casamento? — interrogou estupefacto.

— Não, nada disso. — negou ela, voltando a beber. — Assumimos uma relação amorosa. Se quiseres isso, então sim, o sexo volta à nossa amizade.

— Vives a quatro mil quilómetros. Não me parece que uma relação à distância faça sentido.

Rachel sorriu.

— A parte mais importante do meu trabalho em Seattle está feito. Não será necessário deslocar-me lá mais que uma vez por mês durante dois ou três dias. Tirando isso, as viagens profissionais são uma realidade idêntica à tua. — Encarou-o com toda a segurança, jogando todas as cartas. — Posso mudar-me para Toronto, se quiseres.

Foi a vez de Gabriel se levantar. Não respondeu, nem deu a entender o que pensava daquela hipótese. Dirigiu-se ao bar e encheu dois terços do copo com o mesmo whisky que ela. Parecia estar a ganhar tempo para responder. Sem se virar para ela, manteve os escudos levantados:

— Não estou à procura de uma relação amorosa.

— Não queres perder a tua independência para poderes continuar a recorrer a profissionais. — atirou-lhe, ouvindo a recusa daquilo que ela mais desejava.

— Não é por aí. Tu própria disseste que eu podia continuar a recorrer a elas, tendo...

— Não, se existisse um compromisso entre nós.

— Disseste-me que não te importavas, depois de termos ido para a cama um com o outro a primeira vez. Só colocaste como condição, dizer‑te se me envolvesse com uma mulher que não fosse paga pelo sexo.

— Nessa altura era diferente. — argumentou, levantando-se novamente. — Nessa altura, eu ainda não estava apaixonada por ti.

A confissão apanhou-o de surpresa. Claro que ele desconfiava, mas ouvi-la assumir isso era outra coisa. Virou-se para olhar para ela. Rachel permaneceu imóvel, aguardando a reacção dele. Gabriel sabia o que queria, mas iria evitar magoá-la com a única coisa que lhe poderia dizer naquele momento. Ficou calado.

— Ouviste o que te disse? Estou apaixonada por ti!

Gabriel pousou o copo. Como se poderia dourar a pílula? Como falar com eufemismo sabendo que a única resposta que tinha lhe iria partir o coração? Decidiu ser honesto e falou num tom terno:

— Gostava de poder dizer o mesmo de ti. — Notou-lhe o impacto da frase nos olhos. — Não penses que existe outra pessoa porque não existe. — Rachel desviou o olhar. — Como sempre te disse, sou um gajo complicado. Não te quero magoar. Já o fiz e foi sem intenção. Não quero perder a amiga. Podes não acreditar, mas és muito importante para mim.

Rachel assentiu. Não se mostrou zangada, apesar de no seu íntimo se sentir usada por ele, nas vezes que fizeram sexo. Porém, não era justo culpá-lo, uma vez que a iniciativa partira sempre dela.

— Será a amizade, então. — concluiu como quem chega a acordo para a contratação de um jogador. — Tu também és importante para mim. Por isso, vamos tentar fazer com isto resulte... a amizade.

Gabriel sorriu-lhe, mas não foi correspondido. Rachel voltou a ficar de pé, mas afastou-se quando ele se aproximou para selar a amizade com um abraço. Ele viu-a desviar-se para o balcão e recolher a pasta que lhe tornou a apontar.

— Lê e vê se concordas.

O ambiente ficou menos pesado. Gabriel abriu a pasta e começou a ler a proposta que os Redskins haviam delegado nela. Analisou o texto, concentrado nos pontos fundamentais. Era uma boa proposta, não era milionária, mas era muito interessante. E se Jean Michel se saísse bem, poderia obter uma renovação de contrato milionária.

— Tens margem de manobra?

— Se aceitares essa, eu recebo um bónus. — informou. — Aceita assim como está e partilho-o contigo. Setenta trinta.

— Quanto é o bónus? — Ela disse-lhe o valor. — Cinquenta cinquenta.

— Não é negociável, Gabriel. É uma proposta justa. Tu até aceitarias isso, se não te tivesse falado do bónus.

Ele fechou a pasta.

— Tudo bem. Irei apresentar o contrato ao Jean Michel.

Subitamente, ficaram a olhar-se sem nada para dizer. Tudo parecia tratado e arrumado, pelo que a reunião estava finalizada. Rachel sentiu-se a mais ali na casa dele.

— Posso convidar-te para jantar fora? — ofereceu, percebendo o desconforto dela. — Ou posso encomendar para comer aqui.

— Prefiro que me leves a jantar fora.

— Não é preciso ser na CN Tower pois não?

— Não. Qualquer sítio agradável serve.

Gabriel escolheu um restaurante simpático e acolhedor no Distillery Historic District. Não era muito longe donde vivia, o suficiente para levar os cavalos do Ferrari a passear. A noite estava amena e a chuva não voltara, daí que não se importasse de estacionar num parque automóvel junto à Parliament Street. Saíram do carro e caminharam pela Gristmill Lane, dando de caras com a escultura do coração vermelho, uma espécie de sinal do amor.

— Queres dizer-me alguma coisa? — interrogou Rachel a brincar com ele e apontando para o símbolo. — Não precisas responder.

Prosseguiram a caminhada numa passada calma. Viam-se muitas pessoas na rua, essencialmente jovens. Os habitantes de Toronto retornavam às actividades de lazer no exterior, agora que o Inverno se ia embora e as temperaturas eram mais altas. Duzentos metros mais à frente, mais precisamente na Trinity Street, entraram num restaurante e indicaram-lhes uma mesa.

O jantar foi amistoso. Colocaram de lado as divergências, os pontos de vista distintos acerca da relação deles e conversaram animados. Gabriel adorava estar com ela e lamentava que Rachel não vivesse mais perto para poderem repetir aquelas saídas de amigos. Por seu turno, Rachel adorava-o com toda a força do seu ser, uma paixão que lhe emanava de todas as células do corpo e que ela tentava controlar.

Rachel quis pagar o jantar. Era o mínimo, já chegava asilar em casa dele, cada vez que vinha à cidade. Para além disso, ia receber um belo prémio pela contratação de Jean Michel.

No entanto, Gabriel não deixou.

— Em Toronto pago eu. Quando te visitar em Seattle, pagas tu.

Ela sorriu, entusiasmada.

— Isso quer dizer que estás a pensar ir a Seattle?

— Fazes valer a pena? — Piscou-lhe o olho.

— Que queres dizer com isso?

— Estou a brincar, Rachel.

— Já falámos sobre isso, Gabriel.

— Rachel! Estou a brincar contigo.

Percorreram o mesmo caminho em sentido inverso até ao parque. O Ferrari aguardava-os no meio dos outros automóveis. Gabriel fez o papel de cavalheiro e abriu a porta para que Rachel entrasse. O burburinho dos ruídos citadinos foi quase apagado pelo roncar forte do motor, um rugido feroz da máquina sedenta de soltar os cavalos contidos e acelerar pelo asfalto. Claro que Gabriel se conteve e não excedeu os limites de velocidade, mesmo quase não havendo trânsito nas ruas.

Ao entrarem no apartamento, Rachel revelou-se cansada.

— Um último copo, antes de ir dormir? — ofereceu Gabriel num jeito sedutor.

— Dispenso. Quero ir descansar.

— Queres que passe pelo teu quarto para te aconchegar os lençóis? — sugeriu provocador.

Rachel riu-se, mas depois ficou séria.

— Não vai acontecer, Gabriel. Não quero que vás ao quarto, nem eu vou ao teu. Nem te vou enviar mensagens. Vou dormir. — Viu-o concordar, mas teve dúvidas que ele compreendesse. — Estou a falar a sério, Gabriel. Espero que não tentes nada.

— A porta tem chave, se achas que eu faria uma coisa dessas.

— Sei que não, desculpa.

Sorriram um para o outro. Gabriel esperou ter direito a um beijo, ela limitou-se a acenar-lhe um adeus.

Apesar de tudo, a situação irritava‑o, tinha vontade e ela não queria algo que já tinham feito com tanta naturalidade.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

— Não queres chegar a um acordo?

Rachel fez uma expressão confusa.

— Acordo? Que acordo?

— Os trinta porcento do teu bónus.

— O que tem?

— Queres trocar pela noite comigo?

Ela ficou boquiaberta, meio ofendida.

— Vou fingir que não ouvi o que acabaste de propor.

— Não me podes culpar por tentar.

— Só não tens o que não queres. — Apontou-se da cabeça aos pés. — Tudo isto pode ser teu, mas com as minhas regras.

— Dorme bem, Rachel!

— Boa noite, Gabriel!

Não aconteceu nada naquela noite. Cada um dormiu no seu quarto. Na manhã seguinte, Gabriel acordou cedo, ao amanhecer, mais cedo que o costume. Saiu da cama nu como sempre e foi observar o nascer do Sol através da sua janela. Pensou em Rachel que dormia no quarto ao lado. Percebia o ponto de vista dela e compreendia que ela quisesse as coisas daquela forma para, tal como ele, não se magoar. Se queria ser entendido, Gabriel concluiu que tinha de aceitar aquilo. Lamentava que assim fosse, mas a culpa era duplamente dele, primeiro por não querer ter uma relação séria com ela, segundo por ter-se deixado ir no romantismo e, sem querer, tê-la apaixonado por si.

O duche foi retemperador e retirou aquela sonolência matinal, apesar de já não sentir sono. Barbeou-se sem dar por isso, a mente em pensamentos, distraído a olhar-se ao espelho sem se ver. Vestiu o fato elegante, perfumou-se, deu um último toque no cabelo e saiu do quarto.

Pelo silêncio, percebeu que Rachel ainda dormia. Foi até à sala, atravessou-a e parou na cozinha. Tirou um café expresso para si.

A claridade aumentara e o Sol brilhava intenso. A agenda de Gabriel estava preenchida para esse dia. Pegou no smartphone e consultou o email. Nesse instante, ouviu uma porta a abrir. Os passos de Rachel eram silenciosos, mas audíveis na ausência de qualquer som. Ela apareceu na sala, vestindo unicamente a camisa da noite anterior que lhe chegava às coxas nuas, com uma expressão estremunhada.

— Bom dia, Gabriel! Ouvi-te levantar...

— Bom dia, dorminhoca!

— Já estás pronto para sair? Eu adormeci. Vou só tomar um banho e...

— Não te preocupes. Fica à vontade. Eu tenho de ir para o escritório, mas tu podes ficar por aqui até ires para o aeroporto.

Ela sorriu ensonada.

— Obrigado.

— Quando saíres, é só bater a porta. — disse ele, pegando no casaco.

Rachel aproximou-se e ajeitou-lhe a gravata que já estava impecável. Olhou-o nos olhos. Não disseram nada, apenas sorriram um para o outro.

— Conto com a tua visita a Seattle?

Gabriel encolheu os ombros.

— Sempre que quiseres vir a Toronto, terei todo o gosto em que fiques cá em casa.

Despediram-se. Ele penteou-lhe os cabelos suavemente em desalinho com os dedos, enquanto ela fez uma carícia com a mão no rosto dele.

— Logo que tenha novidades do Jean Michel, telefono-te.

— Combinado. — Ela segurou-lhe na mão que lhe tocava o cabelo. — Quando chegar a Seattle, ligo-te. — Viu o sorriso torcido dele. — Desta vez, ligo mesmo.

— Faz boa viagem. E... mais uma vez... Desculpa, eu...

— Deixa, Gabriel. Viveremos com o que temos.

Afastaram-se. Gabriel pegou no casaco, soprou-lhe um beijo e saiu.

XVIII

 

Jean Michel nem cabia em si de felicidade, quando Gabriel lhe ligou a contar sobre a proposta que recebera dos Redskins. Traçou-lhe os pontos gerais do contrato e depois remeteu-lho por email.

Sem que o tivessem combinado, Gabriel e Rachel foram falando todos os dias, sempre com a justificação do contrato, mas acabando a falar noutras coisas. Algo mudara, algo se alterara nele. Já não sentia aquela necessidade defensiva de a afastar. Ao invés, sempre que tinha uns minutos, ligava a Rachel ou mandava-lhe uma mensagem. Por vezes, o objectivo era só ouvir a voz dela, um telefonema de dois minutos que em algumas ocasiões se transformavam em duas horas.

Os representantes dos Redskins quiseram fechar a assinatura do contrato com Jean Michel e convidaram-no a ir a Washington com o seu empresário. Gabriel teria preferido um encontro em Toronto, mas não tinha qualquer problema em ir à capital do país vizinho. Fora Rachel quem comunicara o convite para a reunião.

— Isto podia ser feito sem lá ir.

— Sabes como é, Gabriel. É um marcar de posição, demonstram que são eles o elo mais forte na negociação. Não iriam deslocar-se a Montreal ou a Toronto, nem fazer as coisas por correspondência. — Riu-se no outro lado da linha. — A menos que ele fosse o Tom Brady.

— Pelo menos, vou voltar a ver-te.

— Eu não vou estar presente, Gabriel. — disse ela num tom lamentoso. — Tenho outros assuntos a tratar e não se justifica a viagem.

— Bolas. Gostava de te voltar a ver.

— Posso mandar-te uma foto. — sugeriu divertida.

— Só se for um nude. — ripostou no mesmo tom.

— Para quê? Nada que não tivesses já visto.

Houve um silêncio. Gabriel contou os dias que tinham passado desde que ela estivera em Toronto, cerca de uma semana. Parecia uma eternidade. Gostava verdadeiramente da companhia dela. Talvez decidisse começar a ajustar a sua agenda para uma visita a Seattle.

— Quando me pagarem o bónus, transfiro a tua parte. — informou, quebrando-lhe os pensamentos.

— Combinado.

A viagem a Washington resolveu-se num dia. Jean Michel viajou de Montreal e Gabriel de Toronto. Encontraram-se no aeroporto e seguiram para os escritórios da equipa de futebol americano. A reunião foi tranquila e bem-disposta, todos os pormenores ficaram acertados. Jean Michel quis ficar pela cidade mais uns dias, mas Gabriel regressou a Toronto nessa noite.

Todo aquele mês foi bastante tranquilo. Profissionalmente as coisas corriam bem, como sempre, e ele continuava a ganhar muito dinheiro. Como adepto de desporto, também não se podia queixar, tanto no hóquei como no basquetebol, Toronto avançara para os playoffs.

O contacto com Íris permanecia regular. Ela estava feliz, apesar da relação com Ashley não ser aquilo que ela gostaria que fosse. Porém, preferia saborear o que tinha, a pensar no que não tinha. Para além disso, surgira uma novidade que ela quis partilhar com ele por email, algo que também o deixaria contente.

 

"Olá Gabriel,

Aconteceu uma coisa incrível e inesperada que poderá fazer-me repensar o futuro. Como tu sabes, a minha ideia era vir estudar um ano para o Canadá e voltar a Portugal. Só que recebi uma proposta de emprego para trabalhar em Montreal. É exactamente na área para o qual estudei toda a minha vida e escusado será dizer que o ordenado será muito superior a qualquer possibilidade idêntica em Portugal. Fiquei muito feliz. A Ashley também adorou a ideia, se bem que ela ainda não saiba muito bem o que vai fazer a partir do início do Verão, oscilando entre a hipótese de arranjar um emprego cá ou regressar a Inglaterra. Eu amo-a, como tu também sabes, mas não posso fazer depender as decisões do meu futuro com base numa relação cheia de secretismo e que não me parece que ela algum dia venha a assumir. A parte negativa de tudo isto é a minha mãe. Já lhe contei e ela ficou muito feliz por mim e disse-me logo que deveria aproveitar. Mas, eu sei que me esconde a tristeza que vai sentir por eu continuar longe. Nada é perfeito. Seja como for, quis partilhá-lo contigo, não só porque és o meu melhor amigo, como acho que devo comunicar, através de ti, a minha intenção ao senhorio de permanecer nesta casa. E, claro, ele pode não estar na disposição de prolongar o arrendamento especial que me faz em atenção a ti. Compreenderei se ele quiser que eu saia no Verão. Tenta saber a perspectiva dele, uma vez que vou precisar de tempo para me mudar. E com isto tudo, já deves ter percebido que vou aceitar a oferta de emprego. Estou muito feliz. Será um estágio modestamente remunerado durante as aulas, mas depois passarei a trabalhar a tempo inteiro. Pedi só para me darem uns dias entre o fim das aulas e o início do contrato a tempo inteiro para ir a Portugal visitar a minha mãe. Espero que tenhas ficado feliz com a notícia. Eu sei que estás :) Beijinhos para ti. Amo-te! Íris (para ti, Arco-íris)"

 

Gabriel ficou muito satisfeito com a notícia. Já algumas vezes dera por si a pensar que daí a uns meses Íris regressaria em definitivo a Portugal e o oceano voltaria a estar entre eles. Assim, ela estaria a somente uma hora de avião, caso a quisesse visitar. Porque haveria de pensar nisso? Íris vivia em Montreal há mais de meio ano e ele só a visitara uma vez e no aproveitamento de uma viagem de negócios. Tinha de mudar isso, queria estar com ela mais vezes. Porém, lembrou-se do relato de ciúmes de Ashley. A relação entre as duas já era complicada, ele não queria causar problemas. E tinha a certeza que, apesar da forte amizade, Íris preferiria que ele ficasse longe, se isso significasse menos desentendimentos com Ashley.

No sossego solitário do seu apartamento, Gabriel decidiu responder ao email. Contudo, como iria dizer-lhe que o senhorio (que era ele próprio) não se importava que ela continuasse na casa, talvez fosse melhor só escrever no dia seguinte para não levantar suspeitas.

A solidão não o largava. No entanto, desde que falava regularmente com Rachel, a angústia desaparecera. Bom, não desaparecera totalmente, mas não dava sinais de ser tão pesada como antes.

Sem hesitar, sentou-se no sofá com o seu copo de whisky a um terço e pegou no telemóvel. Marcou o número de Rachel e aguardou o toque de chamar. Ouviu o sinal três vezes e depois, para sua surpresa, ela rejeitou a chamada. Que estranho. Teria sido engano? Voltou a marcar e ela voltou a rejeitar. Só por uma vez lhe fizera aquilo, consequência de estar aborrecida com ele. Não era o caso, por aqueles dias, estavam até a dar-se muito bem. Antes que tivesse oportunidade para tentar uma terceira vez, recebeu uma mensagem pelo WhatsApp:

"Desculpa, Gabriel. Agora não posso atender, estou ocupada. Depois falamos"

O "depois falamos" não aconteceu nessa noite, nem no dia seguinte. Gabriel também não insistiu, uma vez que deveria ser ela a devolver-lhe a chamada.

A situação era estranha. Ele recusava-se a encará-la como tal, mas não conseguia desligar-se da questão. Porque não o atendera e porque não devolvera a chamada? Precisava de desabafar e por isso recorreu ao seu terapeuta.

A primeira coisa que Phil lhe disse foi:

— Noto uma alteração na tua forma de encarar a vida. E fico satisfeito com isso. Sinal de que ainda há esperança para ti.

— Não estou a perceber. — ripostou Gabriel, sentando no lugar de sempre no sofá, diante de Phil na sua poltrona.

— O Gabriel de há uns tempos estaria a borrifar-se para isso. Aliás, seria mais provável seres tu a rejeitar a chamada e a afastá-la.

— Sim, talvez... Mas, isso não me esclarece em relação ao que se passa.

— E achas que eu sei?

— Podias ter uma teoria.

— Não faço ideia, Gabriel. Terá de ser ela a dizer-te.

Gabriel abanou a cabeça, confuso, desorientado.

— Não sei o que se passa, Phil. Gosto dela, mas não quero prender‑me a isso. Sei que gosta de mim. — Sorriu meio parvo. — Nós já fomos para a cama. Ela é maravilhosa. Não fica nada atrás das tipas que eu contrato.

— Não preciso de pormenores, Gabriel.

— A Rachel quer uma relação, mas eu não me sinto preparado para isso.

— Estás a ver? — questionou o terapeuta com ar de quem tem razão. — Antes, não estarias sequer a colocar essa hipótese. Aliás, acho que há uns meses nem estaríamos a ter esta conversa.

— Não sei o que vês diferente.

— Vejo que disseste que não te sentes preparado ao contrário do outro Gabriel, aquele que diria que ela queria, mas tu não.

— Eu gosto de estar com ela. Há muito tempo que não me sentia tão bem com uma mulher. — confessou sem conseguir encará-lo. — Só que... Continuo a achar que será efémero. Sei onde esse caminho leva e não preciso disso.

— Tu não sabes isso, Gabriel. Lá porque uma vez alguém te magoou muito, não quer dizer que a Rachel vá fazer o mesmo.

— Fico mais seguro, se não seguir esse caminho.

— Preferes o caminho da solidão e da angústia?

— Terei de encontrar um meio termo.

— Dá-lhe uma oportunidade, Gabriel. Sendo que, ao dar-lhe uma oportunidade, estarás a dar uma a ti também.

Gabriel sabia que estava diferente, uma diferença que se tinha vindo a acentuar nos últimos meses. Começava a estar farto da angústia, de uma vida sem ninguém com quem partilhar, das noites de sexo com profissionais pagas para isso. Dava por si a pensar na proposta de Rachel. Sim, nas últimas noites, na solidão do seu apartamento, do seu quarto, da sua cama, pensava como seria se ela vivesse ali consigo. E se tentassem? Será que ela estaria disposta a experimentar, viverem juntos um tempo para ver se resultava? Estaria ele sequer receptivo a isso? Não sabia porque tanto o queria como não.

Continuava a estranhar a rejeição do último telefonema e a ausência de notícias dela nos últimos dois dias. Que teria acontecido? Foi Rachel quem o esclareceu nessa noite.

O telefonema aconteceu quando Gabriel visionava a transmissão do jogo de basquetebol dos Raptors. Na sua sala, ele distraía a solidão e a angústia com o desporto na televisão. Pouco comera, não tinha fome, e fazia-se acompanhar do whisky. Ao ver que era ela quem ligava, atendeu de imediato ao mesmo tempo que cessou o som do jogo.

— Pensei que estivesses chateada comigo. — disse-lhe num lamento, sem procurar qualquer cobrança.

— Desculpa, mas na outra noite estava ocupada. — repetiu. — Ontem e hoje tive o tempo todo ocupado, muito stress... Só agora consegui alguma tranquilidade para te ligar.

— Tudo bem, não há problema.

— Estás bem?

— Posso saber o que te estava a ocupar na outra noite? — perguntou ignorando a curiosidade dela.

— Já falámos sobre isso, Gabriel. Para te responder a essas questões, a nossa relação teria de estar noutro nível.

Ele ia a concordar, mas hesitou e insistiu:

— Eu gostava de saber.

— O que achas que me estava a ocupar na outra noite?

— Não sei, Rachel. Por isso é que estou a perguntar.

— Acho que tens uma suspeita.

— Estavas com alguém?

— Gabriel... Volto a lembrar-te que a nossa relação de amizade não nos dá o direito de questionar esse assunto.

— Só consigo entender que me rejeitasses a chamada se estivesses com outro homem e não fosse conveniente atender-me. Noutra situação... terias atendido e dito de viva-voz o que escreveste na mensagem.

— Não tens o direito de me cobrar isso.

— Não estou a cobrar, Rachel. Estou a perguntar. Como teu amigo, estou a pedir que me digas a razão de...

— Estava com alguém. — afirmou, quase sem respirar. — Estava com uma pessoa que conheci nesse dia. Convidou-me para jantar. Tu ligaste durante o jantar.

— Ok. — suspirou Gabriel, sem demonstrar querer saber mais.

Por seu lado, Rachel sentiu-se a abrir a porta das confissões e decidiu atirar tudo cá para fora:

— Jantámos no hotel onde ele estava aqui em Seattle e depois bebemos um copo no bar. Ele convidou-me para subir ao quarto dele. E eu aceitei. Não passei a noite com ele, mas fizemos sexo. — Fez uma pausa para ouvir a reacção de Gabriel. Não houve. — Aconteceu, mas não é nada de... Olha, foi como os teus encontros com as prostitutas. Passámos um bom bocado, nada mais.

— Só comigo é que tem de haver um compromisso. — lembrou, evitando denunciar que estava magoado.

— Não significou nada, nem pretendo voltar a vê-lo. Para além disso, já fui para a cama contigo. Mais que uma vez. — Ouviu-a sorrir sem alegria. — Também tenho as minhas necessidades, Gabriel. Aconteceu e não me envergonho. Quantas vezes já tivestes prostitutas aí em casa, desde a última vez que aí estive?

Gabriel não respondeu. Ficara magoado, mas nem sabia muito bem com o quê. Não eram namorados, ela não o traíra. Que esperava ele? Que ela se tornasse freira?

— Ok. Eu só queria saber. — acabou por dizer, após pigarrear para aclarar a garganta.

— Nada mudou entre nós, Gabriel. Continuamos amigos. Não continuamos?

— Claro que sim.

O tom de voz dela desanuviou.

— E tu, como estás?

Gabriel respondeu num tom neutro, sentindo uma súbita vontade de desligar o telefone.

— Estou bem. Olha! Amanhã tenho uma reunião cedo. — mentiu. — Depois falamos. Beijinhos.

— Beiji...

Desligou.

Estava confirmado, não valia a pena. Rachel não valia as interrogações que ele colocara a si próprio, o equacionar da possibilidade de tentar uma relação com ela. Bolas, ainda nem avançara para a hipótese de serem um casal e ela já o desiludia. Mas... Que esperava ele? Ela já se lhe declarara. Fora ele quem a rejeitara.

Optou por não pensar mais no assunto. Também não ligou mais ao jogo, perdera completamente o interesse. Ao reparar no computador portátil sobre o balcão, lembrou-se que ainda não respondera a Íris.

 

"Olá Arco-íris,

Fiquei muito feliz com as notícias que me enviaste no último email. Não respondi antes porque quis falar com o meu amigo acerca do arrendamento do apartamento. Podes ficar descansada, ele disse que podes continuar aí o tempo que quiseres. É de facto uma óptima oportunidade. Percebo a tua questão em relação à tua mãe, a distância. Mas, o aumento da capacidade financeira também te permitirá ir mais vezes a Portugal, dependendo da tua disponibilidade, claro, ou podes patrocinar a vinda da tua mãe a Montreal. Tu és uma pessoa positiva e sei que verás o lado bom disso e deixarás que o lado mau se transforme em algo somente menos bom. Mudando de assunto. Tu sempre viste em mim um confidente. Espero que não te importes que os papéis se invertam. E, no final, se me quiseres dar a tua opinião, isso será bem-vindo. Acontece que há tempos conheci uma pessoa. Uma mulher que trabalha no mundo do desporto, tal como eu. Ficámos amigos e acabámos por nos aproximar muito. Envolvemo-nos intimamente, mas sem qualquer tipo de relacionamento, uma espécie de amigos com benefícios. Acontece que ela se apaixonou por mim, mas tu sabes como eu sou com os relacionamentos, já o partilhei contigo. Acabei por não a tratar da forma mais correcta e ela afastou-se. Há uns tempos, voltámos a aproximar-nos, mas apenas como amigos. Ela não quer que seja mais que isso, a menos que eu queira um compromisso, uma relação. Eu gosto muito dela. Não sei porquê, comecei mesmo a ponderar a hipótese de tentar, de voltar a ter algo parecido com amor na minha vida. Ela até está disposta a mudar-se para Toronto. Só que... Há pouco, em conversa com ela, confessou-me que estivera com outro homem. Nada sério, uma cena de sexo ocasional. Não a posso recriminar por isso, eu já o fiz também, depois de ter estado com ela. Mas... Não sei porquê, senti-me desiludido. E agora, tudo me parece absurdo, as ideias de assumir uma relação com ela, se valerá a pena, enfim... Vou continuar como até aqui, acho que se sofre menos. Precisava de desabafar um pouco e tu és a única pessoa com quem não tenho segredos. Se quiseres opinar sobre isto, estás à vontade. Por vezes, quem está de fora tem uma visão melhor. Beijinho muito grande para ti, Arco-íris. Gabriel"

 

Só depois de enviar é que reparou que não escrevera o "amo-te" que Íris lhe endereçara antes. Pensou em enviar-lhe nova mensagem só a dizer isso, mas acabou por deixar assim.

Íris respondeu-lhe no dia seguinte, ele recebeu o email a meio da tarde, quando ainda estava no escritório em Bay-Adelaide.

 

"Olá Gabriel,

Se as opiniões fossem boas, vendiam-se em vez de serem dadas :) Estou a brincar. Sinto-me lisonjeada que um homem experiente como tu se disponha a ouvir a opinião de uma miúda como eu. Em relação ao que me contaste, só te posso dizer que avances e não a deixes fugir. Olha para mim. Achas que me posso preocupar com esse tipo de coisas na minha relação com a Ashley? Ela continua com o namorado, sei que há sexo quase todas as vezes em que se encontram. Se fizesse depender disso a minha relação, nunca teríamos passado daquela primeira vez que fizemos amor. Não penses demasiado no futuro. Concentra-te nas coisas boas que essa tua amiga pode trazer à tua vida. Cenas de uma noite não fazem qualquer diferença. Por favor, não quero que fiques a pensar que sou uma depravada, mas acho que o sexo deveria ser visto como algo mais natural. Estamos a falar de algo que dá prazer. E se não houver prazer na vida... Acho que já percebeste onde quero chegar. Espero que depois de leres este email, pegues no telefone e lhe ligues. O amor é tão bonito. Não procures ser perfeito, tenta só ser como és, um homem maravilhoso. Vai com calma e deixa fluir, como eu faço com a Ashley. Sabes, um dia abri um livro numa livraria e li uma frase que nunca esqueci. Dizia "amo-te como sei, não como queres". O importante é haver amor porque o amor é uma ligação profunda entre dois seres. O resto são pormenores. Espero que a opinião da miúda tenha servido para alguma coisa :) Agora, mudando de assunto, muito obrigada ao teu amigo e a ti. Eu vou ganhar um bom ordenado, acho justo um aumento da renda. Fala-lhe nisso, por favor. Obrigado por tudo e por voltares a existir na minha vida. Depois quero saber novidades de ti e dela ;) Beijinhos da tua Arco-íris."

 

Gabriel ficou estarrecido com a maturidade de Íris. Ler a mensagem teve um efeito semelhante a abrir-lhe os olhos. Que diferença fazia o facto de Rachel ter tido um caso ocasional com um tipo qualquer? Não tinha nenhum compromisso com ela, nem ela com ele. Íris tinha razão, deveria aproveitar o amor que Rachel lhe queria dar.

Não seguiu totalmente o conselho de Íris, não ligou a Rachel logo depois de ler o email. Preferia fazê-lo na tranquilidade solitária do seu apartamento a uma hora mais tardia.

A noite primaveril convidava a ficar na varanda da sala a observar o lago negro a brilhar com o luar, parecendo que toda a sua imensidão se cobria por um manto prateado. O ruído citadino chegava-lhe aos ouvidos, vindo de longe. Gabriel sentiu uma paz interior saborosamente estranha. Retirou o telemóvel do bolso e escolheu o nome de Rachel nos favoritos dos contactos. Ela atendeu ao segundo toque.

— Já não estás chateado comigo? — questionou ao atender.

— Eu? Chateado? Não estou chateado contigo, Rachel.

— Ontem praticamente desligaste-me o telefone na cara.

— Não dei por isso. — mentiu. Ele ficara decepcionado com ela e desligou num impulso. — Se o fiz, desculpa. Mas, não estou chateado contigo.

— Ok.

— Que fazes?

— Ia jantar.

— A esta hora? — interrogou num tom humorado para quebrar algum gelo entre eles.

— Aqui são menos três horas...

Rachel falava num tom monocórdico, quase como se estivesse a fazer um frete. Talvez fosse cansaço, talvez estivesse farta dele.

Gabriel notou-o, mas evitou dar-lhe importância, respondendo:

— Eu sei.

— Podemos falar mais tarde?

— Claro. Liga quando quiseres, vou ficar à espera.

Guardou o aparelho novamente no bolso e sentou-se numa cadeira que trouxera do interior. Ficou a observar a noite com os pensamentos a vaguearem pela mente. Equacionou o que haveria de lhe dizer, o que realmente queria que acontecesse, se estava totalmente certo das hipóteses que se predispunha a considerar para o seu futuro. Não chegou a nenhuma certeza e regressou ao interior da sala, cerca de meia hora depois, uma vez que o frio aumentara e o expulsara da varanda.

A espera continuou. Será que ela se esquecera dele? Ou estaria novamente ocupada? Teve vontade de quebrar a espera, ligando-lhe, mas conteve-se.

A meia-noite já passara há muito, quando ela finalmente ligou.

— Pensei que te tivesses esquecido de mim.

— Ou talvez estivesses a pensar que eu estava novamente ocupada com um gajo qualquer. — atirou-lhe, cortante.

Gabriel ficou calado, não pela eventualidade de isso ter acontecido, mas pela surpresa de ela lhe ter adivinhado os pensamentos.

— Não, não estava. — acabou por dizer. — Isso é um assunto que não me diz respeito.

— Então, significa que não vais perguntar porque demorei tanto?

— Não tenho nada a ver com isso.

Ouviu-a rir do outro lado.

— Posso fazer-te uma pergunta, Gabriel?

— Força.

— Ficaste chateado por eu ter dormido com outro homem? Quero que sejas sincero.

— Tu não dormiste com ele, segundo me contaste.

— Sabes o que quero dizer.

— Não tenho o direito de ficar chateado, Rachel. Nós somos apenas amigos. — esclareceu ele. — Seria o mesmo que ficares chateada por eu contratar profissionais de sexo.

— Eu fico chateada... fiquei chateada. — confessou com voz séria. — Disse-te que não me importava, mas quando me disseste que ias estar com... Doeu. Tens razão, não temos o direito de sentir isso, mas doeu-me.

— Talvez tu tenhas algum direito.

— Como assim?

— Tu abriste-me o teu coração. Disseste o que sentias por mim...

— Não nessa altura, Gabriel. — corrigiu ela. A voz saía-lhe suave e doce. — Entre nós, tinha sido sexo ocasional.

— Tu disseste que estavas apaixonada por mim.

— Sim, depois da última vez. — confirmou sem problema. — Fazer sexo não significa que haja amor. Acho que sabes isso, não preciso de explicar. Aliás, tu melhor que ninguém o sabe. — contrapôs tranquila. — Só que... Aquela noite que tivemos no teu quarto... Para mim, aquilo foi amor. E a partir daí, as coisas mudaram. Já não dava para cenas ocasionais contigo. Sei que sofro menos, se ficarmos só amigos.

Gabriel escutava-a atento, sentado no sofá e envolto naquela solidão diária. Adorava que ela pudesse estar ali com ele, que pudessem estar a conversar, olhos nos olhos. Rachel estava a ser sincera com ele e não merecia que ele fosse menos com ela.

— Eu também não gostei que tivesses ido para a cama com outro homem.

— Porquê?

— Porquê?

— Sim, Gabriel. Porquê?

— Porque... Porque... — Porque é que não gostara? Percebeu que não conseguia ter uma resposta. Ou talvez tivesse, mas não soubesse expressar naquele momento. — Não sei. Só sei que não gostei.

Rachel entendeu e não insistiu numa explicação.

— A razão da minha demora teve a ver com trabalho. Ligaram-me por causa da mediação da renovação de contrato de um jogador de basebol.

— Não tenho nada com isso.

— Mas, estás mais aliviado por a razão não ter sido novamente sexo ocasional com um recém-conhecido.

— Sim, não te vou mentir. — confessou. — Mas, não tenho o direito de...

— Sabes que basta uma palavra tua, não sabes?

— Uma palavra minha?

— Sim, Gabriel. Basta dizeres e eu serei apenas tua. — Gabriel ficou em silêncio. Continuava a hesitar. Era aquela cena do queria e não queria. No outro lado houve uma esperança de retribuição ou de mudança de sentimentos dele em relação a ela. Nada. — Eu percebo. Desculpa, estar a insistir com parvoíces.

— Devias tirar umas férias.

A voz dela revelou confusão por ele fazer uma sugestão que em nada se relacionava com o que estavam a conversar.

— Porque dizes isso?

— Gostava de te convidar a passar uns dias comigo.

Ela sorriu num tom melodioso.

— Vá lá, Gabriel. Não vás por aí. Não vou entrar nesse jogo.

— Que jogo?

— Queres que vá aí passar uns dias para os partilharmos como amigos... coloridos.

Gabriel pigarreou para aclarar a voz. Esforçou-se para que a voz lhe saísse séria, colocada e sincera.

— Não, não é isso. Vem passar uns dias comigo, só pela companhia. Podemos dar uns passeios, conversar. Nada de sexo. Juro-te que não tentarei nada, nem terei segundas intenções.

— O meu coração continua aberto para ti, Gabriel. Se quiseres entrar nele e ficar, serei tua incondicionalmente.

— Eu sei, Rachel. E...

— E?

— Estás um passo à frente de qualquer outra mulher, nesse campo. — respondeu, vulnerável. — Agora, cabe-me a mim dar o outro passo. Não me sinto preparado para isso, daí que seja só pela amizade que te estou a convidar. Gostava mesmo muito que viesses, uma semana pelo menos, para estar contigo. estar contigo. Podes confiar.

— Eu sei.

— Que me dizes?

— Deixa-me organizar a minha vida para tirar uns dias e vou ter contigo a Toronto.

XIX

 

Cinco dias mais tarde, Rachel estava em Toronto.

O reencontro fora estranhamente estranho. Ela chegou muito tarde, já a noite ia bastante avançada. Saíra de Seattle a seguir ao almoço. O voo entre Seattle e Toronto partiu com algum atraso em relação à hora inicial prevista. A juntar a isso, a recolha da bagagem foi desesperante e o cumprimento dos procedimentos alfandegários também demoraram. Resumindo, passava das onze da noite em Toronto, quando ela chegou ao apartamento dele.

Gabriel viu-a chegar diferente, informal, aparentemente descontraída num conjunto de casaco de malha e calças de ganga. Calçava sapatilhas e rebocava como habitualmente a mala de viajante. O sorriso era contido, revelador de alguma ansiedade misturada com a incógnita do que poderia resultar daquelas pequenas férias. O rosto maquilhado já não escondia os sinais de cansaço. Os caracóis vinham presos num rabo‑de‑cavalo. Apesar do desgaste da viagem, ela transparecia uma imagem de mulher de trinta e tal anos, ao invés dos seus quarenta e três.

Só tinham seis anos de diferença, mas naquele instante Gabriel sentiu-se muito mais velho. Não soube como a cumprimentar. Rachel deixara claro que vinha com algumas condições e ele não queria fazer nada que quebrasse as regras. Só o facto de a ter ali já era gratificante. Talvez por isso, optou por não ir além do cumprimento verbal.

Rachel entrou no apartamento.

— Fico no mesmo quarto? — indagou sem perder o sorriso afável.

Ele ainda pensou em fazer um comentário brincalhão, tipo "podes ficar no meu". Seria arriscado naquela relação que, momentaneamente, parecia avançar numa corda bamba. Não o fez. Ao invés, anuiu e apontou‑lhe o átrio dos quartos.

— Sabes o caminho.

Rebocando a mala, Rachel caminhou até ao quarto de hóspedes que já quase se tornara seu, um pouco como acontecia com o outro destinado a Íris. Gabriel não recebia, nem pretendia receber mais ninguém em sua casa que fosse utilizar aquelas divisões.

Deixou-a instalar-se à vontade e foi para a sala. Desligou o ecrã da televisão que lhe fizera companhia ao longo da espera, não queria distracções quando ela viesse do quarto, e parou junto do bar para se servir de um whisky. Rachel não demorou, fora só deixar a mala.

— Se não te importares, Gabriel, eu vou deitar-me. Foi uma viagem daquelas...

— Claro que não me importo. — concordou com o copo e a garrafa na mão. — Queria só dizer-te uma coisa rápida. Dois minutos?

Rachel anuiu, cruzando os braços sobre o peito e aguardando.

— Estou muito feliz que tenhas vindo. — começou ele. — E quero que estes dias de férias sejam maravilhosos, especialmente para ti. Não quero fazer nada que te desagrade, mas tenho receio que isso possa acontecer. Por isso, quero que sejas tu a colocar os limites. Quero que te sintas confortável, quero que estes dias para ti sejam uma espécie de spa.

— E tu serás o meu criado de serviço. — retorquiu divertidamente cansada.

— Se quiseres.

— Não peço tanto. — Sorriu com uma expressão carinhosa. — Quero o amigo, só isso. Mas, obrigado por essa tua posição. — Ficou séria. — Os limites são simples, os normais entre amigos.

— Prometo que não terei segundas intenções contigo.

— Ainda bem que estamos em sintonia. — Olhou para trás, como quem procura algo. — Se não te importas, estou mesmo a precisar de dormir.

— Dorme bem, Rachel!

— Tu também.

Gabriel deitou-se logo a seguir. É certo que não conseguiu evitar a secreta esperança de que a primeira noite que Rachel passara no seu apartamento se repetisse, mas também tinha a certeza de que isso não aconteceria. Teve dificuldade em adormecer, muito por causa de a saber ali tão perto sem poder saciar o desejo que sentia por ela. Porém, aguentou‑se, fizera uma promessa e não faria nada que lhe desagradasse.

O primeiro dia de férias amanheceu bonito e solarengo. Gabriel não configurara o despertador, certo de que acordaria à hora habitual. Só que a dificuldade em adormecer arrastara-lhe o sono pela manhã. Acordou às nove horas, irritado por se sentir pelo menos uma hora atrasado. Em movimentos apressados, saltou da cama e foi tomar um duche. Antes de escolher a roupa que iria usar, consultou o smartphone para saber como iria estar o tempo. Previa-se um dia primaveril em Toronto. Vestiu um pólo desportivo e calças de ganga, satisfeito por dar férias aos fatos. Calçou sapatilhas de marca e perfumou-se.

Ao sair do quarto, a porta do da sua hóspede estava aberta, permitindo ver que Rachel já se levantara e arrumara a cama. Ouviu movimento na cozinha.

— Bom dia! — cumprimentou, ao entrar na sala, vendo-a no lado oposto do balcão.

— Bom dia! — retribuiu ela, olhando para ele ao mesmo tempo que apontava para a máquina do café. — Espero que não te importes.

— Estás à-vontade.

Gabriel aproximou-se do balcão, analisando-a. Continuava com ar jovial. Os caracóis presos num rabo-de-cavalo, que partia da nuca, ficavam-lhe bem. Vestia uma túnica larga colorida de manga curta. A maquilhagem era sóbria.

— Dormiste bem? — perguntou, sentando-se num dos bancos.

— Maravilhosamente.

— Eu deixei-me dormir.

— Eu percebi. — atirou com um sorriso terno. — Posso tirar um para ti?

— Expresso, por favor.

Rachel usou a máquina e tirou dois cafés expresso.

— Quais sãos os planos? — questionou curiosa, colocando as chávenas sobre o balcão.

— Não te queres sentar aqui ao pé de mim? — convidou ele, apontando o outro banco.

Rachel contornou o balcão e ele viu-a de corpo inteiro. Vestia uma saia com bainha acima dos joelhos e calçava as mesmas sapatilhas. Sentou‑se no banco e cruzou as pernas. Gabriel olhou para elas, mas Rachel não deu importância.

— Algum sítio onde queiras ir?

— Estou por tua conta, Gabriel.

Ele ficou pensativo a observá-la.

Rachel aguardou, notando que ele lhe queria dizer algo. Não o pressionou, dando-lhe tempo.

— Gostava de conversar contigo.

— Estou aqui. — retorquiu. Interpretou a hesitação dele como pouca vontade em sair. — Não faço questão que me leves a passear. Vim para descansar. E ambos sabemos que as nossas vidas são a andar de um lado para o outro. Não me importo de ficar por casa.

Gabriel desceu do banco alto e estendeu a mão a Rachel. Ela segurou-a e também desceu do seu banco, curiosa. Ele encaminhou-a para o sofá, sentou-se e convidou-a a fazer o mesmo. Ela sentou-se na ponta oposta.

— Isso é um limite de segurança? — questionou num tom leve, indicando o espaço entre eles.

Rachel fez uma expressão de quem não se sentara longe propositadamente.

— Queres que me sente mais perto?

— Onde te sintas confortável.

Ela moveu-se no sofá, parando junto dele e virando-se ligeiramente, encostando o ombro às costas do sofá e encarando Gabriel.

— Está bem aqui?

— Está óptimo. — respondeu satisfeito. — Adoro o teu perfume. Cheiras muito bem.

— Também gosto do teu. Mas, algo que diz que não é sobre perfumes que me queres falar.

— Sim, tens razão. Quero falar-te de mim.

— De ti?

— Sim.

Rachel calculava onde o assunto iria dar. Sentiu-se expectante, mas controlou as emoções para parecer totalmente desprevenida. Não tinha dúvidas daquilo que ele queria, só não sabia se o quereria da mesma forma que ela. E se não estivessem em concordância nisso, nada aconteceria.

— Não te quero deixar desconfortável, mas preciso de te dizer aquilo que sinto. Peço a tua paciência, já sabes que sou péssimo a falar destas coisas.

— Leva o tempo que precisares. — disse-lhe, tocando-lhe o braço com carinho. Sabia que ele estava vulnerável. Conhecera o Gabriel avesso a sentimentos, a expor as suas emoções. Desde há algum tempo que notara nele uma mudança nesse campo. Não iria perder a oportunidade de ver desabrochar o Gabriel sentimental, o homem que afinal tem um coração. — Não me sinto desconfortável contigo. Se me sentir, direi. Tal como disseste, serei eu a definir os limites, por isso, força. Sou toda ouvidos.

Ele virou-se um pouco, encostando também o ombro ao sofá e ficaram frente a frente.

— Gosto muito de ti. — começou por dizer.

— Mas, não estás apaixonado. — completou ela.

Gabriel fez um gesto para que esperasse.

— Não é essa a questão, Rachel. Eu gosto de ti, gosto mesmo muito de ti. Só não sei se estou preparado para uma relação. Jurei a mim mesmo, há muitos anos, que nunca mais me envolveria sentimentalmente com outra mulher. É uma defesa, eu sei. Daí as... profissionais de sexo. Satisfazem-me e não me obrigam a nada mais que a simplicidade de pegar numas notas e pagar-lhes. — Rachel ia dizer algo, mas ele tocou-lhe o braço para que esperasse. — Tu não sabes, mas eu ouvi-te naquela noite, na última noite em que dormimos juntos. Tu disseste que me amavas. — Rachel desviou o olhar. Aquilo era uma surpresa, ela julgara que ele estava a dormir. Sentiu-se envergonhada. — É maravilhoso ter uma mulher linda como tu a dizer que nos ama. — Ela ganhou coragem para o voltar a encarar. — Mas, isso assustou-me! Percebi que talvez quisesses mais que... mais que sexo. E eu não me sentia preparado para isso.

— Disseste "sentia"?

Ele anuiu e completou:

— Sentia e continuo confuso em relação a isso. Não tenho problemas em assumir que as relações me assustam. A última magoou demasiado.

— Não pretendo magoar-te, Gabriel.

— Achas que quem me magoou antes o fizera de forma premeditada? — Rachel encolheu os ombros. — Não, não fez.

— Alguma coisa mudou, desde essa noite?

Gabriel pensou um pouco sem tirar os olhos dos dela.

— Continuo com os mesmos receios, Rachel.

— Gabriel, eu não quero impor-te nada. Continuarei tua amiga incondicional, mesmo que não sintas por mim o mesmo que eu sinto por ti. Tenho a certeza que gostas de mim, que te atraio, que queres repetir todas as coisas maravilhosas que já fizemos na cama, mas... Para mim não dá. Não dá, numa base unicamente sexual. Estou com quase quarenta e quatro anos, quero construir uma família, ainda pretendo ser mãe. — Riu‑se. — Agora é que te assustei a sério.

— Nem por isso, Rachel.

Ela ofereceu-lhe um sorriso cheio de ternura e uma expressão carinhosa no olhar.

— Ainda bem que estamos a ter esta conversa. Fico grata que te sintas seguro a abordar o assunto comigo. Eu sinto-me confortável aqui contigo. Se tivesse a mínima dúvida, a forma franca como ontem me incumbiste de definir os limites foi a confirmação que és maravilhoso e que gostas genuinamente de mim.

— Tu és especial, Rachel, és especial para mim. Fazes-me vacilar nesta vontade de me manter longe de relacionamentos.

Houve um brilho que despontou no rosto dela ao ouvi-lo.

— Então, Gabriel, diz-me honestamente o que esperas de mim. — Ele ia responder, mas ela impediu-o. — Ou o que queres de mim.

— Preciso de me descobrir, de perceber até onde estou preparado para ir. Sem tretas, Rachel. O objectivo de te convidar a passar uns dias comigo foi para tentar perceber se eventualmente o "nós" poderia resultar.

— Não estás à espera de descobrir a resposta com sexo, pois não?

— Não, claro que não.

— Podes achar injusto, que eu estou a ser dura, mas... — Suspirou, olhando em redor, na procura das palavras. — Qualquer mulher no meu lugar poderia achar que estás a dizer essas coisas para me convencer a ir para a cama contigo.

— Eu não sou assim, Rachel.

— Eu sei que não. Só que também sei que tu próprio não estás seguro do que queres e podes avançar para algo cujas certezas se poderão revelar enganadoras.

— Como assim?

— Achares que me amas e afinal não quereres mais que uma... queca.

— É justo que sintas isso. — concordou. — Contudo, não é esse o meu objectivo.

Ela anuiu.

— Seja como for, a minha pergunta mantém-se. O que esperas ou queres de mim?

— Define-me os teus limites. Diz-me até onde posso ir na nossa relação, de forma a encontrar as respostas que preciso sem que isso te deixe desconfortável ou vá contra as regras que tu criaste e com as quais concordei.

Rachel olhou-o intensamente em silêncio. A sua mente equacionava a resposta. O que queria, equilibrado com o que devia e com o que seria bom ou mau para ela. Num tom sério, seguro e afável, desenhou os limites:

— A linha vermelha é o sexo. Não haverá sexo entre nós.

— Ok.

— Posso ajudar-te a encontrar as respostas na base de... Como descrever? Podemos namorar sem compromisso, se quiseres. — Riu-se meio envergonhada. — Também não vou ser totalmente intransigente.

— Posso beijar-te?

Rachel inclinou-se para ele e beijou-lhe os lábios.

— Claro que sim. — sussurrou para a sua boca.

Gabriel abraçou-a, a sensação de intimidade com ela invadiu-o de forma agradável. Sentiu a excitação crescer-lhe pelo corpo, mas ela definira os limites e ele avançou com cuidado. Rachel parecia ter mudado de opinião pela forma sôfrega como o beijava. Contudo, quando ele desceu a mão na direcção do peito dela, Rachel afastou-lhe os dedos suavemente e voltou a sussurrar:

— Não abuses. Só beijos.

Nem deram pelo tempo. A manhã foi passada naquela descontracção de paixão. Iam conversando, provocando-se e beijando-se. Apesar de toda a incógnita que sentia num futuro com Gabriel, Rachel não escondia o ar feliz por estar assim com ele.

Por volta do meio-dia, saíram finalmente do apartamento e foram almoçar junto à zona portuária num dos restaurantes com vista para o lago e para os caís donde partiam as mais variadas embarcações para diversos destinos.

Desta vez, o Ferrari ficou na garagem e eles foram de Uber para a Queens Quay, onde ficaram perto da Waterfront Trail. O dia estava bonito, primaveril, agradável e convidativo a passear. Seria esse o plano para a tarde, passear na cidade.

O almoço foi divertido, cheio de conversa animada e dedos a tocarem-se sobre a mesa. Gabriel não se sentia desconfortável e seguia o conselho que Íris lhe dera para deixar fluir. Por seu lado, Rachel não escondia o ar apaixonado com que o observava.

 O Sol forte incidia sobre Toronto, não com a força habitual do Verão, mas a dar sinais do regresso do calor. Em Julho e Agosto, daí a três ou quatro meses, o normal seria estarem trinta e tal graus celsius. Para já, estavam uns agradáveis vinte e cinco.

Gabriel e Rachel saíram do restaurante de mão dada. A iniciativa fora dela e ele não se importara. Caminharam para norte, regressando à Queens Quay que atravessaram para alcançar a York Street. Enquanto percorriam a rua, Rachel aproveitou o momento descontraído para colocar uma questão:

— Num cenário meramente hipotético. Imaginemos que ficávamos malucos e esta fase experimental dava em algo concreto. — Ele olhou para ela, curioso. Ela retraiu-se. — Não, deixa. Parvoíces...

— Diz lá, Rachel. Agora fiquei curioso.

Passaram por baixo da Union Station e viraram para leste na Front Street. Enquanto percorriam a fachada da enorme estação ferroviária, Rachel expressou finalmente a sua questão:

— Eu disse-te de manhã que ser mãe é um dos meus planos para o futuro. Está nos teus planos ser pai?

Gabriel não soube o que responder e foi sincero:

— Nunca pensei muito nisso. Nunca me vi como pai.

— Se no tal cenário surreal, hipotético e alucinado...

— Porque colocas isso assim? — interrompeu ele. — Porque é que ficarmos juntos é assim tão absurdo?

— Não é absurdo. Só não quero criar demasiadas expectativas, nem ilusões. Mas, a questão não é essa. Vês-te como pai do meu filho?

— Como te disse, nem sequer alguma vez pensei em ser pai.

A caminhada levou-os até à esquina com a Yonge Street. Rachel olhou para o edifício icónico.

— Hockey Hall of Fame. — leu ela.

— Que me dizes a uma visita?

— Claro.

O Hockey Hall of Fame é um museu dedicado ao hóquei no gelo com exposições relativas às equipas da NHL, jogadores e história desse desporto na América do Norte. Para dois adeptos da modalidade, como eles eram, aquele local era uma espécie de santuário. Gabriel já o visitara algumas vezes, desde que vivia no Canadá, e sabia que Rachel iria gostar de conhecer.

Gabriel fez questão de oferecer os bilhetes. Logo que passaram a bilheteira, entraram num corredor com vitrinas compostas por camisolas das equipas e referências a nomes icónicos dos respectivos clubes. Ele parou defronte da camisola do seu jogador preferido.

— O melhor jogador de hóquei de todos os tempos. — disse ele.

— Wayne Gretzky.

— Tenho pena de nunca o ter visto jogar, ao vivo.

— Eu vi uma vez, em miúda. — relatou Rachel para inveja dele. — Na altura, os meus pais viviam em Boston e fomos assistir a um jogo dos Bruins contra os Kings de Los Angeles.

— A equipa do Gretzky.

— Perdemos. Mas acho que ninguém de Boston deu o dinheiro do bilhete por perdido, ele deu um show de hóquei, marcou dois golos e assistiu outros dois.

— O maior de todos os tempos. — repetiu.

Deslocaram-se pelo corredor, continuando a ver a exposição. Foram dar a um sector que era uma representação do balneário dos Montreal Canadiens.

— Então em Toronto colocam uma cópia do balneário de Montreal? — questionou Rachel surpreendida.

— Isto não é um museu de Toronto. — explicou Gabriel. — E Montreal é a equipa com mais vitórias na Stanley Cup.

Não havia muitos visitantes, mas quase todos os que por ali andavam pareciam turistas.

— São a equipa com mais títulos, mas há muito que não disputam o troféu. — argumentou Rachel. — Algo terá de mudar. Caso contrário, serão uma equipa de memórias.

— Concordo contigo.

— Tens lá jogadores?

— Sim. Mas, tenho mais em Toronto. E para te ser sincero, sou adepto dos Maple Leafs.

— Os Maple Leafs estão bem, esta época.

Gabriel encolheu os ombros.

— Já perderam dois jogos com Boston. Não sei se conseguirão passar esta eliminatória.

— Não queres vender o Tiivu a Seattle?

— Queres falar de valores?

Rachel sorriu.

— Estou a brincar. E estou de férias, não quero saber de negócios.

O passeio pelo interior do Hall of Fame continuou, puderam experimentar remates do puck com um stick. Viram um sector dedicado às equipas nacionais, participações olímpicas, um outro sector com placas referentes aos jogadores mais famosos. Terminaram na loja, onde poderiam comprar uma qualquer recordação, pensada para os turistas.

O tempo parecia voar, sinal de como gostavam de estar um com o outro. A saída levou-os à zona comercial. Gabriel sugeriu um passeio a outro lugar, mas Rachel declinou.

— Importas-te se formos para casa?

— Estás bem?

— Sim. — confirmou. — Gosto de andar a passear contigo, mas agora preferia ficar por casa.

Gabriel chamou um Uber para os apanhar na Yonge Street.

A tarde continuava bonita e solarenga com uma temperatura amena que sabia optimamente depois de um Inverno tão intenso como fora o último.

No apartamento, eles ficaram o resto da tarde a conversar e a comportarem-se como dois adolescentes, sentados no sofá a trocar beijos. Perto da hora do jantar, viram juntos o jogo de basquetebol dos Raptors. Gabriel encomendou o jantar através da aplicação do smartphone. Jantaram sentados ao balcão a ouvir o som da televisão e os comentários a um jogo que os de Toronto não tiveram dificuldade em vencer.

— Achas que a nossa vida seria assim, se vivêssemos juntos?

Gabriel pensou na pergunta dela, enquanto a via levar o prato para o lava-louça.

— Não creio. — respondeu ele, levando também o seu prato. — A menos que estivéssemos de férias como agora. — Deu-lhe um encosto na brincadeira. — Deixa estar isso, eu arrumo tudo na máquina.

Rachel afastou-se da cozinha e foi sentar-se no sofá. Menos de cinco minutos depois, ele veio fazer-lhe companhia, sentando-se a seu lado.

— Tenho um serviço de streaming. Podemos escolher um filme.

Ela concordou e ele deixou-a escolher. Calculou que Rachel fosse optar por uma comédia romântica, mas ela surpreendeu-o com a escolha de um dos últimos filmes da Marvel. Viram o filme encostados um ao outro de mão dada com os dedos entrelaçados.

No final, ela não conteve um bocejo.

— Acho que vou para a cama.

— Espera. — pediu ele, apertando-lhe a mão. — Quero pedir-te uma coisa.

— Diz.

— Passa a noite comigo.

Rachel fez uma expressão séria.

— Já falámos sobre isso, Gabriel. E tu prometeste que...

— Não é isso que estás a pensar. — interrompeu ele. Revelou-se indefeso e sincero. — Cada vez me custa mais a solidão. Não é um convite para sexo. Gosto de dormir acompanhado.

— Ambos sabemos onde isso ia resultar.

— Confia em mim! Não te toco, juro-te. Só quero a tua companhia e, ao mesmo tempo, demonstrar-te que podes confiar em mim.

— Eu confio em ti.

— Não faremos nada que tu não queiras.

— Eu sei isso, Gabriel. — retorquiu, permanecendo séria. — O problema é mesmo esse, eu vir a querer.

Gabriel olhou para ela intensamente, bem no fundo dos seus olhos.

— Faço-te uma promessa, Rachel. Só acontecerá, se eu estiver disposto a assumir uma relação. Se acontecer uma próxima vez, não será sexo, será amor. — Ela fez uma expressão de dúvida. — Confia em mim, Rachel!

Houve um suspiro. Gabriel esperou uma decisão. Ela parecia hesitante. Não disse nada e levantou-se do sofá perante o olhar dele.

— Já vou ter contigo ao teu quarto. — acabou por dizer. A seriedade na voz era notória, mas acentuou-se com o aviso. — Se tentares alguma coisa, eu volto para o meu quarto e amanhã regresso a Seattle.

Gabriel anuiu, concordando com as condições.

Para fazer tempo, ele deixou-se ficar no sofá até a ouvir fechar a porta. Depois, levantou-se, apagou as luzes e recolheu ao seu quarto. Acendeu a luz da cabeceira e puxou o lençol da cama. Despiu-se. Ao contrário do habitual, não entrou na cama completamente nu, ficando com os boxers como medida de segurança ou para que ela se sentisse mais confortável.

Os minutos passaram lentamente. Gabriel começou a equacionar a hipótese de se ter arrependido e não vir dormir na cama dele. Se assim fosse, compreenderia e aceitá-lo-ia. Não lhe levava a mal, apesar da desilusão.

Ouviu bater à porta.

— Podes entrar. — disse ele.

A porta abriu-se e Rachel entrou.

O semblante fechado revelava que vinha na defensiva. Vestia uma t-shirt escura ruçava, algo velha, e leggings brancas. Parecia mais que ia para um ginásio fazer exercício do que para a cama dormir. Não disse nada e contornou a cama, perante o olhar dele. Abriu o lençol do seu lado e deitou-se, rodando para ficar de frente para ele.

— Não estou completamente nu. — disse ele.

— É indiferente, Gabriel. — respondeu num tom quase duro. — Se me tocares durante a noite, vou-me embora.

— Tu colocas as limitações. Eu cumpro-as.

— Podes apagar a luz?

Gabriel obedeceu e o quarto mergulhou na escuridão.

— Gosto muito de ti, Rachel! — disse ele no escuro.

— Eu também gosto muito de ti, Gabriel.

Seria de esperar que ele adormecesse com facilidade e fosse ela a ter mais dificuldade em encontrar o sono, receosa que ele tentasse algo. Porém, ela revelou o quanto se sentia segura ali ao adormecer quase de imediato. Por seu lado, Gabriel teve dificuldade em adormecer.

Não registou o que sonhou. Pensou que o sono não o encontraria nessa noite até ter desligado e dormido profundamente. Acordou com uma sensação maravilhosa que não sentia há muitos e muitos anos, ser acordado por alguém que lhe beijava os lábios com ternura.

— Bom dia, meu querido! — cumprimentou Rachel, quando ele abriu os olhos. — Estou surpreendida. Pensei mesmo que fosses tentar algo.

— Eu prometi que não.

Ela sorriu.

— Posso aninhar-me em ti um bocadinho? — pediu, aproximando-se dele. — Não estou a provocar-te. Só quero carinho. Pode ser?

Gabriel concordou e Rachel colou-se a ele. Abraçaram-se entre os lençóis.

— Eu senti isso, Gabriel.

— Não sou de ferro, Rachel.

Ela riu-se.

— Não há problema.

Trocaram alguns beijos melosos. Rachel percebeu que ele estava a ficar muito excitado, tal como ela.

— É melhor parar.

Gabriel concordou e viu-a afastar-se. Rachel afastou o lençol e levantou-se. Espreguiçou-se defronte da janela, dando-lhe a ver os contornos do seu corpo em contraluz.

— Vou tomar um banho.

— Também vou.

— Encontramo-nos na sala? Como recompensa pelo teu bom comportamento, faço-te o pequeno-almoço.

Gabriel saiu da cama logo que ela abandonou o quarto. Foi tomar um duche a respirar fundo para conter a excitação que ela lhe deixara. Enquanto saboreava a água temperada a cair sobre o corpo, planeou o dia, onde a levar a passear, caso ela quisesse sair.

Demorou algum tempo a ficar completamente pronto para o dia que tinha pela frente. Só saiu do quarto após alguns minutos em que a ouviu na cozinha. Entrou na sala, vendo-a a circular atarefada no balcão. Cheirava a café e pão torrado. Sentiu um aperto no peito, uma sensação saborosa que se prolongou para a barriga, semelhante a... borboletas. Rachel olhou para ele e sorriu. Foi nesse momento que ele percebeu que estava apaixonado por ela.

Caminhou sorridente até ao lado oposto do balcão. Percebeu pela roupa dela que não deveria estar a pensar sair, uma vez que vestia uma camisa amarrotada e calções curtos. Não era novidade, mas não pôde deixar de constatar que tinha umas pernas lindas.

— Espero que gostes. Não sou letrada em cozinhados.

— Café e torradas? Parece-me maravilhoso.

Ele sentou-se no banco e ficou a observá-la com aquilo que se poderia descrever como cara de parvo. Ela reparou e sorriu, envergonhada, receando que aquilo que desconfiava não fosse real.

— Estava a pensar em levar-te a passear a um sítio.

— Mais uma voltinha pela cidade?

— Não. — negou, recebendo o prato com o pão. — Uma viagem mais longe. Já foste às Cataratas do Niágara?

— Não.

— Queres ir?

— Não é muito longe?

— Uma hora de carro.

Rachel empurrou uma chávena de café para ele.

— Contigo vou a qualquer lado. — respondeu, antes de morder a sua torrada.

Cerca de meia hora mais tarde, Gabriel conduzia o Ferrari pela Gardiner Expy rumo à saída da cidade. Rachel, sentada a seu lado, observava a paisagem envolvente. Trocara os calções por calças de ganga preta e a camisa amarrotada por um pólo feminino grená apertado.

Grande parte do percurso foi feito em autoestrada. O motor do Ferrari roncou possante a lamber o asfalto com toda a cavalaria motorizada em êxtase. Cerca de três quartos do percurso foi feito a contornar o gigantesco lago Ontário. Passaram ao largo de Mississauga, por Oakville até Burlington onde atravessaram uma pequena língua de água do lago para seguir pela Queen Elizabeth Way. Só perto de St. Catharines é que o caminho se afastou da margem para sul. Alguns quilómetros mais à frente, Gabriel desviou na indicação "Niágara Falls".

A localidade tinha muito movimento, muito trânsito de carros e pessoas. Os turistas ali eram quase uma epidemia, espalhando-se por todos os cantos. O carro ficou estacionado no grande parque perto das cataratas. Porém, já ali estavam tantos veículos que Gabriel só conseguiu um lugar bem para sul, longe do destino pretendido.

Gabriel e Rachel desceram pela estrada, mão na mão, até ao centro de visitantes. Não entraram no edifício, optando por caminhar ao longo do muro extenso por onde se poderiam observar as cascatas. Quase todo o longo miradouro estava ocupado por dezenas, senão centenas, de turistas a metralhar a natureza com as suas câmaras digitais ou os telemóveis, fotografando-se a si na paisagem ou só aquilo que os olhos avistavam. Gabriel encontrou um espaço no muro e encaminhou Rachel para lá. Ela ficou maravilhada com a brutalidade da força da água. O som das quedas‑de‑água era ensurdecedor, mas a cacofonia de vozes conseguia ser irritante, pessoas que julgam que desfrutar de um local é gritar e falar alto. Rachel adorou o sítio, mas ao fim de alguns minutos preferiu voltar as costas para a água e beijar Gabriel com paixão.

No rio, defronte das cataratas, viam-se barcos carregados de turistas que, à vez, avançavam o mais próximo possível da massa aquática que se despenhava lá de cima. Rachel reparou que nuns barcos as pessoas vestiam capas plásticas rosa e noutros vestiam capas azuis.

— Os turistas cor-de-rosa são os turistas que partem do lado canadiano. Os azuis partem do lado dos Estados Unidos. Olha ali. — Gabriel apontou para o outro lado do rio. Viam-se inúmeras pessoas, num miradouro semelhante na margem oposta, a acenar. — Estás a ver? Têm capas azuis.

— Aquilo é assustador. — confessou ela, apontando para os barcos a fazer tangentes à queda‑de‑água.

— Já fui uma vez. Parece mais perigoso que aquilo que é. Este pessoal sabe como faz as coisas. — Sorriu-lhe. — Queres ir?

— Dispenso.

— Não disseste que vais comigo a qualquer lado?

— Se fores, também vou. Mas, por minha vontade...

— Fica para a próxima. — decidiu Gabriel, beijando-a.

O almoço foi na Skylon Tower, uma torre semelhante à CN Tower, mas muito mais baixa. Era um dos pontos turísticos, pagar um balúrdio por uma refeição ou pouco menos para ver o mesmo que já se via nos miradouros gratuitos. Dificilmente se conseguiria mesa tão em cima da hora, mas Gabriel tinha os seus contactos e influência suficiente para conseguir lugares com vista para as maravilhosas e imponentes cascatas.

— Isto está a tornar-se um hábito. — referiu Rachel, encantada.

— O quê?

— Levares-me a almoçar ou jantar em restaurantes no cimo de torres.

— É só o segundo.

— Quando fores a Seattle, haverá um terceiro. Esse fica por minha conta.

A refeição prolongou-se sem tempo. Conversaram divertidos a observar a paisagem. Dali os turistas pareciam formigas. E tal como as formigas, circulavam de uns lados para os outros, como se surgissem do nada, multiplicando-se por todo o lado. Na margem oposta, já no lado dos Estados Unidos, a realidade não era diferente.

— Surpreendeste-me. — disse ela de súbito, no final do almoço, a terminar o café.

— Não contavas que te trouxesse aqui.

— Não me refiro a isto. — explicou, meio constrangida. — Isto está a ser maravilhoso. Aliás, desde que cheguei que tudo tem estado a ser fabuloso. Cada minuto que passa te acho mais extraordinário.

— Não exageres.

— Não estou a exagerar.

Gabriel não insistiu, mas recuperou a questão:

— Em que é que te surpreendi?

— Esta noite. — respondeu ela, séria. — Julguei que fosses tentar alguma coisa.

— Querias que o tivesse feito?

— Não. — negou firme. — Se o tivesses feito, neste momento eu estaria a voar para Seattle ou à espera de um voo para regressar.

— Seria assim tão mau?

— Não se trata de ser mau, Gabriel. Claro que não é mau. É apenas uma questão de princípio. Temos um acordo. Tu quiseste que eu estabelecesse os limites. Se os quebrares, seria uma falta de respeito para comigo.

— Sim, concordo. — Sorriu, meio nervoso. — Não foi fácil. Mas, quis que percebesses o meu compromisso contigo. Detesto estar só. Fiz‑te um pedido. Quis a tua companhia para dormir. E tu acedeste, mesmo sabendo os riscos.

— Sinto-me completamente segura contigo. Nem sei explicar muito bem porquê, mas sinto. Sei que não farias nada que... — Rachel desviou o olhar para a paisagem. — Para ser honesta, o meu maior medo era eu. Se tivesses tentado, eu tinha feito sexo contigo na hora. Mas, ia arrepender-me e ia querer ir-me embora. — Voltou a encará-lo. — Já te expliquei aquilo que quero.

— Sim. E eu também assumi um compromisso contigo. E vou cumprir. Além disso, quero que isto seja memorável para ti.

— Está a ser, meu amor.

Saíram do restaurante, desceram a torre e passearam mais um pouco pelas redondezas. Regressaram ao carro sem se largarem, trocando um ou outro beijo e conversando como bons amigos.

A viagem de volta a Toronto levou um pouco mais de tempo que a ida, uma vez que apanharam muito movimento no regresso à cidade. Rachel revelou-se cansada e deixou-se adormecer entre Burlington e Mississauga. Ele olhou-a encantado, quando ela despertou com ar estremunhado. Chegaram ao apartamento ao fim da tarde, ainda com uma luminosidade forte e uma temperatura agradável.

— Queres ir jantar onde fomos da outra vez? — convidou Gabriel, quando ambos observavam o lago Ontário da varanda frontal à sala.

— Prefiro fazer como ontem. — disse ela, recusando a ideia. — Encomendar comida e ver um filme.

Ele não viu qualquer problema nisso e encarregou-se de encomendar o jantar. Desta vez, seria sushi. Partilharam a refeição sentados no balcão, depois ele tratou da louça e ela escolheu o filme.

Desta vez, Rachel optou por uma comédia romântica e viu o filme aninhada no abraço dele. Não era o género preferido de Gabriel, mas também não lhe desagradava.

Quando o filme terminou, Rachel levantou-se do sofá, espreguiçou-se de forma sedutora e disse:

— Hora de ir dormir.

— Dormes comigo?

— Se quiseres.

— Sabes bem que sim

Rachel sorriu.

— Já lá vou ter contigo. — concordou, saindo da sala.

Gabriel desligou tudo e apagou a luz. A seguir, foi para o seu quarto. Ligou a luz da cabeceira da cama, despiu-se, à excepção dos boxers, e enfiou-se entre os lençóis.

Passados alguns minutos, ouviu bater suavemente na porta.

— Entra, Rachel.

A porta abriu e Rachel entrou, vestindo a mesma t-shirt ruçada da noite anterior, mas sem as leggings. Agiu naturalmente, como se dormissem juntos há muitos anos. Contornou a cama, puxou o lençol e sentou-se.

— Podes apagar a luz?! — pediu, antes de se deitar.

Gabriel carregou no interruptor que deixou o quarto envolto na escuridão somente atenuada pelo ténue luar que entrava pelos grandes vidros. Na penumbra, viu-a despir a t-shirt e deitar-se a seu lado.

— Dorme bem, meu amor.

— Tenho direito a um beijo?

Ela rodou na cama e beijou-lhe os lábios com ternura.

— Dorme bem, Rachel.

Ficaram deitados de lado, frente a frente. Não o disseram, mas nenhum deles tinha sono.

— Adorei o dia de hoje. — confessou ela no escuro. — Também gostei do de ontem. Sinto-me feliz contigo.

— Não me importava de partilhar todas as minhas noites contigo.

Rachel soltou um risinho.

— Seria desconfortável, quando requisitasses as tuas amigas. A cama não é assim tão grande.

— Nessas ficavas no quarto de hóspedes. — retorquiu na brincadeira. Ela não se manifestou, talvez julgando que ele falava a sério. — Para te ser sincero, quando estás comigo, não sinto a mínima falta delas.

— Mentiroso. — sussurrou ela no escuro.

— Não te quero enganar, Rachel. E tenho estado a analisar-me a mim próprio para ter certezas daquilo que te digo.

— Pronto, eu acredito em ti.

— Acho que estou a apaixonar-me por ti!

A surpresa por o ouvir dizer aquilo atingiu-a de forma inesperada. Não foi capaz de dizer nada, nem ele disse mais alguma coisa. O silêncio instalou-se.

— Vou deixar-te dormir. — acabou ele por dizer.

Rodou na cama e ficou de costas para ela. Porém, Rachel aproximou-se e encostou-se às costas dele. Gabriel sentiu os seios dela nus na sua pele. Sem dizer nada, ela acariciou-lhe o braço e beijou-lhe os cabelos da nuca.

— Tu és uma mulher maravilhosa. — continuou ele, falando baixinho, como se temesse acordar alguém. — Tenho receio de fazer alguma coisa que te possa magoar.

— O que sinto por ti não mudou. Eu amo-te!

Gabriel voltou a mover-se para se virar de frente para ela. Ainda pensou que Rachel não quisesse que ele o fizesse ou se afastasse com o movimento dele. Isso não aconteceu. Ao invés, beijou-o com paixão. Ele abraçou-a e pressionou-a contra si. Não evitou que ela sentisse o quanto a desejava.

— Até onde é que posso ir? — quis saber, entre beijos.

A respiração dela estava descontrolada. Rachel revelava-se tanto ou mais excitada que ele.

— Sou toda tua. Faz comigo o que quiseres.

— Não quero que te vás embora amanhã.

— Não vou.

— Eu adoro-te, Rachel!

— E eu amo-te! — Mordeu-lhe o lábio. — Eu amo-te!

Gabriel virou-a na cama e rolou para cima dela. Rachel abriu as pernas e puxou-lhe os boxers para baixo.

— Espera! — pediu ele. — Tenho de ir buscar um preservativo.

— Não, Gabriel. — recusou ela. — Quero que faças amor comigo. Quero sentir-te totalmente dentro de mim. Esquece o preservativo.

— Mas...

— Não tenhas problemas. — insistiu ofegante. — Tomei sempre todas as precauções. E também tomo a pílula. — Sorriu excitada. — Nunca se sabe, os preservativos podem rebentar.

Houve um momento de hesitação dele. As mãos dela acariciavam‑no, atiçando-o para si. Ele travou-a, segurando a mão dela e sentido o tecido das cuecas nas costas da sua mão.

— Eu fiz-te uma promessa. — lembrou. — Isto só aconteceria se eu estivesse disposto a assumir uma relação contigo. Não seria sexo, seria amor.

Rachel tinha dificuldade em controlar a respiração. Apesar do escuro, os olhos de ambos já se haviam habituado à ausência de luz e conseguiam ver-se na penumbra do luar que entrava pela janela.

— Não precisas de cumprir, Gabriel. — concedeu, olhando-o nos olhos. — Eu amo-te. Quero fazer isto contigo.

— E vamos fazer. Mas, antes, quero que saibas que também te amo.

Rachel estremeceu, tinha dificuldade em acreditar.

— Não precisas de o dizer...

— Estou a ser sincero, Rachel. — insistiu, largando-lhe a mão. — Quero que fiques comigo.

Era tudo tão surpreendente que ela teve dificuldade em concentrar-se. Retomou as carícias, enquanto desviava o tecido fino para o lado. Encaminhou-o para dentro de si, suspirando:

— Amo-te tanto que me sinto a rebentar.

Ele baixou-se sobre ela e beijou-lhe os lábios, soprando:

— Eu também te amo, Rachel.

 

Há muito, mas mesmo muito tempo que Gabriel não dormia tão bem. Mais uma vez, não se recordava do que sonhara, mas sabia que adormecera tão relaxado e pacificado consigo que se sentiu nas nuvens. Acordou com o Sol a entrar pela enorme janela com vista para o lago.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Não, não era verdade. Aquela sensação que lhe abraçava a alma não se comprava, apenas se podia ambicionar e desejar ter a sorte de encontrar e sentir.

Rachel dormia colada a si. Gabriel tinha o braço à volta da cintura dela. Pareciam dois C encaixados um no outro. Ela acordou pouco depois. Ele percebeu, sentindo a sua mão acariciar-lhe o braço que a envolvia.

— Como te sentes? — perguntou, sem se mexer.

Gabriel nem pensou na resposta, limitou-se a verbalizar o que sentia:

— Feliz. E tu?

— Sinto-me a viver um sonho. Receio acordar.

— Já acordaste, Rachel. E eu estou aqui.

— Foi tão bom, tudo o que fizemos esta noite, tudo o que me disseste...

Notou a hesitação na voz dela. Percebeu os receios que lhe deveriam estar a atormentar os pensamentos. Apertou-a mais contra si e beijou-lhe o pescoço.

— Vem viver comigo! — convidou, deixando-se levar pelo coração. Sim, ultimamente o coração parecia um daqueles aparelhos que estivera guardado num armário muitos anos e alguém fora buscar e voltara a pôr a trabalhar. — Disseste que o podias fazer. Eu gostava muito que o fizesses.

— Tens a certeza, Gabriel? — questionou com dificuldade em acreditar naquele novo homem. — Não te sintas obrigado, só porque nós...

— Não sejas tola. — interrompeu ele, beijando-lhe o ombro nu. — Vira-te para mim!

Rachel rodou na cama, quando ele afrouxou o abraço. Olharam-se nos olhos. Ela ia dar-lhe um beijo, mas antes ele atirou:

— Eu amo-te! Quero que venhas viver comigo.

Um sorriso despontou no rosto dela. Beijaram-se demoradamente. Depois, ela tornou a enfrentar o olhar dele.

— Pensa melhor nisso. Quero que tenhas a certeza. É uma mudança radical na minha vida.

— Não queres?

— Claro que quero.

— Eu também quero. E não quero só isso, Rachel. — Fez uma pausa perante o semblante curioso dela. — Vamos planear o nosso futuro, juntos. E quando te mudares, que me dizes a iniciar um novo projecto nas nossas vidas?

— Novo projecto?

— Sim. Aquele em que serás mãe. E eu o pai do teu filho.

Rachel sentiu que nunca o amara tanto como naquele momento.

A estadia em Toronto prolongou-se mais dois dias. Não saíram de casa e passaram a maior parte do tempo na cama. Gabriel abriu-se completamente a Rachel, partilhando muitas coisas da sua história, inclusive aquela que tinha tanta dificuldade em verbalizar, a relação com Olga. Falou-lhe em Íris e na relação que de amizade que tinha com ela. Rachel começou por ter ciúmes, mas rapidamente interpretou aquela ligação com algo semelhante a um pai e uma filha.

O regresso a Seattle só não foi mais doloroso porque a separação seria efémera. Rachel voltaria daí a uma semana, depois de orientar as coisas todas do seu trabalho. Poderia gerir os seus assuntos a partir de Toronto e viajaria regularmente a Seattle ou a outros destinos a que se visse obrigada no exercício das suas funções de empresária desportiva.

No entanto, o seu retorno a Toronto foi atrasado dois dias. Rachel teve um assunto de trabalho para resolver, a negociação da renovação de contrato de um jogador seu em Phoenix. Ela tinha um entendimento tão bom com os responsáveis do clube da costa noroeste que estes a compensaram pela alteração de planos, disponibilizando-lhe um avião particular para viajar de Seattle a Phoenix e em seguida para Toronto.

Gabriel estava feliz da vida. Nunca mais voltara a sentir angústia e a solidão não lhe provocava mossa, pois iria acabar em definitivo, quando Rachel voltasse a entrar pela porta do seu apartamento. Ela ligou‑lhe, antes de embarcar na pequena aeronave, em Phoenix, alegre por ter resolvido o assunto com as suas condições e felicíssima por em breve estar com ele em definitivo. Chegaria a Toronto à noite.

A espera de Gabriel durou a noite toda.

XX

 

Íris ficou destroçada quando soube. Não pelo acontecimento, nem sequer conhecia Rachel, mas por toda a tristeza e amargura que sentira na voz de Gabriel quando ele lhe ligou a contar o sucedido. Desta vez, não escreveu um email, precisava de falar. Íris notara logo a alteração na voz. Tinham falado nos dias anteriores e ela adorara a felicidade que lhe ouvia do lado de lá da linha. Nunca o sentira tão feliz. Que merda! Gabriel era um ser maravilhoso, não merecia aquilo.

O avião particular onde Rachel viajava descolou de Phoenix ao fim da tarde. Os controladores aéreos perderam o contacto com ele algum tempo depois. Sem que se saiba ainda as causas, o avião despenhou‑se algures entre o Novo México e o Colorado. Não houve sobreviventes. Gabriel não deu pormenores como a notícia lhe havia chegado, apenas a partilhou porque precisava de falar com alguém e Íris era o único ser humano onde ele encontraria... nem sabia muito bem o que encontraria ou procuraria nela, apenas lhe ligou para desabafar.

Íris prontificou-se a acompanhá-lo ao funeral, mas Gabriel não iria comparecer nessa despedida, não queria que a última recordação da mulher por quem se apaixonara fosse um caixão. A cerimónia fúnebre de todas as vítimas estaria a cargo do clube de Seattle, proprietário da aeronave, o qual se sentia responsável pelo sucedido. Gabriel não sabia, nem queria saber de pormenores, era mais um capítulo da sua vida que se fechava com estrondo e de forma dolorosa e dilacerante. Íris sugeriu ir a Toronto no fim de semana para estar com ele. Porém, Gabriel recusou. Seria bom tê-la lá, mas a tristeza de a ver ir embora era uma mágoa que não precisava naquele momento. Preferia, sem qualquer dúvida, que ela se mantivesse longe de Toronto.

Após aquele telefonema amargurado, Gabriel não voltou a atendê‑la. Nos dias que se seguiram, Íris tentou ligar-lhe. Ele rejeitou a chamada e enviou-lhe uma mensagem a pedir desculpa, mas que não queria falar com ninguém, nem mesmo com ela. Isso magoou-a, mas perdoou-lhe e entendeu o mau... o péssimo momento que ele estava a atravessar. Mesmo assim, foi insistindo com mensagens simples pelo WhatsApp a perguntar com ele estava. E Gabriel ia respondendo com "bem, não te preocupes". Só que ela preocupava-se e temia que ele pudesse fazer uma qualquer parvoíce.

Por seu lado, a vida de Íris corria maravilhosamente. A estadia em Montreal tornara-se ainda mais agradável com a Primavera, as aulas corriam bem e o período experimental no seu futuro emprego também se revelava melhor que as expectativas iniciais. Até a relação com Ashley perdera uma parte do lado negativo, se bem que aqui não foi tão bom para a inglesa como foi para Íris. Sem que Íris soubesse porquê, uma vez que Ashley não quis falar no assunto, a relação dela com o namorado terminara. A única coisa que lhe disse, numa noite quando chegou a casa, é que tinha terminado. Porém, também a avisou que isso não mudaria nada no que respeitava a assumir a relação delas. Ashley não queria que ninguém soubesse da sua bissexualidade. Fosse como fosse, para Íris era mais um passinho naquilo que partilhavam. E agora que não havia namorado, pelo menos, não tinha de suportar aquelas horas em que sabia que outro ser humano estava a fazer sexo com a mulher que amava. Talvez por tudo isto, por todas as coisas boas da sua vida, ainda lhe custava mais a situação de Gabriel.

Contudo, o avançar dos dias e a proximidade do fim das aulas instigava Íris a querer perceber que futuro a esperava com Ashley. Por isso, numa noite primaveril, após o jantar, Íris deu início ao assunto.

A sala ampla do apartamento tinhas as luzes ligadas, apesar de ainda haver alguma claridade exterior resultante do anoitecer tardio provocado pela Primavera a caminho do Verão. Ultimamente, elas preferiam manter os longos cortinados abertos para verem a cidade nocturna. Já não havia aquela necessidade de transformar o espaço num ambiente quente e acolhedor, como acontecera durante o Inverno, pelo contrário, ver a cidade lá fora parecia elevar o astral.

Íris atravessava a melhor fase da sua estadia em Montreal. Para ser perfeito, bastaria que Ashley assumisse a relação de ambas. E, claro, que algo acontecesse na vida de Gabriel que o resgatasse da infelicidade. Sempre que pensava nele, Íris sentia um aperto no coração, como se conseguisse sentir a tristeza do amigo. Mesmo nas solitárias mensagens de parcas palavras que trocavam ela conseguia sentir-lhe a amargura.

Por seu lado, Ashley perdera alguma da alegria contagiante, desde que terminara a relação com o namorado. Não, não se mostrava triste e reafirmava diversas vezes que estava melhor assim. Porém, não eram raras as vezes em que Íris a encontrava no sofá com o olhar vago, suspeitando que se perdia em recordações. Fosse como fosse, isso em nada beliscou a relação amorosa delas.

Naquela noite, não o planeara, mas acabou por abordar o assunto com Ashley. Sabia que a outra jamais assumiria aquilo que partilhavam, mas queria saber algo…

— Ainda pensas nele? — questionou Íris do nada, depois de arrumarem a cozinha.

Ashley fez-se de desentendida e, caminhando na direcção do sofá, retorquiu:

— Em quem?

— Tu sabes a quem me refiro.

Houve um anuir ténue.

— Não muda nada. Acabou e não há volta.

— Foi ele que…

— Não! — apressou-se a negar. — Fui eu quem terminou.

— Posso saber porquê?

— Não! — respondeu cortante, quase ríspida. — E não quero falar sobre isso.

— Ok, ok. — concordou Íris, vendo-a sentar-se no sofá. — Não vamos falar disso. — Copiou o trajecto da amiga até ao sofá. Sentou-se. — Mas, gostava que me dissesses uma coisa. — Encarou-lhe o rosto. — Sei que não queres assumir o temos.

— Já falámos sobre isso. — interrompeu a inglesa desconfortável. — Não mudei de ideias.

— Eu sei. Mas, quero que me digas se pretendes envolver-te noutro namoro.

Ashley notou o tom sério na voz dela.

— Que queres que te diga?

— Sim ou não.

— Gosto de homens, Íris. Não pretendo tornar-me freira. — atirou ríspida, num tom que misturava receio e dureza numa espécie de escudo defensivo ao assunto. — Pensei que isso estivesse claro entre nós.

Íris anuiu. Manteve a expressão séria. Amava-a, mas não estava disposta a tudo.

— Que estás a pensar fazer, quando terminarem as aulas?

A mudança de assunto deixou Ashley confusa. Contudo, preferia aquele ao anterior.

— Ainda não sei. — respondeu, sorrindo. — Porquê?

— Eu vou continuar em Montreal, como sabes. Gostava de saber se continuarei a ter a tua companhia aqui.

Ashley acariciou-lhe o rosto e ofereceu-lhe uma expressão terna.

— Por minha vontade sim, mas… É o meu último ano de estudos. Talvez possa procurar um emprego por aqui… — Perdeu o sorriso. — Não te vou mentir, a minha vontade é voltar a Inglaterra.

A tristeza por ouvir a sinceridade dela fez Íris desviar o rosto para o chão.

Ashley segurou-lhe a mão com carinho e continuou:

— Isto nem era uma questão, há umas semanas. Tu ias regressar a Portugal no Verão e eu a Inglaterra. Seguiríamos o nosso caminho.

— Nunca pensaste que eu poderia querer algo mais que isso?

A resposta foi largar-lhe a mão e levantar-se do sofá. Ashley voltava a ficar desconfortável. Íris era o seu prazer secreto, uma relação… Nem era uma relação, era uma cena que partilhavam. Davam prazer uma à outra, pronto.

— Nunca te enganei, Íris. — acabou por dizer. — Sempre disse que isto nunca seria mais que aquilo que é.

— E “isto” é o quê?

Ashley abanou a cabeça, agastada. Não respondeu, talvez porque não sabia a resposta ou sabia e recusava-se a aceitá-lo.

— Daqui a pouco, estás a colocar em dúvida o que sinto por ti, Íris.

— Não, não o farei. Sei que me amas, tal como eu te amo a ti. — Íris levantou-se do sofá e colocou-se defronte da outra. — Aquilo que nos diferencia é que eu lido bem com a minha sexualidade e tu recusas-te a assumir…

— Não vou assumir que sou fufa, Íris. — protestou Ashley, elevando a voz. — Pela simples razão que não sou. Gosto daquilo que fazemos, gosto de ti. Será que para amar outra mulher é obrigatório ser lésbica? Não sinto atracção por mulheres, à excepção de ti. E sim, continuo a gostar muito de homens e sinto falta de ter um pau bem rijo entre as pernas!

Íris não disse nada, para além de…

— Desculpa, de facto nisso não te posso valer.

Havia ironia na voz da portuguesa.

— Eu é que peço desculpa, meu amor. — contrapôs Ashley, abraçando-a arrependida. — Não queria ser ríspida. Tu és o ser humano mais adorável com quem eu alguma vez pude conviver. Amo-te, minha querida, amo-te mesmo muito.

— Eu também te amo, Ashley! — retribuiu, quebrando o abraço. — Mas, amo-me mais a mim.

— Que quer isso dizer?

— Aceito que não assumas a nossa relação, mas não estou disposta a partilhar-te com terceiros. Se voltares a ter namorado, está tudo acabado entre nós.

Ashley fez uma expressão estupefacta. Sem ter tido essa intensão, olhou em redor do apartamento. Íris pareceu ler-lhe os pensamentos.

— Não te preocupes. O fim da nossa relação, se acontecer, não fará com que te obrigue a sair. — descansou-a. Porém, num tom irónico, rematou. — Mas, também não me parece que isso seja um problema, uma vez que pretendes regressar a Inglaterra.

A inglesa ficou imóvel a observar Íris, alguns segundos que pareceram intermináveis a ambas. Por fim, Ashley anuiu como quem se dá por vencida e disse:

— Talvez seja melhor eu ficar no outro quarto, esta noite.

Íris não deu parte fraca, apesar de a eventualidade de não dormirem juntas a magoar, seria a primeira vez desde que encontraram o amor da outra.

— Não sejas parva. — atirou-lhe, mantendo a firmeza, mas abrindo espaço para uma reconciliação. — Não é caso disso, estamos a conversar. — Aproximou-se e colocou as mãos nos ombros da amante. — Acho importante que as coisas estejam esclarecidas. Não estou a fazer ultimatos, nem a exigir nada. Estou só a informar-te que não conseguirei suportar novamente que tenhas um namorado. Mas, estás no teu direito, assim como eu estou no meu de me afastar. — E beijou-lhe os lábios com ternura.

Só ao fim de algumas semanas, após a tragédia, é que Íris conseguiu que Gabriel voltasse a dialogar verbalmente com ela. Tudo aconteceu porque ela não poderia deixar passar aquele dia com uma simples mensagem, tinha de falar com ele. Por isso, enviou-lhe um pedido por WhatsApp:

“Posso ligar-te? É importante.”

Gabriel, não respondeu por mensagem, mas sim telefonando-lhe preocupado.

Assim que Íris atendeu, sentiu-lhe a preocupação na sua voz. Contudo, o que mais a perturbou foi o tom arrastado e sofrido.

— Estás bem, Arco-íris?

— Parabéns, Gabriel! — respondeu ela para sua surpresa. Falou com alegria, enfatizando a data. Ouviu a hesitação dele no outro lado da linha. — Eu sei que fazes anos hoje.

— Obrigado. — acabou por dizer, meio atrapalhado.

— Não me esqueci do teu aniversário. Aliás, nunca me esqueci. Sabia sempre que neste dia, algures, tu estarias a completar mais um ano. Quantos é que são?

— Cinquenta. — informou sem emoção. — Não imaginei que te lembrasses.

— Claro que me lembro. Acho que a recordação mais antiga que tenho de jantar num restaurante foi num aniversário teu.

— Sim, tinhas oito anos. Recordo-me desse jantar em Belém. — Nova pausa. — Para te ser sincero, quase nem me lembrava que hoje fazia anos.

— Não pode ser, Gabriel. É meio século… — Riu-se. — Desculpa, não estou a chamar-te velho. É um aniversário mais importante que o normal. — Suspirou. — Lamento não poder ir aí, adoraria dar-te os parabéns pessoalmente.

— Eu sei, não te preocupes. Além disso, actualmente não sou a melhor das companhias.

— Não digas isso. Tu és sempre boa companhia. E eu tenho saudades tuas. Talvez possa ir aí num fim de semana em breve… — A sugestão foi dada com a intensão de que ele se mostrasse receptivo à sua visita. Isso não aconteceu e a resposta foi o silêncio. — Depois vimos isso, talvez depois das aulas.

— Sim, talvez… — repetiu ele sem convicção.

Houve uma pausa no diálogo. Foi Íris quem retomou a conversa:

— Como tens passado?

— O normal.

O que era o normal? Era o tipo de resposta que não dizia nada. Íris não queria abordar a questão directamente, mas também não haveria grande novidade, certa de que ele continuaria a sofrer com a morte de Rachel.

— Estou a pensar ir a Portugal depois das aulas. — informou ela, sem se lembrar de mais nada para dizer. — Vou visitar a minha mãe.

— Fazes bem.

— Convidei a Ashley a vir comigo, mas ela recusou. Gostava que a minha mãe a conhecesse… Não era um assumir de nada, mas a Ashley não quer nada que implique a nossa relação fora deste apartamento.

Ao contrário do habitual, Gabriel não proferiu qualquer palavra de alento para que ela não perdesse a esperança naquela relação. Não o podia condenar por isso, mas gostava que ele se mostrasse menos alheio à sua voz. Percebeu que ele queria finalizar o telefonema, mas hesitava em dar o primeiro passo. Por sua vez, íris não queria desligar, queria que ele falasse com ela, desabafasse, aliviasse alguma daquela mágoa partilhando‑a com ela.

— Não gosto de te sentir assim. — atirou, como um anzol que se lança para pescar assunto.

— E achas que eu gosto de estar assim? — ripostou ele num tom que não era normal nele. Pelo menos, não era normal nele a falar com ela. Porém, arrependeu-se. — Desculpa, Arco-íris! Não queria…

— Eu percebo, Gabriel. Só gostava de fazer algo para te animar.

— Sei que sim. Mas, não está ao teu alcance.

— Faria qualquer coisa para te devolver a alegria.

Ouviu-o sorrir num tom cansado.

— Eu sei, minha querida.

Num impulso do qual não se arrependeu, sugeriu:

— Não queres vir comigo a Portugal?

Esperou um rotundo “não” ao convite. Contudo, Gabriel não respondeu de imediato, como se ponderasse essa hipótese.

— Deves aproveitar a viagem para estar com a tua mãe, não para passear comigo.

— Posso fazer as duas coisas.

— Não quero correr o risco de me cruzar com a tua mãe.

— Portugal não é assim tão pequeno, Gabriel. Lisboa não é uma metrópole como Toronto, mas também não é uma aldeia.

— Eu sei, Arco-íris. Estou longe há mais de quinze anos, mas não me esqueci de como é a capital do meu país.

— Isso quer dizer que vens?

— Não me parece que a tua namorada fosse achar piada à ideia.

— Eu convidei-a a vir. Ela é que recusou. Além disso, nós somos amigos, não tem nada a ver.

— Para nós não tem. Mas, foste tu que me contaste que ela ficou ciumenta quando vos visitei. — lembrou.

— Uma parvoíce. — retorquiu Íris, recordando o único momento em que Ashley a agredira. — Ela própria já percebeu como foi parva.

— Seja como for, não me parece que uma viagem a um lugar que me traz tão más memórias fosse o melhor para mim, neste momento.

— Não digas isso, Gabriel. — lamentou, pesarosa. — Muitas dessas memórias são comigo.

— Não me refiro a essas.

— Sei a quais te referes, Gabriel. E fazem parte de uma época em que fazíamos parte da vida um do outro.

— A tua mãe…

— Devias esquecer a minha mãe.

No outro lado da linha ecoou um riso sarcástico.

— Achas que ainda penso na tua mãe?

— Podes não pensar nela directamente. Mas, passaste os últimos quinze anos a afastar-te das pessoas por causa dela. — Íris arrependeu-se do que dissera, mal terminou a frase. — Desculpa, não tenho o direito…

— Tu és adorável. — ripostou ele para sua surpresa. — É incrível a maturidade que demonstras tão nova. A qualquer outra pessoa eu diria que deveria estar maluca, mas tu… Tu conheces-me. Mentir-te seria como tentar mentir-me a mim mesmo. Sim, tens razão. Passei quinze anos a evitar relações porque a que tive com a tua mãe não resultou. Mas, repara. Onde me levou a vida, quando decidi dar-me uma segunda oportunidade? Já não tem a ver com a tua mãe, tem a ver com a minha vida, como parece que de alguma forma não posso ser feliz com ninguém.

— Não creio que isso seja assim tão linear.

— Seja como for, a tua mãe já não tem nada a ver com isto.

— Então, mais razão me dás. — insistiu Íris. — Vá lá. Gabriel. Ia adorar que viesses a Portugal comigo.

Gabriel não tinha a mínima vontade de regressar a Portugal, nem mesmo por um breve período de meia dúzia de dias. Contudo, também lhe custava recusar o pedido dela. Tentou contornar o assunto:

— Convence a Ashley a ir contigo. Irias apreciar muito mais, acredita.

— Nem ela nem ninguém te substitui. Mesmo que ela aceitasse, isso não invalida que eu gostasse que viesses comigo.

— Acredita em mim, Arco-íris. Se eu fosse contigo, ela ia ficar chateada. E eu não quero causar-te problemas.

— Gabriel, se a minha amizade contigo fosse um problema para ela, a relação que tenho com a Ashley acabava imediatamente.

— Não digas isso. Sei quanto gostas dela.

— Mas também gosto muito de ti.

— Não tem nada a ver.

— Sei que não. Mas, quem não te aceita na minha vida não irá certamente permanecer nela.

O diálogo suspendeu-se como se ficassem à espera do que o outro fosse dizer. Íris duvidava muito que ele aceitasse o convite, mas desde que o expusera que ainda não obtivera uma recusa firme e evidente. Talvez por isso, sentiu-se motivada a insistir em convencê-lo.

— Fazemos um acordo, Gabriel. Se ela vier, tu vens também.

Ele não conseguiu segurar uma risada nervosa.

— Isso ainda seria pior, não achas?

— Assim, já não haveria ciúmes, se é esse o teu receio.

— E queres que vá “segurar na vela”?

O tom dela foi intenso e sério:

— Quero que venhas comigo… connosco. Se a convencer, tu vens. Temos acordo?

Gabriel duvidava muito que Ashley concordasse com aquela viagem. Seria uma forma de se furtar a ir sem que tivesse de recusar um pedido de Íris.

— Se ela for e não se importar que eu vá, eu acompanho-te na viagem a Portugal. — concordou. — Apesar que continuo a achar que nem eu nem ela deveríamos ir, uma vez que essa viagem deveria servir para passares tempo com a tua mãe.

O telefonema findou com uma Íris animada com a eventualidade de ter a companhia de duas das pessoas mais importantes da sua vida nas férias que iria fazer a Portugal. No entanto, se pudesse observar Gabriel, Íris veria a completa antítese da sua animação.

Numa outra altura, seria impensável que Gabriel ponderasse aquele convite. Só que o seu apartamento tornara-se num foco de recordações, de imagens que se lhe repetiam na mente a cada canto, lembrando-lhe que semanas antes ali estivera a mulher que o fizera acreditar que era possível partilhar a vida com alguém e ser feliz. Não tinha dúvidas, amara-a, amara-a mesmo muito e recriminava-se por não ter dado aquele passo mais cedo, aceitando tudo o que ela lhe queria dar, todo o amor, toda a paixão, toda a felicidade… Porém, da mesma forma que pensava assim, também se culpava pelo sucedido, uma vez que, se não tivesse dado aquele passo, se não tivesse aceitado partilhar a sua vida com Rachel, ela não teria viajado naquele avião e ainda estaria viva…

Sim, o apartamento tornara-se num local ainda mais solitário e angustiante, o que levava a que passasse a maior parte do tempo no escritório sem ter realmente necessidade de lá estar. E até aí a recordava, a primeira reunião, a primeira conversa informal, aquele desabafo de alma solitária que surgia como um reflexo de si mesmo.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Não! Era mentira. Nem tudo se compra. Nem todo o dinheiro do mundo lhe traria Rachel de volta.

As visitas a Phil tornaram-se mais regulares. Gabriel precisava de conversar e era para isso que tinha um terapeuta, era para isso que lhe pagava, era para isso e para que o outro lhe desse soluções. É certo que eram raros os conselhos de Phil que Gabriel seguia. Só que houve um que lhe ficou a martelar na cabeça:

— Devias tirar umas férias e viajar para qualquer lado. Só para te afastares de casa e do escritório, dos locais onde possas ter estado com a Rachel.

Gabriel ponderou a questão, sentado no lugar do costume no sofá da sala, na moradia daquele bairro tranquilo de Mississauga, olhando para o afro-americano sentado na poltrona.

Sim, a ideia não era má, mas… ir para onde?

Talvez tivesse sido por isso que não rejeitou a ideia de Íris, apesar de a sua proposta surgir como um pacote de tudo aquilo que não precisava naquele momento. Porém, no seu íntimo, ele precisava de se afastar e seria bom poder estar algum tempo na companhia de Íris, que era sem dúvida a sua melhor amiga… ou até mesmo a única.

A eventual ida a Portugal ganhou novos contornos no dia seguinte, quando Íris lhe voltou a ligar para dizer que Ashley concordara em também ir. Ora bolas, não tinha como escapar sem voltar atrás na sua palavra. Comprometera-se, não podia agora recusar, rasgando o acordo verbal que fizera, como se o pedido de Íris não tivesse significado nenhum. E nem quando ela, com toda a honestidade, lhe disse que a temporada em Portugal seria interrompida por uns dias em que ela acompanharia Ashley a Inglaterra, ele voltou atrás.

Fora a condição da inglesa, podia ir com eles a Portugal, mas queria que Íris fosse a Inglaterra conhecer a sua família. Não, não era um assumir de nada, Íris continuaria a ser a amiga portuguesa com quem Ashley partilhava casa em Montreal, nada mais.

Assim, Gabriel sabia que nesses dias a sua companhia seria a solidão. Mas… e os restantes? Ele não esperava que Íris se afastasse da namorada ou da mãe para estar com ele. Gostava de Ashley, mas não tinha paciência para estar com elas, sabendo que não seria mais que um incómodo. E jamais estaria na presença de Olga. Por isso, não sabia muito bem o que esperar daquela viagem, mas tal como Phil dissera, o melhor seria afastar-se uns tempos de Toronto.

Com tudo o que sucedera, o deporto perdera completamente a importância para Gabriel, já nem perdia tempo a ver os jogos na televisão e muito menos se deslocava à arena. Limitava-se aos assuntos que envolvessem a sua profissão e os seus agenciados.

Também a relação com os dez nomes da sua lista se alterou. Nos primeiros tempos após a morte de Rachel, ele não chamou nenhuma lá a casa. Recordava como ela ficara magoada, sabendo que ele contratava prostitutas, mesmo depois de lhe ter dito que não se importava, mesmo depois de terem feito sexo. Ela dissera que não se importava, mas não era sincero, Rachel importava-se e claro que não gostava. Por isso, em respeito à sua memória, Gabriel aguentou o mais que pôde até a necessidade falar mais alto.

Assim, apesar de os dias se arrastarem lentos, o dia da viagem para Portugal chegou demasiado depressa para o gosto dele. Teria sido igualmente rápido mesmo que tivesse demorado cem anos, tal era a sua vontade. Os três partiriam de Toronto num voo directo para Lisboa, no mesmo dia em que Íris e Ashley viajariam de Montreal para Toronto de comboio e se juntariam a Gabriel no Pearson International Airport.

Na manhã da véspera, Gabriel dedicou-se ao trabalho, certificando-se que nada ficaria pendente da sua presença. Francis tomaria conta do escritório e passaria qualquer chamada importante dali para o telemóvel de Gabriel, estivesse ele onde estivesse. Seria improvável que isso acontecesse, pois Francis tinha indicações de só o fazer em questões urgentes. E contactos dos seus agenciados iam directamente para o seu telemóvel.

Durante a tarde, organizou a bagagem. Uma mala grande chegaria para transportar a roupa necessária, alguns pertences pessoais e uma ou outra coisa que lhe pudesse fazer falta. Tudo o resto, compraria, se necessário. Apesar de o objectivo ser afastar-se de Toronto, Gabriel continuava a não ver aqueles dias como uma escapadela de lazer.

Concordara que o seu bilhete fosse um lugar na classe económica para ficar junto de Íris e Ashley no avião. Ainda se ofereceu para pagar os bilhetes delas em classe executiva, mas Íris recusou. Poderia ter feito disso condição para manter o seu compromisso, mas seria deselegante apresentar sucessivamente condições. Em Lisboa, tinha já uma reserva feita num hotel em Belém, junto ao rio Tejo, enquanto Ashley ficaria em casa de Olga com Íris.

As noites eram sempre o pior e aquela não foi diferente. Como ia estar uma temporada longe, Gabriel escolheu um nome aleatoriamente da lista de dez e contratou-a para vir ao seu apartamento após o jantar. Tal como habitualmente, tomou um duche e comeu qualquer coisa encomendada através da aplicação do seu smartphone. Quando ela chegou, foi rápido, quase como alguém que tem de se aliviar ao invés de estar a desfrutar de prazer. Não por culpa dela, era ele quem parecia obter cada vez menos gratificação no sexo.

Não tinha sono, quando deu por si novamente só no apartamento. Pagara-lhe e ela fora embora tão depressa quanto chegara. Deixou-se ficar pelo sofá na companhia de um copo de whisky meio cheio. Bebeu dois e levou um terceiro consigo para a cama. Pelo menos, o álcool ainda o ajudava a adormecer.

XXI

 

Gabriel observava a cidade para lá da parede de vidro. Estranhou que estivesse a ver Montreal ao invés de Toronto. Só nessa altura teve noção que aquele não era o seu apartamento… ou não era aquele onde vivia, uma vez que o apartamento também era seu. Lá fora, o Sol brilhava, o céu azul límpido não revelava qualquer nuvem. Que raio fazia ele ali? Gabriel não se mexeu, o tempo parecia ter parado, nem sequer via movimento na rua. Ao fim daquilo que lhe pareceu uma eternidade, rodou sobre os calcanhares e a sua atenção deslocou-se para o interior do open space que constituía a área partilhada pela sala e cozinha.

Íris estava sentada à mesa com um computador portátil à sua frente. Sem saber explicar porquê, não disse nada, nem sequer a cumprimentou. Gabriel continuava confuso por estar ali. Que raio fazia ele ali? Tornou a olhar para ela. Íris aparentava um ar mais maduro, perdera alguma daquela jovialidade que dera lugar a uma espécie de envelhecimento que evoluíra a uma velocidade diferente da idade, aquelas marcas na expressão que nos fazem parecer mais velhos que aquilo que somos. Viu-o claramente nos seus olhos, quando Íris olhou para si.

— Olá, Arco-íris! — cumprimentou ele sem obter resposta.

Estranho. Era como se ela não o visse. Ora bolas, ele estava ali defronte dela. O olhar de Íris estava perdido, como alguém pensativo, alguém que olha sem ver, deixando que os pensamentos tomem conta da sua consciência.

Gabriel teve uma sensação estranha ao vê-la. Naquele instante inexplicável, no apartamento que comprara para Íris, sentiu que ela era a mulher mais bela e fascinante que alguma vez conhecera.

Não teve tempo para ponderar aquela ideia. O choro de um bebé ecoou pela sala. Toda a atenção de Íris se focou no som, como se mais nada tivesse importância.

— Deixa estar, eu vou ver. — ouviu uma voz feminina a dizer.

Gabriel virou-se e, só nesse instante, reparou em Ashley na sala. A inglesa estava igual, sem qualquer sinal do envelhecimento revelado por Íris. Houve um pormenor que chamou a atenção de Gabriel, a aliança no dedo. Tudo aquilo estava cada vez mais estranho.

Ashley caminhou até ao seu quarto… Pelo que Gabriel sabia, aquele era o seu quarto, mas ela nunca dormia lá, uma vez que partilhava a cama com Íris.

Apesar da sensação estranha que o atraía para Íris, Gabriel sentiu‑se tentado pela curiosidade de seguir Ashley, esquecendo por completo que nenhuma delas dava sinais de reparar na sua presença ali. Que raio, nem ele sabia o que fazia ali.

Seguiu a inglesa até ao quarto obscurecido. Viu-a contornar a cama e aproximar-se de um berço. Estava ali um bebé? Tinha de estar, o choro viera de algum lado. Ashley começou a sussurrar ao bebé, acarinhando-o e acalmando o pequeno que acordara. Falava inglês com ele, dizendo que estava tudo bem, a mãe estava ali.

A mãe? Ashley tinha um filho? Aquilo estava a ficar cada vez mais estranho. E pior ficou quando, sem saber como, Gabriel deixou de perceber o que ela dizia. Inclusivamente, ouviu-a dizer o nome do bebé, era um rapaz, mas não entendeu qual era.

Gabriel procurava colocar as ideias em ordem, tentando perceber o que se passava ali, mas foi surpreendido por Íris, atrás de si, a espreitar pela porta.

— Está tudo bem? — questionou em inglês para a namorada.

Ashley anuiu.

— Acordou, mas voltou a adormecer. Vou ficar um bocadinho aqui com ele.

Íris sorriu com uma expressão enternecedora e regressou à sala.

— A Ashley tem um filho? — perguntou Gabriel, seguindo Íris.

Ela não respondeu, continuava a comportar-se como se ele não estivesse ali. Que raio! Porque o estaria a ignorar?

Gabriel deu conta que não falara, a pergunta que lhe dirigira surgira somente no seu pensamento. Aquilo era tudo tão surreal. Imóvel como uma estátua, observou-a a regressar ao seu lugar, sentada na cadeira defronte do computador. O olhar tornou a ficar vago, como quem pondera a linha de pensamentos que começou a digitar no teclado.

Quanto tempo teria passado? Quanto tempo ficou a vê-la a escrever tranquilamente? Não tinha relógio, não tinha telemóvel… Agora que pensava nisso, reparou que não tinha nada para além da roupa. Olhou para si, mas não compreendeu o que tinha vestido. Sentiu-se estranho, tão estranho quanto aquela sensação intraduzível que o inundava ao olhar para Íris.

Sem que tivesse tido noção de ter tomado essa decisão, avançou para Íris. O facto de que ela continuava a ignorá-lo passou para segundo plano. Parou atrás de si e olhou para o ecrã. Leu o início do texto:

“Olá, Gabriel. Acho que só hoje consegui ganhar coragem para deixar sair tudo o que tenho contido no peito, desde o dia em que tu…”

O resto do texto ficou esbatido, ilegível. Era como se algo tivesse codificado os caracteres para que ele não conseguisse ler. Contudo, o mais estranho, surreal e transcendental era o facto de Gabriel ter clara noção que estava a ler o texto todo. Sim, leu tudo do início ao fim, teve as sensações mais estranhas que poderia imaginar ou compreender, mas depois não se lembrava de nada do que lera.

Íris passou a mão pelo cabelo, um gesto de descontracção após todo aquele expurgar de emoções que passara na escrita. Nesse instante, a confusão de Gabriel multiplicou-se ao reparar na aliança que envolvia o dedo dela, uma aliança igual à que Ashley usava.

— Casaste com a Ashley? — interrogou Gabriel.

Como se não o ouvisse, como se ignorasse que ele ali estava, Íris levantou-se da cadeira e caminhou até aos vidros. Ficou a observar a cidade em silêncio.

Gabriel tornou a olhar para o ecrã. Via o texto claramente, mas não conseguia ler nada, ou então, a sua mente não registava o que estava a ler. Num gesto instintivo, tocou numa tecla. Percebeu que conseguia escrever. Uma sensação de paz e amor fê-lo sentir-se leve. Sorriu para ninguém e escreveu: “O meu…”

Continuou a escrever, consciente do que estava a fazer, do que estava a digitar, apesar de não ver nada do que escrevia para além de caracteres que não lhe soavam a nada. Só conseguiu descodificar a última palavra: “…gémea!”

Nesse instante, Íris regressou para voltar à escrita. Gabriel afastou‑se do teclado como uma criança que procura fugir de ser apanhado a fazer uma travessura. Íris parou junto da cadeira e olhou para o texto. Gabriel viu a sua expressão confusa, quase assustada, de quem repara em algo que não fora escrito por si. O olhar cravou-se no ecrã, os lábios boquiabertos, o receio a dar lugar a um sentimento tão profundo quanto o amor pode ser. Íris olhou para Gabriel sem saber que estava a olhar directamente para ele, continuava a não o ver, mas parecia sentir que ele estava ali. Era tudo tão, mas tão estranho… Íris fechou os olhos, sorrindo como se saboreasse a brisa fresca numa manhã de Primavera. Num impulso, Gabriel esticou o dedo para o teclado e pressionou o “delete”, apagando tudo o que ele escrevera.

Subitamente, tudo ficou escuro.

A realidade era semelhante a um filme que começa com um fade in, um aumento da claridade conforme Gabriel abria os olhos. Viu o tecto do seu quarto e a luz da manhã a entrar pela janela. Tentou colocar as ideias em ordem, deitado na cama. Aquele era o seu quarto em Toronto. Tudo não passara de um sonho. Que sonho estranho…

Apesar da claridade, era ainda muito cedo. Olhou para o relógio, daí a duas horas Íris e Ashley estariam a apanhar o comboio para Toronto. Sentiu o cansaço, aquele sonho angustiante perturbara-o. Porém, as imagens do sonho começavam a esbater-se como papel de arroz manuseado pelos dedos de um trolha. Não queria esquecer, algo lhe soprava que era importante não esquecer, mas acabou por adormecer novamente e dormir sem sonhar. Quando voltou a acordar, todo o sonho em Montreal com Íris, Ashley e o bebé desapareceram da sua memória.

Acordou com a constatação que chegara o dia da viagem para Portugal. Ao ver o relógio no telemóvel, percebeu que dormira mais duas horas e tinha uma mensagem de Íris a dar-lhe os bons dias e a informar que estavam a entrar no comboio.

Gabriel deixou-se ficar mais cinco minutos na cama, pensativo. Um aperto pesou-lhe no peito, uma angústia provocada pela noite de sono, uma sensação de desconforto. A solidão e o estado de espírito sombrio intensificavam-se, algo que não era usual, uma vez que essa depressão aumentava ao anoitecer e não ao início do dia. A custo, levantou-se do colchão e caminhou nu até à janela com vista para o lago Ontário.

A cidade de imagem pacífica escondia o turbilhão de pessoas a movimentarem-se nas ruas e a cacofonia de nacionalidades que se misturavam entre turistas e trabalhadores das mais variadas empresas que fervilhavam naquela mini New York. Claro que tudo isso ficava no lado oposto à vista da sua janela, onde a paisagem de água e pequenas ilhas embelezavam o quadro com que acordava diariamente.

Seria a idade? Ainda se estava a habituar aos cinquenta anos. Não que isso fosse algo que se notasse. Aliás, sentia-se igual aos dias que antecederam o seu aniversário, igualmente na merda, angustiado, depressivo e sem encontrar um sentido para a sua vida. Já nem os poucos prazeres que tinha lhe davam realmente prazer.

Abandonou a janela ampla e caminhou para a casa de banho como um condenado. Enfiou-se no duche sem dar por isso e todos os seus movimentos não passavam dos mesmos automatismos diários.

Uma hora mais tarde, estava sentado junto ao balcão da cozinha a tomar o pequeno-almoço composto por um café expresso tirado da máquina que ali tinha. Estava pronto para sair de casa, apesar de só daí a umas cinco horas é que estaria a abandonar o apartamento para se dirigir ao aeroporto.

O silêncio envolvia-o. Tinha o olhar perdido na paisagem e interrogava-se sobre onde estaria com a cabeça quando aceitara fazer aquela viagem. Que ia ele fazer a Portugal? Sim, ia acompanhar Íris. Mas, Íris já tinha a companhia de Ashley e duvidava muito que a visse durante aquele período que estaria no país onde nascera. Fosse como fosse, de facto, precisava de se afastar de Toronto, do Canadá, talvez mesmo da América do Norte, ir para longe, respirar outro ar. Tudo aquilo lhe lembrava Rachel. Em Portugal, talvez… talvez não corresse esse risco.

Alguns telefonemas ocuparam-lhe a manhã, coisas de trabalho sem demasiada importância. Ao início da tarde, confirmou que tinha tudo o que precisava e que nada desnecessário ficaria ligado. Não precisava de deixar ninguém propositadamente encarregue do seu apartamento, a equipa de limpeza exerceria essa função.

O bom senso alertava-o para que comesse antes de sair, mas Gabriel tinha cada vez menos bom senso e levava a sua saúde cada vez menos a sério. Pela aplicação do smartphone, solicitou um Uber.

Antes de sair de casa, viu as horas e procurou alguma mensagem de Íris cuja notificação lhe tivesse escapado. Não tinha nenhuma. Rebocou a mala alta de viagem e saiu.

O Uber chegou dois minutos depois, enquanto ele trocava algumas palavras de circunstância com o porteiro do prédio. O motorista denotava um ar jovial e simpático, mas Gabriel não se sentiu com o mínimo de paciência para lhe dar conversa. Deu o máximo de estrelas ao condutor e uma boa gorjeta, talvez pelo sentimento de culpa de ter sido um passageiro pouco conversador.

O check-in do voo já fora feito. Íris encarregara-se disso na véspera pela Internet, de forma a que fossem todos juntos. Entrou no edifício do aeroporto e deslocou-se aos balcões da companhia aérea para entregar a bagagem a ser acomodada no porão do avião. Livre do peso, avançou por entre a multidão de passageiros que circulava em todas as direcções. Não tinha fome, mas sentiu a fraqueza de quem não comera nada desde que saíra da cama. Deslocou-se ao sector de refeições e permitiu-se a entrar num restaurante e a almoçar decentemente.

Íris telefonou-lhe quando ele terminava a refeição. Ela e Ashley já estavam em Toronto e deslocavam-se entre transportes para seguirem rumo ao Pearson International Airport. Combinaram encontrar-se na porta de embarque destinada ao seu voo.

Gabriel abandonou o restaurante e prosseguiu numa passada calma. Conhecia bem o local, já partira e chegara de inúmeros voos naquele aeroporto, em dezasseis anos de vida no Canadá. Deslocou-se para o sector de controlo alfandegário, era um voo internacional e implicava verificação de passaportes. Não necessitava de visto para entrar em Portugal, uma vez que tinha dupla nacionalidade, portuguesa e canadiana.

Após a breve passagem pelas autoridades fronteiriças, confirmou o número da porta de embarque e continuou o seu caminho, encontrando já muitos passageiros a aguardar sentados nas cadeiras. Escolheu uma vaga e sentou-se.

Íris e Ashley apareceram meia hora mais tarde, conversando animadas enquanto olhavam para a numeração para encontrarem a zona onde ele as esperava. Faziam um par cativantes, duas mulheres muito bonitas e alegres a protagonizar o típico quadro de amigas viajantes, cada uma com uma mochila às costas. Íris vestia túnica e calças de ganga em tons azuis, trazia um boné na cabeça com o qual prendia o cabelo castanho num rabo-de-cavalo e calçava sapatilhas. Ashley acompanhava a t-shirt escura com calções estilo chino beges com bainha acima dos joelhos, também o usava boné, mas o cabelo louro vinha preso nas orelhas, e calçava sandálias.

Gabriel notou que ambas roubavam olhares interessados a alguns homens. Sentira que Íris se aproximava ainda antes de a ver, uma sensação curiosa, tanto quanto o facto de ela ter olhado para o aglomerado de passageiros e os seus olhos terem encontrado imediatamente os de Gabriel. Sorriu ainda mais, ao vê-lo, mas o sorriso esbateu-se com a aproximação.

Íris abraçou-o com saudade e deu-lhe dois beijos.

— Como estás, meu querido? — perguntou em inglês para que a amiga não se sentisse excluída nos diálogos deles.

Gabriel forçou mais o sorriso. Pela expressão no olhar dela, calculou como a sua imagem estaria reveladora das marcas que as últimas semanas lhe haviam deixado.

— Estou assim tão mal? — retorquiu no mesmo idioma, olhando para Ashley e recebendo o abraço com que a inglesa o cumprimentou.

— Como assim?

— Os teus olhos não enganam, Arco-íris. Dá para ver que ficaste surpreendida com o meu aspecto.

Íris olhou-o com carinho. Não soube o que dizer.

— Pareces mais velho. — disse Ashley sem tacto ou preocupação no resultado da sinceridade.

Foi fulminada pelo olhar da portuguesa. Íris tornou a encarar Gabriel.

— Talvez seja de não te ver há algum tempo. Estás mais magro. Tens mais cabelos brancos… — Sorriu e alterou para português. — Continuas um homem bonito e charmoso.

Gabriel riu-se, notando a expressão desconfiada de Ashley.

Ouviu-se um sinal sonoro para chamar a atenção das pessoas. Uma voz feminina ecoou pelo espaço a anunciar que iriam dar início à entrada dos passageiros no avião. Gabriel estava habituado a ser dos primeiros a avançar devido à sua condição de utente da classe executiva, o que não iria acontecer naquele dia. Íris leu-lhe os pensamentos e disse:

— Ainda temos de esperar um pouco.

Mesmo assim, começou a formar-se uma fila que sucederia aos prioritários. Os três deixaram-se ficar.

— Estou muito feliz por viajar convosco. — confidenciou Íris olhando para ambos.

Ashley retribuiu-lhe o sorriso, Gabriel anuiu ainda a pensar no que estava a fazer ali.

Nenhum deles saberia dizer quanto tempo passou até se acomodarem nos seus lugares, uma vez que não se preocuparam em estar a controlar os minutos. Íris era a mais animada do grupo, falando e sorrindo. Ashley interagia com ela, tagarelando em resposta. Não era perceptível, mas conhecendo os sentimentos que ambas partilhavam, Gabriel descodificava a forma apaixonada como elas se olhavam, os toques ternos na mão ou no braço, as expressões de algum desejo contido. Por seu lado, junto delas, Gabriel sentia-se como o pai que leva as filhas a viajar.

Lentamente, com passageiros à frente e atrás, percorreram o corredor no interior do avião. Cada linha tinha três cadeiras de cada lado. Os bilhetes deles ficavam na vigésima. Gabriel não se recordava de alguma vez ter viajado tão atrás. Os lugares eram o 20D, o 20E e o 20F. Gabriel acomodou as mochilas delas no compartimento acima dos lugares, enquanto Ashley avançou para o banco junto à janela. Íris ocupou o lugar central e ficou entre a amante e o seu amigo querido que se sentou no lugar do corredor.

A lotação estava esgotada, não se via um lugar vago. Após todos os procedimentos habituais que antecedem um voo, o avião iniciou a sua marcha pela pista. Lá fora, o entardecer trazia um colorido ameno ao ambiente. Seria o início de uma travessia oceânica de algumas horas.

Após alguns momentos de conversa com Gabriel, Íris pegou no livro que retirara da mochila e dedicou-se à leitura, enquanto Ashley adormecera com a cabeça no ombro da amiga.

Todos os lugares estavam apetrechados com ecrãs e auriculares. Gabriel colocou os seus nos ouvidos e escolheu um filme para passar o tempo. Viajar ali não era como viajar em classe executiva, mas estava longe de ser desconfortável.

Ao fim de uma hora ou mais, Íris largou o livro e deixou-se dormir também, ficando com uma mão a segurar a de Gabriel e outra na perna de Ashley.

O voo aterrou em Lisboa ao amanhecer. Íris e Ashley acordaram quando o avião deu início à sua trajectória com a pista e descida progressiva. Gabriel dormitara, mas não se pode dizer que tivesse dormido.

A aterragem foi tranquila e rápida, ao invés da espera por poderem sair do avião. Era outra coisa a que Gabriel não estava habituado, na classe executiva eram os primeiros a sair, ali teria muito que esperar. Íris aproveitou a espera para ligar à mãe.

— Já aterrámos. — ouviu-a dizer. — Não é preciso… É cedo… Nós apanhamos um táxi… Pronto, está bem. Até já.

Íris olhou para Gabriel com um semblante culpado.

— A minha mãe insiste em vir buscar-nos ao aeroporto.

Depois, olhou para Ashley e repetiu a informação em inglês. Tornou a dirigir-se a Gabriel, mantendo o inglês:

— Desculpa! Sei que não a querias ver…

Gabriel sorriu irónico.

— O aeroporto é grande, não te preocupes.

— Ela referiu que gostava de te cumprimentar…

Ele não se pronunciou, sentindo alguma irritação pela espera. Ou seria pela inevitabilidade de reencontrar Olga ao fim de dezasseis anos?

Para complicar, percebeu que os passageiros não iriam sair por uma manga de ligação ao edifício, mas sim por umas escadas para entrarem em autocarros que os levariam até esse mesmo edifício. Que esperava ele? Já não estava no Canadá e começava a ter a noção da diferença existente entre os dois países, algo que só agora se tornava evidente, conforme avançava nos procedimentos.

O controlo fronteiriço foi tranquilo e rápido, somente Ashley demorou um pouco mais de tempo por ser inglesa. E, apesar de o Reino Unido ainda fazer parte da União Europeia, existia um controlo mais específico com os passaportes das ilhas britânicas.

Íris perdera o ar estremunhado de quando acordara, pouco antes da aterragem, e falava animava, feliz e alegre por estar a retornar ao seu país. Ashley observava tudo em redor sem revelar o que estaria a pensar. Já Gabriel parecia estar a reviver um filme que percorrera dezasseis anos antes no sentido inverso. Os três seguiram as indicações para o sector da recolha das bagagens, sendo que ele ia um passo atrás delas.

A espera foi longa, até que o início da passadeira começasse a cuspir malas, sacos ou outro tipo de embrulho nos formatos mais estapafúrdios.

— Nunca mais voltaste a Portugal?

A pergunta de Ashley pescou-o para a realidade.

— Não.

— Saudades?

— Nem por isso. — respondeu num tom distante.

Íris queria dizer algo, mas não encontrou as palavras e limitou-se a tocá-lo carinhosamente no braço.

Aos poucos, as malas de cada um deles foram surgindo na passadeira. Gabriel recolheu a sua e ajudou-as a puxar as delas. Colocaram tudo num carrinho e ele empurrou-o para a saída.

— A minha mãe está lá fora à nossa espera. — lembrou Íris. Sorriu. — Não te sintas obrigado a cumprimentá-la por minha causa. Não te levo a mal.

— Eu percebo-te. — intrometeu-se Ashley falando para Gabriel. — Se me cruzasse com o meu ex, acho que me apetecia dar-lhe uma chapada.

Íris olhou para ela, irritada.

— Se não tens nada melhor para dizer…

Ashley percebeu a reprimenda e fez um gesto a desculpar-se.

Atravessaram o sector alfandegário de “nada a declarar”. Mais alguns passos e saíram pelas portas automáticas para o enorme átrio onde muitas pessoas aguardavam, fossem familiares, amigos ou meros profissionais das agências de viagens.

Não havia muita gente por ali ou, pelos menos, não tanta como iria estar mais tarde. O espaço era iluminado pelo Sol matinal, cujos raios solares entravam pelos vidros da enorme gare.

Gabriel não teria dificuldade em reconhecer Olga, mas Íris viu a mãe primeiro. Sorriu-lhe e acenou-lhe, desejosa por a abraçar. No entanto, não iria deixar Ashley para trás e ainda não sabia a decisão de Gabriel.

Quem conhece o Aeroporto da Portela sabe que após as portas automáticas existem duas rampas, uma para cada lado. Olga aguardava a meio da que ficava virada para os elevadores e acesso aos pisos subterrâneos de estacionamento automóvel. Acenou em resposta à filha, mas o seu olhar rapidamente se desviou para o homem que vinha atrás.

Íris parou e tornou a olhar para Gabriel, revelando uma expressão interrogativa, pretendendo saber qual a decisão dele.

— Faço-o por ti. — suspirou.

Íris sorriu e apressou-se a descer pela rampa. Mãe e filha uniram‑se num abraço forte, carregado de saudade. Ashley avançou confiante e parou junto delas. Íris apresentou a amiga em inglês à mãe. Olga estava habituada a falar inglês com alguns colegas investigadores do laboratório, daí que não tivesse tido qualquer dificuldade em dialogar com a inglesa.

Empurrando o carro com as malas, Gabriel desceu sem pressa, observando a mulher que fora o seu grande amor em Portugal, aquela que o abandonara e que o fizera ser um solitário por opção. Para sua surpresa, percebeu que não sentia nada por ela.

Olga revelava o passar dos anos, o que não significava que não continuasse uma mulher belíssima que ia a caminho do lugar onde Gabriel já chegara, os cinquenta anos. Vestia calças e um casaco de corte fino, tudo em tons claros, e calçava sapatos de salto alto que lhe davam um porte imponente. Tinha um ar mais maduro, continuava elegante, atraente e sensual. Porém, para espanto de Gabriel, Olga não despertava nada nele, nem paixão, nem ódio, nem ressentimento. Nem sequer sentiu saudade, dela ou dos tempos em que foram um casal. Era estranho, afinal, ela fora a causa daquela ferida que não sarara em dezasseis anos.

Não conseguia perceber e perdeu a noção que se estava a aproximar delas, quase atropelando Ashley com o carrinho de malas. Fora por aquela mulher que vivera tantos anos amargurado? Como era possível? Não encontrou respostas.

— Olá, Gabriel! — cumprimentou Olga a medo.

Íris notou a tensão do momento a morder-lhe a pele.

— Olá, Olga! — retribuiu ele, distante e sem dar abertura a qualquer cumprimento para além das palavras.

— É bom ver-te. — continuou ela, hesitante.

Gabriel não disse mais nada.

Ashley assistia à cena sem perceber o que diziam, mas adivinhando o teor do diálogo.

— Vais ficar por Lisboa? — Olga não era mulher de desistir. — Já tens onde ficar?

— O Gabriel vai ficar num hotel em Belém. — respondeu Íris. Dirigiu-se a ele. — Queres boleia?

Gabriel alterou a expressão, demonstrando que falar com Íris em nada se comparava a dialogar com Olga.

— Obrigado. Eu apanho um táxi.

— Que disparate. — Olga mostrava-se afável, procurando rebater a postura dele com simpatia. — Fica em caminho, Gabriel. Eu deixo-te lá.

Ele olhou para o rosto de Íris que revelava uma mistura de “tu é que sabes” com um “vá lá, faz-lhe a vontade”.

Gabriel acabou por concordar e o grupo seguiu para os elevadores. Olga questionou como tinha sido a viagem e Íris respondeu em inglês, sempre preocupada que nada excluísse Ashley. A mãe percebeu e todas as conversas prosseguiram no idioma da inglesa.

O automóvel de Olga era uma carrinha Audi já com alguns anos. Ao abrir a bagageira, Gabriel começou a arrumar as malas. Olga ia para o ajudar, mas Íris meteu-se pelo meio, receosa que ele pudesse reagir mal às constantes investidas da mãe em recuperar o diálogo com ele.

Gabriel teria preferido sentar-se no banco traseiro, mas Ashley já se sentara num lado e Íris ocupou o outro. Olga entrou para o lugar do condutor e ele viu-se obrigado a sentar-se a seu lado.

A manhã de Sol mergulhava o ambiente num quadro veraneante, anunciando que o calor iria aumentar com o avançar das horas. O trânsito não estava muito mau, mas a hora de ponta na capital era sempre um caos. Enquanto conduzia, Olga falava com a filha e a amiga. Gabriel manteve-se à parte, observando o exterior e a perguntar-se como vivera tantos anos naquele país. Sentia-se completamente deslocado na cidade onde nascera.

— Já tens planos para a estadia? — inquiriu subitamente Olga, olhando para Gabriel.

Ele não tirou os olhos da estrada.

— Vou para o hotel dormir. Estou cansado.

— Claro, claro. E depois? Podias ir jantar lá a casa…

— Ainda não sei o que vou fazer.

— Então ficas já convidado.

Não houve resposta.

Antes que a mãe continuasse, Íris desviou o assunto, falando de outras coisas e incentivando Ashley a participar. Gabriel também se mostrou desinteressado, ao pegar no telemóvel e concentrando-se em saber se tinha mensagens.

Ao fim de quase uma hora, a Audi parava defronte do hotel que ele escolhera. Gabriel saiu como se o seu banco queimasse, desejoso de se afastar. Contornou a carrinha até à traseira.

Mãe e filha copiaram o seu movimento.

Íris despediu-se, evitando beijá-lo para que a mãe não fosse repetir o gesto dela, ciente que a última coisa que Gabriel quereria era ser beijado por Olga.

— Vamos falando. — disse-lhe.

Gabriel anuiu e acenou-lhe uma despedida.

— Depois a Íris marca contigo o jantar lá em casa. — lembrou Olga.

Tal como sempre acontecia, Gabriel ignorou-a.

XXII

 

Havia uma certa paz em observar a água a correr lentamente no rio. Aquele lugar trazia-lhe recordações antigas de um tempo em que julgara ingenuamente que o seu futuro seria ao lado de Olga.

Gabriel sentou-se num banco de pedra virado para o Tejo. Ainda era cedo, claro que o hotel ainda não tinha o seu quarto pronto. Pedira para deixar a bagagem na recepção e viera até à margem ribeirinha caminhar um pouco. Não era um sítio estranho, caminhara muitas vezes ali com Olga e a pequena Íris, pelo passeio largo empedrado que era usado por pessoas a andar, correr ou a pedalar. Sentiu um saudosismo confuso, não era uma saudade do género “quem me dera aquela época…”. Não, era uma saudade do momento, de um tempo em que se sentia a construir algo na sua vida pessoal, algo que se desmoronaria mais tarde, quando Olga concluísse que queria o ex-marido de volta.

Havia veleiros ao sabor do vento, um cacilheiro que ligava as margens do rio e um cargueiro que avançava para o porto de Lisboa. A brisa soprava agradável e o Sol não estava ainda demasiado forte para o obrigar a procurar sombra. Gabriel olhou para trás para as pessoas que iam passando, na sua maioria anónimos em actividade desportiva.

O seu olhar vago retornou ao rio, mas os seus pensamentos desviaram-se da realidade. Pensou em Olga e no momento do reencontro, dezasseis anos depois. Fora… Não sabia bem como o descrever. Sempre julgara que, quando a voltasse a ver, sentiria raiva, ódio, irritação… Repetia a si mesmo que ela já não significava nada para si, mas no seu íntimo ela continuava a mexer consigo, mais não fosse pela forma como tudo terminara. Contudo, revê-la no aeroporto, tornar a estar no mesmo espaço que ela, foi uma espécie de flop. De facto, para sua surpresa e até satisfação, Olga já não significava mesmo nada para si. E não era porque não continuasse a ser uma mulher linda e sensual. Apenas já não mexia com ele ou, pelo menos, não mexia como acontecera antes, nos idos tempos em que eles formaram um casal.

Gabriel percebeu que no seu consciente germinava uma irritação ténue. Sim, afinal o reencontro provocara uma irritação, não contra Olga, mas sim contra ele próprio. Não se percebia, não compreendia como estivera década e meia em sofrimento pelo término de uma relação que, após esse tempo, agora que revia a mulher que o abandonara, parecia não ter tido mais significado que uma queca dada com uma desconhecida numa qualquer noite distante da sua existência.

O troar da buzina de um barco despertou-o para a realidade. Ao longe, vindo da foz, um navio de cruzeiro entrava no rio. Voltou aos seus pensamentos, às recordações, à procura de respostas. Lamentou não estar em Toronto para uma visita a Phil e discutir aquilo com ele. Poderia ligar‑lhe, mas não se justificava. O assunto ficaria para quando regressasse. Mesmo assim, permitiu-se a prosseguir com as questões. Seria pelo facto de atravessar a perda da mulher por quem se apaixonara? Teria a entrada de Rachel na sua vida apagado a influência negativa da rotura com Olga? Pelo meio, na sua mente, surgiu o rosto de Íris em duas versões, a menina e a mulher. E foi ao recordá-la como menina que voltou a sentir aquela amargura do fim da relação com Olga.

O som da notificação de nova mensagem no telemóvel tornou a quebrar-lhe o estado introspectivo. Pegou no aparelho e viu uma mensagem de Íris no WhatsApp:

“Já estamos em casa e instaladas. Estás bem? Desculpa se houve alguma coisa… tu sabes… a minha mãe. Adoro-te. Beijinhos.”

“Está tudo bem, não te preocupes. Também te adoro Arco-íris. Beijinhos.”

Sentado no banco, sentiu o cansaço de não ter dormido nessa noite. Precisava de descansar e a diferença horária não ajudava em nada. Se ficasse por ali hipnotizado pela corrente fluvial, ainda adormecia. Optou por levantar-se do banco e caminhar ao longo da margem.

Não teve real noção de quanto tempo estivera naquela passada tranquila. Também não se perdeu em mais pensamentos sobre o seu histórico com Olga. Decidiu desfrutar do regresso ao seu país, observar a paisagem e as pessoas. Acabou junto a um restaurante ribeirinho com uma esplanada agradável e usufruiu de uma mesa vaga para almoçar.

O retorno ao hotel aconteceu logo após a refeição. Nova travessia pelo passadiço ribeirinho, fustigado pelo calor que se acentuara ao início da tarde. Gabriel entrou no hotel com a sensação gratificante da brisa fresca do sistema climático do interior. O seu quarto estava pronto. O recepcionista entregou-lhe o cartão de acesso e a bagagem que ali fora guardada.

O quarto de Gabriel era um espaço amplo e luxuoso, situado no último andar e com uma varanda a encarar o rio azul brilhante. As paredes claras estavam escuras devido aos cortinados robustos entreabertos. A cama era larga, quase que poderiam dormir nela três pessoas com todo o conforto, carregada de almofadas e uma coberta ao fundo apenas para decoração. Em frente à cama, uma televisão fina pendurada sobre uma mesa de apoio. Duas poltronas faziam companhia à cama. A casa de banho era espaçosa com o acesso logo ao lado da cabeceira. Perto da entrada, um roupeiro grande onde não faltava um minibar e um cofre.

Gabriel deixou-se cair sobre o colchão e nem deu por adormecer.

A princípio julgou que já era noite, mas depois percebeu que o Sol ainda se estava a pôr. A culpa era dos cortinados meio fechados que bloqueavam grande parte da luz natural que ainda restava. Levantou-se da cama com a sensação desconfortável de quem dormira vestido. Colocou as ideias em ordem e foi passar um pouco de água no rosto. Se os horários já estavam baralhados, as horas que dormira em nada ajudaram.

Gabriel afastou os cortinados e abriu os vidros de acesso à varanda. Quase parecia a varanda da sua casa, com as devidas distâncias, com vista para a água. Claro que aquela linha fluvial estava para o lago como uma agulha para um fardo de palha.

A luminosidade ganhava um tom crepuscular. O pôr-do-sol acontecia para lá da foz do Tejo. Gabriel olhou para o smartphone retirado do bolso. Como o colocara no modo silêncio, não ouvira as chamadas nem as mensagens durante o sono. As chamadas não pareciam ser relevantes, se fosse trabalho que ligassem para o escritório e Francis encarregar-se-ia delas. As mensagens eram de Íris.

“Olá, Gabriel. A minha mãe insistiu para te convidar para jantares cá em casa. Sei o que pensas sobre isso, mas não quis responder por ti. Eu gostava que viesses, mas compreendo a tua decisão. Que dizes?”

A mensagem viera a meio da tarde. Cerca de uma hora depois, veio outra:

“Estás bem? Espero que não tenhas ficado aborrecido com o convite. Depois diz qualquer coisa. Beijinhos.”

Gabriel clicou na zona de escrita e digitou a resposta:

“Olá, Arco-íris. Não fiquei aborrecido, nem tinha razão para isso. Adormeci e só acordei agora. Está tudo bem, não te preocupes. Já não vou a tempo do jantar, fica para a próxima. Beijinhos.”

Para sua surpresa, Íris enviou logo a resposta:

“Podemos combinar amanhã? A minha mãe não me larga, diz que é o mínimo que pode fazer para te agradecer o que tens feito por mim. Confesso que concordo com ela. Sei que não é fácil para ti estares com ela, mas… Se for viável para ti, eu adoraria que viesses. Teria de ser amanhã, depois vou para Londres com a Ashley. Pensa nisso com carinho. Adoro‑te! Beijinhos.”

Gabriel ainda estava a pensar no que haveria de escrever de volta, quando recebeu outra mensagem:

“Amanhã vamos passar o dia na praia. Queres vir connosco?”

“Sou capaz de ficar pela piscina do hotel.”

“A água do mar é muito mais saudável.”

Ele não respondeu. Calculou que iriam as três, Íris, Olga e Ashley. Íris iria estar concentrada na namorada. Gabriel não tinha vontade nenhuma de partilhar da companhia de Olga.

“Posso contar contigo?”

Gabriel não pôde deixar de sorrir com a insistência, sabia que Íris também gostaria que ele fosse, tanto ou mais que a mãe.

Íris convidara-o para vir a Portugal com ela, queria usufruir da sua presença durante a estadia. Se fosse recusar tudo por causa de Olga, só se reencontrariam no regresso a Toronto. Acabou por escrever:

“Ok. Podes contar comigo.”

“Deixas-me muito feliz. Mas isso é um hábito teu :) Assim eu te conseguisse fazer o mesmo. Passamos aí de manhã para te ir buscar. Adoro-te! Beijinhos.”

Gabriel não estava com disposição para um jantar solitário no restaurante do hotel, por isso, solicitou ao serviço de quartos algo para comer. A televisão permitiu-lhe manter a ligação com os acontecimentos no continente que o adoptara, através dos canais informativos norte‑americanos contidos na oferta do serviço.

Apesar do avançar da noite, Gabriel não tinha sono. Contudo, lá se deixou adormecer de madrugada, embalado pelas imagens no ecrã. Para evitar falhar a hora combinada, configurou o despertador do telemóvel para o acordar a horas.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

Será que este ainda era o lema que governava o seu dia a dia?

 

Talvez fosse impressão sua, talvez estivesse mesmo muito calor naquela manhã. Desde que acordara que se recriminava por ter aceite aquele convite para um dia de praia. Sabia que ia ser aborrecido, dispensava aturar a mãe de Íris e já percebera que não sentia grande empatia com a namorada inglesa dela… Enfim, pelo menos que valesse pela companhia da menina que se tornara numa mulher encantadora e na sua melhor amiga.

Há muito tempo que não desfrutava de uma praia, de caminhar pelo areal, gozar o Sol ou banhar-se nas águas do mar. Agora que pensava nisso, tinha quase a certeza de que a última vez acontecera com Olga e a pequena Íris, antes da separação, muito antes de partir para o Canadá.

Por acaso trouxera calções de banho, uma vez que seria provável usufruir da piscina do hotel. Jamais lhe passaria pela cabeça que perderia tempo a ir à praia. Contudo, desde que Íris regressara ao seu mundo, muita coisa parecia querer regressar à sua triste existência.

A carrinha Audi chegou por volta da hora marcada. Gabriel aguardava na rua, vestido com uma t-shirt azul dos Maple Leafs, calções de banho em tons escuros, um boné dos Raptors, sapatilhas e uma toalha debaixo do braço, junto à entrada do hotel, local que escolhera após o aviso de Íris de que estavam a chegar. Olga vinha a conduzir e Íris sentava-se a seu lado, vindo Ashley atrás. Mãe e filha mostraram-se sorridentes, enquanto a inglesa nem desviou a atenção do telemóvel.

Gabriel teria preferido que ninguém tivesse saído do carro, aproveitando para se sentar ao lado de Ashley e evitar que lhe oferecessem o banco ao lado do condutor. Claro que não teve essa sorte, pois Íris saiu do seu lugar assim que a mãe parou. A expressão de alegria no seu rosto estava em sintonia com o seu traje alegre, uma túnica laranja e calções curtos de ganga. Deslizou nas suas sandálias até ele e cumprimentou-o com dois beijos. Olga também saiu do carro, envergando um vestido fresco e largo, mas ficou junto à porta, cumprimentando-o com um “Bom dia!” e um aceno, numa mistura de contentamento e alguma timidez, talvez esperando que ele se aproximasse e trocassem dois beijos como fizera com a filha. Isso não aconteceu.

Íris contornou a Audi com Gabriel e abriu a porta de trás.

— Não queres continuar no teu lugar? — sugeriu Gabriel. — Não me importo de ir atrás.

Ela sorriu e abanou a cabeça, piscando-lhe o olho.

— Prefiro ir com a Ashley. — sussurrou-lhe.

Vencido, Gabriel entrou para o seu lugar, olhando para trás e cumprimentando Ashley em inglês. Ela levantou os olhos para ele e retribuiu com um “Hi!” distante. Vestia uma túnica colorida parecida com a de Íris e minissaia de algodão branca.

O trajecto entre a praia e o hotel foi feito ao som da música que se ouvia no rádio. Olga ainda tentou fazer conversa com Gabriel, perguntando se o hotel era bom e se descansara bem, mas ele foi monossilábico nas respostas e pegou no telemóvel, dando a entender que não pretendia conversar.

O Guincho foi a praia escolhida. A vantagem de não ser fim de semana, mesmo estando no Verão, é que a quantidade de banhistas era significativamente inferior ao que seria nesses dias.

Olga estacionou no parque improvisado de terra batida perto da praia. Todos saíram da carrinha Audi sentindo a brisa agradável e o cheiro a maresia. Íris abriu a bagageira para retirar as toalhas e um saco de apoio com algumas coisas que poderiam ser necessárias. Gabriel ficou a olhar em redor, segurando a sua toalha da piscina do hotel. A sua atenção foi absorvida pela visão do corpo tonificado de Ashley. Sim, era uma mulher lindíssima, compreendia bem porque Íris gostava dela. Ele próprio não se importaria nada de a ter na sua cama. Afastou o pensamento como se fosse um sacrilégio, jamais faria algo que pudesse magoar Íris. E ter sexo com a namorada dela seria certamente uma facada fatal na amizade de ambos.

Desceram ao areal, rumo à zona concessionada com guarda‑sóis. Eram duas linhas de sombras arredondadas lado a lado, cada uma com duas espreguiçadeiras.

— Podemos alugar dois. — sugeriu Íris para a mãe e Gabriel.

— Sim. Ficamos com mais espaço. — concordou Olga.

Gabriel encolheu os ombros indiferente, adivinhando quem seria o seu par e pouco agradado com isso.

Ainda era cedo, havia muito por onde escolher e não houve dificuldade em arranjar dois guarda-sóis ao lado um do outro. Gabriel insistiu em pagar o aluguer dos dois espaços e das quatro espreguiçadeiras.

Íris e Ashley acomodaram-se no seu guarda-sol. Sem perderem tempo, despiram a roupa e ficaram ambas em biquíni. Íris tinha um conjunto em tons de tijolo, em que a peça inferior parecia uns boxers e a superior um top sem alças, somente a envolver-lhe o peito. Ashley usava algo mais sensual, cuecas de fio dental e sutiã formado por dois triângulos que lhe amparavam os seios, ambos em tons rosa e fúchsia.

Gabriel observava-as disfarçadamente, enquanto despia a t-shirt dos Maple Leafs. Viu-as sorrir uma para a outra e correrem para a água.

— Ela está muito feliz. — ouviu Olga dizer atrás de si.

Por instantes, quase se esquecera que ela ali estava. Gabriel virou‑se e viu-a sem o vestido, revelando um fato-de-banho de peça única branco carregado de desenhos de flores. Não pôde evitar a constatação de que Olga continuava em forma com um corpo bastante atraente.

— Ainda bem que sim. — retorquiu desprendido. — Ela merece ser feliz. É uma miúda espectacular.

Olga sentou-se na espreguiçadeira, sobre a sua toalha.

— Nunca te conseguirei agradecer tudo o que tens feito pela minha filha.

Gabriel encarou-a sério, sem disfarçar que o passado não estava esquecido.

— Não o fiz por ti, por isso não me deves nada.

Ela anuiu, encaixando o golpe.

— Mesmo assim, ela é minha filha. Serei sempre grata a quem lhe faz bem.

Não houve resposta. Gabriel sentou-se e estendeu as pernas sobre o descanso, ficando a observar o mar. Íris e Ashley nadavam na ondulação divertidas. Apesar de as costas ocidentais portuguesas serem maioritariamente fustigadas por ondulações fortes, naquele dia o mar estava receptivo aos banhistas.

Olga pareceu entender que Gabriel não queria conversar com ela, por isso, remeteu-se ao silêncio ficou a observar o mesmo que ele.

O Sol estava cada vez mais alto e mais forte. Íris e Ashley regressaram do mar completamente encharcadas. Íris foi buscar o protector solar à bolsa e ambas se protegeram com o creme em spray, espalhando-o pelo corpo uma da outra. Por fim, puxaram as espreguiçadeiras para fora da sombra e deitaram-se a desfrutar dos raios solares.

Gabriel deixou-se perder em pensamentos, mantendo o olhar protegido pelas lentes escuras no oceano sem fim à vista. A seu lado, com o suporte da sombra entre eles, Olga lia um livro científico. Nunca pensou que conseguisse estar assim, perto dela, de forma tão tranquila. Sempre julgou que, se um dia a reencontrasse, isso despertaria toda a raiva e amargura que ela plantara nele com a separação. Não acontecera. E estranhamente, ela era-lhe completamente indiferente. O que era feito do sentimento que haviam partilhado? Onde estava o desejo, a paixão… o amor que o fizera, um dia, querer viver para sempre com ela? Naquele instante, todos eles pareciam fruto da sua imaginação, como se aquela relação de dois anos, mais de década e meia antes, nunca tivesse acontecido.

Por seu turno, Olga gostaria de ter uma relação cordial com ele, talvez até algo parecido com uma amizade. Receara o reencontro desde o primeiro instante. Não era idiota, percebera bem o que ele pensava dela através das respostas que lhe atirara às suas mensagens. Não esquecera que ele escrevera "não tenho a mínima vontade de falar contigo” ou “não nutro qualquer sentimento por ti”. Porém, também vira em “já encontrei o espaço para a trégua há muito tempo” uma abertura, mesmo que a trégua fosse “tu na tua vida e eu na minha”.

Quando o viu no aeroporto sentiu um friozinho no estômago, aquela sensação que lhe fizera tremer as pernas quando o conhecera, a recordação do homem que a encantara naquela noite em que, pela primeira vez na sua vida, se permitiu a ir para a cama com alguém que conhecera horas antes. Valera a pena, ele fora tudo o que sempre sonhara num homem. Fora estúpida por ter aberto mão dele com o pressuposto que seria melhor para a filha uma reconciliação com o pai. Não, quem queria ela enganar? Não fora essa a principal razão. O que despoletara a reconciliação com ele e o término da relação com Gabriel foi o seu instinto carnal quase animalesco de querer voltar a foder o pai da filha. E nessa altura, quando aconteceu, Olga sentia-se erradamente certa de que a reconciliação duraria para sempre.

Olga olhava para o livro, mas não absorvia quase nada do que lia. Não conseguia ficar indiferente ao homem que ali estava a seu lado, um homem que ainda mexia consigo… Bastaria uma palavra de Gabriel e ela seria sua novamente. Voltou ao momento em que o reencontrara no aeroporto. Estava visivelmente mais velho, mais que o esperado após dezasseis anos, mas continuava atraente e a idade trouxera-lhe ainda mais charme. Receou que ele lhe voltasse as costas, que tornasse real o que deixara subentendido nas mensagens. Felizmente, não o fizera, pelo menos atirou-lhe um cumprimento frio. Era melhor que nada. Comentara isso com Íris que na sua característica maturidade a avisou que ele fora cordial em atenção ao seu pedido e que não deveria alimentar ilusões. Olga não confessou o que lhe ia na alma e limitou-se a encolher os ombros como se tivesse feito somente um comentário ao sucedido.

Contudo, rever Gabriel mexera mais com Olga que aquilo que ela esperava. Apesar de toda a frieza que sentia nele para com ela, iria tentar encontrar uma hipótese, por mais ínfima que fosse, de conseguir ter uma conversa sincera acerca do que acontecera.

— Não contava que viesses. — disse de repente.

Gabriel olhou para ela com o rosto fechado e a expressão do olhar escondida pelos óculos.

— A Íris convenceu-me que a água do mar é mais saudável que a da piscina.

Olga sorriu.

— É uma rapariga esperta e sabe argumentar. Mas, não me refiro a isso. Não contava que tivesses vindo com ela a Portugal. — Calculou que as suas palavras fossem mal percebidas e apressou-se a explicar — Não me interpretes mal, ainda bem que vieste. Fiquei feliz que… Podes não acreditar, mas gostei de te voltar a ver.

Gabriel manteve-se distante, como se esperasse que ela dissesse mais alguma coisa. Como não disse, ele também não se pronunciou e voltou a encarar o mar.

Olga encaixou o desinteresse dele. Em frente ao outro guarda-sol, Íris e Ashley permaneciam deitadas a desfrutar do Sol. Receou que a filha adormecesse e apanhasse um escaldão. Tivesse a filha a idade que tivesse, Olga nunca a conseguiria ver sem ser como uma criança. Por isso, levantou-se e caminhou pela areia quente até ela.

— Íris! — chamou com ternura.

Íris abriu de imediato os olhos, demonstrando que não estava a dormir.

— Sim?

— Pensei que estivesses a dormir. — A filha sorriu-lhe. — Cuidado com o Sol.

— Eu tenho cuidado. — respondeu. Depois, baixou o tom. — Está tudo bem? Vocês…

— Está tudo bem, não te preocupes.

Olga regressou ao seu lugar. Em momento algum notou que Gabriel olhasse para si, nem quando passou em frente a ele. Era quase como se ela não existe ou fosse alguém que ele não conhecesse. Voltou ao livro que lia sem ler.

Gabriel deixou-se hipnotizar pelo enrolar das ondas na areia, embalando-o e fazendo-o sentir sonolento, ainda com o organismo a adaptar-se ao jet-lag. De tempos a tempos, olhava para o local onde as duas jovens estavam deitadas de costas para o Sol. Íris tapava-lhe o ângulo, impedindo-o de ver a inglesa que, por mais que ele se esforçasse, teimava em atrair-lhe o olhar. Noutras vezes, espreitava na direcção contrária, pelo canto do olho, para Olga.

Íris escolhera propositadamente aquele lado para poder ir lançando um olhar à mãe e a Gabriel. Fingia que estava alheada deles, mas sentia um nervoso miudinho, receando que, do nada, as feridas abrissem nele e Gabriel pudesse desentender-se com a mãe. Por outro lado, guardava a esperança de que eles se entendessem, que o passado ficasse esquecido e eles voltassem a ser amigos. Claro que no mundo perfeito imaginado por Íris, eles poderiam reconciliar-se, voltar a ser um casal, a mãe largar tudo e ir viver com ele para Toronto. Isso seria maravilhoso, deixar de ter a mãe no outro lado do Atlântico para a ter a uma hora de avião e no mesmo fuso horário. Enfim… sonhos.

Ao início da tarde, Íris aproximou-se deles depois de falar com Ashley.

— Vou comprar umas sandes e umas bebidas. Que querem que traga para vocês?

Olga disse o que queria, Gabriel respondeu:

— Eu vou contigo.

Íris anuiu e foi vestir a túnica.

— Como é que está a ser… com a minha mãe? — questionou Íris, quando ambos percorriam o areal.

— Normal. — respondeu Gabriel sem nenhuma entoação especial.

— Desculpa, se de algum modo está a ser… não sei bem como caracterizar… um incómodo?

— Não está a ser nenhum incómodo, Arco-íris. — descansou-a, sorrindo-lhe. — Na verdade, até está a ser surpreendente.

— Surpreendente?

Entraram num dos estabelecimentos ali perto. Não houve tempo para explicar, uma vez que um funcionário os recebeu com enorme simpatia.

— Almoço?

— Queremos encomendar para levar. — disse Íris no seu jeito encantador de ser.

O rapaz anuiu e convidou-os a segui-los até ao balcão, entregando‑lhes uma lista de snacks e bebidas. Eles fizeram as suas escolhas e o outro tomou nota dos pedidos.

Enquanto aguardavam, Íris repescou o assunto:

— Dizias que estava a ser surpreendente?

Gabriel encarou-lhe as amêndoas que pareciam ter ganho uma tonalidade ainda mais intensa com o Sol e o calor.

— Pensei que me fosse sentir mais incomodado pela presença da tua mãe.

Íris abriu o sorriso.

— Achas que há alguma possibilidade de vocês…

— Não, não. Nada disso. — apressou-se ele a responder.

— Não me refiro a romance, Gabriel. — explicou. Falava de uma forma madura. — Refiro-me a poderem ser amigos. Manterem o contacto. Tu és um solitário, ela também não se relaciona com muito gente para além do trabalho.

Gabriel abanou a cabeça.

— Desculpa dizer isto, Arco-íris, ela é tua mãe. Mas, eu não quero o mínimo contacto com ela. Só estou aqui por ti, pela nossa amizade.

— Eu sei. E agradeço-te a forma cordial como tens agido com a minha mãe.

— Não sou nenhum troglodita. — ripostou com humor. — Trato todas as pessoas com educação.

— Sim… Mas, o passado, por vezes, traz um lado negro que se esconde em nós.

— Hum… Fala-me disso. — Gabriel pareceu divertido. Na verdade, o que alimentava a sua animação era o facto de estarem apenas eles a conversar. — Tens um lado negro? Custa-me a acreditar.

Ela voltou a sorrir, encarando-o com aquele olhar de amêndoa capaz de derreter um iceberg. Ia para dizer algo, mas a chegada dos pedidos travou-a. O assunto acabou esquecido e eles regressaram ao areal com comida e bebida para todos.

A tarde foi passada com a mesma tranquilidade e muito mais calor. Por várias vezes, os quatro foram ao mar, mas sempre em alturas distintas, excepto Íris e Ashley que iam sempre juntas ou quando Olga acompanhou a filha, um momento em que Gabriel se permitiu a cravar o olhar no corpo da inglesa. Por seu turno, ele foi sempre a banhos sozinho.

Numa das últimas vezes que regressou das ondas, quando se estendia na sua espreguiçadeira, Olga convidou:

— Gostava que viesses jantar lá a casa, logo. Posso contar contigo?

Antes de responder, ele notou que Íris os observava, aguardando as palavras dele.

— Estou cansado e ainda a habituar-me ao fuso horário.

— Podemos regressar mais cedo. — sugeriu Íris. — Assim, o jantar não se prolonga para muito tarde.

Gabriel não tinha a mínima vontade de ir a casa de Olga. Porém, também não conseguia recusar um desejo de Íris.

— E se combinássemos depois de tu voltares de Londres?

Aquilo não era mais que empurrar o problema, nessa altura Gabriel teria a mesma ou menor vontade que naquela tarde.

Olga deu sinal de ir insistir, mas Íris antecipou-se:

— Sim, podemos jantar quando eu e a Ashley voltarmos.

Falavam em português porque a inglesa não dava qualquer mostra de atenção aos assuntos deles, mas virou-se para a conversa ao ouvir o seu nome. Íris explicou-lhe no seu idioma o que se estava a dialogar.

Uma vez que já não haveria jantar com convidado na casa de Olga, deixaram-se ficar pela praia até o Sol descer a linha do horizonte. Tiveram a sorte de o céu estar completamente limpo de nuvens. Quase ninguém permanecia junto à água, optando muitos banhistas por ir embora ou transferirem-se para a zona de bares e restaurantes. O cenário só não era perfeito por causa da música audível dos bares.

Íris e Ashley foram sentar-se à beira-mar na rebentação calma das ondas. Estavam encostadas uma na outra e de mão dada. A inglesa, desde que chegara a Portugal, não parecia tão constrangida por se poder notar a intimidade e cumplicidade entre elas. De certeza que não faziam segredo da relação a Olga e Gabriel tinha quase a certeza que elas dormiam juntas em casa da mãe de Íris.

Gabriel observava o pôr-do-sol em silêncio, ao mesmo tempo que as via a elas. Reparou que Íris conversava com ternura, como se explicasse algo a Ashley, ao que a outra respondia primeiro abanando a cabeça, depois com hesitação. Íris parecia insistir em algo com carinho e Ashley deu sinal de aceder ao pedido. As duas beijaram-se com amor ao mesmo tempo que o Sol desaparecia no mar.

— Sabias?

Gabriel virou-se para Olga.

— Que a Íris é homossexual? — adicionou Olga. — Que ela e a Ashley são namoradas?

— Sim, sei. — confirmou sem dar grande importância. Contudo, referiu um pormenor importante. — Pelo que sei, a Ashley não sabe que eu sei, por isso…

— Achas que ela não sabe? Estão a beijar-se à nossa frente.

— Seja como for, a Íris pediu-me para fazer de conta que não sei.

Olga anuiu. No entanto, viu ali um filão para continuar a conversar com ele:

— Nunca me importei com a orientação sexual da Íris. Para mim, o importante é que seja feliz.

— Ela contou-me logo ao início, quando chegou a Toronto. — relatou Gabriel, sem reparar que entabulava um diálogo com a mulher que pensara odiar ao longo dos últimos dezasseis anos. — Não foi planeado. Não chegou lá e disse “olá Gabriel, sou a Íris e sou lésbica”. Calhou eu ver uma foto dela com a ex. E a Íris não teve qualquer complexo em dizer que era a namorada… a ex.

— Sempre lhe disse que isso era um assunto só dela. Não tinha de andar a justificar-se a ninguém.

— Ela não se justificou. Quis saber se isso me deixava desconfortável. Eu disse-lhe que não. Era irrelevante. Tal como disseste, o importante é que a Íris seja feliz.

— O que achas da Ashley?

Gabriel encolheu os ombros.

— Não a conheço para além daquilo que a Íris me conta. Antes de virmos, só a tinha visto uma vez quando fui jantar a casa delas.

— Sei que a Íris está muito feliz com ela, mas o facto de a Ashley não se querer assumir… Receio que termine mais tarde ou mais cedo.

Sem a encarar e voltando a olhar para o mar escurecido, Gabriel retorquiu:

— Eu disse-lhe que aproveitasse o momento. Ninguém pode prever o futuro e o fim das relações podem surgir quando menos se espera. Sei do que falo.

— Estás a referir-te ao que aconteceu entre nós?

Nesse momento, Íris e Ashley regressaram da beira-mar. Ele não respondeu à questão, ignorando-a. Ao invés, vestiu a t-shirt dos Maple Leafs. Olga não insistiu e enfiou-se no seu vestido. Começaram a dobrar as toalhas enquanto as jovens também se vestiam.

A viagem de regresso foi silenciosa, somente com o som do rádio baixinho a fazer ambiente. Ninguém falou, nem houve conversas partilhadas.

Olga parou em frente ao hotel.

Gabriel sentia um misto de vontades, tanto se queria afastar como lhe custava fazê-lo. Contudo, logo que a Audi se imobilizou, ele abriu a porta e saiu. Íris fez o mesmo atrás de si. Ele sorriu-lhe e ela abraçou-o em despedida. Olga também saiu do carro e contorno-o para se aproximar deles.

— Faz boa viagem, Arco-íris.

— E tu vê se desfrutas das férias.

— Vou ficar pelo hotel, conhecer a piscina.

Ela sorriu.

— Ou alguma hóspede interessante.

Ele retribuiu o sorriso, entrando no espírito brincalhão.

Olga acercou-se deles.

— Se quiseres, posso fazer-te companhia, na ausência da Íris. — ofereceu-se. — Posso dar-te o meu número, se quiseres ligar e combinar alguma coisa.

Gabriel teve vontade a mandar dar uma curva. Porém, não seria indelicado, muito menos diante de Íris para com a sua mãe. Para além disso, viu o olhar amêndoa da sua amiga numa expressão de “dá-lhe uma oportunidade”. Pegou no telemóvel e marcou os números que Olga lhe ditou sem a mínima intensão de lhe ligar.

Por fim, tornou a abraçar Íris com dificuldade em soltá-la. Trocaram dois beijos.

— Diz qualquer coisa, quando chegares a Londres.

Íris anuiu.

Gabriel baixou-se e acenou um adeus a Ashley que permaneceu no interior do carro, indiferente às despedidas.

Olga ficou à espera que ele lhe desse um beijo, tinha esperança que se pudesse dar mais um passinho na reconciliação das feridas do passado. Gabriel limitou-se a um aceno distante e virou-lhes costas, seguindo para o átrio do hotel.

XXIII

 

O dia seguinte foi um autêntico tédio. A noite fora dormida aos tropeções, ainda afectado pela diferença horária, e a manhã passada na piscina. Perto da hora de almoço, a falta de paciência era notória, agastado com o constante ruído das crianças à volta da água. Ao início da tarde, Íris mandou-lhe uma mensagem a informar que aterrara em Londres e que a viagem correra bem. Para Gabriel, a tarde na piscina não era hipótese, ainda se arriscava a afogar alguém, nem tão pouco seguir a sugestão de Olga e telefonar-lhe. A opção foi passear por Lisboa.

Pensou em alugar um carro, mas não tinha vontade de se meter a conduzir no trânsito lisboeta, muito menos iria usar os transportes públicos, nem em Toronto o fazia. Não tinha nenhum lugar previamente pensado, mas sentia alguma curiosidade em regressar ao lugar onde vivera nos anos que antecederam a sua ida para o Canadá, o Parque das Nações. Gostaria de dar uma espreitadela ao seu bairro, à rua e ao prédio. Como também não colocou como hipótese usar o serviço de um táxi, a decisão final foi requisitar um Uber pela app do seu smartphone.

A tarde quente pareceu-lhe mais forte que a anterior que passara na praia. Talvez tivesse sido o efeito costeiro e o vento que atenuaram esse calor. Ali, apesar de junto ao rio, no sector da antiga Expo98, a temperatura era alta. O Uber deixou-o na sua antiga morada. O prédio tinha uma cor diferente. Aquele que fora o seu apartamento mostrava na varanda brinquedos pertencentes a uma criança. Não havia muito mais para ver por ali, foi só mesmo a curiosidade de voltar ao lugar. A recordação de Olga naquela época invadiu-lhe o pensamento. Recriminou-se por isso, pois era a recordação de um tempo feliz que não passara de uma mentira. Um sorriso irónico despontou-lhe no rosto. Para que queria ele recordar a farsa que fora esse tempo? Atravessou a rua como quem se dirigia à entrada, mas o seu intuito fora passar para o lado sombra da rua. Nem tudo fora falso há mais de década e meia, Íris não fora uma mentira.

Caminhou devagar pelo passeio, alheado da realidade. Já não tinha dúvidas, o corte com a pequena Íris fora o que o marcara mais. Ele tinha uma enorme cumplicidade com a criança, o que se confirmou com a mulher que crescera nela, ao revê-la. Todos aqueles anos julgara ter sofrido com a separação de Olga, mas sem que o conseguisse explicar, fora a perda de contacto com a menina que o ferira, um corte profundo na sua alma por nem lhe ter sido permitida uma despedida.

Prosseguiu para sul, rumo à margem do rio, ao passeio largo que contornava o lado ribeirinho do Parque das Nações. Afastou Olga da sua mente e concentrou-se em Íris. Não queria que ela voltasse a afastar-se da sua vida. Sentiu uma espécie de alívio com a certeza de que ela continuaria no Canadá, agora que tinha um emprego. Quando voltasse, estava decidido a não permitir que passasse tanto tempo sem se verem, era absurdo que não aproveitasse o facto de ela estar a viver a uma hora de avião de Toronto ao invés de estar no lado oposto do oceano. Nem sequer iria deixar que qualquer desconforto que a inglesa sentisse pela sua presença servisse de justificação para Íris e Gabriel não estarem mais tempo juntos.

Uma leve rajada de vento atingiu-o, ao parar perto do gradeamento paralelo ao rio Tejo. Ao contrário do que sucedera quando a conhecera, Gabriel notou que Ashley já não se mostrava tão simpática para com ele, optando por uma relação cordial de serviços mínimos. Não tinha dúvidas de que aquela despedida no apartamento de Montreal entre ele e Íris o marcara com uma cruz para Ashley. A inglesa podia não perceber português, mas o seu instinto deveria ter desconfiado e até percebido o momento em que ambos declaram o amor que sentiam um pelo outro, mesmo que esse amor nada tivesse para além de uma amizade muito forte.

A arborização do local oferecia sombras agradáveis para atenuar o calor. Era dia de semana, mas viam-se muitas pessoas a passear por ali, essencialmente turistas. Fora uma surpresa para si, não se lembrava de Lisboa ter um fluxo turístico tão grande.

Atravessou todo o Parque das Nações a caminhar até ao seu limite ocidental, desfrutando da vista, da tranquilidade… Era a terra onde nascera, mas tinha a certeza que não trocaria Toronto por Lisboa, talvez não trocasse Toronto por nenhum outro lugar. A cidade adoptara-o, adorava tudo lá. Teria de haver um motivo de força maior, uma força muito grande que o fizesse abraçar uma mudança dessas.

Parou perto daquilo que um dia fora o projecto de uma marina para as carteiras recheadas dos habitantes do bairro. Naquele momento, não passava de um cais abandonado. Tornou a pensar em Íris e na certeza de que ela continuaria em Montreal.

Gabriel também gostava muito de Montreal. Iria tornar mais frequentes as suas viagens à cidade. Lá iria ficar no hotel caro do costume. O dinheiro não era problema, há muitos anos que não o era, há muitos anos que ganhava mais que aquilo que conseguia gastar. Talvez decidisse comprar um segundo apartamento em Montreal, outro para além do que secretamente comprara para Íris. Seria mais tranquilo que o hotel, mais privado. Planearia passar lá algumas temporadas, não se cingir a um fim de semana ou meia semana de estadia. Poderia coordenar o seu trabalho a partir de qualquer lugar e a privacidade do apartamento também permitia que ele contratasse um dos dez nomes para o acompanhar algumas vezes. Sim, parecia-lhe um bom plano para o futuro. Claro que tentaria não ser uma presença cansativa na vida de Íris, não aparecer demasiadas vezes, mas conviver muito mais que aquilo que acontecera nos últimos nove ou dez meses.

Quando pegou no smartphone para chamar o Uber que o levaria de regresso ao hotel, estava decidido a colocar o plano em marcha logo que retornasse a Toronto. Porém, não contaria nada a Íris, seria uma surpresa.

No final daquele dia, Gabriel estava farto da estadia em Portugal e desejoso de voltar a Toronto. Não fosse por Íris e teria regressado no primeiro voo disponível.

Na manhã seguinte, viu-se perante o dilema do que fazer para passar o tempo. A solidão ganhara novos contornos, uma vez que a angústia e depressão pareciam ter ganho nova intensidade por se encontrar fora do seu habitat diário. Seria extremamente entediante permanecer no quarto do hotel, mesmo que fosse descontraidamente na varanda com vista para a linha fluvial ou estendido na cama a ver qualquer canal dos states. Ir para a piscina também dispensava, demasiados putos barulhentos. Por causa disso, nem teve vontade de sair da cama, quando acordou. Porém, até o estar deitado o cansou e acabou por se levantar num impulso irritado.

Tomou um duche, vestiu uma roupa veraneante aleatória e foi até à varanda observar a paisagem. Perdera o intervalo de tempo em que serviam o pequeno-almoço, mas não tinha o mínimo apetite. Ainda se questionava acerca do planeamento do seu dia, quando o telefone do quarto tocou.

Atendeu sem evitar falar num tom rude, quase antipático. Ouviu uma voz feminina pedir desculpa pelo incómodo.

— Não tem importância. — respondeu Gabriel, ciente que fora desagradável a atender. — Eu é que peço desculpa pela forma como atendi.

Ouviu um sorriso do outro lado da linha.

— Está aqui uma senhora para falar consigo, senhor Gabriel. — informou a voz.

— Uma senhora?

— Sim. Senhora Olga.

Gabriel suspirou. Não esperava aquilo. O seu primeiro pensamento foi pedir à recepcionista que a mandasse ir bugiar. Porém, apesar de ser a “Olga” de quem ele queria distância, ela era a mãe da sua amiga. E por muita razão que pudesse ter, seria natural que Íris ficasse magoada consigo se soubesse que ele se recusara a falar com a mãe dela, tendo esta ido propositadamente ao hotel.

— Quer que passe o telefone? — sugeriu a rapariga, perante a ausência da voz dele.

— Diga-lhe que eu desço já.

Que viera ela fazer? Dera-lhe o número de telemóvel. Se ele a quisesse ver ou falar com ela ter-lhe-ia telefonado.

Não tinha a mínima vontade de a ver, talvez fosse a última pessoa com quem lhe apetecia estar. Por consideração a Íris, iria encontrar uma forma educada de a mandar à merda.

Saiu do quarto e desceu no elevador a interrogar-se qual seria o objectivo dela. Que pretendia Olga em aparecer no hotel onde estava hospedado? Se calhar, queria companhia para ir à praia. Que fosse com o pai de Íris! Afinal, há dezasseis anos, fora por ele que ela o abandonara.

Olga aguardava no átrio do hotel, em pé com os braços cruzados e o olhar distraído. Usava um vestido verde fresco comprido de cintura justa, sem qualquer decote e sem mangas. Ao vê-la, Gabriel teve um misto de emoções, uma sensação de atracção pela figura feminina e repulsa pela pessoa em si.

— Bom dia, Olga! — cumprimentou frio.

— Bom dia, Gabriel! — retribuiu ela, sorridente sem esforço em ser agradável.

— Que fazes aqui?

Olga captou a antipatia dele, era evidente que não estava satisfeito em a ver. Porém, ela ignorou isso, ia com uma missão e não desistiria à primeira contrariedade.

— Vim convidar-te para darmos um passeio. Eu estou de férias, tu estás de férias… A Íris não está cá. Calculei que estivesses sem planos, tal como eu. Pensei em juntar o útil ao agradável e fazermos algo juntos.

Gabriel fez um sorriso irónico.

— O que te leva a pensar que quero fazer o que quer que seja contigo? — O tom era rude, mas baixo para evitar chamar a atenção para aquilo que se poderia tornar numa discussão. — Só tenho sido cordial contigo por respeito à Íris. Caso contrário nem te dirigia a palavra.

O sorriso no rosto de Olga esfumou-se. A postura dele não a surpreendia, mas a frontalidade era a confirmação que muito do passado continuava a ser uma ferida aberta entre eles.

— Eu percebo, Gabriel. Aliás, percebi logo na forma como respondeste ou deixaste de responder às minhas mensagens. — Gabriel atirou-lhe uma expressão de “então que fazes ainda aqui?”. — Gostava que pudéssemos ter uma conversa franca acerca do que aconteceu. Eu sei que errei. Errei em ter provocado o fim da nossa relação, errei em te ter enganado e, acima de tudo, errei em ter-te privado de te despedires da Íris.

— Nada disso tem volta, Olga. Parece-me desperdício de tempo, essa conversa.

— Pois a mim não. Além disso, não creio que tenhas nada melhor para fazer. — Voltou a sorrir, tentando ser afável. — Vá lá, Gabriel. Vamos tomar um café a qualquer lado.

Ele não recusou logo, ponderando a sugestão.

— Podemos tomar aqui no bar do hotel. É um sítio tão bom como qualquer outro.

Olga concordou. Preferia um outro lugar, mas era melhor que nada.

O bar estava vazio, ainda era cedo e àquela hora era raro encontrar hóspedes por ali. O espaço era formado por um balcão longo, algumas mesas com cadeiras e uns sofás individuais acompanhados por mesas baixas entre eles. A claridade provinha da parede envidraçada que dava acesso à esplanada. Todo o lugar alternava as cores entre o preto e o branco.

Gabriel entrou e indicou a Olga que escolhesse um lugar. Confiante e segura de si, ela avançou para os sofás e sentou-se num. Ele ocupou o do lado oposto.

Um funcionário impecavelmente fardado surgiu de uma porta atrás do balcão, atravessou as mesas e acercou-se deles, cumprimentando‑os e oferecendo-se para lhes servir algo. Gabriel respondeu pelos dois, pedindo os cafés, quase como se dissesse “traga lá isso para ver se esta gaja se vai embora”.

Ficaram a olhar um para o outro.

— Então? — questionou ele. — Aqui estamos. Podes começar a falar sobre o que querias dizer-me.

— Antigamente eras mais cortês. — retorquiu ela.

— Sim. Contigo era muita coisa que jamais voltarei a ser. Cortês é uma delas.

O funcionário trouxe os cafés e depositou-os na mesinha entre eles. Gabriel seguiu-lhe os movimentos, mas não conseguiu evitar um olhar aos pés dela, os quais estavam no seu ângulo de visão. Olga calçava sandálias e, tal como as das mãos, tinha as unhas muito bem pintadas.

Olga não gostava de estar naquela posição, quase subserviente, aceitando a rudeza dele com estoicismo. Ele era amargo a falar com ela, mas isso não a fazia desistir, mesmo que se sentisse vulnerável. Sempre fora consciente do seu valor, não precisava de mendigar afecto, só queria que ele lhe desse uma oportunidade de serem amigos, compensá-lo pelo mal que lhe fizera, recompensá-lo pela pessoa maravilhosa que cuidara da sua filha no estrangeiro. Por isto tudo, estava quase na disposição de se deitar no chão e deixá-lo pisá-la, se ele assim quisesse.

— Eu agi muito mal contigo, quando terminei a relação. — começou por dizer, logo que bebeu o café. — Não tive em conta os sentimentos de mais ninguém para além dos meus. Nem sequer tive o cuidado de não fazer a Íris sofrer. Naquela altura, acho que me deixei levar pelo instinto… — Interrompeu-se, procurando as melhores palavras. Gabriel observava-a impávido, limitando-se a ouvir e a saborear o café. — Nunca me passou pela cabeça que a Íris tivesse uma ligação tão forte contigo. Nunca achei que quisesses ocupar o lugar do pai…

— E nunca quis.

— Sim, eu sei. Talvez por isso, achei erradamente que nenhum de vocês sofreria ao afastarem-se. Fui cruel e admito que não mereço perdão por te ter privado de te despedires dela. — Passou a mão pelo cabelo, nervosa, indefesa. — Mas, não creio que não possamos ultrapassar o fim da relação e, ao fim de todos estes anos, pudéssemos voltar a ser amigos.

Gabriel atirou-lhe um sorriso de escárnio e depositou a chávena vazia com o pires na pequena mesa.

— Para que queres ser minha amiga, Olga? Nem sequer vivemos perto um do outro. Não percebo que importância isso possa ter. Consegui apagar-te da minha vida, bem como às cicatrizes que me deixaste. Não vejo qualquer benefício, seja para mim ou para ti, em que sejamos amigos.

Olga permaneceu séria, encarando o seu olhar sem receio.

— Sempre me trataste bem. — retomou ela. — Foste um companheiro maravilhoso nos dois anos que estivemos juntos. Nesse tempo, foste um bom amigo da minha filha. Eu tratei-te mal. Mesmo assim, quinze anos depois, tu recebeste a minha filha em tua casa, ajudaste-a a instalar-se, cuidaste dela, ajudaste-a a organizar a vida em Montreal…. Ser-te-ei grata para o resto da vida. Só não farei por ti o que não esteja mesmo ao meu alcance. — Fez uma pausa, procurando uma reacção. Ele permaneceu igual a uma pedra. — Tudo o que tu fizeste só confirma algo que nunca duvidei, que tu és um ser humano maravilhoso. Não é fácil encontrar pessoas como tu, são raras. Estupidamente, abdiquei de ti, perdi o companheiro e o amante. Gostava de conseguir recuperar o amigo. Sim, estás quase no outro lado do mundo. E então? Também a minha filha estará e eu não deixarei de ser mãe dela.

Gabriel permanecia imóvel, contudo a sua mente analisava tudo. Não nutria nada por ela, nem sequer a raiva ou o desprezo que imaginara. Olga era-lhe indiferente. Queria ser sua amiga? Logo que ele regressasse ao Canadá, ela voltaria a ser apenas mais um contacto no seu telemóvel, tão insignificante quanto tantos outros, alguém que se não dissesse algo ele nem se lembraria que existia. Talvez isso também fosse exagero, Olga era mãe de Íris. Lembrou-se como se sentira entediado no quarto por não ter nada que fazer. Há década e meia, ela usara-o. Ele bem que a poderia usar para ocupar o tempo.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

E ali nem precisava de gastar um cêntimo.

 

— Não te guardo rancor. — mentiu. — Guardei em tempos, mas há muito que ultrapassei isso. — tornou a mentir. — Também não sou talhado para amizades, deixei-me disso.

— Porquê?

— Porque não te guardo rancor?

— Não. Porque não tens amizades?

— Não preciso.

— Não acredito, Gabriel. Todos nós precisamos de amigos.

Ele abanou a cabeça.

— O que todos precisamos é de dinheiro e saúde.

— Concordo contigo, mas não precisamos só disso.

— A mim chega-me, Olga.

— Não precisas de amor? — questionou ela, em provocação. — Todos precisamos de amor. Se bem me lembro, tu apreciavas o amor.

Novo sorriso irónico dele.

— Outros tempos. O amor é um serviço que podes adquirir.

— Não digas isso! — exclamou chocada. — O amor não se compra.

— Tudo se compra, Olga, tudo tem um preço.

— Não concordo contigo. Jamais amaria alguém por dinheiro.

— Tu não, mas há quem o faça. — insistiu ele, revelando menos amargura na voz. — Por exemplo, tu não aceitas que te paguem para… sei lá, matar alguém.

— Credo!

— Ouve. Tu não aceitas. Mas, há assassinos profissionais.

— Meu Deus, onde esta conversa nos está a levar?!

— Estou apenas a demonstrar-te que o meu ponto de vista é real. Podes não aceitar que as coisas sejam assim, mas na verdade, tudo se compra, excepto a saúde. Se não tiveres saúde, nem todo o dinheiro do Mundo te pode salvar.

Olga pareceu concordar, era a área dela. Adicionou:

— E se houver cura, serão os endinheirados que a terão.

— Exacto.

— Sim, tens razão. Se não fossem os patrocínios e os donativos milionários, as nossas investigações científicas ficariam comprometidas. Em muitos casos, são os próprios laboratórios que nos patrocinam com a premissa de que a patente será deles.

— Eu já era rico, quando nos conhecemos. — lembrou ele, sem que as suas palavras tivessem o objectivo de se vangloriar. — Hoje sou muito mais. Todo esse dinheiro… — Calou-se com o olhar perdido numa recordação. — Dou por mim a pensar que posso comprar qualquer coisa. Trocaria todos os dólares pelo retorno da Rachel.

A confusão ficou expressa no rosto de Olga. Gabriel percebeu que estava a abrir-se à última pessoa do Universo a quem o quereria fazer.

— Quem é a Rachel? — perguntou ela, meio receosa do assunto onde poderia estar a tocar.

— A Íris não te contou?

— A Íris não partilha nada sobre ti. — disse com algum ressentimento. — Sempre afirmou que não falava de mim contigo, por isso, não falava de ti comigo.

Ele anuiu, dando sinal que concordava com essa posição. Por vezes, questionava-se se Íris não seria bem mais madura que ele e a mãe.

— A Rachel era uma mulher especial com quem tinha uma relação. — relatou já sem se importar por o estar a fazer com Olga. — Estávamos a fazer planos para viver juntos. — Gabriel formou uma carapaça invisível à mágoa que a recordação lhe trazia. Falava como se contasse algo sobre a vida de outras pessoas. — Ela vinha viver comigo para Toronto, mas o avião onde ela vinha despenhou-se e… — As palavras morreram-lhe nos lábios.

— Meu Deus! — exclamou Olga boquiaberta. — Lamento, Gabriel! — Tinha vontade de se levantar, aproximar-se dele e apertá-lo num abraço. — Não fazia ideia…

— Foi por isso que vim. — continuou Gabriel, vertendo as frases tal como fazia nas sessões com Phil. — Precisava de me afastar de Toronto por uns tempos.

— Fizeste bem. E ainda bem que vieste.

— Para te ser sincero, já me arrependi mil vezes.

Olga não se manifestou e olhou para o exterior. Sabia que poderia alimentar o assunto para que continuassem a conversar ou modificar o tema e ganhar o seu interesse por o ajudar a desanuviar daquela aura negra que se abatera sobre ele com a recordação daquela mulher especial.

— Está um dia muito bonito. Adoro o Verão. — disse ela. Voltou a olhar para Gabriel. — Achas que podemos esquecer o que aconteceu entre nós por uns tempos? Sei lá, pelo menos, não pensar nisso. Deixa‑me levar-te a passear, espairecer… Faz um pausa nessa indiferença que já referiste sentir por mim. Só por hoje. Depois, se nunca mais quiseres falar comigo, eu prometo que não volto a impor-me a ti.

Gabriel nada tinha a perder. E por mais que lhe desagradasse, ela tornara-se a sua melhor solução para passar o tempo.

— Que tens para oferecer?

A pergunta fez despontar um sorriso sincero no rosto dela. Olhou para o relógio.

— Sei de um bom sítio para almoçarmos.

O almoço agradável fora num restaurante em Carcavelos, um lugar que Olga deveria frequentar com alguma regularidade pela forma como os funcionários falavam com ela.

Quanto mais tempo passava, mais Gabriel constatava que a presença dela era suportável, ao contrário daquilo que acreditara em todos os anos no Canadá, que seria impossível partilharem o mesmo espaço sem discutirem. Contudo, ele tinha a clara noção que a companhia dela era uma solução de recurso para quem não tinha nada melhor que fazer.

Por seu lado, Olga estava genuinamente feliz por o ter ali perto de si e receptivo a conviver com ela. Desde que o vira na chegada ao aeroporto, a cada minuto que passava, ela tinha mais certeza de como fora estúpida em ter aberto mão do seu amor. Fosse por nervosismo ou mero receio que uma pausa na conversa o fizesse desaparecer, Olga falava bastante, essencialmente sobre si e sem grandes perguntas sobre ele, deixando-o livre para dizer só o que quisesse sem pressões. Também evitou assuntos como o passado deles. Durante todo o almoço, o tema foi a sua vida profissional, um relato animado da vida de uma investigadora científica. Aquilo interessava tanto a Gabriel como a nidificação das aves no Alasca, mas teve a educação de se mostrar interessado.

Enquanto a ouvia, Gabriel questionava-se até onde iria o interesse dela nele para se dispor a fazer-lhe companhia, a levá-lo a passear e a querer estar consigo. Seria somente uma disponibilidade por se sentir grata por tudo o que ele fizera pela filha no Canadá ou haveria algo mais? Sem nada melhor para fazer, decidiu explorar a questão.

Após o almoço, Olga encarou-o melosa e entregou-lhe a decisão do que fazer a seguir:

— Queres continuar comigo ou preferes que te deixe no hotel?

Até onde queres ir, Olga? Gabriel sentiu-se curioso daquilo que poderia retirar dela, como se fosse tudo um jogo. Olhou-a num fingido ar sedutor e respondeu:

— Estou por tua conta, mas não quero incomodar.

— Jamais me incomodarias. — retorquiu ela, tocando-lhe no braço. — É um prazer estar contigo.

Gabriel fingiu não perceber a investida.

Saíram do restaurante e caminharam em silêncio até à carrinha Audi. Olga não tinha uma ideia em concreto do lugar onde o levar, na verdade, duvidara muito que conseguisse convencê-lo a ouvi-la, quanto mais a chegar ali.

— Algum lugar onde gostasses de ir?

Para Toronto. Mas não me parece que o teu carro me leve até lá. Forçou um sorriso e encolheu os ombros.

— Estou receptivo a sugestões.

Foi a vez de Olga sorrir, disfarçando o pensamento que lhe passou pela mente. Por mim, íamos para minha casa recordar os velhos tempos.

Sem dizer nada, Olga ligou a ignição do carro, ponderando as hipóteses. Esteve quase a sugerir um lugar onde eles iam muito, quando estavam juntos, mas o instinto alertou-a que se deveria abster de situações que pudessem trazer recordações da época que ele já lhe repetira querer esquecer.

— Gosto muito de ir a Troia. Que me dizes? Não te importas de andar de carro e depois de barco? Tomamos uma bebida fresca em Troia. Está muito diferente, desde que foste para o Canadá.

— Por mim, tudo bem.

A tarde estava quente, muito quente mesmo. Olga conduziu ao longo da Avenida Marginal, desde Carcavelos até Lisboa. Teria sido mais rápido seguir para norte e escolher a autoestrada A5 até à capital, desviando depois no IP7 para sul e entrando na Ponte 25 de Abril. Contudo, não havia pressa e a paisagem por ali era muito mais bonita.

Para não irem em silêncio, Olga escolheu uma rádio e aumentou o volume para que a música fizesse ambiente. Por vezes, dava por si a cantarolar e olhava para Gabriel envergonhada. Ele sorria em resposta. Parecia incrível que aquilo estivesse a acontecer e Olga sentia uma felicidade que se misturava com ansiedade e um nervoso miudinho. Onde iria acabar aquele dia?

Ao passar Algés, continuou por Belém. Não havia muito trânsito àquela hora e a circulação fazia-se com calma e tranquilidade. Prosseguiu ao longo da margem do rio Tejo até Alcântara, onde desviou para atravessar o pequeno viaduto sobre a linha ferroviária e continuar rumo à Avenida de Ceuta, onde faria inversão de marcha junto da estação Alcântara-Terra. Novamente para sul, virou no acesso para a Ponte 25 de Abril.

Olga aumentou a força do ar condicionado do carro. Sentia um calor fora do normal. Quisera puxar a saia do vestido até às coxas, mas refreou a vontade, calculando que isso lhe daria um ar vulgar aos olhos dele. O Sol incidia com força neles e, pela posição do veículo, era Gabriel quem estava mais exposto. Porém, ele não dava sinais de perturbação com o calor.

Gabriel ia fazendo um ou outro comentário. Não tinha dúvidas de que ela queria agradar-lhe, daí que fizesse o papel de quem estava agradecido por ela ter aparecido.

— Costumas vir muito para estes lados?

Olga fizera aquela travessia algumas vezes no último ano. Tinha um amigo… alguém que vivia em Almada e com quem se encontrava para sexo sem compromisso. Claro que não partilhou isso com Gabriel.

— De vez em quando.

Gabriel olhou-a, curioso, esperando algo mais que aquilo. Ela não correspondeu à sua curiosidade e mudou de assunto:

— Há praias em Toronto?

— Temos um grande lago. — respondeu. — O lago Ontário.

— Sim, a Íris contou-me que o teu apartamento tem uma vista fascinante para o lago.

— Não te sei dizer se há praias. Deve haver… Nunca foi coisa que me interessasse.

— Um dia gostava de conhecer Toronto. — confessou sem pensar. Apercebeu-se que poderia estar a parecer oferecida e corrigiu: — E Montreal. Principalmente, Montreal. A Íris fala tanto da cidade, diz que é uma maravilha.

— Montreal é uma cidade muito bonita. — concordou Gabriel, ignorando a referência a Toronto. — Estou certo de que terás oportunidade de visitar a Íris e conhecer a cidade.

Mas não de me visitar a mim e conhecer Toronto. Jamais te quereria lá por perto.

— Foi uma grande oportunidade que apareceu a Íris. — lembrou Olga com alguma mágoa na voz. — Um emprego com um óptimo salário e num país que, por mais patriotas que sejamos, temos de reconhecer ser muito mais evoluído que Portugal.

— Sim, nisso não há dúvidas.

— Tenho pena que ela fique a viver tão longe de mim. Mas, sei que é o melhor para ela.

— Compreendo.

Olga forçou um sorriso.

— Seria pior se ela estivesse sozinha. Contigo por perto sinto-me mais descansada.

— Não estou assim tão perto. Ainda é uma hora de avião.

— Comparado comigo…

— Sim, isso é verdade.

Percorreram a autoestrada A2 até à encruzilhada com a autoestrada A12. Olga desviou na saída com a placa “Setúbal”. O desvio levou ao último troço de autoestrada que desembocava a norte da cidade. Logo na enorme rotunda existiam placas a assinalar a direcção do caís do ferry que fazia a ligação entre a cidade sadina e a península de Troia.

— Podemos ir de carro no ferry ou deixar o carro na cidade e viajar no barco que atraca mesmo na zona principal.

— Não vão os dois para o mesmo sítio?

— Desde as obras que não. — Olga sorriu. — Como te disse, no teu tempo aquilo estava diferente. — Sem ter tido essa intenção, Olga recordou-se de um passeio que haviam feito com a pequena Íris à península. — Os barcos que transportam carros atracam mais atrás, no caís sul. Os outros, só com pessoas, é que atracam no caís norte junto à zona principal de Troia.

— Por mim, podemos deixar o carro.

— O barco deixa-nos logo no centro. E estacionar lá não é propriamente fácil.

Perto da margem do rio Sado, logo que se avistava Troia ao longe, Gabriel notou as diferenças. As torres de que se lembrava já não existiam e outras novas haviam crescido no seu lugar.

Olga estacionou a carrinha Audi num parque de estacionamento perto do caís que servia essencialmente os utentes do barco. Saíram do veículo e Gabriel deixou-se encaminhar para a zona onde iriam comprar os bilhetes. Olga não o deixava pagar nada, apesar da sua insistência.

As embarcações que faziam a travessia eram verdes numa tonalidade garrida que num dia de Sol ainda brilhava mais. Embarcaram num que acabara de chegar, logo após o desembarque dos passageiros que regressavam da península. Um portão fazia a divisória entre quem chegava e quem iria partir.

No barco, subiram as escadas e sentaram-se no sector coberto, junto à amurada. Era uma verdadeira tarde de Verão, mas àquela hora não havia muitas pessoas a atravessar o rio.

— Acho que nunca atravessei o Sado de barco.

— Comigo nunca. Aquela vez em que fomos a Troia com a Íris… — Olga calou-se, sentindo que entrara em terreno proibido.

Gabriel percebeu, mas demonstrou o contrário.

— Não me recordo disso. — mentiu. — Já foi há tanto tempo.

— Fomos de carro por Alcácer e pela Comporta. — recordou, meio receosa.

Gabriel assentiu, continuando a mentir:

— Acredito em ti. Não me lembro de termos cá vindo.

Conforme o barco se afastava da cidade, a intensidade do vento aumentava, fazendo o cabelo comprido de Olga esvoaçar, acabando por acertar no rosto de Gabriel.

— Ai… Desculpa.

— Não faz mal. — Gabriel aproveitou a oportunidade para o seu jogo. — O teu cabelo cheira muito bem.

Ela fez um ar alegre, meio envergonhado.

— Obrigada.

Olga procurou disfarçar como ficara lisonjeada com o comentário. Sentiu uma esperança quase juvenil de que pudesse acontecer algo entre eles, algo de bom, algo de sentimental, algo carnal… algo sexual.

Gabriel percebeu que acertara no alvo, ao fazer o elogio. Aos poucos, ele ia lançando o isco, ela dava abertura. Estava decidido a ir avançando aos poucos, a insinuar-se cada vez mais, perceber até onde ela estaria disposta a ir. Sem dar qualquer sinal que o denunciasse, Gabriel teve total certeza que tinha vontade de ir para a cama com ela. Não, não queria nenhuma reconciliação, o reavivar dos sentimentos de outrora, nada que fosse para além de uma queca. Resumindo, queria voltar a fodê‑la, só isso.

Conforme o tempo ia passando, Olga ia notando que Gabriel estava cada vez mais amistoso, simpático e afável. Parecia querer reaproximar-se. Ela procurou não alimentar muitas esperanças para não se desiludir. Antes de ter chegado ao hotel numa tentativa de se aproximar, Olga estava certa de que Gabriel não a suportava. Contudo, algo mudara ao longo das últimas horas. Não fazia ideia de onde aquele dia a levaria, mas estava receptiva a tudo ou quase tudo. Quem sabe, talvez pudessem encontrar um novo caminho a percorrer em conjunto…

O barco atracou no caís de Troia.

A viagem fora calma e eles desembarcaram ao ritmo dos poucos passageiros. Percorreram o caís até à saída e foram dar à zona comercial defronte da marina. Caminharam pelo passadiço, entre as esplanadas e os edifícios, e escolherem uma mesa longe do sector mais concorrido de gente. Sob a protecção de um grande guarda-sol, sentaram-se frente a frente.

Uma rapariga de sorriso fácil e com vestes identificativas do estabelecimento correspondente às mesas aproximou-se para saber o que desejavam tomar. Gabriel gostaria de beber um whisky, mas não lhe pareceu bem uma bebida daquelas para a ocasião, pelo que optou por uma cerveja bem fresca. Olga pediu um copo de vinho branco o mais gelado possível.

A brisa vinda do mar era agradável para atenuar o efeito da temperatura. Ambos usavam óculos-escuros, mas Olga queria poder ver as expressões no olhar dele e tomou a iniciativa de levantar as lentes para a cabeça, usando-os como uma espécie de bandolete. Gabriel não a decepciou e retirou os óculos, pousando-os na mesa, ao lado do cinzeiro que nenhum deles iria usar.

— Este lugar é bem agradável. — comentou Gabriel. — Costumas vir aqui muitas vezes?

— Uma vez ou outra.

— Temos alguns sítios assim, em Toronto, junto ao lago. Talvez mais parecidos com a zona ribeirinha de Lisboa que com isto.

— Eu gosto muito de Troia e das praias da Arrábida. — partilhou Olga. — Mas, vir para aqui ao fim de semana torna-se complicado, de carro é uma viagem longa e de barco não é nada comparado com o que viste, vem muita gente.

A rapariga regressou com a cerveja e o vinho branco. Colocou o talão com a conta defronte de Gabriel. Ele antecipou-se a Olga e entregou uma nota à rapariga.

— Fique com o troco. — ofereceu.

— Eu queria pagar. — lembrou Olga, fazendo uma expressão aborrecida fingida, enquanto a funcionária se afastava.

— Não aceitei o teu convite para te explorar.

Olga sorriu.

— Eu sei.

Gabriel bebeu um pouco da cerveja, olhando para o estuário. Decidiu que estava na hora de novo avanço.

— Estás com alguém?

Ela surpreendeu-se com a pergunta, mas agradou-lhe. Por norma, quando um homem pergunta pela existência de outro homem é porque quer saber se tem caminho livre.

— Não.

— Voltaste a separar-te do teu marido?

O assunto não era confortável para Olga, uma vez que a verdade só serviria para uma admissão de culpa em como fora estúpida em ter desperdiçado a pessoa que estava diante de si.

— Há muitos anos. — respondeu como se falasse de uma memória distante e irrelevante.

Como ela não desenvolveu, Gabriel insistiu:

— Não ficaram juntos, depois da nossa separação?

Gabriel sabia o que acontecera, Íris contara-lhe, fora das poucas coisas em relação à mãe que ela lhe contara.

Olga abanou a cabeça, desviando o olhar.

— É nesta altura que me vais fazer sentir estúpida.

— Porquê? — questionou ele, protagonizando um papel de falsa ingenuidade. — Que aconteceu?

— Não durou muito tempo, a reconciliação. O que nos fizera afastar na primeira vez repetiu-se na segunda. E dei por mim a sentir-me uma estúpida por te ter afastado.

— Acontece. — retorquiu ele, encolhendo os ombros, como se tudo não tivesse tido a mínima importância para ele. — Não tinha que ser, entre nós.

— Ainda hoje o lamento! — afirmou séria, cravando o olhar nele.

Gabriel também o lamentava, talvez não da mesma forma. Ela sabia que errara, mas isso não emendava o facto da forma insensível como Olga o escorraçara da sua vida, dezasseis anos antes.

— Podes não acreditar, mas quando me voltei a separar, pensei em voltar a procurar-te. Mas o tempo que passara… E a forma como acabámos… — Forçou um sorriso. — Não sabia que estavas no Canadá. — Encolheu os ombros e bebeu um pouco de vinho. — Fosse como fosse, acabei por tomar a decisão de não voltar a envolver-me numa relação com ninguém. — Tornou a sorrir, meio envergonhada. — Não me tornei freira.

— Seria um desperdício. — ripostou Gabriel, dizendo-lhe as coisas que calculava que ela gostaria de ouvir.

— Achas?

— Tens dúvidas?

— Não. Mas, digamos que me agrada ouvi-lo vindo de ti.

— A minha opinião vale tanto quanto a de qualquer outro homem.

— Para mim, não.

— Porquê?

— Vá lá, Gabriel. Nós temos um passado. — recordou, arriscando tocar na ferida. — Estou com quase cinquenta anos. É bom ouvir um ex dizer que ainda sou atraente.

— Foi apenas um elogio cordial. Sem segunda intenções. — A mentira era óbvia, mas Olga não pareceu importar-se. — O que aconteceu entre nós acabou há muito tempo.

— Eu sei. — concordou ela pouco convencida.

O som da buzina do barco ao longe a aproximar-se do caís captou‑lhes a atenção. Ambos olharam para lá, distraidamente. O calor intenso atenuara ligeiramente com o avançar da tarde. Gabriel voltou a observar Olga e decidiu mudar de assunto:

— Como foi a vida da Íris, ao longo destes anos? — Gabriel tinha muito mais curiosidade por Íris, mas como não o queria revelar, emendou: — A vossa vida?

Olga olhou para o copo de vinho, ponderando a resposta. Teria, sem dúvida, preferido prosseguir no tema anterior, mas nada estava perdido. Num tom casual, começou a falar nos tempos que sucederam à nova separação do pai da filha.

A conversa prolongou-se mais que o esperado. Olga embalara no relato e Gabriel sentia-se confortável em ouvi-la. No entanto, ao ouvir a partida de mais um ferry, Olga olhou para o relógio e sugeriu:

— Talvez seja melhor apanharmos o próximo.

Abandonaram a esplanada. A quantidade de clientes pelas mesas aumentara mais, uma vez que o entardecer se avizinhava e muitos dos banhistas abandonavam a praia para se acomodar por ali ou pelo interior dos bares e restaurantes. Gabriel e Olga caminharam calmamente ao longo da marina e pelo pontão que dava acesso ao caís dos barcos que faziam a travessia do rio Sado. Não tinham pressa, dando tempo a que a embarcação seguinte chegasse a Troia.

O Sol começava a desaparecer por detrás da Serra da Arrábida, quando desembarcaram em Setúbal. Olga percorreu o trajecto até ao seu carro, lado a lado com Gabriel, mas sem dizerem nada de especial.

O regresso a Lisboa demorou mais que o previsto, devido à intensidade de trânsito perto da Ponte 25 de Abril. Ao longo da viagem, Gabriel concentrara-se no telemóvel e não proferira mais que meia dúzia de palavras. Olga concentrou-se na estrada, na música da rádio e na sensação triste de que aquele encontro estava à beira do fim.

O ambiente era crepuscular, no momento em que Olga parou a carrinha Audi defronte do hotel onde ele estava hospedado.

— Chegámos. — referiu só para não ficar silenciosa.

Gabriel olhou para ela. Percebeu que sentia um desejo enorme pelo corpo dela, um desejo semelhante ao que sentia por qualquer um dos dez nomes da sua lista. Sorriu e agradeceu:

— Obrigado por este dia.

— Eu é que agradeço, Gabriel. Foi muito agradável. Pena que tenha terminado tão rápido.

— Tens algum compromisso?

— Como assim?

— Pensei que talvez pudéssemos jantar… — lançou ele, seguro de que lhe estava a atirar as palavras que ela queria ouvir. — Convido eu. Aqui no hotel?

— Adorava. — concordou sorridente. — Convite aceite. Deixa-me só estacionar.

O restaurante do hotel funcionava num espaço diferente àquele onde haviam tomado café de manhã. Não só o interior era luxuoso, como o exterior era convidativo com a ajuda da noite amena e a tranquilidade do rio a correr silencioso. Por opção dele, a mesa escolhida fora no interior.

Neste sector, os tons branco e preto davam lugar ao amarelo e castanho, uma espécie de imitação dourada do ouro. As mesas redondas tinham toalhas quase até ao chão e as cadeiras assemelhavam-se a pequenas poltronas. Gabriel pediu uma que ficasse junto ao vidro com vista para a noite.

Jantaram uma refeição leve, nada de muito elaborado. Olga decidira-se por uma salada mediterrânica e Gabriel por uma amostra de bacalhau para matar saudades de algo que não comia há muitíssimo tempo. Acompanharam a comida com vinho branco, sendo que Olga bebeu pouco mais de meio copo. A conversa continuou com a tranquilidade da tarde. Evitavam-se assuntos que os fizessem regressar ao passado, mas o ambiente de flirt entre eles intensificava-se. Não quiseram qualquer sobremesa e terminaram com um café para ele e um chá para ela.

Olga saboreava o chá lentamente, sabendo que a última gota que bebesse seria o marcar do final daquele momento que lhe estava a saber tão bem. Via o olhar interessado de Gabriel, mas não conseguia ter a certeza se ele, naquele momento, a desejaria tanto quanto ela a ele.

— Parece que a nossa noite está a chegar ao fim. — referiu, bebendo o chá de forma sensual com o olhar nele.

Com a mesma simplicidade e naturalidade de alguém que pergunta a horas, Gabriel questionou:

— Queres subir ao meu quarto? Podemos tomar uma última bebida lá.

O convite surpreendeu-a. Sentiu um formigueiro de excitação pelo corpo. Claro que ela queria, mas tentou refrear o ânimo para não cair num logro.

— Tens a certeza disso? Será só um copo?

Ele encolheu os ombros.

— Acho que será aquilo que nós queiramos que seja.

O olhar de Olga ficou ainda mais sedutor.

— Dispenso o copo, mas agrada-me a ideia de subir ao teu quarto.

Gabriel assentiu quase de forma impercetível e fez sinal ao empregado para que trouxesse a conta.

Não voltaram a trocar mais nenhuma palavra, nem ao sair do restaurante, nem na subida do elevador. Gabriel não tirava os olhos de Olga e ela correspondia com uma expressão reveladora de como lhe agradava o que se avizinhava. Contudo, Gabriel sentia mais que uma atracção, mais que o desejo sexual, ele sentia uma vontade quase animalesca de lhe arrancar o vestido, agarrá-la… Não a queria acariciar, queria apertá-la, morder-lhe, beijá-la com fúria… Queria fodê-la, fodê-la vigorosamente, penetrá-la com raiva, arrebentar com ela… Durante a subida, procurava abstrair-se das imagens que lhe iam na mente, mas não conseguia evitar planear como o queria fazer. Começaria por a despir… Permitiu-se a recordá-la nua nos tempos em que formavam um casal. Ainda teria tudo no sítio? As portas do elevador abriram quando ele mentalmente garantiu a si mesmo que a haveria de possuir por trás. Lembrava-se como ela gostava de o fazer assim, deitada de barriga para baixo com as pernas afastadas… Ia ser à cão, pô-la no colchão, qual cadela, e montá-la como um garanhão monta uma égua. E no fim, a “cereja no topo do bolo”, mandá-la embora com a confirmação que tudo não passara de uma queca.

O silêncio no corredor era tal que Olga quase supôs ouvir a sua respiração acelerada. Estava excitada, mas não queria que ele o notasse até já não ser possível escondê-lo. A ansiedade por chegar ao quarto pesava‑lhe no andar. Ele caminhava a seu lado como se nada de extraordinário estivesse para acontecer. Olga questionava-se se ele estaria na mesma sintonia ou apenas num encontro de interesses, numa espécie de troca comercial, se bem que ela sempre lamentara as mulheres que tinham de vender o corpo por dinheiro, tal como abominava os homens que a elas recorriam. Mas, nada disso se passava ali. Aquilo eram apenas dois adultos a desejarem-se.

Gabriel abriu a porta do quarto. Estava escuro lá dentro, mas ao fundo via-se o lusco-fusco exterior pela abertura dos cortinados que abanavam com a brisa ténue que entrava pela janela deixada entreaberta. Ele colocou o cartão no devido lugar e as luzes acenderam-se. Afastou‑se para o lado e convidou-a a entrar.

Olga entrou e caminhou pelo interior, quase como se estivesse a fazer o reconhecimento do território. Parou defronte da janela, mesmo no lugar onde se podia visualizar o rio por entre os cortinados. Sentiu-o aproximar-se atrás de si. Respirou fundo, calculando que ele lhe ia tocar e ela não queria parecer assustada ou nervosa.

Não a decepcionou. Gabriel parou junto às suas costas e colocou as mãos nas ancas dela. Olga suspirou, mas deu a entender que ele poderia prosseguir. Gabriel cheirou-lhe o cabelo e beijou-lhe a nuca, enquanto as suas mãos avançaram e os braços lhe rodearam a cintura. Ela suspirou, sentindo-se pressionada contra ele e deixando cair a cabeça para trás sobre o ombro dele. Gabriel beijou-lhe o lóbulo da orelha e o pescoço, refreando a vontade de lhe morder. As mãos dela acariciaram as dele, mas quando o movimento destas subiram pela barriga, Olga não as travou, ansiando para que os dedos dele lhe alcançassem o peito.

O som estridente de um telemóvel irrompeu pelo quarto como um trovão. Sabendo que o toque não era seu, Gabriel pediu num sussurro:

— Não atendas.

Olga quebrou todo o clima que se gerara e retorquiu a única justificação que o faria desistir de a convencer:

— Tenho de atender. Pelo toque, é a Íris.

Gabriel soltou-a do abraço e Olga apressou-se a procurar o aparelho na bolsa. Atendeu:

— Olá, meu amor! Estás bem?... Já? Não era só daqui a uns dias? — Olga fez uma pausa para escutar a filha, ao mesmo tempo que olhava para Gabriel com uma expressão confusa. Depois, concentrou-se totalmente na voz de Íris. — Oh… meu amor… Lamento! Como é que… Está bem, depois falamos melhor. A que horas é o teu voo? — Íris informou-a dos horários e a estimativa de chegada a Lisboa. — Ok, não te preocupes, a essa hora lá estarei à tua espera. — E desligou.

Para além das questões acerca do que teria sucedido, o telefonema gerou em Gabriel uma espécie de despertar. O surgimento da chamada de Íris recordou-o que aquela mulher poderia ser a tipa que o abandonara há dezasseis anos, mas… mais que isso, ela era a mãe de uma pessoa que ele adorava. Fazer algo a Olga seria ferir igualmente Íris.

Olga olhou para Gabriel meio atordoada e partilhou:

— Parece que a Íris e a Ashley se desentenderam em Londres. A Íris não deu grandes pormenores, mas ao que parece a relação delas terminou.

Gabriel abanou a cabeça, indignado por alguém fazer sofrer a sua Arco-íris.

— Como é que ela está?

— Pareceu-me calma. — respondeu Olga sem grandes certezas. — Ligou para me avisar que volta amanhã. E para me dizer a que horas chega para eu a ir buscar.

Ele assentiu, parecendo ponderar algo.

Olga olhou para ele, hesitante. Queria retomar a cena no ponto onde o telefonema a interrompera, mas não sabia muito bem como a repescar. Porém, foi Gabriel quem a esclareceu:

— Calculo que tudo isto acabe por te deixar a cabeça um pouco longe, preocupada com a Íris. — sugeriu ele como desculpa para a dispensar.

Ficaria muito mal a uma mãe dizer o contrário, bem como daria uma má imagem aos olhos dele. Por ela, teria retomado o momento em que as mãos dele quase tocaram os seus seios ou, melhor, preferia já estar nua e com ele sobre si. Ao invés, representou um ar falsamente abalado e admitiu a mentira:

— Sim, acho que não iria ter cabeça para… tu sabes.

— Claro, claro. Eu compreendo.

Olga pegou na malinha que a acompanhava e guardou o telemóvel sem qualquer vontade em sair dali. Voltou a olhar para ele.

— Ela chega ao fim da manhã. Queres vir comigo ao aeroporto?

— Acho que a Íris vai precisar de ti, da tua atenção… Talvez até do teu colo. Eu depois falo com ela.

Olga anuiu em concordância.

— E nós? — arriscou-se a perguntar.

Gabriel encolheu os ombros.

— Concentremo-nos no bem-estar da Íris.

Que raio de resposta era essa? Olga controlou-se, evitando fazer ou dizer algo que quebrasse aquele fio fino que lhe dava alguma esperança com ele.

— Sim… Ok. Depois falamos.

— Sim, depois falamos. — concordou Gabriel sem a mínima intencionalidade de voltar a conversar com ela.

Olga deu dois passos na direcção dele com o objectivo de lhe dar um beijo. Gabriel moveu-se em simultâneo e cruzou-se com ela para se dirigir à porta.

— Obrigado por este dia! — agradeceu sem se sentir grato, falando como quem diz “vai-te lá embora”.

Forçando um sorriso, Olga caminhou para a porta, passando por ele e evitando olhá-lo nos olhos.

— Fica bem, Gabriel!

Uma vez no corredor, Olga nem sequer olhou para trás para evitar deparar-se com alguém a fechar-lhe a porta na cara. Porém, junto ao elevador, olhou para a entrada do quarto. A porta já fora fechada.

XXIV

 

Gabriel não evitou a preocupação por Íris. Sabia como ela gostava da inglesa e calculou como deveria estar a ser difícil a separação. O seu primeiro impulso, logo que Olga saíra do quarto, fora pegar no telemóvel e enviar-lhe uma mensagem. Porém, isso traria perguntas a que ele não quereria responder, não queria ter de dizer que estava com a mãe dela. No entanto, seria provável que Olga contasse à filha onde estava quando recebera a notícia e o que se preparavam para fazer.

Nessa noite teve alguma dificuldade em adormecer sem conseguir afastar Íris do seu pensamento. Ashley ganhara um novo espaço na sua mente, um espaço guardado àqueles que fazem mal a Gabriel ou a alguém que seja importante para ele. Havia um único ponto interessante naquele acontecimento: Se voltasse a cruzar-se com Ashley, já nada o impedia de tentar seduzi-la. Claro que isso seria muito improvável.

Durante a manhã, ficou pela piscina do hotel após o pequeno‑almoço. Não havia crianças barulhentas, daí que até se estivesse bem naquela manhã de Sol envergonhado. O tempo custava a passar, a ânsia por saber notícias de Íris mordia-lhe o espírito. Quase se arrependeu de não ter aceitado a proposta de Olga de a acompanhar na ida ao aeroporto para ir buscar a filha. Controlou a impaciência e aguardou que a manhã terminasse, esperando ter notícias ao início da tarde, o que para si seria tempo mais que suficiente para Íris chegar a casa e lhe telefonar ou mandar uma mensagem.

Gabriel acreditou que ela lhe telefonaria nessa tarde, mas isso não aconteceu. Mais uma vez, ele não quis ter a iniciativa de a contactar, uma vez que se tudo tivesse corrido como previsto, Íris ainda estaria em Inglaterra e ele não lhe diria nada para evitar ela fosse alvo dos ciúmes de Ashley. Procurou abstrair-se da espera, evitar pensar no assunto. Concentrou-se no trabalho, nas notícias desportivas do continente americano e ligou a Francis para saber se acontecera algo de nota, mesmo tendo a certeza de que se isso tivesse acontecido, o outro lhe tinha ligado.

Almoçara no restaurante do hotel, mas para o jantar requisitou o serviço de quartos, algo simples para comer e uma garrafa de whisky 18 anos, pois o minibar não tinha bebidas que lhe agradassem.

Perto da meia-noite, o seu telemóvel apitou uma notificação do WhatsApp. Era Íris.

“Olá, Gabriel. Posso ligar-te?”

“Olá, Arco-íris. Claro que sim.”

Menos de dez segundos depois de enviar a resposta, o toque de chamada ecoou pelo quarto. Ao atender, Gabriel pensou em perguntar como estavam as coisas em Londres, mas isso seria mentir-lhe ou omitir que sabia o que acontecera, algo que ela descobriria facilmente se a mãe lhe tivesse contado o dia anterior. Também não queria revelar que já sabia, podendo evitar partilhar esse mesmo dia com Íris, caso Olga não o tivesse feito. Assim, limitou-se a atender com:

— Olá, Arco-íris!

— Um arco-íris cinzento. — respondeu ela num tom de voz triste.

— Que se passa?

— Eu e a Ashley terminámos a nossa relação.

— Que aconteceu?

A resposta não veio de imediato. Íris estaria a formular as palavras mais eufemísticas para descrever o sucedido ou talvez não tivesse vontade de falar no assunto.

— Posso contar-te noutra altura? Agora não me apetece falar nisso.

— Claro.

Ouviu-a sorrir no outro lado da linha.

— Já sei que passaste o dia de ontem com a minha mãe. Fiquei surpreendida, mas ainda bem que vocês se entenderam.

— A tua mãe foi simpática em ter aparecido aqui no hotel para me fazer companhia e levar a passear.

Gabriel gostaria de saber o quanto Olga partilhara com Íris acerca da véspera, mas não queria demonstrá-lo, daí que falava sempre com o cuidado de não dizer nada que ela já não soubesse.

— Ela adorou estar contigo. Notei-lhe um brilho no olhar que não via há muito tempo.

Lamento, não tenho qualquer vontade de ser a causa desse brilho.

— Onde estás? — questionou ele para mudar de assunto.

— Regressei hoje a Portugal, estou em casa.

Gabriel não sabia se haveria de fazer um ar surpreso ou revelar que já sabia. Íris surpreendeu-o, conseguia interpretá-lo à distância, quase como se lhe lesse os pensamentos.

— Eu sei que tu sabes, a minha mãe contou-me que estava contigo quando lhe liguei. — Novo sorriso. — Não te sintas embaraçado com isso.

— Não sinto.

— Acho que telefonei na altura errada.

— Nunca há alturas erradas para falarmos.

— Não me refiro agora. Refiro-me a ontem. A minha mãe não me deu pormenores, mas acho que estraguei alguma coisa.

Gabriel calculou que, sem detalhar, Olga deveria ter sugerido à filha que eles se estavam a envolver.

— Não estragaste nada. Nós estávamos a conversar. Acho que o teu telefonema nos alertou para as horas e como já estava a ficar tarde…

Houve um silêncio estranho. Gabriel aguardou que Íris voltasse a falar.

— O que quer que seja que eu tenha interrompido, não me diz respeito. — acabou por dizer. — Só acho que talvez vocês tenham interpretações diferentes do dia de ontem.

— Se criei algum tipo de expectativas na tua mãe, foi sem querer. — Era mentira, ele quisera seduzi-la para ter o prazer de a desprezar depois. O telefonema apenas o despertara para o facto de ir ferir alguém que, apesar de o ter ferido a ele, era a mãe e a pessoa mais importante para a sua melhor amiga. — Espero que ela…

— Não me diz respeito, Gabriel. — interrompeu Íris. — É um assunto vosso. Sempre me quis manter à margem disso para que não prejudicasse a minha relação contigo ou com a minha mãe.

Gabriel continuava a surpreender-se com a maturidade de Íris, quem a ouvisse pensaria ser uma mulher da geração dele.

— Seja como for, em atenção a ti, achei por bem ter uma relação cordial e amistosa com a tua mãe, esquecer temporariamente toda a mossa que… Bom, tu sabes.

— Sim. E não quero que revivas isso. Não tens de te sentir obrigado a…

— Não sinto. — cortou Gabriel. — Mas, falemos do assunto pelo qual quiseste ligar, Arco-íris. Não foi certamente para falarmos da tua mãe.

— Por acaso enganas-te. — ripostou Íris. Gabriel percebeu o tom afável. — A minha mãe vai ter de suspender as férias. Ligaram-lhe do trabalho, o laboratório vai fazer uma exposição acerca de uma investigação científica numa conferência no Porto e o colega responsável pela apresentação está doente e não poderá estar presente. Ela é a pessoa com maior prestígio para o substituir. É uma boa oportunidade, mas ela queria recusar… por minha causa. Eu não permiti e disse-lhe que também queria regressar ao Canadá antes do previsto. — Novo sorriso. — A minha mãe acabou por concordar, a contragosto, mas obrigou o laboratório a pagar‑lhe uma viagem ao Canadá para gozar os dias de férias que perderá agora. Por isso, irei tê-la comigo em Montreal, uns dias, daqui a uns meses.

— Tudo está bem quando acaba bem. — concluiu Gabriel, indiferente.

— Seja como for, queria saber se vês algum inconveniente em regressarmos já.

— Inconveniente? Estou farto de cá estar. — retorquiu com sinceridade. — Vim por ti, mas chego à conclusão de que já tenho pouco a ver com Portugal. Sinto-me muito mais canadiano e aprecio muito mais a vida em Toronto.

— Lamento não ter cumprido o meu objectivo contigo nesta viagem.

— Como assim?

— Queria animar-te, afastar-te da amargura que estavas a sofrer em Toronto. Talvez tivesse avaliado mal as coisas.

— Não digas isso. A tua amizade atenua muita coisa, acredita. A viagem fez-me bem, afastar-me de Toronto fez-me bem. — Sorriu com gosto. — Mas, já chega. Quero voltar.

— A minha mãe tem de viajar para o Porto amanhã à noite. — informou Íris. — Pensei em tentar antecipar o nosso voo para amanhã à tarde, assim ela deixa-nos na Portela e segue para norte. O que achas?

— Pode ser, mas com uma condição.

— Diz!

— Eu trato disso.

— Gabriel… Já sei como és, não posso pagar viagens em Executiva.

— Tu já pagaste a viagem. Eu cubro o excedente.

— Gabriel…

— Não te preocupes, Arco-íris.

Gabriel fez o check-out do hotel ao fim da manhã e aproveitou o fraco movimento no restaurante para almoçar. A última vez que falara com Íris fora por mensagem, de madrugada, depois de ter tratado das alterações à viagem pela Internet. Ela respondera-lhe ao amanhecer a agradecer e a combinar a hora a que passaria pelo hotel. O processo de modificação da viagem não foi fácil, mas os conhecimentos de Gabriel aliados ao dinheiro tornaram viável dois lugares em classe executiva num voo que partiria de Lisboa às 17h00 e chegaria quase oito horas depois a Toronto, às 20h00 locais.

A tarde apresentou-se nublada, como se Lisboa não quisesse dar‑lhe nenhum argumento para sentir saudades. Após a refeição, Gabriel passou pela recepção para levantar a bagagem que ali deixara no check‑out. Nesse momento, Íris avisou-o pelo WhatsApp que estavam a sair de casa.

Gabriel ficou pelo átrio do hotel, sentado num dos sofás com a bagagem a seu lado. Matou o tempo a ler notícias, enquanto esperava por elas.

Para sua surpresa, foi Olga quem apareceu, a entrar pela porta principal do hotel, envergando um vestido no mesmo estilo das outras vezes. Gabriel viu-a e estremeceu, quase em pânico, receando que tivesse acontecido alguma coisa a Íris. Levantou-se do sofá e caminhou na direcção dela, esquecendo a mala.

— Olá, Gabriel!

— A Íris? Aconteceu alguma coisa?

O sorriso dela tranquilizou-o. Ouviu-a explicar:

— A Íris ficou no carro, a meu pedido. Quero só dar-te uma palavrinha, antes… — Calou-se, sem saber muito bem como começar. — Acerca da outra noite.

— Não há nada a falar, Olga. — atalhou Gabriel, impaciente e afastando-se para ir buscar as malas.

— Tu sabes bem o que esteve quase a acontecer, Gabriel. — lembrou, seguindo atrás dele.

O átrio estava deserto, nem sequer havia funcionários no balcão de atendimento, uma vez que o rapaz que ali estivera se recolhera depois de ver Olga seguir directamente para o hóspede.

— Mas, não aconteceu. — redarguiu Gabriel sério, sem ser antipático, mas longe de qualquer afabilidade. — E acho que foi melhor assim.

Olga manteve o olhar cravado nele.

— Talvez… Afinal, vivemos a milhares de quilómetros um do outro. Mesmo assim, não me importava nada que a Íris não tivesse ligado naquele momento. — Olga baixou o som da sua voz. — Aquele em que as tuas mãos estavam quase no meu peito. Lembras-te? — Ele encarou-a inexpressivo em silêncio. — Não penses que julguei que fôssemos recuperar nada do passado. Gostava só que o pudéssemos esquecer e ter uma amizade. Disse-to uma vez e volto a repetir, gostava de manter o contacto contigo. Nem que seja por email…

Gabriel parecia a leste, mas o seu cérebro fervilhava. Para seu espanto, deu por si a interrogar-se se valeria a pena manter aquela raiva, manter um ódio que ele próprio confirmara já não sentir quando revira Olga. Não fora o fim da relação com ela que o marcara de forma tão dura, fora o corte abrupto com a pequena Íris. Sim, Olga fora a responsável. Contudo, sem que ele o soubesse explicar, a maior ferida fora o afastamento da pequena, da menina que adorava e com quem tinha uma empatia fenomenal. O retorno de Íris à sua vida fê-lo recordar esse tempo com mais pormenor. E rever Olga confirmou-lhe que o fim da relação com ela não fora assim tão importante.

— Tudo bem, Olga. Não vejo porque não podemos manter o contacto. — acabou por dizer, notando a expressão dela alterar-se para uma alegria contida. — Não sou muito de telefonemas… ou já não sou assim. Mas, se me mandares um email, não te deixarei sem resposta.

— Já não é mau. — concordou ela com um sorriso rasgado.

— É melhor irmos andando.

Gabriel pegou na bagagem e ambos caminharam para o exterior.

A tarde nublada não atenuara o calor e o ambiente. Mesmo ali junto ao rio, o ar era abafado. Íris aguardava encostada à carrinha Audi da mãe, vestia calças de ganga apertada e uma camisola sem mangas larga. Sorriu ao vê-lo, mas quando retirou os óculos-escuros, Gabriel notou a tristeza no olhar. Ashley deixara marca.

Abraçaram-se com ternura e trocaram dois beijos. Aquele abraço era para Íris como ser embrulhada num cobertor quente numa noite de Inverno.

— Como estás, Arco-íris?

— Sem cor. — sussurrou, evitando que a mãe ouvisse para não ficar preocupada. Depois, falou normalmente. — E tu?

— O mesmo de sempre.

Olga abriu a bagageira para que Gabriel arrumasse as suas malas.

A viagem até ao aeroporto não demorou menos que no dia em que eles haviam chegado a Portugal. Olga parou o automóvel perto das portas de acesso ao sector de “Partidas”. Um agente da polícia deu a entender que iria indicar-lhe que não poderia estacionar ali, mas ao ver a bagagem ser retirada apressadamente, acabou por ficar onde estava.

Olga abraçou a filha com muita força, já com todas as emoções à flor da pele, sem controlar uma lágrima de saudade que lhe escorria pelo rosto. Íris também estava chorosa. Apertaram-se num abraço sentido e Olga beijou-lhe a cabeça inúmeras vezes.

Gabriel pegou nas suas malas e disse:

— Fica bem, Olga! Vai dando notícias.

— Combinado. — concordou ela, sorrindo. — Olha! Cuida da nossa menina!

— Mãe! — chamou Íris, meio envergonhada. — Não sou nenhuma criança.

— Para mim, serás sempre uma bebé, a minha bebé.

Íris deu um último beijo de despedida à mãe e também pegou nas suas malas. Gabriel entrou no edifício sem olhar para trás, mas Íris ainda ficou junto à porta, acenando à mãe enquanto ela entrava para o lugar do condutor e seguia o seu caminho.

— Pensa que daqui a uns tempos, ela vai visitar-te a Montreal. — sugeriu Gabriel, quando Íris se juntou a ele.

Íris assentiu, limpando as lágrimas.

— É sempre difícil despedir-me dela. É a pessoa que mais amo na vida.

Ainda faltava bastante tempo para a partida, mas também tinham alguns procedimentos a concluir até à porta de embarque. Começaram por despachar as malas no balcão correspondente à companhia aérea. A seguir, percorreram o caminho para zona destinada aos voos para fora da União Europeia, o que os obrigava ao controlo alfandegário e verificação de passaportes.

Gabriel notava que Íris se esforçava por aparentar alguma naturalidade, mas aquela sombra de infelicidade não lhe abandonava a expressão. Ele conseguia descodificá-la com uma facilidade que até a si surpreendia. Sempre que olhava para ele, Íris forçava um sorriso, como quem diz “não te preocupes, estou bem”. Porém, manteve-se pouco conversadora.

A caminhada continuou pelo aeroporto, pela zona comercial, com o corrupio normal de passageiros a circular em todas as direcções, a partir e a chegar, uns mais tranquilos, outros em altos níveis de stress. Confirmaram a porta de embarque e prosseguiram ainda com tempo de sobra. Ocuparam duas cadeiras na zona correspondente e esperaram.

Permaneceram em silêncio, interrompendo somente para um ou outro comentário. Ao fim de algum tempo, Gabriel acabou por dizer:

— Decidi dar uma oportunidade a uma amizade com a tua mãe.

Íris encarou-o e anuiu com um sorriso simples.

— Fizeste bem.

— Talvez esteja na altura de deixar o passado para trás.

Íris não se pronunciou.

Junto do balcão de embarque, dois elementos fardados começaram a preparar tudo para receber os passageiros. Algumas pessoas começaram a aproximar-se, quase como se ignorassem que existem prioridades. Uma voz feminina surgiu nos altifalantes, anunciando o início do embarque em duas línguas, português e inglês, e indicando que os passageiros da classe executiva se deveriam aproximar para serem os primeiros a encaminhar‑se para o avião.

— Vantagens da Executiva. — referiu Gabriel, divertido.

— Imagino o que não pagaste para alterar os bilhetes.

— De que serve o dinheiro, se não o usarmos?

Íris ainda abanava a cabeça, quando mostrou o bilhete e o passaporte ao funcionário que verificava os documentos.

O sector da classe executiva ocupava as primeiras filas do interior do avião. Em vez de seis lugares por fila, três de cada lado, tinha quatro separados a meio pelo corredor. Os próprios bancos se mostravam ainda mais confortáveis que os restantes. Gabriel convidou Íris a ficar junto da janela.

— Isto é que é qualidade de vida. — referiu, sentando-se no lugar que ele lhe apontara sem esconder uma nota de humor na voz.

Gabriel sentou-se e segurou-lhe a mão, piscando-lhe o olho.

— Para ti só o melhor.

Ela riu divertida.

Os passageiros foram entrando e acomodando-se nos seus lugares. O voo estava lotado. A tripulação ia dando apoio na arrumação dos compartimentos superiores. Íris desligou-se do ambiente e ficou a olhar para o exterior.

— Já com saudades? — questionou Gabriel, despertando-a.

Íris virou o rosto para ele.

— Da minha mãe, sim. Do país… — Encolheu os ombros. — Somos uns privilegiados, apesar das dificuldades que existem em Portugal. Comparados com tanta desgraça que há no mundo, até somos um paraíso. Mas… — Franziu o rosto. — Quando tens oportunidade de viver no nível acima…

— Estás a ficar como eu, mais canadiana que portuguesa.

— Não diria tanto, mas confesso que aprecio mais a vida que tenho em Montreal. — Interrompeu-se, revelando uma névoa de tristeza no olhar. — Mesmo que agora seja uma vida solitária.

— Podemos montar uma associação de solitários. — retorquiu ele, procurando animá-la. — Eu sei o que sentes. Vivo esse filme há muitos anos. — Desviou o olhar. — Há demasiados anos.

Percebendo que poderia estar a entrar em assuntos dolorosos, Íris evitou que Gabriel fosse levado a recordar Rachel, desviando o assunto para si.

— Se não fosse pela minha mãe, a partida não me custava nada.

— É natural. Nunca é fácil afastarmo-nos de quem amamos.

— Nem mesmo quando a isso somos obrigados. Seja porque temos que partir ou porque nos afastam.

Gabriel descortinou a referência implícita a Ashley. Sorriu‑lhe num semblante tranquilizador e disse:

— Tenho a certeza que ainda vais encontrar a mulher que te vai amar incondicionalmente e fazer-te feliz como tu mereces.

— Desejo o mesmo para ti.

— Já sou velho para isso, Arco-íris.

— Não digas disparates. Não és velho. E tens muito charme. — Íris adoptou um tom brincalhão. — Se jogasse no teu campeonato, acho que não te resistia. — Gabriel surpreendeu-se com a confissão, mas percebeu que era uma brincadeira. Ela apertou-lhe os dedos com carinho. — Obrigado por estares aqui comigo. Sem ti, isto seria muito mais difícil.

— Sabes que podes contar sempre comigo, Arco-íris.

Íris abriu o sorriso e moveu os lábios sem qualquer som, mas dando a entender que dizia “Adoro-te”.

A voz no comandante espalhou-se pelo interior, interrompendo o momento e cumprimentando os passageiros. A voz colocada, algo suja pelo ruído da comunicação, informou a duração da viagem e a hora local prevista para a aterragem. Repetiu tudo em inglês.

— Ficas em minha casa, esta noite? — questionou Gabriel, enquanto os tripulantes iniciavam as tradicionais indicações de segurança.

— Estou a contar com isso, se não te importares.

— Sabes bem que aquele quarto em minha casa é teu. E tens uma chave do apartamento. Nem sequer precisas de mim para lá ficares.

— Preciso da tua companhia.

Sorriram um para o outro.

— Queres ficar lá uns dias? — convidou ele. — Estamos a regressar mais cedo. Se não tiveres de ir logo para Montreal, adorava que pudesses ficar lá.

— Não tenho pressa, Gabriel. E será maravilhoso poder terminar as minhas férias na tua companhia. — Íris fez uma expressão séria. — Mas, não quero perturbar a tua vida.

— Isso jamais acontecerá.

A intensidade dos motores aumentou e o avião avançou pela pista, descolando do solo lusitano para travessar o Atlântico.

A viagem decorreu sem se dar bem pela passagem das horas. Tanto Gabriel como Íris optaram por ver um filme da vasta gama de oferta do serviço a bordo, interrompendo quando lhes serviram um jantar bem mais composto que aquele que serviriam na classe económica. Não falaram muito um com o outro, o ambiente em vácuo e a pressão da altitude faziam com que os sons se tornassem abafados, quase surdos, daí que teriam melhores oportunidades para conversar.

O Sol descia para o interior de Ontário, rumo ao estado norte‑americano de Michigan com quem o estado canadiano colava a sudoeste. O estado de Ontário é gigantesco, mas o seu coração encontra-se nas margens do lago com o mesmo nome, na cidade de Toronto e a oriente na capital do Canadá, Ottawa, junto à fronteira com o estado do Quebec. O avião aterrou no Pearson International Airport à hora prevista, ainda a luz do entardecer iluminava o ambiente.

Logo que as portas foram abertas, os primeiros passageiros começaram a sair, entre eles Gabriel e Íris. Atravessaram a manga de ligação entre o avião e o edifício. Todo aquele espaço era familiar a Gabriel, habituado às viagens aéreas e a partir ou chegar daquele aeroporto.

As indicações aos passageiros encaminhavam-nos para o controlo de passaportes. O procedimento era mais simples para Gabriel que tinha também passaporte canadiano. Íris teve de apresentar o visto com a autorização de residência e trabalho. Ambos foram interrogados pelos guardas alfandegários, simples procedimentos protocolares, e a sua reentrada no Canadá foi autorizada.

O cansaço era evidente, mas faltava ainda a espera pela devolução da bagagem, junto aos tapetes rolantes que distribuíam as malas. Enquanto esperava, Gabriel solicitou o serviço de aluguer de carro com motorista à empresa que se responsabilizava pelas suas deslocações em Toronto, a mesma que fora buscar Íris na primeira vez que ela chegara à cidade, quase um ano antes. Entretanto, Íris enviou uma mensagem à mãe a informar que já chegara.

Cerca de uma hora após terem aterrado, as malas começaram a ser distribuídas pela passadeira circular. Íris já repousava encostada e aconchegada no abraço de Gabriel. Ele puxou todas as malas para um carrinho que ela fora buscar. E finalmente puderam seguir e procurar o automóvel que os aguardava para os levar para casa.

Eram quase 22h00, hora de Toronto, quando eles entraram no apartamento de Gabriel. Não era muito tarde, mas para eles era o equivalente a serem 03h00.

Íris abraçou Gabriel, depois de ele fechar a porta, e deu-lhe um beijo no rosto.

— Vou para a cama.

— A empresa de limpeza deixou tudo arrumado. Se precisares de alguma coisa… Fica à-vontade, estás em tua casa, Arco-íris.

— Obrigado por tudo, Gabriel.

— Eu é que te agradeço.

Ela soprou-lhe um beijo e desapareceu pela porta do seu quarto, arrastando as malas consigo.

Gabriel também se sentia muito cansado e com sono, mas não se quis deitar sem fazer uma ronda pela casa. Sentiu a sensação agradável de regressar ao lar, à sua casa, ao ambiente que mais lhe era familiar. Tudo estava impecável, não seria de esperar menos da empresa que cuidava do apartamento. Pensou em Íris e como era bom tê-la ali tão perto de si. Sorriu sozinho, meio parvo e foi assolado com algo parecido com felicidade. Bocejou e decidiu que o melhor seria ir também para a cama.

XXV

 

Íris acordou cedo. Dormira bastante bem, sem dificuldades em encontrar o sono como vinha acontecendo nas últimas noites, fustigada pela tristeza do fim da relação com Ashley. Certamente que, para um sono tão profundo, muito contribuíra o cansaço da viagem.

Ao abrir os olhos, sentiu-se como se tivesse dormido mais horas que o habitual. Porém, o amanhecer tímido que entrava pela sua janela demonstrou que ainda era bastante cedo. Virou-se na cama, tapada pelo lençol, saboreando o conforto da cama. Esticou o braço para o telemóvel e viu as horas, pouco passava das cinco da manhã em Toronto. Olhou em redor, o quarto que se tornara seu, o espaço no apartamento de Gabriel que sabia ser só dela. Se a vida profissional lho permitisse, agora que a sua capacidade financeira iria aumentar substancialmente, iria tentar vir a Toronto mais vezes, pelo menos mensalmente. Isto, claro, se Gabriel não se importasse. Ela sabia que não.

Voltou a virar-se na cama. Era Verão, mas não tinha calor. Todo o apartamento era modernamente climatizado, sempre com uma temperatura agradável, ajustada automaticamente. Recordou a primeira vez que ali dormira, quando chegara a Toronto com destino a Montreal, numa escala para organizar a sua estadia, certa de que o Canadá seria a sua residência durante um ano. As coisas haviam mudado, completara a formação e conseguira um excelente emprego na região francófona canadiana que lhe abria uma perspectiva de vida futura naquele país, sem data para regressar a Portugal em definitivo, se é que algum dia o faria.

Íris olhou para a janela, onde a claridade aumentava vagarosa. Gabriel entrou na sua mente, fazendo-a sentir um aperto no peito e um friozinho na barriga. Ele era um homem maravilhoso. A sua mãe perdera uma grande oportunidade na vida, quando terminara a relação com ele para voltar para o pai de Íris. E a pequena Íris sofrera mais que o expectável com esse afastamento.

Sem se aperceber, um sorriso brotou-lhe do rosto. Nunca sentira nada por homens para além de amizade e simpatia. Pela primeira vez na vida, lamentou-o. Se fosse heterossexual ou, pelo menos, bissexual como Ashley, talvez ponderasse a possibilidade de tentar ser a mulher que desejava que Gabriel encontrasse e o fizesse feliz. Uma coisa era certa e disso ela não tinha qualquer dúvida, Íris adorava Gabriel, amava-o mesmo, numa forma de amor diferente do convencional, nada de carnal ou sexual, mas como um amigo pode amar outro.

A ideia de amor trouxe-lhe ao pensamento o rosto de Ashley. Sim, aí era esse amor carnal e sexual, uma paixão imensa que a queimava, a consumia e só encontrava sossego quando ambas faziam amor. Fechou os olhos, triste, controlando as emoções para não chorar. Agora, tudo isso acabara.

O som de passos no corredor resgatou-a para a realidade. Apesar de silencioso, Íris percebeu que Gabriel já se levantara e saía do quarto. Como não tinha sono, atirou o lençol para trás e elevou-se no colchão. Sentada na cama, espreguiçou-se esticando os braços ao máximo, ficando com os seios nus empinados. Íris dormia somente em cuecas, excepto nas noites que partilhara com Ashley em que costumavam dormir agarradas e completamente nuas, pois o tecido era sempre um incómodo para os momentos a meio da noite em que se acordavam a arder de paixão. Saiu da cama para ir tomar um duche. Passou defronte do espelho e sorriu para o rosto estremunhado.

Não sabia que planos Gabriel tinha para aquele dia, por ela poderiam ficar por ali. O duche despertara-a e ativara-lhe todos os sentidos. Sem interesse em sair, cobriu o sutiã e as cuecas com uma túnica fresca azul e leggings pretas. Calçou as havaianas e penteou o cabelo. Sentiu-se bonita e confiante, repetindo mentalmente que Ashley fora estúpida em abrir mão de uma mulher como ela.

Gabriel estava sentado ao balcão de costas para a sala. Tinha uma chávena de café junto do computador portátil que consultava. Estava tão absorto no conteúdo que lia que nem deu pela aproximação dela.

Íris surpreendeu-se por o ver vestido com roupa formal. Caminhou até ele, silenciosa, ponderando se deveria fazer aquela cena dos filmes de lhe tapar os olhos e dizer “adivinha quem é”. Demasiado infantil, pensou.

— Bom dia, Gabriel!

Ele virou-se e sorriu-lhe. Íris teve a certeza que nunca o vira sorrir assim para ninguém.

— Bom dia, Arco-íris! Como estão essas cores?

Íris abraçou-o e deu-lhe um beijo demorado na face. Cheirou-o subtilmente, adorava o seu cheiro, tanto o perfume que usava como o seu aroma corporal.

— Acho que um dos arcos já está colorido. — respondeu, abrindo o abraço. Sorriu. — Culpa tua.

— Culpa minha?

— Fazes-me sentir bem.

A confissão agradou a Gabriel.

— Queres um café, Arco-íris?

— Eu tiro, obrigado. — declinou, contornando o balcão. — Estás muito elegante… Quer dizer, tu és elegante e charmoso. — Íris falava num tom brincalhão, mas isso não evitou constatar que começava a ser recorrente flirtar com ele, mesmo que na brincadeira. — A que se deve essa roupita formal?

— Surgiu um imprevisto. Tenho uma reunião pela manhã. Mas, estarei de volta ao almoço. E depois, podemos fazer o que quiseres.

O som da máquina a servir café para uma chávena intrometeu-se entre eles. Íris pegou nela e bebeu um pouco do líquido com os olhos pousados em Gabriel. Ele voltara a dirigir a atenção para o ecrã.

— Algum problema para resolver? — questionou ela, lambendo distraidamente os lábios.

— Nada de especial. — Dirigiu a atenção para ela. — Algo que teria de esperar, se não estivesse cá. Assim, fica já resolvido. — Ela assentiu e terminou o café. — Fica à-vontade, como se estivesses em tua casa. — Fez uma pausa sem tirar os olhos dela. — Quero mesmo que sintas que esta casa também é tua, que podes vir sempre que quiseres.

Íris virou-se para o lava-louça e começou a lavar a chávena.

— Vou fazer os possíveis para vir cá periodicamente, se não te importares.

A notícia ofereceu uma genuína sensação de felicidade a Gabriel.

— Vou adorar que o faças. — confessou ele. — Aliás, até te ia sugerir que decorasses o teu quarto à tua imagem, para… porque só tu dormes lá. E eu gostava muito que o sentisses mesmo como teu.

— Também gostava que me fosses visitar a Montreal. — retorquiu Íris. Limpou a chávena com um pano e arrumou-a onde a fora buscar. Parou no lado oposto do balcão. — És meu amigo, o meu melhor amigo. Sabes bem como te adoro e o quanto és importante para mim. Não quero que existam períodos demasiado longos sem nos vermos. Vou ser uma chata, Gabriel, mas quero mensagens, telefonemas e visitas. Porque eu farei o mesmo, irei ligar-te, mandar mensagens e tentarei vir a Toronto todos os meses ou mês sim mês não. Eu sou assim, Gabriel, não sou de meio termo e sinto que te falhei neste ano que passou.

— Não falhaste, Arco-íris. Tu foste o melhor que me aconteceu, no último ano.

— Eu e a Rachel.

— Sim, tu e a Rachel. — A expressão dele ensombrou-se. — Infelizmente, em relação a ela, já nada posso fazer. Mas em relação a ti… — A sombra desapareceu. — Cortei muito da minha vida no que respeita a sentimentos. Nunca me quis prender a ninguém, depois do que aconteceu com a tua mãe. Isso afundou-me de uma maneira que não fazes ideia. A cada ano, desde que vim para o Canadá, deixei-me afogar em solidão, numa vida isolada, afastando qualquer coisa que pudesse ser pessoal em vez de profissional. O Phil… — Interrompeu-se, constatando que nunca falara naquilo a Íris. Ela ouvia-o com toda a atenção. — O Phil é o meu terapeuta. Ele acha que eu estou… estava à beira de uma depressão. Talvez tivesse razão. Depois… Depois, tu voltaste à minha vida e recuperámos uma amizade antiga. Tu não sabes, mas fizeste-me acreditar que ainda poderia encontrar coisas boas na vida. Foi por isso que acabei por deixar a Rachel entrar na minha vida e permitir-me a voltar a ter uma relação. — Calou-se, triste.

— Lamento o que aconteceu com ela, Gabriel.

— Eu sei. E mais uma vez, foste tu quem veio em meu auxílio.

— Os amigos são para isso.

— Nem mais. Por isso, quero que saibas que estarei sempre aqui para o que precisares. — Sentia-se um laivo decidido nas palavras dele. — E nesta fase em que ambos atravessamos a perda, apesar de formas diferentes, aqui estamos um para o outro.

Íris voltou a contornar o balcão até ele e tornou a abraçá-lo com força.

— Prometo que te vou visitar todos os meses a Montreal. — sussurrou-lhe ao ouvido. — Podes ter a certeza.

Ela beijou-lhe a face e retorquiu no mesmo tom.

— Acabaste de pintar o segundo arco.

Gabriel aconchegou-a nos seus braços. Nenhum deles dava sinal de querer quebrar o momento. Íris fechou os olhos e deixou o olfato saborear o cheiro do amigo.

— Tenho de ir. — avisou ele com ternura.

O abraço quebrou-se e Íris afastou-se, dando espaço a que Gabriel saltasse do banco.

— Planos para a manhã?

Íris encolheu os ombros.

— Vou ficar por aqui. — Sorriu. — Aproveitar a varanda, o Sol e o lago.

— Estás em tua casa.

— Eu sei.

Gabriel deu-lhe um último beijo na testa, guardou o computador e pegou no casaco. Acenou-lhe uma despedida breve e deixou-a sozinha no apartamento.

Íris olhou para a varanda. O Sol incidia agradável. Caminhou até aos vidros e abriu a alta janela, sentindo a brisa fresca matinal. Regressou ao interior, voltando ao quarto. Já sabia como iria desfrutar da manhã.

Despiu a túnica e as leggings, trocou a roupa interior pelo biquíni que usara na praia, dias antes. Foi buscar a toalha de praia à mala e trouxe também uma almofada da cama que enfiou num saco de plástico para a proteger de qualquer sujidade.

Novamente na varanda, colocou a almofada protegida no chão e estendeu a toalha. O piso da varanda não era demasiado duro para as suas costas e o conforto ficou completo com a cabeça sobre a almofada.

Deitada no chão, massajada pelo Sol, Íris olhou em redor. O apartamento ficava suficientemente alto para que nenhum vizinho a visse, tornando o seu espaço completamente privado. Por isso, decidiu ficar ainda mais confortável e despiu a parte superior do biquíni. Prendeu o cabelo num rabo-de-cavalo, ajeitou os óculos de lentes escuras e pegou no telemóvel.

Já se recriminara mil vezes, mas não conseguia deixar de o fazer. Abriu a aplicação do Instagram no smartphone. Não conseguia evitar procurar o perfil de Ashley e ver se ela publicara algo de novo. Não o fizera e Íris ficou a observar com saudade as fotos da ex-namorada. Teve a vontade estúpida de fazer uma selfie sua e enviar-lha com a mensagem “para que não esqueças o que desperdiçaste”. Porém, teve o bom-senso de não o fazer. Perdera alguns minutos a olhar para as fotos que conhecia de cor, principalmente para as mais sugestivas, aquela em que a inglesa tinha menos roupa. Conhecia aquele corpo como a palma das suas mãos. Decidiu fechar a aplicação e colocar o telemóvel de lado. Fechou os olhos e deixou-se ficar estendida como se estivesse numa praia, sentindo a tristeza normal de um coração partido.

A manhã foi avançando. Íris permaneceu na varanda até o Sol se tornar incómodo e a temperatura a lembrar que estavam em pleno Verão. Voltou a vestir a parte superior do biquíni e levantou-se da toalha, recolhendo o seu pequeno espaço de banhista citadina.

Largou as coisas no quarto e regressou à sala, atravessando-a até à cozinha para ir beber um copo de água. Aquele dia lembrava-a de que Toronto poderia ser tão quente no Verão como era frio no Inverno.

O telemóvel tocou. Íris pegou no aparelho sobre o balcão e viu o nome de Gabriel no ecrã. Atendeu.

— Como tem estado a ser a manhã, Arco-íris?

— Decidi transformar a tua varanda numa praia e estive a bronzear-me.

— Onde arranjaste a areia? — questionou ele com humor.

— Engraçadinho. E a tua manhã? A reunião?

— Correu bem. Vou só terminar umas coisas e vou ter contigo.

— Cá te espero.

— Estava a pensar noutra coisa.

— Como assim?

— Passar por aí e levar-te a almoçar a um sítio bonito. — sugeriu ele. — Que dizes?

— Daqui a quanto tempo?

A resposta não veio logo, uma vez que Gabriel deveria estar a ver as horas e a fazer cálculos do tempo que iria demorar.

— Talvez uma hora.

— Uma hora seria perfeito. — concordou ela. — Quero tomar um duche e arranjar-me.

— Ligo-te quando estiver a chegar e apanho-te na entrada do prédio.

— Combinado.

Íris optou por tomar um duche mais prolongado, lavar o cabelo e saborear a água a correr pelo corpo. A melhor forma de ultrapassar males de amor seria encontrar uma nova paixão, por isso, quem sabe se não se cruzaria com uma canadiana de Toronto que lhe arrebatasse o coração. Para isso, o primeiro passo seria mostrar-se deslumbrante.

Saiu do duche e limpou-se com o enorme toalhão turco que deixou a secar na porta do poliban. Circulou até ao quarto com o cabelo enrolado numa toalha mais pequena do mesmo tecido. Vestiu umas cuecas e escolheu um sutiã para combinar. A seguir, abriu a mala para decidir o que haveria de vestir para sair. Tirou uma saia florida e uma camisa de manga curta singela em tons escuros. Deixou-a em cima da cama por fazer e foi secar o cabelo. Penteou-se e perfumou-se. Novamente junto da cama, vestiu a saia que lhe terminava sobre os joelhos e a camisa cujos primeiros três botões deixou soltos.

Não quis sair sem arrumar o quarto donde saiu com as sandálias penduradas na mão esquerda. Sentou-se no sofá e calçou-se. Por fim, arrumou o telemóvel numa pequena malinha, onde guardava os documentos e a carteira, que pendurou no ombro.

Já quase passara uma hora, Gabriel deveria estar a chegar. Pegou nos óculos escuros e nas chaves do apartamento e saiu para esperar o elevador no átrio daquele piso. Gabriel ligou nesse momento.

— Estou a descer.

As portas abriram e ela entrou no elevador. Enquanto descia, verificou-se na parede espelhada. Íris sentiu-se aquilo era, linda.

O Ferrari aguardava perto da entrada. Íris saiu do prédio e olhou para Gabriel que esperava encostado ao carro. Também estava de óculos, mas ela conseguiu distinguir-lhe a expressão de alguma surpresa pela sua imagem.

— Estás lindíssima, Arco-íris! — elogiou, quando ela parou na frente dele.

— Obrigada. Decidi “aperaltar-me”. — confidenciou, divertida. — Nunca se sabe quando nos poderemos cruzar com o amor da nossa vida, por isso, é bom que ele… no caso, ela repare em mim.

Gabriel levou-a a almoçar a um restaurante perto do lago, fora de Toronto e da azáfama de turistas que proliferavam pela cidade. Era um lugar muito pacífico, uma espécie de propriedade vitivinícola com um edifício térreo e uma zona de mesas cobertas por toldos virada para as águas do lago. O aspecto moderno do interior e exterior contrastava com a paisagem rural envolvente.

Íris adorou o local e a comida. Conversaram animados durante toda a refeição. Ele conseguia fazê-la esquecer Ashley, talvez não totalmente, mas era como um unguento para aliviar a cicatriz que a inglesa lhe deixara no coração. Por seu turno, a companhia de Íris atenuava em Gabriel a mágoa pela morte de Rachel.

Após o almoço, regressaram a Toronto, mas não foram para casa. Gabriel fizera uma surpresa a Íris e levou-a num cruzeiro turístico de barco pelo lago, por entre as ilhas. Antes da partida, escolheram dois lugares num dos bancos corridos do piso superior, mas após alguns minutos de navegação, levantaram-se encostaram-se à amurada para ver a paisagem. Íris usava o telemóvel para tirar inúmeras fotos à natureza, à paisagem e a eles. Estava a adorar cada minuto.

A viagem de barco durou pouco mais de duas horas, umas voltas tranquilas ao longo das ilhas que se erigiam diante da grande área urbana moderna. Não deixava de ser curioso encontrar aquelas zonas tão naturais, revelando uma natureza tão saudável estando tão perto de Toronto. No regresso, viram um avião aterrar no pequeno aeroporto de uma das ilhas, a mesma rota que se avistava das janelas do apartamento de Gabriel.

Íris reparou em alguns olhares masculinos interessados, talvez jovens que se questionavam se ela passeava com o pai. Sim, não seria difícil a Gabriel passar por pai de Íris. Ela não lhes ligou, mas estremeceu quando uma rapariga lhe sorriu sem pudor e lhe piscou o olho. Não era o momento e ignorou, apesar de não se importar de a conhecer melhor.

Desembarcaram no mesmo caís e caminharam sem pressa no retorno ao carro estacionado não muito longe.

— Obrigado por esta tarde, Gabriel. — agradeceu. — Aliás, obrigado por tudo, por teres voltado a existir na minha vida.

— Na verdade, foste tu que voltaste para mim.

— Porque tu me ajudaste a vir.

Gabriel sorriu, sentindo que adorava estar com ela. Sabia que aquilo terminaria em breve, Íris seguiria o seu caminho para Montreal. Não importava, estava decidido a não pensar nesses pormenores, tal como estava decidido a estar mais tempo com ela.

— Hoje, quando te disse que irei a Montreal…

— Sim.

Parou e olhou para ela.

— Quero que me prometas que, se me tornar demasiado presente na tua vida…

— Não. — interrompeu ela. — Não coloques sequer essa hipótese. Nunca estarás a mais ou serás um… sei lá, um incómodo? Não, isso nunca irá acontecer.

— Quero mudar a forma como lido com as pessoas, como lido com quem quer estar comigo. — Sorriu meio envergonhado. — Quem quero eu enganar? Quero mudar a forma como geri a nossa amizade no último ano.

— Eu também não a geri da melhor maneira.

— Não digas isso, Arco-íris. Se não fosses tu… — Gabriel abanou a cabeça e olhou para o lago. — Tu não tens culpa, mas eu ficava angustiado cada vez que partias. Achei estupidamente que se te mantivesse à distância, sofreria menos. Um erro. Quero aproveitar todo o tempo que possa para estar contigo. Perdi quinze anos da tua vida e desperdicei este último em que viveste no Canadá.

— Estava em Montreal, não é já ali.

— Uma hora de avião para mim não é nada.

— Não te culpes, Gabriel.

— Seja como for. Quero-te muito presente na minha vida, mas se estiver a ser um chato…

— Um dia, uma pessoa que adoro… — Íris fez uma pausa. As amêndoas olhavam-no intensamente nos olhos. — Uma pessoa que eu amo disse-me “Vamos fazer um acordo? Tu paras de dizer que és chata e eu dir-te-ei que estás a ser, caso isso aconteça”. Sabes quem é essa pessoa não sabes? E também não é surpresa para ti que te amo porque já to disse antes.

— Eu sei. Os amigos podem amar-se sem que isso tenha outros significados. — Foi a vez de ele sorrir com ternura. — Foi-me ensinado por alguém que eu também amo.

Íris olhou para o chão, parecendo envergonhada. Havia algo que a perturbava ou, pelo menos, a deixava confusa. Abstraiu-se desses pensamentos e continuou:

— Por isso, se o impensável acontecer, ou seja, tu seres um chato, eu dir-te-ei.

— Combinado, Arco-íris.

Ainda era cedo, mas para eles era mais tarde, uma vez que ainda se readaptavam ao fuso horário da costa leste canadiana. Gabriel convidou-a para jantarem num outro restaurante, mas Íris preferiu que comprassem algo para comer em casa.

Encomendaram sushi para o jantar e comeram-no sentados na varanda a ver o dia quente a terminar. A paz do lago contagiou-os. Gabriel sentiu-se tranquilo em relação aos seus demónios. Íris esqueceu momentaneamente a mulher que lhe partira o coração.

Conversaram sobre coisas sem importância até a noite cair e a brisa mais intensa os convidar a ir para dentro. Íris quis arrumar a cozinha e quase obrigou Gabriel a ir para a cama, depois de o ver bocejar duas vezes.

Contrariado, ele acabou por ceder, dando-lhe um beijo na testa, abraçando-a e desejando-lhe uma boa noite.

Contudo, uma vez no quarto, depois de todos os procedimentos que antecediam a entrada na cama, Gabriel deu por si sem sono. Sentou‑se no colchão tapado com o lençol pela cintura e pegou no telemóvel para ver se o sono o visitava enquanto lia as notícias. Ouviu os passos suaves de Íris no corredor, quebrando tenuemente o silêncio, e a entrar no quarto dela. Leu alguns emails e ainda dedicou alguns minutos a ler uma proposta que lhe haviam enviado.

De súbito, ouviu bater à porta.

— Sim?

A porta abriu.

— Posso? — pediu Íris.

— Claro.

Íris entrou no quarto. Vestia uma t-shirt, que ele calculou que usaria como camisa de noite, que lhe terminava nas coxas das pernas nuas.

— Vi luz por baixo da porta.

— Algum problema?

Ela parecia triste.

— Não tenho sono e dei por mim só a pensar na… Ashley. — Encolheu os ombros. — Não quero estar sozinha. Posso ficar aqui a conversar um bocado contigo?

— Claro, Arco-íris. — concordou ele, apontando-lhe o lado vago da cama. — Senta-te aqui. — Riu-se para forçar o ar brincalhão. — Prometo que não me atiro a ti.

Íris não correspondeu à brincadeira, mas afirmou:

— Não tenho qualquer problema com isso. Sinto-me totalmente segura ao pé de ti. Sei que jamais me faltarias ao respeito. — Contornou a cama e sentou-se ao lado dele, usando outra almofada para apoiar as costas. Olhou para ele. — Seria capaz de te confiar a minha vida.

— Eu sei. Estava a brincar contigo.

Íris esticou as pernas e ajeitou a camisola, como se não quisesse que se visse muito mais que isso. A cama era tão larga que quase cabia outra pessoa entre eles. Íris encostou-se confortável.

— Manda-me embora, se tiveres sono.

— Ou adormeço no teu ombro. — ripostou ele.

Ambos sorriram com gosto.

— Que queres falar? — questionou Gabriel, vendo-a hesitante.

— Na verdade nem sei. Só não me apetecia estar só.

— Estavas a pensar na Ashley. — Íris anuiu. — Queres falar sobre o que aconteceu em Londres?

Íris não respondeu de imediato. Gabriel sabia que era um assunto melindroso, por isso não insistiu, deixando-a decidir se queria desabafar ou não.

— Quando chegámos a Londres, a Ashley ficou diferente. Aliás, já a notara algo estranha naqueles dias em Portugal. Ela parecia preocupada. Entre nós as coisas estavam bem, muito bem. Ela é tão receosa com a nossa relação, sempre com medo que alguém descubra que somos… — Interrompeu-se e olhou para ele, sorrindo triste. — …que éramos amantes. Em Portugal, isso não a preocupou, namorávamos sem complexo. — Voltou a parar, acariciando os dedos. — Em Londres a situação mudou. Apresentou-me à família como a amiga com quem partilhava casa em Montreal. Os pais pareciam aqueles casais que vemos nos filmes com ar aristocrata, mas a viverem ao nível da classe média e, quase me arriscaria a dizer, com o dinheiro bem contado para as contas. Receberam-me bem, mas era notório que não faziam a menor ideia da nossa relação ou da orientação sexual da filha. — Voltou a olhar para Gabriel. — A minha mãe recebeu a Ashley como namorada da filha. Nós dormíamos juntas em casa da minha mãe. Em Londres, fui recambiada para um quarto de hóspedes no sótão, quase como quem te faz um favor, dando-te a entender que não percebe porque não foste para um hotel.

— Calculo que isso te tenha deixado desconfortável.

— Não foi o pior. O que mais me magoou foi a forma fria como a Ashley me tratava, quase como uma amiga distante. Ela que é tão carinhosa, apaixonada e intensa, ali não passava de uma inglesa gélida. Eu sentia que ela receava até tocar-me ou olhar para mim, como se isso alertasse toda a gente para o facto de namorarmos.

— Tu sempre soubeste que ela não iria assumir a vossa relação.

— Sim, mas isto foi diferente. Não era o não assumir, era a forma como me tratava. E a gota-de-água… a gota-de-água foi quando conheci os amigos dela.

Gabriel sentiu que ela ficava cada vez mais triste com o relato. Esticou o braço para ela e segurou-lhe a mão. Ela apertou-lhe os dedos e continuou:

— Foi um jantar, um jantar para reencontrar todos os amigos que já não via há bastante tempo. Acho que, desde que está em Montreal só fora a casa duas vezes. Ao início pareciam todos muito porreiros, acolheram-me bem e conversavam comigo. Porém, um dos amigos dela estava claramente interessado em mim, notei-o pela forma como me olhava e depois por ter perguntado se tinha namorado. Eu disse-lhe que não. Ele fez uma expressão do género que isso significava que poderia muito bem “curtir” com ele. Eu ignorei-o e afastei-me. Ao longo do jantar, ele continuou a atirar-se a mim. Controlei-me e contava que a Ashley, sem ter necessidade de revelar o que quer que fosse, fizesse algo para o demover daqueles comentários. Ainda para mais, sabendo eu como ela é ciumenta. Para minha surpresa, ela ria divertida. Quando perdi a paciência, disse sem qualquer problema para todo o grupo que os rapazes não me interessavam porque sou lésbica. Vi o ar de choque nuns e duas raparigas não tiveram pudor em expressar um ar de completo nojo. Mais uma vez, Ashley demarcou-se. E pior, acabou por dizer que não percebia como mulheres poderiam gostar de mulheres. Tive vontade de gritar que pensava que ela já o percebera nas vezes em que fizera amor comigo. — Encolheu os ombros e Gabriel viu que tinha as amêndoas húmidas, ao olhar para ele. — Não o fiz. Optei por ficar calada o resto da noite. Foi um suplício aguentar o fim daquele encontro com os amigos dela.

— E o que aconteceu depois.

— Quando ficámos sozinhas, no regresso a casa, eu disse que precisávamos de conversar. Era um assunto que ela jamais quereria dialogar em casa dos pais, por isso ficámos a falar na rua. Disse-lhe tudo o que pensava e em como estava magoada pelo que acontecera. Não percebia porque ela se comportava assim, nem em Montreal ela me deixara tão desamparada quando saíamos com os nossos amigos e escondíamos a nossa relação. Estava tão passada com ela que fui algo bruta na forma de falar. Acabámos a discutir. Eu senti-me furiosa e quase sem pensar, fiz-lhe um ultimato, ou ela assumia o que tínhamos ou estava tudo terminado entre nós.

Íris começou a soluçar. Gabriel colocou um braço sobre os seus ombros e ela chegou-se mais para ele.

— Fiz aquilo a julgar que seria um golpe para ela. — prosseguiu, fungando ligeiramente e limpando uma lágrima do rosto. — Para minha surpresa, ela ficou impávida e disse com a maior das naturalidades que não iria voltar a Montreal e nem sequer regressaria comigo a Portugal. Fiquei sem palavras. Devia ter-lhe perguntado quando pensava dizer-me, mas acho que era óbvio que seria o mais tarde possível. Comecei a chorar. Ela tentou abraçar-me, mas eu empurrei-a. Terminou tudo ali. Não voltei a falar-lhe e quando chegámos a casa dos pais dela, eu fui para o meu quarto e tratei da antecipação do regresso. Depois, liguei à minha mãe.

— Lamento, Arco-íris.

— Não tinha de ser. Além disso, Gabriel, seguir o teu conselho foi o melhor que fiz, desfrutar enquanto durou. Foi o que fiz. Sim, estou de coração partido e continuo apaixonada por ela, mas… Isto irá passar.

Íris fez um movimento para se afastar e Gabriel levantou o braço. Ela retornou ao seu lugar no colchão e encarou-o, recomposta das lágrimas traiçoeiras.

— Já tens sono? Queres que vá embora?

— Não.

— Não tens sono ou não queres que vá embora? — insistiu ela, meio a brincar.

— Não para ambas as perguntas.

— Não me apetece estar sozinha, mas não tenho o direito de perturbar o teu descanso.

— Não perturbas. E se quiseres, podes dormir aí.

— Não te importas?

— Porque haveria de me importar?

Íris sorriu, novamente divertida.

— Não receias que me possa atirar a ti durante a noite?

Riram ambos com gosto.

— Devo avisar-te que durmo todo nu. — alertou, mantendo o tom dela.

— Não tens nada que me deixe tentada. — retorquiu com humor.

Toda aquela brincadeira ajudou Íris a desanuviar da angústia que o relato lhe deixara. Ele tinha esse condão, ser o seu porto de abrigo, o lugar onde se sentia segura e protegida. Deixou-se escorregar na cama e levantou o lençol com cuidado para não destapar nenhuma intimidade de Gabriel, enfiando-se por baixo do tecido.

— Queres que apague a luz? Ainda vou ler aqui umas coisas no telemóvel.

— Não é preciso.

Íris rodou na cama, ficando virada para ele com a cabeça aninhada na almofada e de olhos fechados. Julgou não ter muito sono, mas nem deu por adormecer.

Gabriel terminou a leitura da proposta e colocou o telemóvel de lado. Olhou para uma Íris adormecida, descansada com a tranquilidade de quem se sentia completamente segura e confortável ali junto a ele. Sorriu para ninguém, sentindo um carinho enorme por ela. Também se deixou escorregar no colchão e ajeitou a almofada. Esticou-se para ela e beijou-lhe a testa.

— Dorme bem, minha querida.

— Tu também, meu amor. — devolveu ela sem abrir os olhos.

Gabriel apagou a luz e também não demorou muito a adormecer.

XXVI

 

Íris acordou a meio da noite com calor. Abriu os olhos sem saber muito bem onde estava e o escuro também não ajudou, mas rapidamente se lembrou que adormecera na cama de Gabriel. Estava virada para a janela e ele estava deitado atrás de si. Viu a claridade ténue do luar lá fora. Afastou o lençol, mas não era isso que lhe fazia calor, era a t-shirt, uma vez que não estava habituada a dormir vestida. Pensou em regressar ao seu quarto, mas temeu acordar Gabriel e, além disso, estava muito confortável ali e tinha saudades de dormir na companhia de alguém. Rodou na cama cuidadosamente e observou na penumbra o rosto adormecido do homem que adorava, não como homem mas como ser humano. Ele era encantador e fazia-a sentir tão bem. Aquele momento era quase perfeito, não fosse o desconforto da t-shirt.

Gabriel não era um homem qualquer, era o seu amigo, o seu melhor amigo, alguém que estava sempre ali para ela, mesmo após uma ausência de quinze anos. Como teria sido a sua estadia em Montreal, se não tivesse tido o seu apoio? Ser-lhe-ia grata para o resto da vida. Confiava nele, em momento algum a olhou como mulher, apenas como amiga, a criança que conhecera ao namorar a mãe, a mulher em que se tornara, sem nunca a fazer sentir a diferença de idades entre eles, tratando-a como igual, sem qualquer segunda intenção. Suspirou. O calor… Sorriu no escuro. Se não fosse lésbica, seria tão fácil apaixonar-se por ele. E estaria a lixar-se para que ele tivesse quase o dobro da sua idade, ela era uma mulher que nunca ligara a conceitos pré-instituídos. Mesmo assim, sentia que o amava. Não era um amor carnal e muito menos sexual, era um amor quase fraternal entre dois amigos que simplesmente se adoram.

Estava segura, não tinha que recear o que quer que fosse. Sentou‑se na cama e despiu a t-shirt, ficando em cuecas. Colocou a t-shirt a seu lado no chão, pronta a ser resgatada assim que necessário. Não tinha qualquer complexo que Gabriel a pudesse ver nua, mas não queria que ele se sentisse desconfortável com isso.

Sim, agora estava confortável e já não sentia o calor. Voltou a deitar-se de costas para ele e adormeceu.

Quando voltou a acordar, Íris estremeceu surpresa. Não por já ser dia lá fora, mas porque as movimentações adormecidas na cama deixaram Gabriel encostado a si e com o braço à volta da sua cintura. Estavam deitados colados um no outro, ela sentia-lhe os pelos do peito nas costas e o rosto na sua nuca. Ficou imóvel e depois recriminou-se por estar a ser parva. Ele dormia e aconchegava-a com carinho. Percebeu que lhe sabia bem estar assim e aninhou-se mais nele. Gabriel ressonou baixinho perto da sua orelha e apertou-a ligeiramente, tornando o abraço mais forte. Íris suspirou, era mais agradável que aquilo que ela um dia poderia imaginar. Tornou a aninhar-se a ele, colocou o seu braço sobre o dele e pousou a mão na anca robusta. Sem querer, sentiu o membro dele mole encostado às nádegas. Mais uma surpresa, não se sentiu minimamente incomodada com isso. Olhou estremunhada para a janela, para o amanhecer. O conforto que sentia era tão bom que se deixou adormecer novamente.

Gabriel dormia profundamente até ficar num estado de meio a dormir e meio acordado. Percebeu que estava alguém a dormir consigo e sorriu, procurando na memória recordar qual dos nomes da lista de dez havia contratado na noite anterior para passar a noite consigo. A constatação da realidade fê-lo acordar assustado, recordando que fora Íris quem adormecera na sua cama. Ficou petrificado, ainda para mais porque percebeu que ela estava nua, com as costas encostadas ao seu peito e ele tinha o braço à volta da sua cintura, mas numa posição que lhe deixava a mão a escassos centímetros dos seios dela. Tentou libertar-se, mas o braço de Íris prendia o seu, repousando a mão entre a coxa dela e a sua. Não sabia o que fazer e teve um medo assustador que ela acordasse e julgasse que ele se tentara aproveitar dela.

Íris moveu-se, aninhando nele adormecida.

Gabriel não conseguiu evitar ficar excitado e afastou devagar a sua cintura da dela. Estava tão nervoso que julgou estar a tremer. A mulher que ali estava era linda, sensual, encantadora, maravilhosa, avassaladoramente atraente. Começou a transpirar, consciente da dificuldade em controlar uma erecção traiçoeira. Voltou a tentar libertar o braço sem sucesso.

A voz sussurrada de Íris surpreendeu-o como se ouvisse alguém julgando estar sozinho:

— Deixa-te estar.

— Estás acordada?

— Hum, hum. — proferiu ela, imóvel.

— Eu não…

— Eu sei, Gabriel. — atalhou com um risinho adorável. — Não te preocupes, eu estou confortável.

Mais uma vez, o cabrão do pénis com vontade própria ficou mais rijo e tocou-a nas costas.

— Desculpa… — disse com uma vergonha imensa.

Íris voltou a sorrir.

— Vou considerar isso um elogio, não me desagrada saber que excito um homem.

— Tinhas dúvidas?

— Não.

— Não quero que isto seja desconfortável, entre nós, Arco-íris.

— Estás desconfortável?

— Não quero faltar-te ao respeito e sinto que, neste momento, não controlo a totalidade do meu corpo.

— Eu estou muito confortável, Gabriel. E essas partes que não controlas não me incomodam.

Gabriel pareceu sentir-se mais tranquilo e ficou calmo.

— Tive receio que julgasses que eu…

— Sei que jamais o farias.

— Porque estás nua?

— Tive calor durante a noite. — explicou, mantendo-se imóvel e com os olhos fechados. — Se isso te deixar desconfortável, eu visto a t-shirt.

— Não me incomoda. Fica como te sentires melhor.

Ficaram em silêncio durante uns instantes. Íris sentia-se no paraíso, um conforto que desejava pudesse ser eterno. Gabriel também se sentia bem assim, mas continuava com receios.

— Espero que, mesmo a dormir, não te tenha faltado ao respeito, Arco-íris.

— Porque dizes isso?

— O meu braço e a minha mão…

— Não me tocaste em nenhum lugar onde não gostasse de ser tocada por ti. — A resposta era dúbia. Quais seriam esses lugares? A dúvida dele foi adivinhada por ela. — Não me tocaste nos seios, se é isso que estás a perguntar-te. — Novo risinho. — Não havia problema se tivesses tocado, Gabriel.

— Talvez não fosse apropriado.

Íris acariciou-lhe o braço que a abraçava, desde o cotovelo até à mão. Colou a sua mão à dele e entrelaçou os dedos nos seus. Ela tinha um toque tão suave e carinhoso. De súbito, para surpresa dele, puxou-lhe a mão com ternura e colocou-a sobre o seu seio.

— Não é nada demais, Gabriel.

Nos seus cinquenta anos, Gabriel sentiu-se como um puto adolescente. Aquela parte de si da qual perdera o controlo ganhou vontade própria e cresceu em força contra as costas dela. Íris correspondeu ao toque, aninhando-se mais nele e apertando a reacção entre eles os dois.

— É melhor pararmos com isto. — sugeriu ele.

— Só se quiseres. — retorquiu, largando-lhe a mão. — Eu estou bem.

Curiosamente, Gabriel não conseguiu largar o seio que ela lhe oferecera. Ao invés, sem pensar, acariciou-o com ternura e desejo.

Íris começou a suspirar e levantou o braço, procurando a cabeça dele e puxando-a para si, afundando-lhe o rosto no seu cabelo. Gabriel beijou-lhe o pescoço.

Que estou a fazer? Pensou ele sem capacidade de controlar o que estava a acontecer.

A outra mão de Íris apareceu sobre a de Gabriel, travando as carícias no seio e no mamilo cada vez mais rijo.

— Podes parar? — pediu num sussurro ofegante.

Gabriel largou como se tivesse sido repreendido. Contudo, Íris continuava a segurar-lhe a nuca sem o deixar afastar do seu cabelo. Rodou ligeiramente, esticando a perna inferior e dobrando a superior, o que lhe deixou o rabo empinado.

— Toca-me entre as pernas! — pediu no mesmo tom sussurrado.

— Arco-íris… — protestou sem convicção.

Ela largou-lhe a cabeça e juntou os dois braços perto do peito, como se fosse preparar-se para voltar a adormecer.

— Se não quiseres, não o faças.

Gabriel notou o tom de desapontamento na voz. Com carinho, acariciou-lhe a zona lombar, descendo até à anca e afagando-lhe a coxa. Tocou-lhe a nádega e dedilhou o tecido das cuecas, afastando-o da pele dela. Íris moveu-se, acomodando-se ao toque e gemeu quando as pontas dos dedos dele a tocaram onde jamais homem algum a tocara.

Só podia estar louco a fazer aquilo, mas teve consciência que já não controlava o que estava a acontecer.

Quase como uma cobra, Íris contorceu o tronco aconchegada nele. Elevou o braço e voltou a segurar-lhe o cabelo pela nuca. A posição deixou‑a torcida, quase desconfortável. Porém, ela não estava minimente desconfortável. Elevou a perna para ele a tocar com mais facilidade. Conseguiu posicionar-se de forma a rodar a cabeça e ver o rosto dele. A imagem dos seios nus empinados dela provocou em Gabriel uma excitação como nunca sentira. Para além disso, viu uma fome sexual no olhar amêndoa de Íris que julgava impossível a olhar para si. Ela puxou-lhe a cabeça e obrigou-o a beijá-la na boca.

A intensidade do momento foi interrompida por ela, incontrolável, estremecendo com o orgasmo que os dedos dele lhe provocaram.

— Pára… pára… pára… — repetiu, ofegante.

Gabriel retirou a mão de entre as suas pernas. Ela abriu os olhos e encarou-o com uma intensidade descomunal. Ele sentiu que já vira aquele olhar, daquela forma, naquela situação… Impossível.

Íris nem parecia Íris, a Íris que ele conhecia, nunca a vira assim. Desconhecia aquele lado dela, mas estava a adorá-lo. Sem tirar os olhos dos deles, pediu:

— Beija-me.

Gabriel voltou a baixar o rosto sobre o dela e beijou-lhe os lábios com ternura e amor.

Íris soprou para a boca dele:

— Amo-te!

— Eu também te amo, Arco-íris! — retribuiu e voltou a beijá-la.

Os beijos foram ternos, suaves, como se estivessem a explorar os lábios um do outro. Pararam e ficaram a olhar-se. Íris parecia querer dizer algo, mas ficou muda. Ao invés, rodou na cama e virou-se para a posição inicial, de costas para ele, puxando-lhe o braço para que voltasse a abraçá‑la pela cintura. Gabriel não a decepcionou e apertou-a com carinho. Íris aninhou-se mais contra ele e chocou com uma erecção rija.

— Desculpa… — sussurrou ele, afastando a cintura da dela.

— Não tem mal. — disse ela, passando o seu braço sobre o dele e pousando a mão na coxa peluda. — Fazes-me sentir tão bem.

Gabriel massajou-lhe a barriga e beijou-lhe os cabelos.

— Tu também. Não sei o que está a acontecer, mas…

— Não penses muito nisso, deixa fluir.

Ele calou-se.

Ficaram assim uns instantes, silenciosos, olhos fechados, a desfrutar da companhia um do outro. Íris voltou a pressionar-se contra o corpo dele e tornou a sentir a erecção. Desta vez, foi ela quem se afastou.

— O tipo está rebelde. — atirou Gabriel nervoso.

— Põe o teu braço sobre o meu. — pediu ela.

Gabriel retirou o braço que lhe abraçava a cintura, fê-lo passar sobre o dela e retomou o abraço. Íris não parou de lhe acariciar a coxa, mas a sua mão começou a descer até lhe sentir os pelos púbicos e o membro.

— Que fazes? — questionou a medo.

— O que achas que faço? — ripostou ela com ternura, enquanto lhe acariciava a excitação. — Se quiseres, eu paro.

Gabriel não disse nada. Quem cala consente.

Íris sentiu a sua respiração entrecortada, excitada. Não sabia se o estava a fazer bem, nunca fizera aquilo.

— Está a ser bom? — perguntou.

Ele gemeu e respondeu:

— Bom demais.

Ela sorriu contente e continuou, dizendo:

— Nunca fiz isto, por isso, estou receptiva a dicas.

Ouviu-o sorrir no seu ouvido.

— Não te preocupes, estás a fazer bem. — Gemeu quando ela deu um puxão mais intenso. — Posso colocar a mão na tua mama?

— Podes colocar a mão onde quiseres.

— Levanta um pouco a cabeça, Arco-íris.

Ela acatou o pedido e ele passou o braço por baixo do pescoço dela, ficando com ambas as mãos em frente a ela

Gabriel correspondeu à massagem dela, acariciando-lhe os seios e os mamilos. Íris percebeu que aquilo era tão bom para ela como deveria estar a ser para ele. Para além disso, ele beijava-lhe constantemente a cabeça e gemia baixinho, o que a deixava excitada. Pela forma cada vez mais intensa como lhe apertava os seios, ela percebeu que ele deveria estar perto do êxtase. Os gemidos dele tornaram-se guturais.

— Tão bom. — repetia. — Que vontade de te penetrar.

A última frase surpreendeu ambos.

Íris parou imediatamente. Gabriel acreditou que fora longe demais. Quis dizer alguma coisa, mas a sua única reacção foi largar-lhe os seios.

— Queres? — questionou ela num tom longe de ser recriminatório e cheio de ternura.

Gabriel não sabia o que dizer, debatendo-se entre a vontade e o quanto isso seria errado.

— Talvez não seja apropriado. — disse ele sem convicção.

— Não foi isso que te perguntei. — retorquiu ela sem se mexer. — Perguntei se queres… fazer amor comigo.

Continuou sem saber o que responder. Ela percebeu a hesitação dele. Não disse mais nada a mão que o acariciara passou para o elástico das cuecas, desfazendo-se da última peça de roupa que conservava.

Gabriel observava aquilo incrédulo. Estaria a sonhar? Seria aquilo real? Nem na adolescência se sentira tão vulnerável com uma mulher. Não uma vulnerabilidade que temesse que lhe fizessem mal, isso era absurdo com Íris, era mais a vulnerabilidade de ceder aos encantos dela e como isso seria tão errado. Devia dizer-lhe para pararem, mas não conseguia.

Perante a imobilidade dele, ela rodou o troco e olhou para ele. Novamente, a intensidade das amêndoas desarmaram-no.

— Se depois disto tudo tens dúvidas, quero que saibas que o desejo tanto quanto tu.

— Receio que seja errado, Arco-íris.

— Não é! — afirmou segura. — Não pode ser quando desde ontem à noite, passando por tudo o que já aconteceu, sinto que estás a pintar-me todos os arcos. Por isso, não pode ser errado.

Gabriel sorriu. Para quê combater o desejo? Virou-a na cama e beijou-a com ternura e um amor imenso. Rodou e colocou-se sobre ela. Íris afastou as pernas para o receber. Ele voltou a hesitar.

— Desculpa perguntar…

— Que se passa?

— És virgem?

Ela não conteve uma gargalhada.

— Nunca estive assim com um homem, mas não sou virgem. — Gabriel fez uma expressão confusa. Ela continuou divertida. — Noutra altura poderei explicar-te como. Agora não me parece importante.

— Perguntei só… Quer dizer… Para não te magoar.

— Relaxa, Gabriel. — descansou-o. — Mais nervosa estou eu, caso não tenhas reparado. Nunca fiz amor com um homem, por isso, deixo-te no comando.

Sorriram um para o outro, visivelmente inebriados de paixão.

Apesar de tudo, Gabriel foi cuidadoso e penetrou-a devagarinho. Íris sentiu um arrepio de excitação na espinha quando o sentiu em toda a plenitude dentro de si.

Moveram-se cadenciadamente com o olhar nos olhos do outro. Gabriel tratava-a como se ela fosse uma flor, uma ternura imensa, um carinho que a deixara completamente indefesa.

Íris sentia-se amada como nunca. Os olhos dele tinham algo que lhe parecia familiar, algo que ele também vira nos dela, a mesma sensação de que aquilo não era inédito entre eles. Não encontrou explicação, nem se conseguiu concentrar na questão, conforme a excitação aumentava.

Com o evoluir do ritmo, Gabriel invadiu-lhe a boca com a língua. Íris agarrou-o pelas nádegas e instigou-o a investir com mais intensidade.

O orgasmo explodiu entre eles com uma violência deliciosa, alcançaram o êxtase em simultâneo e Íris sentiu pela primeira vez fluidos masculinos inundarem-lhe o ventre.

Gabriel ficou a olhar para o rosto extasiado dela, sorridente e carinhoso a observá-lo como se mais nada no mundo existisse.

— Foi bom? — perguntou ele.

— Foi diferente. — respondeu sincera.

— Diferente?

— Nunca o fiz com um homem.

— Eu sei.

— Diferente, não quer dizer que não tenha sido bom. — adicionou, tocando o rosto dele com ternura. — E para ti?

— Foi fabuloso.

Íris sorriu numa felicidade contida.

Gabriel detectou-a:

— Estás bem?

— Sim.

— Pareces pensativa. — Gabriel foi atingido pela dúvida. — Estás arrependida?

— Não. Porque pensas isso?

— Não sei… Intuição?

— Isso é coisa de mulher, daí que a tua esteja errada.

Riram um para o outro. Gabriel saiu dela e deixou-se cair no seu lado da cama. Íris rodou na cama, ficando de costas para ele.

— Podes abraçar-me como há pouco? Adoro estar aninhada em ti.

— Claro. — concordou, colando-se a ela e abraçando-a pela cintura. — Eu amo-te, Arco-íris!

— Eu também te amo, Gabriel.

Mas, talvez não da mesma forma como ele agora o sentia.

XXVII

 

Gabriel deu por si na rua. Era um cenário estranho, quase como os filmes que via na televisão. Os prédios eram antigos, uma cidade que não conhecia e que não lhe parecia estranha. Viu pessoas a fugir. O céu estava cinzento, mas algo lhe dizia que não eram só nuvens. Olhou para si e viu uma criança, apesar de ser um adulto. Que raio! Um som horrivelmente assustador tomou conta do ambiente, o ruído de motores potentes e pesados. Os carros de combate entraram na rua, acompanhados de homens fardados. Já os vira. Reconheceu-os e sabia que tinha de fugir. Eram soldados nazis. Mas… Que se estava a passar? Como poderia estar em plena Segunda Guerra Mundial? Nesse instante, viu uma rapariguinha a fugir dos soldados. Sabia quem era, era a sua amiguinha, a sua namoradinha. Ela deveria ter uns seis anos. Voltou a ver-se e constatou que ele próprio não deveria ter mais de sete. Os soldados agarraram-na. Gabriel gritou:

— Gdanzka!!!

E acordou.

A manhã ia bem avançada e a claridade de um Sol forte de Verão entrava pelo quarto. Olhou para o lado e encontrou o espaço onde Íris dormira vazio. Passou a mão pelo lençol, estava frio, ela já dali saíra há algum tempo. Pensou nela com um friozinho no estômago. Reviu o que haviam partilhado ao amanhecer. Tinha noção que aquela noite mudara a sua vida e a relação deles. Algo o fez temer que a tivesse estragado, mas não se arrependeu do que acontecera. Há muito tempo que não se sentia assim, feliz e… apaixonado. Contudo, não conseguiu abstrair-se daquela centelha estranha que ela parecia ter no olhar, após terem feito amor. Tentou não se preocupar, seria algo que o tempo lhe mostraria o significado.

O silêncio na casa não lhe dizia onde Íris poderia estar. Certo era que não permanecera no quarto nem estaria na sua casa de banho. Gabriel saiu da cama sem se abstrair do nervoso miudinho que lhe corroía a alma, subitamente tinha receio de a reencontrar sem saber o que esperar. Ela deveria estar no outro quarto ou na sala. Apesar da tentação de voltar a estar no mesmo espaço que ela, vê-la, tocar-lhe… Gabriel atrasou o momento e foi tomar um duche.

Vestiu algo simples, desportivo, informal para um dia sem compromissos profissionais. Penteou-se e perfumou-se. Olhou-se trinta e uma mil vezes ao espelho sem certeza de estar perfeito. Saiu do quarto. As portas dos restantes estavam abertas, não havia lá ninguém. Caminhou até à sala e viu a janela da varanda aberta. Íris estava sentada numa cadeira ao Sol a observar o lago.

Gabriel sentiu-se um puto, um miúdo apaixonado pela miúda linda e com receio que ela não sentisse o mesmo. Avançou pela sala devagar e sem fazer barulho, mas ela deu pela sua presença e olhou para trás. Ele parou. Íris levantou-se da cadeira, vestia uma saia curta e a parte superior do biquíni. Não lhe notou qualquer insegurança, era uma mulher confiante, linda e apaixonante.

Íris reentrou na sala e parou a olhar para ele. Sorriu.

— Bom dia, Arco-íris! — disse, continuando a não saber o que esperar.

— Bom dia, Gabriel! — Riu-se como se tivesse dito uma piada. — É mais boa tarde.

Gabriel anuiu. Íris identificou-lhe as hesitações. Possuidora de uma maturidade acima da média, disse afável:

— Vamos falar do elefante na sala?

— Não sei o que diga. — confessou ele.

Ela continuou a sorrir e caminhou até ele. Abraçou-o e beijou-o nos lábios com carinho.

— Temos de falar. Sempre fui e sempre serei honesta contigo.

Aquilo deixava adivinhar que o futuro não seria o que Gabriel gostaria que fosse. Enfim, era a história da sua vida. Sem saber muito bem o que dizer, anuiu e mostrou-se receptivo a conversarem sobre isso. Íris sugeriu que se sentassem no sofá.

— Estou confusa, baralhada com tudo o que aconteceu. — Fez uma expressão decidida. — Não me interpretes mal. Foi maravilhoso tudo o que fizemos esta manhã. Só que…

— Só que?

— Faltou qualquer coisa… Eu gosto de mulheres, gosto mesmo muito. Em toda a minha vida, foste o único homem por quem senti algo parecido com paixão, atracção, fome sexual. — As amêndoas encaravam‑no revelando a sinceridade nas palavras. — Nada do que aconteceu foi simulado, o prazer foi real. Fiz amor contigo com tanta intensidade como com as namoradas que tive. — Uma espécie de tristeza estranha ensombrou-lhe o olhar. — No fim, senti que faltava algo, faltava ver uma mulher. Ontem não fiz amor com um homem, fiz amor com o teu ser, com aquilo que significas para mim. Eu amo-te, amo-te mesmo muito. Mas, receio não ser um amor convencional.

Íris calou-se. Esperava que ele dissesse algo.

Gabriel continuava sem saber muito bem o que dizer. Era evidente que, por mais que ela gostasse dele (e disso não tinha dúvidas), não era o mesmo amor que ele sentia por ela.

— Só te posso dizer que te amo e estou completamente apaixonado por ti.

— Não te quero magoar. — disse sem respirar. — Nunca me perdoaria se o fizesse.

— Estás a querer dizer-me que o que aconteceu ontem foi… um erro?

— Não! Jamais! Já te disse que não me arrependo e… — Desviou o olhar envergonhada. — Faria amor contigo outra vez e muitas vezes.

— Então, não estou a perceber.

— És uma espécie de guilty pleasure, percebes? Temo que uma relação contigo termine quando encontrar uma mulher que me arrebate.

— Qualquer casal pode vir a apaixonar-se por terceiros.

— Ia magoar-te. E prefiro morrer a magoar-te.

— Não digas isso, por favor. — pediu Gabriel. — Não sei se sobreviveria à morte de mais alguém que amo.

— Estou muito confusa, Gabriel.

— Que queres fazer?

— Não sei.

— Como ficamos?

— Não sei, Gabriel. — Íris estendeu o braço na direcção dele e Gabriel segurou-lhe a mão. — A amizade não está em causa, nem o amor que sinto por ti. Mas, preciso de pensar um pouco sobre o que aconteceu. — Olhou-o crente que o iria entristecer, mas aquele era o melhor caminho. — Vou voltar para Montreal amanhã.

— Já?

— Preciso de me afastar… Não, não é contar o contacto. Preciso só de me afastar fisicamente de ti, estar uns tempos sozinha.

— Entendo.

— Desculpa, sinto que fui eu que nos levei a isto.

— A felicidade que me deste esta noite… esta manhã, fez valer a pena.

— É como se te tivesse acariciado para depois te dar uma chapada.

— Não vejas isso assim. — pediu ele. Tocou-lhe as mãos com ternura. — Decidas o que decidires, eu serei sempre teu amigo, poderás contar comigo para tudo e terás o meu amor eterno, assim como eu sei que me continuarás a amar dessa forma tão especial que demonstras, desde que nos reencontrámos.

Íris sorriu.

— Tu não existes, Gabriel. É impossível não te amar. Se tivesses nascido mulher…

Gabriel soltou uma gargalhada que não era mais que um tique nervoso e uma forma de disfarçar a amargura que lhe ia no coração. Contudo, ela não tinha culpa e ele jamais a faria sentir culpada por estar apaixonado por ela.

No entanto, Íris não quis que ele se desse por derrotado, uma vez que ela ainda não o descartara e quis que ele o soubesse:

— O facto de precisar de tempo, não significa que te esteja a rejeitar. Só preciso colocar as ideias em dia.

— Ponderas a possibilidade de ficarmos juntos?

— A uma hora de avião. — corrigiu com humor para desanuviar o assunto.

— Uma hora de avião não é nada para mim. — lembrou Gabriel. — Além disso, por ti, mudava-me para o outro lado do mundo, por isso…

— Vinhas viver comigo?

— Porque não?

Íris sorriu e ele identificou-lhe um laivo de felicidade a brilhar nas amêndoas.

— Estás a colocar os trunfos todos na mesa, Gabriel.

— Sempre te chamei Arco-íris. E agora percebo porquê. Tu és o meu arco-íris.

Ela olhou-o encantada. Houve um momento que foi como se o tempo se tivesse suspendido. Íris agiu por impulso e debruçou-se sobre ele, beijando-o demoradamente.

Nenhum deles teve vontade de sair nessa tarde. Gabriel encomendou qualquer coisa para comerem um almoço tardio. Fizeram-no ao balcão, lado a lado, a olharem-se com trocas de sorrisos. Os toques e os beijos eram constantes.

Íris queria partir cedo no dia seguinte, por isso encarregou-se da arrumação das malas no resto da tarde, enquanto Gabriel procurou abstrair-se da inevitabilidade da partida dela, sentando na varanda, procurando na visão do lago uma paz que não encontrou. Ao fim de algum tempo, Íris juntou-se a ele.

— Já tens tudo arrumado?

Ela caminhou pela varanda e encostou-se ao parapeito, voltada para ele. Trocara a saia por calças e vestira uma camisola sem mangas.

— Sim. — respondeu sem grande entoação.

O entardecer avolumava a tristeza entre ambos. Ele não queria que ela fosse e ela não sabia bem se queria realmente ir.

O telefone de Íris tocou. Ela retirou-o do bolso das calças e atendeu:

— Olá, mãe!

Gabriel regressou ao interior, deixando mãe e filha a conversar.

— Está tudo bem com a Olga? — perguntou, quando Íris desligou e veio fazer-lhe companhia para a sala. Não que isso lhe importasse. Ela anuiu sem adiantar muito mais. — Contaste-lhe?

— Não.

— Claro. — concordou, desiludido. Se o tivesse feito, seria um sinal de que poderia haver um futuro para eles. — Não sei se ela aceitaria muito bem.

— Calculo que não. — Íris partilhava da mesma opinião. — Mas, não seria impeditivo para mim.

Não foi de propósito, mas os silêncios entre eles tornaram-se mais constantes. Gabriel ligou a televisão para ouvir qualquer coisa. Íris ofereceu-se para preparar um jantar para ambos. Ele fingiu ver televisão, mas não tirava os olhos dela. Ela encontrava-o a observá-la e retribuía-lhe com sorrisos ternos.

Jantaram no mesmo lugar, ao balcão, lado a lado. Quase não falaram, mas olhavam-se. Não sabiam o que dizer, daí que se limitassem a forçar sorrisos, como se estivesse tudo bem. Mas, não estava.

Gabriel arrumou a cozinha, declinando a ajuda dela. Num tom afável, lembrou-lhe que ela fizera o jantar, ele tratava do resto. Íris não o contrariou e foi até à varanda.

A noite estava agradável, havia luar e o manto de água no lago parecia um espelho. Íris permaneceu imóvel a observar o negrume da paisagem sem que realmente a visse. Perdeu-se em pensamentos, analisando os sentimentos que nutria por Gabriel. Não sabia se estaria preparada para contrariar a sua natureza sexual e abraçar uma relação heterossexual com Gabriel, por mais maravilhoso que ele fosse. A imagem de Ashley assolou-a e provocou-lhe aquele arrepio de excitação, só de pensar num dos muitos momentos em que fizeram amor. Por mais extraordinário que Gabriel fosse, estava longe de a arrebatar de forma tão avassaladora como Ashley fazia.

Gabriel despertou-a dos pensamentos ao sair para a varanda.

— Arco-íris!

— Sim?

— Está tudo bem?

— Vim desfrutar da vista. — mentiu. — Aproveitar a última noite.

Ele aproximou-se, parou junto dela e abraçou-a por trás. Íris sentiu aquele calor maravilhoso do aconchego do abraço dele.

— Podes voltar sempre que quiseres.

— Eu sei. E vou voltar, o mais que puder.

Gerou-se um silêncio.

Foi Gabriel quem tornou a falar. A sua voz saiu-lhe quase com um tom de súplica:

— Fica mais uns dias.

A resposta foi um suspiro profundo.

— É melhor não, Gabriel. Já te expliquei. Preciso de…

— Ok, Arco-íris. Eu compreendo.

Mantiveram-se abraçados a olhar para a noite. A brisa soprava devagar e não os perturbava. Gabriel não a queria largar, como se isso a impedisse de ir. Íris inclinou a cabeça para trás e beijou-lhe o queixo.

— Posso voltar a dormir contigo, esta noite? — pediu.

— Podes dormir comigo sempre que quiseres, Arco-íris.

Íris rodou dentro do abraço dele, encarando-o, e sorriu. A seguir, tornou a ficar séria. Tinha a necessidade insaciável de justificar a sua partida:

— Preciso de tempo, preciso de pensar.

— Eu sei.

Regressaram à sala. Ele sugeriu:

— Queres ver alguma coisa? Um filme?

— Preferia ir para a cama.

— Já estás com sono? — questionou.

Íris olhou-o com um sorriso escarninho e as amêndoas cravadas nele. Gabriel percebeu a ideia dela.

— Sim, podemos ir. Também não me apetecia ver nada.

As luzes foram todas apagadas e eles recolheram ao quarto. Íris contornou a cama e parou. Desapertou as calças, puxou-as para baixo e sentou-se no colchão do mesmo lado onde dormira na noite anterior.

Gabriel deu por si a analisar cada movimento dela, mas teve consciência de também se começar a despir, antes que ela reparasse nisso.

Íris movia-se com toda a naturalidade, como se aquilo fosse uma situação diária na sua vida. Puxou a camisola pela cabeça, desapertou o sutiã e tirou as cuecas. Completamente nua, afastou o lençol e enfiou-se na cama. Gabriel não evitou seguir todos os movimentos dela com os olhos, assoberbado com a beleza dela, do seu corpo, mas não parou de se despir e desfez-se igualmente de toda a sua roupa.

Estavam deitados de lado, frente a frente, a olhar-se. Foi Íris quem teve a iniciativa de se colar a ele. Trocaram beijos profundos, tocaram-se, acariciaram-se. Não disseram uma palavra, não era preciso. Aos poucos, Íris deitou-se de costas, puxando-o consigo e ficando na mesma posição da véspera com ele entre as suas pernas.

Olhos nos olhos, como se procurassem a alma do outro neles, voltaram a fazer amor com a mesma intensidade, o mesmo desejo, o mesmo prazer. E no fim, Gabriel voltou a discernir aquela centelha que ele já percebia o significado: fora bom, mas ele não era uma mulher.

Não adormeceram, apesar de estarem completamente extasiados. Cobertos pelo lençol e a olhar para o tecto, foi Gabriel quem falou e o que disse, surpreendeu Íris:

— E se eu não me importar?

— Se não te importares? Com o quê?

— Se eu não me importar que tenhas relações com outras mulheres, mesmo que fiquemos juntos?

Aquilo já soava a desespero. Íris percebeu o que ele se dispunha a sujeitar, mas preferiu fazer de conta que não:

— O quê? Cenas a três?

— Não, nada disso. — refutou veementemente. — Se tiveres interesse em estar com alguma mulher…

— Não, não, Gabriel, eu não sou assim. Não sou de cenas ocasionais. Só me entrego com sentimentos muito fortes. E eu não tenho esses sentimentos com mais que uma pessoa. Se for tua, serei só tua.

— E o que és neste momento?

— Ontem e hoje sou completamente tua.

— Mas, amanhã…

— Amanhã parto para Montreal, recomeço a minha vida no Canadá, recolho-me no apartamento do teu amigo e coloco as ideias em ordem.

— Acho que te vou perder. — confessou Gabriel sem receio de mostrar toda a sua fragilidade.

Íris elevou-se na cama e olhou-o nos olhos.

— O que temos nunca irá acabar. O amor que partilhamos, nunca irá desaparecer. Compreende uma coisa, o meu dilema não é amar-te, é saber se esse amor é mais forte que a minha orientação sexual. Imagina o que era se tu, que sempre gostaste de mulheres, de repente te visses envolvido com um homem. — Gabriel franziu o rosto. — Imagina que amavas esse homem, gostavas de estar com ele, até de fazer amor com ele. Porém, sempre que pensavas em mulheres, sentias que era essa a tua natureza, gostar de mulheres. O sexo com ele era bom, mas com elas era ainda melhor. Percebes o meu dilema?

— Percebo, Arco-íris. Entendo que precises desse tempo. E eu cá ficarei à tua espera.

Íris sorriu, beijou-o e aninhou-se nele. Gabriel apagou a luz e ambos adormeceram profundamente.

O dia seguinte foi dos mais tristes da vida de Gabriel, mesmo com os inúmeros exemplos que já possuía. E nem começara mal. Desta vez, ao invés de se escapulir silenciosamente da cama, Íris acordou-o melosa e fizeram amor uma última vez. Sim, foi o último momento agradável do dia, apesar de o orgasmo ter vindo misturado com uma noção angustiante que aquela poderia ser a última vez que algum dia o fariam. A partir daí, ela afastou-se para o seu quarto e só se reencontraram na sala preparados para sair.

O comboio que levaria Íris para Montreal partiria de Toronto ao fim da manhã. Gabriel sabia como isso lhe seria doloroso, mas não abdicou de aproveitar cada minuto que pudesse da sua companhia. Por isso, foi ele quem a levou à Union Station, não se ficando por a deixar à porta, mas indo com ela até Íris embarcar no comboio.

Fora um momento doloroso para ambos, de tal forma que quase não falaram desde casa até à plataforma ferroviária. Só aí se conseguiram olhar novamente e falar.

— A minha partida não é o fim de nada. — lembrou ela com toda a convicção.

Gabriel não acreditava, mas não o verbalizou, limitando-se a assentir.

— Ligas-me quando chegares?

— Claro.

— Sei que precisas de tempo e espaço, Arco-íris. Fico a aguardar que sejas tu a contactar-me.

— Não faças isso. Podemos continuar a falar.

— Já sabes como sou.

— Sei como eras. Combinámos mudar isso.

— Vou tentar.

Íris abraçou-o com muita força. Gabriel apertou-a contra si. Ele pensou se lhe deveria dar um beijo em público. Ela nem pensou e beijou-o sem complexos.

Afastarem-se foi tão difícil como descolar uma placa de gesso cartonado colada a uma parede. O aviso da partida eminente separou-os em definitivo. Íris entrou no comboio com as suas malas, acenou-lhe e atirou-lhe um último beijo. Gabriel retribuiu e ficou como uma estátua na plataforma a ver o comboio partir. E só quando este já lá ia longe é que ganhou coragem para voltar ao carro.

Tentou abstrair da realidade, evitando regressar a casa e optando por ir para o escritório. Tinha muitos assuntos pendentes para tratar, coisas que não eram urgentes e haviam ficado em suspenso durante as suas férias. Aquela era uma época normal de muitas negociações e renovações de contratos. Porém, naquele ano, o mercado estava relativamente calmo no que dizia respeito aos seus agenciados. E Gabriel também não queria ter mais desportistas para representar. Na verdade, sentia-se cansado daquele mundo onde fizera a sua enormíssima fortuna.

Francis revelou surpresa por o ver chegar ao escritório.

— Não estavas de férias?

— Decidi voltar mais cedo. — respondeu sem parar e prosseguindo para o seu gabinete.

Gabriel tentou concentrar-se no trabalho, mas não conseguia deixar de pensar em Íris. Cada minuto que passava, ela estava mais longe. E não era uma questão geográfica, era a certeza que o afastamento iria resultar no fracasso do seu desejo de formarem um casal. A angústia consumia-o, mas lá no cantinho do seu coração, ele guardava uma secreta esperança que ela decidisse a seu favor.

Íris chegou à Estação Central de Montreal cerca de seis horas depois de ter partido de Toronto. Não era fácil lidar sozinha com as malas, mas sempre fora uma mulher desenrascada. Rebocou a bagagem consigo por entre a azáfama da estação, ao mesmo tempo que usou o smartphone para solicitar um Uber que a levasse para o seu apartamento.

Ao chegar à rua, sentiu o calor intenso, apesar de Montreal não ser tão quente no Verão quanto o era Toronto. Enquanto esperava, abriu a aplicação do WhatsApp e escolheu a linha com os registos das mensagens trocadas com Gabriel. Com a perícia do hábito de digitar texto no telemóvel, Íris escreveu:

“Cheguei a Montreal, Gabriel. Estou a caminho de casa. Ligo-te mais logo. Amo-te!”

Olhou por breves instantes para a mensagem enviada. Viu os dois vistos cinzentos tornarem-se azuis, mas não houve sinal de reacção dele. O Uber apareceu logo a seguir.

A viagem foi curta e pelo meio, o toque de notificação alertou‑a para a chegada da resposta de Gabriel.

“Ok. Amo-te!”

Podia ser impressão sua, mas Íris achou aquilo um tanto ao quanto frio.

O regresso ao apartamento teve um impacto que Íris não contava, talvez porque entre a separação de Ashley e toda a intensidade da convivência com Gabriel que se sucedeu, ela não tivera tempo para se questionar como seria voltar ao lugar onde vivera os últimos meses com a inglesa.

Entrou em casa e deixou as malas na entrada. Estivera uma semana fora, mas acontecera tanta coisa nesse espaço de tempo que se sentia como se voltasse de uma ausência de anos. As cortinas estavam abertas, conforme ela as deixara. Parou pertos vidros, observando a cidade.

— Novamente sozinha. — disse para a paisagem.

Carregou a bagagem para o quarto. Antes de desfazer as malas e começar a arrumar tudo, passou pelo quarto de Ashley, onde ela nunca dormia, mas onde tinha as suas coisas. Que iria fazer com aquilo? Certamente que não iria contactá-la com o pretexto de a outra lhe dizer para onde queria que as enviasse. Sim, poderia ser uma boa desculpa para falar com ela, mas Íris não procurava pretextos, não se arrastaria atrás de alguém que não a queria. Suspirou. Não precisava de tomar nenhuma decisão acerca disso nos tempos mais próximos.

Voltou ao seu quarto, colocou a mala em cima da cama e abriu-a. Começou por tirar a roupa suja. Sem querer, deu por si a olhar para a t‑shirt que usara na cama de Gabriel. Um sorriso infantil despontou-lhe no rosto, o ligeiro arrepio soube-lhe bem, recordando o que acontecera.

A resposta dele continuava a ser uma interrogação para si. A sua intuição temia que ele estivesse a começar a afastar-se. Ela não queria isso, aquilo não era o fim de nada, só queria poder pensar um pouco sozinha, ter a certeza que era ele a pessoa que desejava ter a seu lado.

“Já estou em casa. Amo-te!”

Depois de ter enviado, aguardou a réplica dele, desejando que as palavras que chegassem a pudessem descansar.

“Ok. Amo-te!”

Tudo bem, entendia que ele estivesse magoado.

Gabriel estava dilacerado de saudades e ainda nem passara metade de um dia desde que Íris se fora embora. Continuava no escritório, como se estivesse a trabalhar. Recebeu a primeira mensagem dela com o desejo parvo que lhe dissesse que se arrependera e iria voltar a Toronto. Decidiu ser distante na resposta. Fora ela quem quisera afastar-se, ele iria dar-lhe distância. Quando recebeu a segunda, ponderou nem sequer responder, mas foi incapaz e repetiu a primeira resposta.

Queria alimentar aquela esperança, aquela mínima esperança, mas o olhar dela naquele momento de êxtase continuava a martelar-lhe a cabeça, o olhar de quem sentia que por mais fabuloso que fosse o amor deles, ela não se conseguia sentir completa. E Gabriel tinha maturidade e experiência suficiente para perceber que aquele pormenor seria determinante na decisão dela.

E os olhos de Íris continuavam a ser um mistério. Colocando de lado a tal centelha que ela lhe descodificara, havia algo nos seus olhos que lhe levantavam questões que ele não conseguia entender. Houve algo, nos momentos mais intensos de paixão, principalmente na primeira vez que se fundiu com ela, a forma como o olhou, o que ele sentiu. Fora como se já tivesse visto aqueles olhos naquela situação. Abanou a cabeça, a resposta era óbvia, ela tinha os olhos da mãe.

No entanto, Gabriel nem imaginava que ela se questionava acerca do mesmo. Íris arrumara tudo o que levara na viagem e limpou o pó no seu apartamento, só para se distrair. Fechou a porta do quarto de Ashley como se pretendesse encerrar a história delas ali dentro. Por fim, fez um chá e sentou-se no sofá enrolada sobre si mesma com os braços cruzados sobre os joelhos a segurar a caneca e a olhar para a cidade. Não eram os prédios que ela via, nem sequer o céu ou o horizonte. O que ela via eram os olhos de Gabriel.

Íris estava a morrer de saudades dele, mas repetia a si própria que fora melhor afastar-se, uma vez que jamais poderia pôr as ideias em ordem junto dele. Sozinha, recordou a primeira noite em que dormiram juntos, o seu gosto em aninhar-se nele na cama, recusando-se a aceitar que desejava o que veio a acontecer. Nunca notou qualquer tipo de interesse dele nela, naquele sentido. Porém, Gabriel fora o único homem em toda a sua vida que lhe despertara curiosidade em ter relações sexuais com o sexo oposto. Por mais confiante que fosse, sentia-se envergonhada em aflorar o assunto com ele. Aquela noite não fora planeada, mas mentiria se dissesse que não deixou que o evoluir dos momentos se encaminhasse naquele sentido. O respeito com que Gabriel a tratava só a deixava mais encantada, se bem que ela já estava completamente perdida por ele. Houve inúmeras vezes, mesmo quando ainda estava com Ashley, principalmente naquela despedida naquele mesmo apartamento, quando ele lá fora jantar, que desejou beijá-lo. Em Toronto, duas noites antes, ela provocou-o. Deu-lhe a entender que não havia limites, mas ele parecia não perceber. Foi sem pensar que o levou a apalpar-lhe o seio. Meu Deus, como o toque dele era suave… E quando lhe pediu que a tocasse na vagina? Bolas, estremeceu só de pensar nisso. Gabriel fora tão delicado e carinhoso como uma mulher teria sido. Depois… A curiosidade continuava lá, queria mais. Começou a pensar que talvez ela não fosse assim tão interessante para ele, era uma miúda ao seu lado, vinte e cinco anos ao lado de um homem com cinquenta. Mesmo assim não desistiu, sabia que ele estava excitado. Procurou-o com a mão e retribuiu-lhe o carinho que ele dedicara aos seus lábios mais íntimos. Não sabia se o estava a fazer bem, nunca fizera nada igual, tal como nunca sentira uma fome tão grande de ser penetrada por um pénis real e não por um dos acessórios que já experimentara sozinha ou com a namorada. Ela queria muito, mas não tinha coragem para lhe pedir que o fizesse, que o introduzisse dentro de si. Esteve quase a atingir novo orgasmo só com a sensação de o estar a massajar e ter as mãos fortes dele nas suas mamas. Quando na loucura da tesão, ele confessou que a queria penetrar, isso foi música para os seus ouvidos.

Os olhos. Os olhos foi algo que a surpreendeu. Os olhos dele, no momento em que se deitou sobre si e a encarou com amor, entrando docemente. Havia algo de familiar neles. Sim, já vira os olhos de Gabriel inúmeras vezes, mas… Era como se não fosse a primeira vez que estivessem juntos… a fazer amor. Só poderia estar a endoidecer. Como podia isso ser possível? Contudo, a questão não a largou.

Contudo, não era esse o factor chave para o turbilhão de emoções que circulavam tempestuosamente pela sua cabeça. Nunca sentira a mínima atracção pelo sexo masculino. Quando ganhou consciência da sua sexualidade, percebeu que não era igual às outras raparigas, não sentia aquele fascínio pelos rapazes, enquanto elas lhe despertavam sensações bastante interessantes. Namorara um rapaz só porque… porque tentou contrariar aquilo que já aceitara, o facto de gostar de mulheres. O namoro não durou muito e só serviu para lhe dar mais seguranças em relação à sua orientação sexual.

Íris orgulhava-se do seu carisma, da sua segurança, de ser lésbica e não ter qualquer problema com isso. Quem não gostava que se lixasse, se isso perturbava outros, que se lixassem. Só lhe interessavam pessoas que a aceitassem como era. Felizmente, nunca sofrera nenhum episódio de homofobia declarado, apesar de saber que algumas pessoas a criticavam pela sua opção. Sempre soube o que queria e seguiu o seu caminho, imaginando que um dia encontraria a mulher da sua vida e casaria com ela. Só que agora… Agora, Gabriel abalara todo o seu mundo e todas as suas certezas e seguranças porque pela primeira vez encarava seriamente a hipótese de partilhar o resto da vida… com um homem.

A tarde caminhava para a noite. O crepúsculo tomava conta das ruas de Toronto e Gabriel continuava no seu escritório sem vontade de ir para casa. Francis já saíra. Os prédios à volta tinham cada vez menos luzes, sinal de que os escritórios se esvaziam dos seus funcionários. O silêncio revelava uma paz que ele não sentia. Há mais de duas horas que largara o trabalho e se isolara de toda a realidade, deixando-se engolir pela angústia e solidão.

Todo o silêncio foi quebrado pelo toque do telemóvel. Gabriel pegou no aparelho, vendo o nome “Arco-íris” no ecrã. Respirou fundo e atendeu:

— Olá, Arco-íris!

— Olá, Gabriel!

Alguns segundos mudos, numa espera que o outro falasse.

— Como correu a viagem? — acabou ele por perguntar.

— Bem.

Novo silêncio.

— Estás bem? — interrogou Íris. — Pareceste distante nas mensagens.

— Acho que não acreditarias que estou bem, se o dissesse. — confessou ele, falando tum tom pausado. — Mas, se pareci distante, foi sem querer.

— Parvoíce minha. — recriminou-se, não totalmente convencida. — Estás em casa?

— Não. Ainda estou no escritório.

— O trabalho acumulou-se com as férias. — supôs ela.

Gabriel já não se importava com a verdade, nem lhe esconderia o que estava a sentir:

— Não, não estou a trabalhar. O que tinha para resolver já terminei há muito.

— Então?

— Só não tenho vontade de ir para casa. — Fez uma pausa, ouvindo a respiração dela no outro lado. Esperou que ela dissesse algo, mas o seu instinto dizia-lhe que ela não conseguia encontrar o que dizer. — Tu não vais lá estar, quando eu chegar. Por isso…

— Não quero que te sintas assim.

— Não tens culpa, Arco-íris.

— Tenho.

— Aceito que a tenhamos os dois. — disse-lhe fazendo-a ouvir um sorriso. — O que aconteceu… Não foi culpa de ninguém.

— Não pode haver culpa onde há amor.

Gabriel riu-se.

— Percebo a tua intenção, mas a última coisa que preciso agora são frases de ocasião.

— Ok. — ripostou, algo magoada. — Espero que não coloques em causa que há amor.

— Não, jamais. Sei perfeitamente que há amor entre nós e bem forte. Se assim não fosse, isto não estaria a ser tão difícil para mim.

— Também o está a ser para mim. — lembrou ela, temendo que ele duvidasse.

— Eu sei Arco-íris. — descansou-a, apesar de pensar que foste tu quem quis ir embora.

A ausência de assunto retornou. Desta vez, foi Íris quem tornou a fazer ouvir a sua voz:

— Vai para casa, Gabriel! Não fiques aí. Percebo o que vais sentir, quando chegares a casa, tive o mesmo impacto hoje, quando cheguei e a Ashley não estava cá. — Mais um sinal de que Ashley estava sempre em vantagem em relação a ele. — Desligamos agora, vais para casa e ligas-me quando chegares. Pode ser?

— Ok.

— Então, até já, meu amor! Amo-te!

— Também te amo, Arco-íris!

Gabriel cumpriu o pedido dela, ou quase. Desligou tudo no escritório e desceu o elevador até ao parque onde o Ferrari o aguardava. Foi para casa, conduzindo de forma automática até ao seu prédio, já a noite caíra na cidade. Entrou pelo enorme portão de acesso aos pisos subterrâneos. Estacionou no lugar que lhe era reservado. Todos os seus movimentos eram automáticos, sem dar pelo que estava a fazer, sem que o seu cérebro registasse nada, uma vez que os seus olhos só viam o rosto de Íris e os ouvidos a sua voz. Sentiu-se estúpido por estar tão apaixonado, já não tinha idade para aquelas merdas.

Ao entrar no apartamento, largou as chaves num lugar qualquer. Tal como esperava, a angústia aumentou por encontrar o espaço mergulhado na escuridão. Acendeu a luz sem evitar olhar para a porta do quarto de Íris, como se ela fosse aparecer ali, surpreendendo-o. Caminhou para a sala, parando defronte da enorme janela de acesso à varanda. Observou o lago escuro, evitando pensar que estava sozinho e que a ausência de Íris não era temporária.

Pegou no telemóvel. Íris pedira-lhe para que lhe ligasse quando chegasse a casa. Gabriel clicou no histórico de chamadas e na linha do telefonema de Íris, cerca de meia hora antes. Hesitou em clicar no símbolo verde, questionando se queria mesmo falar com ela naquele momento. Cancelou tudo e procurou o WhatsApp nas aplicações. Abriu as mensagens trocadas com ela e escreveu:

“Já estou em casa, Arco-íris. Amo-te. Beijinhos.”

Em Montreal, Íris recebeu a mensagem e leu-a com tristeza porque percebeu o significado, ele não queria falar com ela.

“Ok, Gabriel. Beijinho muito grande para ti com muito amor. Amo-te!”

No dia seguinte não falaram, nem sequer por mensagem. Isso não surpreendeu Íris, já sabia como ele era, a forma em como se derrotava mesmo antes de perder. Percebia-o, ele julgava já conhecer a decisão dela e afastava-se. Só que Íris jamais desistiria dele, adorava-o, amava-o muito.

Ao segundo dia após o regresso a Montreal, Íris não permitiu que ele se mantivesse em silêncio e enviou-lhe uma mensagem. Ele nunca deixou de lhe responder, mas era notório que se mantinha distante.

“Amanhã, começo a trabalhar a tempo inteiro.”

Gabriel sabia, mas era somente uma forma de encontrar assunto.

O primeiro dia no cargo correu lindamente, mas Íris chegou ao seu apartamento ao fim da tarde com uma sensação estranha que a deixava incompleta. Sentia-se sozinha e não gostava porque nunca fora uma solitária, excepto no pouco tempo entre vir viver para o Canadá e aceitar Ashley como sua companheira de casa.

Íris não tinha qualquer dúvida de que, se não dissesse nada a Gabriel, ele não faria nada para a contactar, era a sua defesa, a forma de evitar sair magoado da situação.

Tinham feito juras de amizade, não deixarem passar muito tempo sem se falarem, talvez nem um dia, e encontrarem-se o máximo de vezes possível, fosse ela indo a Toronto, fosse ele vindo a Montreal. Mas, isso fora antes das noites de amor. Para Íris, isso só significava que a jura tinha ainda mais significado e faria tudo para que ele não se afastasse.

Nessa noite, Íris mandou-lhe uma mensagem a perguntar se podia ligar-lhe. Gabriel justificou que tivera um dia extenuante, estava cansado e talvez fosse melhor falarem no dia seguinte. Íris sabia que o “dia seguinte”, por vontade de Gabriel, seria daí a cinquenta anos.

“Não sou parva, Gabriel. Percebo que estás a evitar-me. Não vai resultar, eu não me vou afastar.”

“Não é nada disso, só estou cansado.”

Ela não acreditou. Era uma mentira descarada e irritou-se.

“Tive um primeiro dia de trabalho fantástico. Quero partilhá-lo com alguém especial. E esse alguém és tu.”

Passado um minuto, o telemóvel de Íris tocou:

— Olá, Arco-íris!

— Olá, amor! — retribuiu no tom mais meloso, esquecendo a irritação.

— Desculpa. Talvez não estejas longe da verdade, talvez te esteja a evitar. Não que isso signifique que… — Calou-se.

— Que? — insistiu ela.

— Que não te ame.

— Eu sei que me amas. Mas, receio que tu penses isso de mim.

Gabriel hesitou. Pensaria isso dela?

— Não, não penso isso. Sei que me amas.

Íris sentiu um calor agradável no peito. Ofereceu-lhe o som do seu riso melodioso e iniciou o relato do seu dia.

Não era para ser um telefonema longo, mas ficaram a conversar mais de três horas. Contra vontade, foi Íris quem sugeriu que desligassem, pois tinha de ir dormir.

— Gabriel! — chamou com carinho. — Podemos falar todas as noites? Adorava poder atenuar a distância com telefonemas destes.

Gabriel teria preferido que não o fizessem, continuava a jogar na defesa, preparando-se para o momento em que ela tomaria a decisão esperada, aquela em que continuariam a ser dois bons amigos que se amavam, mas sem que isso fizesse deles um casal. Contudo, Gabriel não lhe conseguia recusar nada e concordou com a ideia.

— Eu ligo-te à mesma hora, amanhã. — ofereceu-se Íris, certa de que se fosse ao contrário, ele não ligaria.

Não falharam um dia, ao longo de duas semanas. Todas as noites, ela telefonava e ficavam a falar horas. Falavam de tudo, mas evitavam o assunto “nós”. Gabriel não a pressionaria, mas também não acreditava que o futuro os juntasse, uma descrença que crescia a cada dia que passava.

Por seu lado, a saudade de Íris aumentava mais um pouco todos os dias. Não conseguia deixar de pensar nele e não tinha só saudades da companhia de Gabriel, tinha saudades e um desejo louco de voltar a fazer amor com ele.

Ao fim dessas duas semanas, talvez duas semanas e meia, num telefonema que já ia em cinco horas e entrava pela madrugada, Íris interrompeu algo irrelevante que ele lhe contava para perguntar:

— Achas que podes vir a Montreal?

— Quando?

— Desculpa, Gabriel, expressei-me mal. — corrigiu-se Íris. Porém, ficou em silêncio. Ele esperou. Ela confirmou que tinha certeza absoluta do que ia dizer. — O que quero perguntar, é se podes vir para Montreal.

— É só uma questão de ver a minha agenda…

— Não estás a perceber, Gabriel. Eu estou a perguntar se podes vir viver comigo.

Houve um silêncio. Gabriel não contava ouvir aquilo, nunca acreditou que Íris quisesse mesmo dar continuidade ao que acontecera em Toronto. Ficou sem saber muito bem o que responder, o que levou Íris a questionar-se se, afinal, ele queria que fossem um casal.

— Tens a certeza, Arco-íris?

— Se não tivesse, não o estava a propor.

Gabriel sentiu-se inundado por uma felicidade imensa.

— Eu amo-te, Arco-íris!

— Eu também te amo, meu amor.

— Não contava com isto. Tenho de planear as coisas…

— Desculpa estar a pedir que sejas tu a mudar, mas…

— Eu percebo, Arco-íris. — atalhou ele, animado. — Tu tens o teu emprego aí. Eu consigo gerir a minha actividade em qualquer lugar.

— Quero ser tua para sempre, Gabriel. Quero ser o teu Arco-íris.

— Já o és há tanto tempo.

— Quero fazer-te feliz. Tanto quanto sei que me farás mim.

— Neste momento, já estás a fazer de mim o homem mais feliz do mundo.

XXVIII

 

Íris acordara bastante tarde, no dia seguinte. Mas, não tinha importância, era Domingo. O telefonema terminara de madrugada com imensas juras de amor e uma fase aparvalhada de despedidas sem que nenhum tivesse vontade de desligar. Íris acordou feliz, tão feliz que sentia o coração a querer explodir-lhe do peito. Imaginou-se a viver ali com Gabriel, a partilharem o espaço, o apartamento, o quarto, a cama… Arrepiou-se com ansiedade de voltar a estar com ele. Sorriu para ninguém, sem acreditar como era possível estar tão apaixonada por um homem, ela que sempre gostara de mulheres. Porém, não tinha dúvidas, era Gabriel quem ela queria amar para o resto da vida.

Ainda deitada, pegou no telemóvel para ver as horas. Reparou que tinha uma notificação do WhatsApp. Voltou a sorrir e disse em voz alta, pensando em Gabriel:

— Ó meu amor. Já a mandar mensagens?

Contudo, ao abrir, viu o nome de Ashley e a mensagem era “I’m so stupid”.

Íris ficou sem reacção, mas também não sabia muito bem o que aquilo, de facto, queria dizer. Viu a hora a que a mensagem fora enviada, chegara de manhã. Ficou curiosa e escreveu em inglês:

“Que aconteceu?”

A resposta não demorou, a inglesa deveria estar à espera disso, com o telemóvel na mão, desde que enviara a mensagem.

“Sou estúpida por te ter perdido”

Íris elevou-se na cama, mas manteve o lençol a cobrir-lhe o peito nu, como se estivesse ali mais alguém. Questionou-se o que deveria fazer. Optou por ser rude:

“Que queres?”

“Tenho saudades tuas.”

Íris não tinha dificuldade em traduzir as ideias para inglês, já se habituara ao english diário.

“Foste tu quem quis terminar, Ashley”

“Não tens saudades minhas?”

“Não”, respondeu Íris, apesar de ser mentira. A inglesa magoara‑a muito, partira-lhe o coração. Não estava na disposição de ser agradável.

“Estou em Montreal. Gostava de te voltar a ver.”

Íris sentiu um choque, a sua realidade ficou abalada, ficou confusa. O desejo de a voltar a ver era imenso.

“Acho melhor não”

A resposta demorou mais algum tempo que as anteriores.

“Tens coisas minhas em tua casa. Posso ir buscá-las?”

Íris não a queria ver ou voltar a estar com ela. Não queria tanto, quanto desejava voltar a estar com ela. A saudade veio não soube donde. Lutou consigo própria para não sucumbir ao desejo.

“Dá-me uma morada. Eu mando-te tudo.”

“Não sejas assim. Estás a ser cruel.”

“Não me fales em crueldade, depois do que aconteceu em Londres.”

“Fui estúpida e arrependo-me de te ter deixado partir.”

“Que fazes em Montreal? Não disseste que não voltavas?”

“Porque achas que vim? Tens dúvidas que és a razão?”

Íris estremecia, os pensamentos perturbavam-na, a razão mandava-a terminar com aquilo de vez, o coração ansiava pelo corpo da inglesa. Antes de responder, a mensagem seguinte foi um rude golpe para a sua defesa:

“Contei à minha família que sou lésbica. E contei-lhes que tu és minha namorada.”

“Era”, corrigiu Íris.

Mais uma vez, a resposta demorou, talvez uns dois minutos. Quando chegou, dizia “Não me digas que não tens saudades disto” e trazia uma foto de Ashley a fotografar-se para um espelho em tronco nu.

O desejo começou a consumir Íris, estava a perder o controlo.

“Vou pensar no teu caso. Estou muito ocupada. Depois digo-te alguma coisa, quando poderás vir cá a casa.”

“Fico a aguardar, Íris. Amo-te!”

Íris não respondeu, mas ficou um tempo indeterminado a olhar para a foto. Tinha muitas saudades dela, daquele corpo, do amor que faziam naquela cama. Quando deu por si, o olhar continuava na foto, mas a mão entrara nas cuecas e os dedos acariciavam-lhe os lugares onde tantas vezes andara a língua de Ashley. O silêncio do apartamento foi ligeiramente perturbado pelo som ofegante. Por fim, vindo do único quarto ocupado, o gemido prolongado de alguém num momento de prazer solitário.

Íris saiu do quarto, nua, e caminhou para a casa de banho. Tomou um duche, preocupada por não ter conseguido afastar Ashley do seu pensamento. O dia estava lindo, solarengo e convidativo a um passeio. Íris não sentiu esse apelo, nem planeava sair, por isso, vestiu uns calções e uma camisola de alças para andar por casa.

Gabriel não voltara a dizer nada. Sem saber porquê, Íris desejava que ele lhe ligasse ou mandasse uma mensagem. Contudo, ela própria não teve essa iniciativa. Ainda não identificara a causa, talvez o seu inconsciente já o adivinhasse, mas ela parecia não ver, daí que a preocupação e a ansiedade a envolvessem e a deixassem apreensiva.

Nessa tarde, descontraiu no sofá a ver um filme na televisão. Lá fora, a vista da cidade de Montreal através da sua parede de vidro era magnífica. O filme terminou e ela desligou o ecrã. Consultou o telemóvel na esperança de ter alguma notificação. Nada. Fez um chá frio e deixou-se ficar no sofá relaxada e pensativa.

Subitamente, os seus pensamentos foram quebrados pelo toque da campainha. Não esperava ninguém, nem ninguém a visitava sem avisar primeiro. Julgou ser alguém a chatear e ignorou o toque. Porém, a campainha voltou a zumbir.

Irritada, largou o chá na mesinha defronte do sofá e percorreu a sala até ao pequeno átrio da entrada. Aborrecida, levantou o intercomunicador e perguntou quem era, sem conseguir distinguir o inoportuno visitante no videoporteiro.

Sentiu um arrepio na espinha, ao ver Ashley.

— Olá, Íris! Sou eu, a Ashley.

— Que queres? — questionou rude.

— Estava a passar na vizinhança e pensei em fazer-te uma visita para conversarmos.

— Eu disse-te que te ligava, quando quisesse que viesses…

— Por favor, amor. Precisamos de conversar.

Íris tinha total noção que era errado ceder ao seu pedido e ao desejo que sentia que ela subisse. O razoável era manter a recusa, mandá‑la embora e exigir-lhe que esperasse que ela decidisse quando poderiam conversar. Consciente de tudo isto, carregou no botão e permitiu que ela subisse. Todo o seu corpo tremia. Íris sabia como tinha dificuldade em controlar as emoções junto da inglesa. Contudo, esforçou-se por ter uma postura dura e aguardou na entrada do apartamento que a outra aparecesse.

Ashley saiu do elevador e lançou-lhe um sorriso que quase derreteu Íris. Vestia uma camisola preta apertada sem mangas e um decote sugestivo em V, a qual acompanhava com minissaia branca e sandálias. Íris deu por si a pensar que o preto sempre combinara bem com os cabelos louros da inglesa. Ashley jogava todos os trunfos, sabia as emoções que a sua imagem despertava em Íris. Fez de conta que se sentia envergonhada e encurtou a distância entre elas devagar.

— Eu disse que te ligava.

— Eu sei. Mas, tenho tantas saudades tuas.

Quando terminou a frase, Ashley estava a um passo de Íris. Fez um movimento como se a fosse beijar na boca, mas Íris desviou o rosto no último momento e ela tocou-lhe com os lábios na face.

Sem dizer nada, Íris entrou no apartamento e fez um gesto, convidando a ex-amante a entrar.

— As tuas coisas estão no teu quarto. — indicou, fechando a porta. — Podes ir buscá-las.

— Podemos conversar?

Íris cravou o olhar nela, a expressão zangada esforçava-se para aparentar o distanciamento que não queria dela.

— Não temos nada para conversar. — lembrou com o desejo a corroer-lhe o corpo, olhando para as curvas apetecíveis da outra.

— Discordo. — insistiu Ashley. Voltou-se para a sala e caminhou até ao sofá, sentando-se e cruzando as pernas de forma sensual. — Temos que falar sobre o que aconteceu.

— Talvez. — concordou Íris sem reparar que estava a andar na direcção do sofá. — Mas, não agora. — Sentou-se no sofá com uma distância que lhe pareceu segura. — É melhor ires buscar as tuas coisas e ires embora.

— Já não me amas? — Ashley ignorou o que ouvira. — Olha para mim e diz-me que já não me amas.

Íris olhou para ela.

— Ashley…

— Eu fui uma cabra contigo. — continuou, não deixando Íris falar, talvez porque julgasse que a outra ia mesmo confirmar que já não a amava. — Julguei que, ao expulsar-te da minha vida, conseguiria fugir àquilo que sou. — Íris fez um semblante interrogativo. — Só serviu para perceber o quanto te amo. E que não posso viver sem ti.

— Não me apetece continuar com relações em segredo. Quero mais!

— Compreendo. — Ashley mostrava-se vulnerável. — Compreendo que queiras mais. E eu estou na disposição de te dar mais.

— Que queres dizer com isso?

— Que estou preparada para assumir sem reservas o que sinto por ti. Já o fiz com a minha família, fá-lo-ei com todas as pessoas que queiras.

Íris sentiu-se a sucumbir ao encanto da outra. Numa tentativa desesperada de defesa, levantou-se do sofá. Ashley copiou-lhe o movimento e segurou-lhe no braço.

Sem saber como, nem porquê. Ou talvez até soubesse que fora o desespero de fugir ao destino, Íris voltou-se abruptamente, puxando o braço livre atrás e dando uma chapada no rosto de Ashley.

A inglesa ficou sem reação com a face vermelha e uma expressão se surpresa no olhar. Íris também se surpreendeu, mas não revelou qualquer arrependimento por o ter feito.

— Acho que mereço isso.

— Não, não mereces. — retorquiu Íris num tom duro. — Ninguém merece ser agredido, nem ninguém tem o direito de agredir alguém. Mas, não me arrependo.

Ashley anuiu. Sorriu triste.

— Estamos quites.

— Sim… — concordou Íris. — Estamos quites.

Do nada, Ashley avançou para Íris e agarrou-a, forçando o beijo. Atingiu-lhe a boca com os lábios e tentou envolvê-la com os braços.

Íris reagiu, empurrando-a com força para a afastar de si. Ashley caiu desamparada no sofá, mas ao tentar segurar-se, puxara a camisola de Íris e rasgara-a completamente, deixando-a com os seios nus.

— Estúpida! — atirou Íris sem se preocupar em se cobrir.

Ashley atirou-lhe um sorriso escarninho.

— Sim, sei que sou. — confirmou, puxando a camisola pela cabeça e oferecendo-lhe a visão dos seus seios.

— Cabra! — cuspiu, aproximando-se.

— Uma cabra estúpida. — O olhar da inglesa era lânguido e provocador.

— Puta!

Ashley endireitou-se no sofá e puxou-a pelos restos da camisola.

— Sim, posso ser puta, se for a tua puta.

Íris deixou-se cair sobre Ashley, aterrando as mãos nos seios da outra e beijando-lhe a boca com uma fome sexual feroz.

O que se desenrolou a seguir foi tão intenso e confuso que Íris nem registou. Quando deu por si, estava deitada na cama, nua de barriga para cima, com os braços atirados para o lado, os seios a subir e a descer numa respiração ofegante e as pernas afastadas. Entre elas, uma cabeça com uma farta cabeleira loura movia-se a seu belo prazer, uma língua marota provocava-lhe sensações deliciosas de que tantas saudades sentia. Para lá da cabeça, um rabo lindo empinado. Íris veio-se várias vezes.

A tarde estava a terminar, a luz exterior perdera muita intensidade, quando ambas se sentiram finalmente saciadas. Deitadas na cama, a olhar o tecto, mantinham as mãos dadas com os dedos entrelaçados. Respiravam calmas com sorrisos sinceros no rosto.

— Tinha tantas saudades disto. — confessou Ashley. — Amo-te tanto.

— Eu também te amo. — retribuiu Íris, apesar de a sua voz não ser tão expressiva de felicidade quanto a da outra.

— Posso voltar para ti? — pediu, virando a cabeça para a olhar. — Podemos voltar a viver juntas como antes?

Íris não respondeu, a sua mente estava semelhante a uma tempestade de sentimentos, emoções e confusões.

— Ainda não. — recusou, firme.

Ashley elevou-se na cama, apoiando-se no cotovelo e encarou-a triste.

— Pensei que…

O olhar neutro encarou a inglesa.

— Eu disse ainda não.

— Que se passa?

— Há condições.

— As que quiseres, amor.

Íris ainda procurava adaptar-se àquela Ashley que parecia um sonho tornado realidade.

— Gosto que sejas ciumenta, mas não em exagero. Tenho uma relação muito próxima de amizade com o Gabriel e não quero que faças cenas como a que aconteceu aqui ou que o trates com a indiferença que fizeste em Portugal.

Ashley anuiu, mas não deixou de dizer:

— É verdade que sinto ciúmes. Se te visses quando estás com ele… Custa a acreditar que vocês são só amigos.

E não somos, não fazes ideia daquilo que já aconteceu entre nós.

— Não é negociável.

— Ok.

Íris saltou da cama e foi procurar algo para vestir.

Ashley copiou os movimentos da amante e procurou a sua roupa. Saiu do quarto em tronco nu e foi buscar a camisola esquecida no sofá.

Menos de um minuto depois, Íris reapareceu na sala, vestindo uma camisa no lugar da camisola que a inglesa rasgara.

— Não me chegaste a responder, Íris. Quando posso voltar?

— Tenho de resolver algumas coisas antes. Terás de esperar.

Ashley franziu o rosto.

— Isso é um castigo?

É, mas não para ti. Será um castigo para mim e para a pessoa que menos o merece.

— Não se trata de nenhum castigo. Não és tu que fazes o timing.

— Ok.

— Onde estás a viver?

— Em casa de uns amigos da McGill.

Íris fez um sorriso sarcástico.

— Tens novo namorado?

— Não sejas estúpida. A minha namorada és tu.

— Já o fui antes. E tu tinhas namorado.

— É diferente.

— Já não queres homens? — questionou com um tom irónico. A inglesa abanou a cabeça. — É bom que não, eu não estou disponível para te partilhar com ninguém.

Ashley aproximou-se e parou defronte de Íris. Ficaram cara a cara. Ashley fechou os olhos e beijou-lhe os lábios com ternura. A seguir, abriu‑os e olhou-a intensamente.

— Casa comigo!

— O quê? — A interrogação surgiu-lhe incrédula. — Não brinques.

— Não estou a brincar, Íris. — protestou séria. — O casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal no Canadá. Casa comigo!

— Vamos com calma. — pediu Íris, deliciada.

— Já te disse antes. Agora será diferente. Não será um namoro secreto, será uma relação a sério. — Fingiu-se triste. — A menos que tu não queiras.

— Parva! — chamou Íris, acariciando-lhe o rosto. — Eu amo-te!

Despediram-se com um longo e intenso beijo apaixonado.

Quando voltou a ficar sozinha no apartamento, Íris caiu em si. Estava feliz por reencontrar a mulher que a completava na totalidade. E infeliz porque tinha de magoar alguém que amava profundamente.

Gabriel…

As noites em Toronto continuavam quentes e agradáveis.

Gabriel observava o lago escuro saboreando um whisky e fazendo tempo para telefonar a Íris, seguindo aquele hábito que haviam criado nos últimos dias de ficarem a conversar noite dentro. Estava feliz, tão feliz como não se sentia há muito, mas mesmo muito tempo. Havia nele uma paz tão grande, depois daquele telefonema em que Íris lhe pediu para ir viver com ela, que se deixara dormir horas a fio, tranquilo e só acordando ao início da tarde. Quis voltar a ligar-lhe, qual miúdo apaixonado pela namorada. Porém, tinha de ser mais maduro. Íris era um sonho tornado realidade. Estava tão feliz…

Manteve-se na varanda, o ar estava ameno e não apetecia estar dentro de casa. Sentou-se numa cadeira e marcou o número de Íris. Ouviu tocar várias vezes até passar para o voicemail. Tornou a tentar e obteve o mesmo resultado. Calculou que ela tivesse o telemóvel no silêncio ou não pudesse atender de imediato. Não havia problema, sabia que lhe ligaria quando visse as suas chamadas.

Cinco minutos depois, o telemóvel apitou uma notificação. Gabriel desbloqueou o smartphone com o polegar e viu uma mensagem de Íris que abriu de imediato.

“Olá, Gabriel! Estou com uma dor de cabeça descomunal. Desculpa! Podemos falar amanhã?”

Deveria ser uma dor de cabeça horrível para nem conseguir atender o telemóvel.

“Ok. Falamos amanhã. As tuas melhoras. Amo-te, Arco-íris!”

“Obrigada. Também te amo”

Gabriel voltou para a sala e deixou o telemóvel sobre o balcão que a separava da cozinha. Não conseguiu abstrair-se daquilo, saber que ela não estava bem preocupava-o, e a distância fazia-o sentir uma impotência irritante. Coisas daquelas deixariam de ser problema quando vivessem juntos.

Durante a tarde, estivera a fazer planos de como iria modificar a sua vida profissional, quando fosse viver para Montreal. Na verdade, estava decidido a abrandar bastante a sua actividade de representante de jogadores, já ganhara o suficiente para não ter de se preocupar com dinheiro e continuar a ter uma vida de luxo. Para além disso, queria dedicar o máximo de tempo a Íris.

Ficou algum tempo sentado no sofá a ver televisão, essencialmente canais desportivos e de notícias. Quando se fartou, desligou a televisão e foi sentar-se ao balcão a usar o computador. Estava a ler algumas mensagens na caixa de email, quando viu entrar uma nova.

Um email de Íris?

Sentiu um mau presságio. Ainda para mais porque o assunto era “Perdoa-me!” Abriu e começou a ler:

“Olá Gabriel,

Começo, antes de tudo o resto, por assumir duas coisas. Primeiro, continuo a amar-te como ontem. Segundo, não tenho coragem de te dizer isto que lerás a seguir, por telefone. Não vou estar com rodeios que só nos irão martirizar aos dois. A Ashley voltou. Apareceu aqui em casa, esta tarde. Sabes o que sinto por ela. Tu, melhor que ninguém, acompanhaste tudo. Sei que talvez não acredites, mas lutei contra o que ela me faz sentir, para não falhar contigo. Só que sou fraca e sucumbi ao desejo, à paixão, ao amor. Também sei que não acreditarás, mas não a amo mais que a ti, amo‑a tanto como te amo a ti. Só que por mais extraordinário e maravilhoso que tu sejas, não me completas como ela o faz. Lamento-o do fundo do meu coração, não queria que isto tivesse acontecido assim. Sinto que te ofereci a felicidade e depois te puxei o tapete. Digo-te assim para que percebas que eu tenho total noção de como te estou a magoar. E estou a magoar-me a mim também, mas eu sairia sempre magoada. Quero acreditar que me possas perdoar, talvez não já, mas em breve. Amo-te profundamente, como ser humano, como homem, como amigo, como companheiro, como amante. Nada nem ninguém poderá ocupar o teu lugar na minha vida. Espero que possamos voltar ser o que éramos depois de regressar de Portugal e antes daquela primeira noite em que fizemos amor. Achas possível? Não estou a pedir, Gabriel, estou a suplicar. Estou em lágrimas, ainda não parei de chorar desde que percebi que tinha que fazer isto. Foi essa a razão de não te ter atendido, terias percebido na minha voz e irias querer saber o que acontecera. E eu não conseguiria verbalizá-lo. É melhor assim, colocar as emoções em ordem, através de texto. Desculpa ter-te mentido com a treta das dores de cabeça, foi o que me lembrei. Nunca te menti antes, nem voltarei a fazê-lo. Em relação a nós… O convite que te fiz ontem… Acho que já percebeste. Eu e a Ashley vamos reatar. Ainda estou algo insegura, mas ela jura que vai assumir a nossa relação, já se assumiu como lésbica à família. Por favor, não duvides do meu amor. Imploro-te que não saias da minha vida! Tu és especial, perder-te será como perder um braço ou uma perna. Não suporto essa ideia. Queria dizer-te muitas mais coisas, mas só me estaria a repetir. Fico a aguardar a tua resposta, meu amor. Amo-te com toda a força do meu ser. Espero que me compreendas. Beijinhos da Arco-íris, o TEU Arco-íris. Amo-te, Gabriel!”

Gabriel ficou imóvel largos minutos a olhar para o ecrã. Já vira aquele filme, dezasseis anos, quando a mulher que amava e lhe jurara amor, o desprezava para voltar para o ex. Neste caso, para a ex. Talvez tivesse sido o golpe maior, ver Íris aplicar-lhe a mesma ferida que a mãe.

Sorriu sarcástico. Continuava a ser um estúpido, uma besta. Para quê, tentar ter um relacionamento sincero com uma mulher, se podia pagar para ter quantas quisesse, sem que o magoassem?

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Gabriel ficou dilacerado com o volte-face da sua vida. Voltou ao sofá com a garrafa de whisky e o copo. Perdeu a conta a quantos bebeu. A bebedeira serviu para afogar a tristeza. Acabou por adormecer ali.

O Sol atingiu-lhe o rosto ao amanhecer. O ângulo da enorme janela de acesso à varanda embicava com o horizonte onde o Sol nascia. Gabriel pestanejou, habituando-se à claridade e procurando lembrar-se do que acontecera. A recordação da noite anterior atingiu-o quase com a mesma impiedade como a realidade na véspera. Não se lembrava como perdera os sentidos, mas tudo o resto era nítido na sua memória.

A dor de cabeça era forte, resultado da ressaca. Viu as horas no smartwatch, era cedo. Viu o telemóvel caído no chão e apanhou-o. Desbloqueou-o. Nada de novo. Deixou-o ficar no sofá e levantou-se. Foi como se lhe espetassem um pico no cérebro, a dor quase o derrubou. Percebeu que tinha de se mover mais devagar.

— Estás velho! — afirmou para o vazio.

Caminhou pela sala, despindo a camisa suada e amarrotada. Deixou-a cair no chão e entrou no quarto. Precisava de um duche.

Gabriel ficou tanto tempo debaixo do chuveiro que a pele parecia querer encarquilhar. Completamente imóvel, sentiu todos os fios de água a escorrerem pelo corpo. A tristeza pela decisão de Íris ainda ali estava no seu ser, mas conseguira controlá-la num cantinho da alma. A angústia e a solidão voltaram com a força de antes, só que algo o surpreendeu, era como se tantos golpes começassem a empedernir-lhe o coração. Quando saiu do duche, estava decidido a voltar a ser o Gabriel que chegara pela primeira vez ao Canadá e que fora anestesiado pela reentrada de Íris na sua vida.

Novamente no quarto, escolheu um dos melhores fatos para vestir. Barbeara-se e dava agora um último retoque no cabelo. Perfumou-se e olhou-se ao espelho. Era um cinquentão com enorme charme, isso era incontornável.

Voltou à sala e só parou na cozinha. Preparou um café e bebeu-o juntamente com dois comprimidos para as dores de cabeça.

O Sol entrava com mais intensidade na sala, fazendo um reflexo esquisito na parede. Gabriel percebeu que era o ricochete da luz no ecrã do seu telemóvel. Foi buscá-lo e reparou que tinha uma notificação de mensagem. Abriu o WhatsApp, sabendo que era de Íris. Dizia apenas “Bom dia, Gabriel!”

Ele não respondeu e guardou o telemóvel no bolso.

Iria ser muito complicado, mas Íris deixaria de fazer parte do seu mundo. Não seria só para ela que doeria tanto como arrancar um braço ou uma perna, mas era o melhor para ele.

O Ferrari roncou pelas ruas de Toronto. Gabriel não infringiu nenhum limite de velocidade, mas arrancou sempre com mais intensidade que o necessário com o bólide a rosnar aos outros carros.

Francis percebeu pelo rosto de Gabriel que aquele era um bom dia para se manter afastado do gabinete dele.

A manhã foi cheia de trabalho, Gabriel esforçou-se para que fosse, para que nada lhe desse tempo para pensar em Íris. Por volta da hora de almoço, Francis apareceu a oferecer-se para lhe trazer algo que comer. Gabriel aceitou que ele trouxesse qualquer coisa.

Ao início da tarde, entre telefonemas, viu nova mensagem de Íris:

“Quando puderes, diz alguma coisa.”

Ele não disse e a tarde passou da mesma forma que a manhã.

Antes de sair do escritório, ponderou escolher um dos dez nomes da lista para lhe fazer companhia nessa noite. Curiosamente, não encontrou qualquer vontade de o fazer.

O Ferrari tornou a deslizar pelas ruas citadinas em direcção ao condomínio onde Gabriel vivia, roncando com a ferocidade que consumia o espírito dele. De que serve tanto dinheiro, se há merdas que são inalcançáveis?

Ao entrar em casa, sem saber porquê, caminhou directo ao quarto que Íris usara nas vezes em que estivera em sua casa, em todas as vezes, excepto nas duas últimas noites, em que dormira na sua cama e fizera amor com ele. A fúria consumia-o. Enraivecido, entrou no quarto, desarrumou tudo, puxou as mantas e os lençóis, abriu gavetas, atirou tudo para o chão… E depois ganhou consciência de como estava a ser idiota.

A noite caiu, escurecendo a sala. Gabriel parecia uma estátua, sentado ao balcão com um copo de whisky cheio e a garrafa mal insertada. Foda-se, já nem o álcool lhe dava prazer.

O silêncio foi quebrado pela notificação do telemóvel. A própria luz de alerta foi mais intensa por o ambiente estar mergulhado no fraco crepúsculo exterior. Gabriel desbloqueou o ecrã, certo de quem seria o remetente. Abriu o WhatsApp.

“Recebeste o meu email?”

Não queria responder-lhe, não queria dialogar com ela. Seria melhor ignorá-la, como fizera ao longo do dia. Porém, ela agora fazia-lhe uma pergunta. Seria pouco educado não responder.

“Sim”

Gabriel esperava que a resposta curta e desprovida de emoção fosse suficiente para ficarem por ali. Percebeu que não ao ver as letras verdes informarem-no que Íris estava a escrever.

“E…?”

“E o quê?”, escreveu irritado.

Desta vez, viu os vistos azuis a indicar que ela lera, mas não apareceu qualquer informação de que ela estivesse a escrever. O WhatsApp desapareceu do ecrã para dar lugar a um fundo escuro com o nome “Arco‑íris” e fazer ecoar pelo apartamento o toque de chamada.

Gabriel pressionou o botão vermelho e rejeitou a chamada.

Íris insistiu.

Gabriel voltou a rejeitar.

Houve um breve momento em que nada aconteceu. Teria percebido a mensagem e desistido?

Nova mensagem de Íris pelo WhatsApp:

“Por favor, atende. Precisamos de falar.”

— Ontem não quiseste falar. — disse ele para o telemóvel. E escreveu-o em resposta.

Íris voltou a insistir na chamada e Gabriel tornou a rejeitar.

“Vai ser assim?”, escreveu ela.

“Vai ser como tu quiseste que fosse.”

“Não faças isso, Gabriel. Eu amo-te! Não quero que saias da minha vida.”

Gabriel deixou-a sem resposta.

Só que Íris não desistia de nada na sua vida, muito menos daquilo que era tão importante para si.

“Percebo que estejas magoado comigo, meu amor.”

Ele clicava em todas as mensagens para ter a certeza que, do outro lado, Íris veria os vistos azuis e saberia que ele não respondia porque não queria.

“Por favor, Gabriel! Não te afastes. Que merda! Sei que não agi bem contigo, mas será que é imperdoável? Bolas. Não me tires a cores, eu continuo a ser o teu Arco-íris e sê-lo-ei para o resto da vida.”

Íris finalizara a mensagem com um smile a chorar.

O amor não morrera, ele sabia-o, mesmo que acreditasse que o podia matar. Continuava a amá-la e imaginou o estado choroso em que ela deveria estar ao escrever aquelas mensagens. Por mais que tentasse amaldiçoá-la, ela era… o seu Arco-íris.

“Eu não vou sair da tua vida.”

Teve esperança que a troca de mensagens ficasse por ali.

Não.

“Posso ligar-te?”

“Não, Arco-íris. Agora não consigo falar contigo.”

“Por favor…”

“Um dia pediste-me tempo e espaço. Agora sou eu que o quero para mim. Estou aqui para o que precisares, excepto para conviver contigo, pelo menos por enquanto.”

Íris retorquiu com um smile triste e outro a chorar.

As mensagens pararam. Gabriel deu por si envolto na penumbra de uma sala com as luzes desligadas. Respirou fundo. Pensar nela triste, partia-lhe os cacos em que Íris deixara o seu coração. Talvez por isso, escreveu:

“Espero que seja feliz com a Ashley”

Desejaria de facto isso? Sim, desejava que Íris fosse feliz, tanto quanto desejava que a inglesa fosse a atravessar a rua e lhe passassem dez camiões por cima.

“Eu amo-te, Gabriel!”

Ele olhou para última mensagem durante algum tempo. Depois, escreveu a frase que os afastaria por algum tempo:

“E eu espero conseguir deixar de te amar.”

As letras verdes apareceram e desapareceram várias vezes. Por fim, surgiu:

“Será como queres. Eu nunca deixarei de te amar.”

XXIX

 

Ashley regressou ao apartamento no fim de semana seguinte. Seria um regresso para ficar. Poderia ter voltado mais cedo, mas fora Íris quem decidira que assim fosse. Nesse intervalo de tempo, desde aquela troca de mensagens com Gabriel, Íris atravessara as noites solitárias com muito choro.

A presença da inglesa em casa atenuou a mágoa de Íris. Porém, era comum Íris isolar-se na casa de banho e chorar pelo afastamento de Gabriel. Ashley achou estranha aquela tristeza manifestada por Íris, já antes eles haviam ficado algum tempo sem contacto e isso nunca afectara tanto a namorada. Claro que Íris não contou a Ashley o que acontecera em Toronto no regresso ao Canadá.

Os dias entraram numa rotina, Íris tinha o seu emprego, saía de manhã e regressava ao fim da tarde. Ashley também conseguira um estágio numa empresa de biologia com excelentes hipóteses de se tornar um emprego, o qual lhe ocupava um horário idêntico.

O Verão estava no auge, o calor era agradável, sem ser tão intenso como em Portugal. Íris não voltara a tentar contactar Gabriel. O apartamento começou a ser um problema na sua cabeça, uma vez que o senhorio era amigo de Gabriel e só permitia aquela situação vantajosa de Íris por amizade ao homem que ela magoara e com quem duvidava algum dia poder recuperar a amizade. Para além disso, ela nem sequer pagava directamente ao desconhecido, fazia a transferência mensal para a conta de Gabriel que, por sua vez, pagava ao amigo anónimo. Por vontade de Íris, procuraria outro apartamento, mas dificilmente conseguiria algo tão bom que não significasse um rombo complicado mensal nas contas delas.

Íris demonstrava ter ultrapassado a questão “Gabriel” ou pelo menos esforçava-se por o dar a entender. Contudo, Gabriel era uma pessoa muito importante na sua vida, fora-o quando era criança, tornara-se muito mais quando ela viera para o Canadá e culminara com uma espécie de encaixe, quando se abriram completamente um ao outro. Era comum, à noite, deitada na cama com Ashley a dormir a seu lado, Íris ficar a pensar em tudo o que sucedera com Gabriel e a interrogar-se sobre inúmeras questões que haviam ficado por responder ou que ela não conseguira entender. A mais disruptiva era sem dúvida o olhar, a sensação de que já estivera a olhar aqueles olhos, assim naquela paixão, quando fizeram amor pela primeira vez. No entanto, havia outras perguntas que não a largavam, como a empatia extraordinária que sempre tiveram, mesmo quando ela era criança, a forma natural como se reencontraram passados quinze anos, como se nunca se tivessem separado, a segurança que ele lhe transmitia, como se sentia feliz na presença dele, a necessidade de dizer que o amava, mesmo quando ainda não percebera que o amava porque estava apaixonada por ele. A tristeza sempre que se afastava, a felicidade sempre que se reencontravam. A forma como toda a realidade à volta deles desaparecia quando estavam juntos. Gabriel fora o seu ombro amigo, o porto de abrigo, o ouvinte, o parceiro, o homem que tornara a vida dela tão mais fácil ao vir para o Canadá.

Naquela noite, envolta nos pensamentos, Íris teve a cruel certeza de que Gabriel não voltaria a fazer parte do seu mundo. Sabia que se precisasse dele, ele viria em seu auxílio, mas manteria a distância que a dilacerava. Sentiu as lágrimas a subir, por isso, saiu da cama para não incomodar Ashley e foi para o sofá da sala chorar a olhar para as luzes nocturnas de Montreal.

Ashley sentira a sua falta na cama e veio procurá-la. Percebeu o seu sofrimento e não tinha dúvidas da causa. Íris surpreendeu-se por a ver ali.

— Acordei-te? — perguntou, olhando-a com as lágrimas a correr pela face.

Ashley abanou a cabeça e sorriu-lhe, sentando-se a seu lado e abraçando-a com carinho.

— Que aconteceu entre vocês? — perguntou por fim, uma interrogação que a inglesa trazia há muito na cabeça. — Nunca te vi assim. Tu e o Gabriel já estiveram longos períodos sem falar. Quer dizer, trocavam mensagens de vez em quando.

— Agora nem isso. — balbuciou Íris.

— Porquê?

Íris jamais lhe contaria a verdade.

— Tivemos uma divergência.

— Conta-me. — pediu Ashley. — Há alguma coisa que eu possa fazer? — Ashley suspeitava ser o motivo da desavença deles, mas não percebia porquê. — Foi por minha causa?

Libertando-se do abraço agradável, Íris abanou a cabeça e forçou um sorriso. Iria mentir-lhe:

— Não, não teve nada a ver contigo.

— Então?

— Desculpa, amor, mas é um assunto nosso.

Ashley mostrou-se desiludida.

— Agora temos segredos?!

— Não. Nós não temos segredos, mas este é um assunto que só me diz respeito a mim e ao Gabriel. Nós zangámo-nos. A culpa foi minha. — Íris fez um gesto para que a outra não falasse. — Não, não te vou dizer o que foi, não interessa. Não foi nada de mais. — As mentiras continuavam. — Ele não gostou de rever a minha mãe, ainda está magoado com ela, ao fim destes anos. Eu não gostei de algumas coisas que ele disse, depois eu disse algumas coisas que não devia ter dito e… Bom, agora não nos falamos.

— Lamento, meu amor. — Ashley abraçou-a novamente. — Queres que fale com ele, posso…

— Não! Por favor, não te metas no assunto. Sei que é com a melhor das intenções, mas não quero.

— Ok. Prometo que não me meto.

E voltaram para a cama.

Entretanto, a vida de casal delas corria de vento em poupa. Ashley não defraudara Íris e cumprira o prometido, assumindo abertamente a relação e a sua homossexualidade. Claro que a inglesa ainda tinha um longo caminho a percorrer para se aceitar totalmente, continuava a lidar mal com as demonstrações de afecto em público, sempre receosa daquilo que conhecidos ou desconhecidos pensariam delas. Há muito anos que Íris deixara de se preocupar com isso, mas respeitava as inseguranças da namorada. Quando reviram amigos e antigos colegas da McGill, nenhum as ostracizou pela sua orientação sexual, era irrelevante e um assunto que só a elas dizia respeito. No grupo, eram apenas mais um casal que namorava, tão natural como os outros casais que eram heterossexuais.

Um mês após o afastamento entre Gabriel e Íris, ela ainda olhava para o telemóvel na esperança de ter uma mensagem dele. Tinha a certeza que, no que dependesse de Gabriel, nunca mais voltariam a falar. Naquele dia, num intervalo para café no emprego, borrifou-se para a imagem que poderia passar-lhe e escreveu-lhe uma mensagem que enviou pelo WhatsApp:

“Morro todos uns dias mais um bocadinho com a tua indiferença. Mesmo assim, não te amo um suspiro a menos que seja. Continuas a ser o homem da minha vida, aquele que mais amo. Preferia que me chamasses nomes todos os dias, até que me batesses, a ter de suportar a tua indiferença. Eu errei, Gabriel, sei que errei e que te magoei. Mas, será que mereço um castigo tão grande? Sou um arco-íris sem cor. Não tenho problemas em admitir que continuo a chorar por ti todos os dias. Amo-te, Gabriel, hoje e sempre.”

Enviou, sentindo as lágrimas a subirem aos olhos.

Gabriel viu a mensagem menos de um minuto depois, os dois vistos azuis confirmaram-no.

Ignorou-a.

O desentendimento com Gabriel começou a dar sinal de estar a fazer mais mossa que o expectável. Íris perdera apetite, andava cansada e triste. Também começou a ficar maldisposta e era recorrente sentir-se nauseada e por vezes chegava a vomitar de manhã. Ashley não escondeu a preocupação e temia que a namorada estivesse a ficar doente.

No entanto, Íris recusava a ideia, justificando que era só excesso de trabalho. Pronto, eventualmente aceitava que poderia estar algo deprimida com a perda do amigo, mas garantia a Ashley que em breve a tormenta passaria. A inglesa não ficou muito convencida.

Contudo, Íris começou a aperceber-se de algo. Os enjoos não eram nada normais, mas ficou seriamente assustada quando percebeu que o período menstrual estava atrasado, algo que nunca lhe acontecera. Evitou entrar em pânico, sabia muito bem o que aquilo poderia significar. Como pudera ser tão ingénua? Apesar de ser uma rapariga inteligente, a verdade é que não fora mais que uma distração. Nunca tivera que se preocupar com contracepção. E no fogo da paixão, naqueles momentos intensos com Gabriel, nem se lembrou que… poderia engravidar.

Sem partilhar o assunto com ninguém, numa manhã a ir para o emprego, desviou o seu caminho e dirigiu-se a uma loja onde adquiriu um teste de gravidez. Iria tirar todas as dúvidas, se bem que desejasse desesperadamente que fosse apenas um atraso do seu ciclo.

Planeara fazê-lo ao fim do dia, quando chegasse a casa, sem que Ashley visse. Porém, a ansiedade por saber era tal que não resistiu e foi à casa de banho, logo que chegou à empresa. Cinco minutos mais tarde, Íris ficou a saber que não era um atraso, trazia no ventre uma parte de Gabriel.

As lágrimas caíram descontroladas pelo rosto, um primeiro impacto do significado de tudo aquilo. Controlou-se. Afastou todos os problemas que se avizinhavam, com a certeza de que tudo ficaria ainda mais complicado, e permitiu-se a desfrutar da sensação de que iria concretizar um sonho, ser mãe.

Não havia nada que pudesse fazer no imediato. Não valia a pena atrapalhar o trabalho, distraída com as decisões a tomar. Claro que não se conseguiu abstrair de pensar nisso, mas manteve a concentração nas suas funções profissionais.

Precisava de pensar, ficar um pouco sozinha e decidir o que deveria fazer. A meio da tarde, ligou a Ashley e disse-lhe que teria de ficar a trabalhar até mais tarde. Ao desligar, constatou que se começava a tornar usual mentir à namorada. Lamentou-o e teve noção que ainda lhe mentiria muito mais.

À hora de todos os dias, saiu do emprego e foi dar um passeio junto ao rio para colocar as ideias em ordem.

A tarde amena convidava a andar. Junto do rio São Lourenço corria uma brisa agradável. Íris passeou junto aos enormes pontões que entravam no rio, cais onde atracavam ferrys que faziam a ligação com vários destinos ao longo da linha fluvial. Viu a grande tenda do Cirque du Soleil, onde já assistira a um espectáculo sensacional. Prosseguiu para a extremidade daquele Quai. Atravessou uma ponte pedonal e entrou no Parc du Bassin-Bonsecours, uma espécie de península criada pela mão humana, ligada aos pontões e coberta por vegetação bem cuidada. Íris sentou-se num banco virado para o rio e pensou na vida e no que iria fazer.

Tinha duas certezas, não queria perder Ashley e queria que o seu filho tivesse o pai bem presente na sua vida. A grande questão seria como fazer tudo isso funcionar. Íris receava que, se Ashley soubesse que o pai do filho que trazia no ventre era Gabriel, os ciúmes dela arruinariam a relação. Por outro lado, não podia esconder a criança a Gabriel, nem queria fazê-lo. E assim que soubesse que Íris estava grávida, ele saberia que o filho era seu. Tinha de pensar muito bem no que fazer e agir depressa.

Sentada a observar o rio com o Sol a desaparecer atrás de si, Íris sentiu-se terrivelmente só. Quando tinha problemas mais complicados, o seu apoio era a mãe. No Canadá, o seu refúgio fora Gabriel.

A mãe estava longe e Íris não a queria preocupar com aquilo, para já. Gabriel… Gabriel nem sequer falava com ela. Contudo, ela sabia o que tinha de fazer e, quando retomou o caminho para casa, estava convicta de como tinha de o fazer.

O apartamento estava iluminado de forma ténue pelas luzes da sala que se misturavam com o crepúsculo exterior. O ambiente era adocicado por música género chill out. Íris entrou, encarando a magnífica vista da cidade a iluminar-se para receber a noite.

Ashley estava sentada no sofá, sorriu ao vê-la chegar e saltou da almofada.

— Pareces cansada. — disse-lhe, beijando-a.

— Precisamos de falar. — avisou Íris, mal retribuindo o beijo.

— Está tudo bem? — Ashley ficou imediatamente tensa. — Aconteceu alguma coisa?

Íris não respondeu de imediato, segurou-lhe a mão e puxou-a para o sofá, convidando-a a sentarem-se.

— Tenho uma coisa para te contar.

— Estás a deixar-me preocupada, Íris. — A voz de Ashley saiu a tremer. — Está tudo bem contigo? Tens alguma novidade sobre os mal‑estares?

— Tenho, mas não é nada de grave.

Ashley apertou-lhe a mão e começou a lacrimejar.

— Tem calma, miúda. — pediu Íris, forçando um sorriso. — Não estou doente. — A outra suspirou e riu-se como se lhe tivessem tirado um peso de cima. — Mas, há algo que preciso que saibas.

— Diz.

— Eu estou grávida.

A expressão no rosto de Ashley revelava toda a surpresa, ficando boquiaberta. Quis dizer algo, mas não foi capaz. Como era possível? Íris era lésbica, nunca revelara o mínimo interesse por homens. Tentou perguntar, mas o olhar da namorada indicou-lhe que esperasse.

— Quando regressei a Montreal, depois da nossa separação, senti‑me muito infeliz. — começou Íris. Ashley mostrou um semblante de culpa. — Estava aqui sozinha com o coração partido.

— Eu…

— Espera, amor. Isso agora não é importante. — disse Íris, percebendo que a outra se iria desculpar. — Deixa-me continuar.

— Claro…

— Uma noite, decidi sair, ir espairecer. Precisava de ver pessoas, mas não queria encontrar os nossos amigos. Não queria perguntas, percebes? — A inglesa anuiu. — Entrei num bar e fui beber um copo. — Sorriu envergonhada. — Ver tipas giras. — Acariciou o rosto de Ashley que o franzira enciumada. — Não tão giras como tu. — Desviou o olhar, a mentira teria de ser convincente. — Apareceu um rapaz que meteu conversa comigo, quis pagar-me um copo. Sabes como sou com os homens, não me atraem nada. Mas… eu precisava de falar, conversar com alguém que não veria nunca mais. — Encolheu os ombros como se relatasse a coisa mais natural do mundo. — Percebi o interesse dele e avisei-o logo que era lésbica. Julguei que isso o afastasse, mas ele deixou-se ficar, foi um bom ouvinte e conversador. Gostei realmente da companhia dele, atenuou um pouco a solidão. — Íris espantava-se com a sua capacidade de inventar a mentira. — Depois… Convidou-me para ir a casa dele. — Ashley começou a revelar um ar mais duro, adivinhando o que viria dali. — Aceitei. — Íris apertou a mão de Ashley, mas a outra retirou-a da sua, abruptamente. — Não vale a pena estar com pormenores, Ashley, aconteceu o que estás a pensar.

A inglesa levantou-se do sofá furiosa. Olhou para Íris, fulminando-a.

— E foste tão estúpida que o deixaste foder-te sem preservativo! — Íris encaixou a raiva da namorada sem exercer defesa, limitando-se a anuir. — E não me disseste nada? O gajo, em vez de te engravidar, podia ter-te infectado com uma doença venérea e tu infectavas-me a mim. Como podes ser tão estúpida? É assim que demonstras amar-me?

— Eu amo-te, Ashley. — redarguiu séria, como se a outra não passasse de uma criança mimada. — Sabes bem que te amo. Foi um erro. Nunca erraste?

Ashley virou-lhe as costas, furiosa. Íris contava com aquilo, sabia que teria de encaixar a fúria de uma namorada traída, mesmo que a traição não tivesse acontecido durante a relação. Porém, seria melhor contar-lhe aquela mentira que dar-lhe a conhecer a verdade.

De súbito, Ashley começou a soluçar e a chorar. Íris levantou-se e abraçou-a por trás. A inglesa afastou-a com repulsa, mas Íris insistiu e conseguiu prendê-la no seu abraço.

— Eu amo-te, Ashley. Foi um erro.

— Ainda falas com o gajo?

Íris sorriu na sua orelha.

— Nunca mais tivemos qualquer contacto, depois disso. É alguém que nunca mais verei.

— É o pai do teu filho.

— O meu filho não tem pai. — Apertou-a mais nos braços. — E gostava que tivesse duas mães.

Ashley aninhou-se nos braços de Íris.

— Queres que seja mãe do teu filho? — balbuciou.

— Sabes bem que sim.

Rodando no abraço, Ashley virou-se para Íris.

— Nem parece teu. És sempre tão recatada, tão consciente.

Íris sorriu, ela tinha razão, jamais iria para a cama com alguém que acabara de conhecer, por muito interessante que fosse. Encolheu os ombros e fez um ar penitente.

— Não sou perfeita, Ashley. E só aconteceu porque eu estava triste e sozinha. Sabes bem que seria incapaz de te trair.

— Eu sei.

— Espero que me possas perdoar.

— Eu amo-te! — afirmou a inglesa. — Doí-me que isso tenha acontecido, mas compreendo. No teu lugar, seria bem provável que fizesse o mesmo. — Franziu o rosto com ar escarninho. — Quando percebi que fui estúpida contigo, também andei um pouco perdida até me decidir a vir atrás de ti. Não me envolvi com ninguém, Íris, mas tenho consciência que poderia ter acontecido. — Riu para desanuviar a tensão que se relaxava. — E eu ia com um homem bem mais depressa que tu.

Abraçaram-se e beijaram-se com muita paixão e amor.

Uma parte do problema estava resolvida, faltava o resto. E o resto era bem mais complicado, mas ela tinha fé naquilo que a unia a Gabriel. E o que é que a unia a Gabriel? Pois, nem ela sabia explicar muito bem.

Fosse como fosse, tinha de falar com ele. Contudo, sabia que Gabriel não lhe responderia a mensagens ou atenderia as suas chamadas. Aquilo não era assunto para falar de outra forma que não fosse pessoalmente, daí que tinha de arranjar forma de se encontrarem, ou seja, ela tinha de ir a Toronto. Assim, usou a única estratégia que sabia resultar para obter a atenção e resposta dele.

“Olá Gabriel,

Desculpa estar a maçar-te, mas preciso da tua ajuda. Será que posso ir a Toronto falar contigo? Ainda me permites ficar em tua casa, uma noite? Vou e volto de comboio. Se não vires inconveniente nisso… Se preferires, eu fico num hotel. É um assunto muito importante. Irei no próximo Sábado e regresso no domingo. Fico a aguardar a tua resposta. Beijinho no teu coração onde já não moro. O Arco-íris que já não queres que seja teu. Amo-te!”

Enviou o email e esperou que ele respondesse. Não colocara como hipótese pedir-lhe que viesse a Montreal, não lhe cabia a ele o transtorno da viagem, apesar de ambos terem a mesma responsabilidade naquela criança que crescia dentro dela. Porém, não queria tratar daquilo com Ashley por perto.

A espera foi angustiante e nem sequer tinha como confirmar se ele recebera e lera o email.

A resposta chegou no dia seguinte, estava Íris embrenhada no trabalho. A aplicação de email no smartphone alertou-a para isso. Sentiu o nervoso miudinho crescer-lhe pelo corpo. E se ele se recusasse a encontrar‑se com ela? Pouco provável. Se fosse para a ignorar, não lhe mandaria um email. Mesmo assim teve medo do que iria encontrar quando abrisse a mensagem. Ganhou coragem e clicou no assunto “Re: Preciso da tua ajuda”. Fora ela que criara aquele assunto, o “Re:” significava ser a resposta dele. Começou a ler…

“Olá Arco-íris,

Não deixaste de ser o meu arco-íris, só optei por não te querer por perto ou interagir contigo. Lamento ser assim, mas foi a forma que encontrei para lidar com tudo o que aconteceu entre nós. Também gostava de poder dizer que já não moras no meu coração, seria tudo tão mais fácil… Mas, deixemos isso e vamos ao que interessa. Disseste que precisas de ajuda. Sabes que por mais zangado que esteja contigo, daria a volta ao mundo em teu auxílio, por isso, aqui estou. Peço apenas que analises bem se não te posso ajudar sem vires a Toronto. Não me sinto preparado para te voltar a ver e preferia não o fazer. Diz-me o que precisas. Beijinhos.”

Não havia “amo-te” na mensagem dele. E isso foi uma facada no peito de Íris, tal como ver escrito que ele não a queria por perto ou vê-la foi doloroso. Deu por si a chorar e tentou limpar as lágrimas antes que alguém reparasse. Sem perder tempo, abriu a aplicação do WhatsApp e escreveu:

“Olá, Gabriel. Recebi o teu email. Desculpa, mas tem de ser pessoalmente. Se é assim tão difícil para ti ver-me e falar comigo, então esquece que te pedi alguma coisa. Beijinhos.”

Viu os vistos cinzentos aparecerem e tornarem-se azuis. Aguardou. Se ele mantivesse a sua recusa, problema dele, não saberia da gravidez. As letras verdes indicaram-lhe que vinha aí resposta.

“Seja como queres. Sábado em minha casa. E podes passar lá a noite, não deixaste de ter lá um quarto e continuas a ter a chave da minha casa.”

Íris respirou de alívio. Um alívio efémero, pois o pior estava para vir. Respondeu:

“Obrigada. Até sábado.”

Gabriel não disse mais nada.

Nessa noite, em casa, depois do jantar, quando estavam a ver televisão, Íris disse a Ashley:

— Vou a Toronto no fim de semana.

A inglesa encarou-a surpresa com uma expressão interrogativa. Íris esclareceu-a:

— Tenho de resolver as coisas com o Gabriel. Estou grávida e não quero atravessar a gravidez nesta amargura, isso não fará nenhum bem ao bebé.

— Mas, ele não quer falar contigo. — recordou Ashley, como se Íris não o soubesse.

—Eu mandei-lhe uma mensagem a explicar e ele foi receptivo a falarmos.

— E porque vais a Toronto? Porque não vem ele a Montreal?

— Já agora encontramo-nos em Ottawa, a meio caminho. — atirou irónica. — Fui eu que propus assim, uma espécie de abertura a tréguas.

— Eu vou contigo. — ofereceu-se Ashley.

— Não, não vais. — A resposta saiu-lhe mais dura que o pretendido. Mais terna, justificou: — É assunto para nós resolvermos, só os dois. — Ashley fez aquele ar que Íris conhecia tão bem, o ciúme a crescer. — Lembras-te das condições que te coloquei, quando voltámos? O Gabriel é meu amigo e eu preciso dele na minha vida.

Ashley concordou e aceitou insatisfeita.

Conforme planeara, Íris partiu de Montreal num dos primeiros comboios da manhã. Saiu cedo de casa, despedindo-se de uma Ashley fria, claramente aborrecida por ela se ir encontrar com Gabriel. Como Íris não era de se ficar, atirou-lhe na despedida:

— Eu não ficava com essa cara, quando tu ainda namoravas e nós já estávamos juntas. Além disso, o Gabriel não é meu namorado, é meu amigo, um amigo a quem devo muito.

E que magoei mais que a qualquer outro.

Ashley não disse nada e aceitou o beijo que Íris lhe deu.

Antes de entrar no comboio que faria a ligação entre Montreal e Toronto, Íris enviou uma mensagem a Gabriel:

“Bom dia, Gabriel. Estou a caminho. Beijinhos.”

Desistira de escrever que o amava, já não valia a pena. Viu que a mensagem fora lida, mas ele não retribuiu.

Levou um livro para ler, o qual transportara numa mochila onde acomodara as poucas coisas que precisava para passar a noite em casa dele. A escolha da roupa não fora aleatória, sabia que o assunto seria melindroso e complicado, daí que escolheu tons escuros, uma túnica verde-garrafa de manga curta e calças de ganga pretas com sapatilhas da mesma cor.

A viagem foi tranquila e terminou ao início da tarde na Union Station de Toronto. Íris sentiu a ansiedade a crescer com a chegada à cidade e a aumentar a cada minuto que se seguiu. Caminhou pela estação com o telemóvel na mão. A última vez que ali estivera fora naquela fatídica partida, o momento em que se afastara completamente apaixonada por Gabriel, mas a obrigar-se a colocar as ideias em ordem antes de qualquer decisão. E se tivesse ficado? E se tivesse decidido por ele? Teria terminado tudo, quando Ashley reapareceu? Nunca saberia.

Enviou nova mensagem a Gabriel, talvez ele a viesse buscar.

“Já cheguei a Toronto. Beijinhos”

Desta vez, ele viu e respondeu:

“Tive um compromisso, podes ir andando para minha casa. Já lá vou ter.”

Ok, não a iria buscar. Sem perder tempo, chamou um Uber através da aplicação.

À ansiedade e nervosismo juntou-se a tensão, quando se viu perante o prédio onde Gabriel vivia. O porteiro conhecia-a e cumprimentou-a com um sorriso. Íris subiu no elevador, respirando fundo, procurando controlar as emoções. Saiu no piso do apartamento dele e caminhou para a porta. Meteu a chave e abriu-a.

O apartamento estava silencioso.

— Gabriel! — chamou.

Não houve resposta, não estava ninguém.

Íris atravessou o átrio e foi ao quarto que, um dia, Gabriel lhe dissera ser só seu. Estava tudo arrumado, imaculado, à sua espera. Largou a mochila sobre o colchão e tornou a sair. A porta do quarto dele estava aberta. Íris olhou para a cama e sentiu um arrepio na espinha ao recordar os momentos em que fizera amor com Gabriel naquele colchão. Abanou a cabeça, como se quisesse afastar o pensamento, e foi até à sala. Parou defronte dos grandes vidros que antecediam a varanda e olhou para o lago Ontário que brilhava com o Sol radiante que abraçava a cidade. Tentou acalmar-se, cada minuto que passava era menos um minuto para o reencontro. Sentou-se no sofá e esperou.

Deve ter decorrido meia hora… Não, ele fizera-a esperar quase uma hora. Propositado ou não, fizera-o. E a espera consumia-a. Subitamente, Íris ouviu uma chave ser introduzida na fechadura da porta do apartamento. O coração batia-lhe a mil à hora. A porta abriu-se e Íris viu Gabriel, elegante, charmoso em toda a sensualidade dos seus cinquenta anos. Levantou-se do sofá e encarou-o.

Gabriel olhou para ela, enquanto fechava a porta. Foi uma olhadela fugaz, confirmando que ela ali estava. Tornou a concentrar-se na porta e na fechadura.

— Olá, Arco-íris! — cumprimentou ele.

Ouvi-lo tratá-la pela alcunha carinhosa que sempre usara, atenuou-lhe os receios.

— Olá, Gabriel!

Ele ficou parado à entrada da sala, ela como uma estátua diante do sofá. Olhavam-se. Havia tantas feridas por cicatrizar naquela troca de olhares. Apesar das mágoas, o amor que se via naqueles olhos era quase palpável, tal a intensidade. Gabriel teve medo de se mexer, receoso da brutalidade de amor e paixão que sentia por aquela mulher.

Íris deu conta que tanto planeara aquilo e agora não sabia o que fazer, tendo uma única certeza, amava-o tanto que doía. Gabriel foi aquilo que sempre encontrara na sua vida, o homem que a ampararia em todas as quedas, por mais magoado que estivesse. Sem dizer nada, ele avançou para ela e abraçou-a com ternura, carinho e amor. Íris aninhou-se nele, sedenta de todas as sensações que ele lhe provocava, afundando-se no seu pescoço e cheirando-o. Como adorava o cheiro daquele homem…

Gabriel não sabia o que dizer, estava magoado, mas adorava-a, amava-a mais que a própria vida. Beijou-lhe os cabelos. Íris segredou-lhe:

— Tive tantas saudades tuas.

Ele continuou em silêncio.

Afastaram-se ligeiramente, continuando abraçados, mas a olharem os olhos um do outro. Gabriel adorava aquelas amêndoas. Baixou-se e beijou-lhe a testa. Íris sorriu, esticou-se e beijou-lhe os lábios com suavidade, sussurrando:

— Podemos não estar juntos, mas não deixei de te amar.

— Não foi a mim que escolheste. — lembrou-a, abrindo o abraço. O tom era magoado. — Não me parece que a bifa ficasse muito satisfeita se soubesse que me beijas na boca.

Íris relevou o insulto à namorada.

— É só um beijo e significa o amor que sinto por ti.

Gabriel assentiu como se fosse irrelevante. Apontou-lhe o sofá para que voltasse a sentar-se e caminhou até às garrafas.

— Queres beber alguma coisa? — ofereceu, servindo-se de um whisky.

— Não, obrigado. — recusou ela sem tirar os olhos dele.

Gabriel deu o gole na bebida e inquiriu:

— Que se passa? Para que precisas da minha ajuda?

Chegara o momento.

Íris fizera imensos planos para aquela conversa, ponderou todos os cenários, a melhor forma de lhe contar… Todos pareciam resultar bem na sua mente, tanto quanto lhe pareceram ser um fracasso naquele momento. Mesmo assim, ensaiara um longo discurso, na véspera, o qual se lhe varrera da mente na branca que o momento lhe provocou. Só conseguiu dizer uma coisa:

— Estou grávida!

Gabriel ficou sem reacção, o copo quase lhe saltou da mão. Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras não saíam. Ficou tão confuso, tão baralhado. Que estava a acontecer?

— Por favor, diz alguma coisa. — pediu ela.

Ele não disse nada, pousou o copo, avançou, abraçou-a e beijou‑a. Íris não sabia o que deveria esperar, mas em momento algum equacionara aquele resultado. Foi tão surpreendente e intenso, que se deixou levar, ao ponto de os beijos já serem duas bocas esfomeadas com duas línguas a dançar a dança do desejo.

Subitamente, Íris pareceu ganhar noção da realidade e, mais importante, o porquê de ele reagir assim.

— Espera… Gabriel, espera… Por favor, Gabriel… Pára. PÁRA!

O grito foi surpreendente para ambos.

— Que foi? — questionou ele sem a largar.

Íris desprendeu-se do abraço.

— Acho que percebeste mal.

— Como assim, Arco-íris? Estás grávida de um filho meu. Que posso ter percebido mal?

Antes de responder, Íris afastou-se dois passos.

— Talvez seja melhor sentarmo-nos.

Ele ficou pálido.

— Espero que não tenhas vindo para me dizer que queres fazer um aborto.

Íris fulminou-o com o olhar.

— Conheces-me muito mal, se me julgas assim.

— Ok, desculpa! — lamentou. Seguiu o conselho dela e sentou-se no sofá. — Então? O que se passa? Que tem isso a ver com a minha ajuda que disseste precisar?

Era agora que as coisas se iriam complicar, concluiu Íris, sentando‑se ao lado dele.

— Tu és o pai, mas eu não quero que assumas a paternidade.

— O quê???? — interrogou com enorme indignação, voltando a levantar-se do sofá. — Agora sou eu que te digo que me conheces muito mal para me pedires isso.

— Quero que faças parte da vida do nosso filho. — explicou Íris esforçando-se para manter a calma. — Só não quero que a Ashley saiba que és o pai.

— E eu quero que a Ashley se foda!

— Gabriel…

— Achas que vou deixar de assumir o meu filho por causa dessa gaja?

— Por favor, Gabriel. — pediu, já algo ofendida pela forma como ele se referia à inglesa. — A Ashley é minha namorada e vamos casar.

Gabriel ficou estupefacto. Até àquele momento, julgara estupidamente que ela viera para lhe dizer que estava grávida, que queria que ficassem juntos e que ambos criassem aquele filho.

Em simultâneo, Íris percebeu que tudo aquilo estava a servir para tornar a magoá-lo.

— Gabriel…

Ele não a deixou falar:

— Então, explica lá que caralho de ajuda é que vieste pedir?

Íris percebeu o quanto ele estava transtornado, enraivecido, quase tresloucado, muito furioso. Em momento algum se sentiu insegura, ele jamais lhe faria mal, era a única certeza que encontrava ali.

— Se me deixares falar…

— Então fala!

— Talvez seja melhor acalmares-te. — pediu Íris, sorrindo-lhe.

— Vai-te foder. Diz o que tens a dizer de uma vez.

O rosto de íris endureceu.

— Venho propor-te que sejas padrinho da criança. — Íris apresentou a sua proposta, desejando profundamente que ele aceitasse. — Não quero que a Ashley saiba que és o pai. — Gabriel ia soltar outro insulto contra a inglesa, mas travou-se. — Não vai haver um pai, só duas mães. Tu, como padrinho, estarás mais perto dele que qualquer outra pessoa.

— Esse bebé é meu filho, Íris! Não vou aceitar que a bifa tenha mais direitos que eu.

Íris percebeu que ele a tratara pelo nome, não pela alcunha carinhosa. E teve a certeza que fora intencional. Isso magoou-a.

— Que queres fazer, então?

— O correcto, assumir a paternidade.

— Correcto para ti.

— Correcto para qualquer pessoa de bom-senso. — atirou ele, usando um tom paternalista. — Que raio de amor é o vosso que não sobrevive à verdade?

— Não te atrevas a falar do nosso amor. Não sabes do que falas. — Íris nem deu por estar a levantar o tom, nem como a fúria começava a consumi-la. — Vim pedir-te ajuda, vim procurar o amigo, alguém com quem sempre pude contar. Quero que isto resulte para todos.

— Não me interessa falar do que tens ou deixas de ter com a bifa…

— Por favor, pára de chamar isso à Ashley! — exigiu Íris exaltada. — O teu problema é comigo, não é com ela.

Ele levantou os braços em sinal de trégua. Voltou-se para o balcão e tornou a segurar no copo. Íris notou que a mão dele tremia.

— Gabriel… — retomou com mais calma, procurando que encontrassem novamente o caminho da amizade. — Eu…

— Não me interessa o que possas dizer, Íris. Eu sou o pai dessa criança. Não vou ser um… padrinho. Sou o pai, entendes? O pai. — Bebeu o whisky de um trago. — Se calhar, tens dificuldade em perceber o que isso é porque o teu ora aparecia como desparecia.

Íris tornou a enraivecer-se.

— Não te admito que fales assim do meu pai.

Ele virou-lhe as costas e tornou a despejar mais uma dose no copo. Sem a encarar, manteve-se firme na sua decisão.

— Eu não abdico da paternidade.

Percebendo que não venceria aquela discussão e, pior, não o demoveria de lhe estragar a relação, acabou por dizer num tom duro:

— Ok, Gabriel. Será como queres. Podes assumir a paternidade. Isso irá certamente arruinar a minha relação com a Ashley, mas talvez seja isso que queres. — Ele voltou-se e não a contrariou. — Mas, deixa-me dizer-te que, se isso acontecer, tu morrerás para mim. Teremos o contacto a que um filho em comum obriga, mas no resto, tu pura e simplesmente deixarás de existir para mim.

Após tanta discussão, trocas de argumentos, vozes alteradas, o silêncio tomou conta do ambiente. Íris nunca imaginara que conseguisse enfrentar aquela cena de forma tão estoica. Se lhe contassem, diria que àquela hora estaria lavada em lágrimas. Ao invés, parecia uma leoa a defender as crias.

Gabriel deu mais um trago na bebida. Por fim, olhou para ela e falou num tom bastante mais calmo.

— Está bem, Íris. Será como queres.

Ela também atenuou o tom e falou de forma afável:

— Quer dizer que aceitas ser padrinho?

— Quer dizer que aceito não ser o pai. — Fez uma expressão escarninha. — Abdico dos direitos, mas não dos deveres. Irás receber uma boa soma todos os meses…

— Por favor, Gabriel, não é isso que está em causa. Quero que faças parte da vida da criança.

— É o que tenho para oferecer… Íris.

Ela assentiu. Parece que se chegara a um acordo, um acordo que ia ao encontro do que ela pretendia. Pela enésima vez, ele não lhe faltava e ajudava-a. Porém, havia algo pendente nela.

— Reparo que já não me chamas Arco-íris. — Gabriel ficou em silêncio a olhá-la. — Eu só sou arco-íris para ti. — O tom da voz dela era terno e procurava reciprocidade. — Se não puder voltar a ser a “tua” Arco‑íris, perderei as minhas cores e não serei mais que um arco-íris em tons de cinza.

Ao terminar a frase, esperou que ele dissesse algo.

Gabriel encarou-a. Apesar de zangado, ela distinguiu-lhe amor no olhar. Ouviu-o dizer:

— Por mim, o arco-íris pode perder as cores todas… Íris.

Naquele momento, ela soube que estava tudo acabado entre eles. Não voltaria a haver empatia, amizade, partilha e… muito menos amor. Foi a gota-de-água, Íris começou a chorar e afastou-se para o quarto em lágrimas.

No silêncio da sala, vendo a tarde a encaminhar-se para a noite, Gabriel ouviu Íris a chorar no quarto. Aquilo retalhava-lhe o coração, mas manteve-se firme e só lhe ofereceu indiferença. Contudo, isso mudou quando a viu sair do quarto com a mochila às costas.

— Onde vais?

— Embora. — atirou-lhe sem parar de chorar.

— Espera!

Gabriel correu para ela disparado, como se uma mola na parede o tivesse projectado. Ela abriu a porta no momento em que ele lhe agarrou o braço.

— Larga-me, Gabriel!

— Onde vais? É quase noite.

— Vou procurar um hotel onde ficar. Não sou bem-vinda aqui.

— Não sejas parva.

Íris encarou-o em lágrimas e soluçou como uma criança:

— Tu disseste que já não sou o teu arco-íris.

— Não é razão para ires.

— Tu disseste que já não sou o teu arco-íris. —repetiu com mágoa na voz. — Tu sabes bem o que significa para mim ser o teu arco-íris. Ser a tua Arco-íris.

Gabriel abraçou-a e não disse nada. Ficaram abraçados alguns minutos em silêncio, um silêncio perturbado pelo soluçar dela a molhar‑lhe o ombro com as lágrimas.

— Acho que nos excedemos. — disse ele, fechando a porta e abrindo-se a uma reconciliação. — Precisamos de descansar.

— Não quero ser um fardo, Gabriel. E já percebi que sou um incómodo para ti, se ficar.

— Não és nada. Além, disso, eu tenho que sair para falar com um dirigente dos Maple Leafs. — A voz dele continuava a afável. — Descansa um pouco. Quando voltar, falamos melhor sobre isto.

Íris anuiu. Afastaram-se sem se voltarem a olhar e ela regressou ao quarto, sob o olhar dele. Depois, Gabriel voltou a pegar nas chaves e saiu. Não tinha nenhum compromisso, só precisava de se afastar dela, mas não queria que andasse perdida em Toronto à procura de um sítio onde passar a noite.

No quarto, Íris viu que tinha uma mensagem de Ashley a perguntar como estavam a correr as coisas. Respondeu-lhe que ainda estavam a conversar, mas que acreditava que ia correr bem. Não acreditava, mas segurava a esperança. Tal como Gabriel lhe sugerira, aproveitou para descansar um pouco e acabou por adormecer na cama. Quando acordou já era noite. Gabriel ainda não voltara. Foi até à cozinha e comeu qualquer coisa, questionando-se se deveria ligar-lhe para saber onde estava. Concluiu que não tinha esse direito.

Gabriel voltou já de madrugada. Íris já estava na cama e acordara com o som da chegada dele. Viu as horas. Não era naquela altura que iriam conversar. Mesmo assim, ouviu-o circular pelo corredor, ir ao quarto dele, voltar e regressar à sala. Não registou mais nada porque tornou a adormecer.

Na manhã seguinte, Íris acordou com os olhos inchados. A noite fora dormida a espaços e com interrupções para chorar. Lá fora, o dia adivinhava-se bonito, quente e solarengo. Olhou para o telemóvel e viu a mensagem de “bons dias” de Ashley e a pergunta “como correu?”. Íris não adiantou muito na resposta. Saiu da cama e tomou um duche rápido sem molhar o cabelo. Vestiu-se e respirou fundo para novo round com Gabriel, ansiando para que tudo corresse bem.

Abriu a porta e saiu para o átrio. A porta do quarto de Gabriel estava aberta. Ela espreitou para o interior. A cama estava feita e não havia sinal da presença de Gabriel. Onde estaria ele? Não invadiu o seu espaço e dirigiu-se à sala. Ele também não estava ali, nem na cozinha, nem na varanda. Onde estaria ele? Chegara tarde e já saíra?

A claridade da manhã bonita entrava pelos grandes vidros de acesso à varanda. O lago Ontário brilhava com os raios solares e o céu era de um azul magnífico.

A atenção de Íris foi atraída para o topo do balcão. Estava lá uma folha manuscrita. Ela reconheceu a caligrafia de Gabriel. Era uma mensagem para si. Começava com “Olá Arco-íris”, o que lhe aqueceu o coração. Continuou a ler:

“Quando leres isto, eu já terei saído. Fi-lo porque já esgotei a minha capacidade para me despedir de ti. É demasiado duro. Quero pedir‑te desculpa por todas as coisas más que te disse ontem, os insultos e a agressividade. O que me pedes é muito duro, mas compreendo que queiras que assim seja. Afinal, quem sou eu? Sou apenas alguém que te ama incondicionalmente e quer que sejas feliz. Não farei nada que comprometa a tua relação com a Ashley e também não deixarei que falte nada a ti e à criança. Se serei presente na sua vida? Dá-me tempo para curar as feridas. Tu fizeste o teu pedido, eu aceitei. Agora, chegou a vez de ser eu a pedir e espero que me concedas algo que não é um desejo, mas sim uma necessidade. Quero que te afastes, que saias da minha vida, que não me voltes a contactar, excepto no que disser respeito ao bebé. Não consigo, Arco-íris, não consigo lidar contigo neste cenário. Amo-te como nunca amei ninguém e irei continuar a amar-te. Mas, não te quero ver, nem voltar a falar contigo. Sê feliz, Arco-íris. Serás sempre o meu Arco-íris, mas terá de ser outro… terá de ser a Ashley a conservar-te as cores. Amo-te! Gabriel”

O rosto de Íris estava lavado em lágrimas, quando terminou de ler. Era aquele o preço pelo seu pedido e ela tinha que pagá-lo. Não o podia recriminar por isso. Limpou a face com as costas da mão. Pegou no telemóvel e abriu o WhatsApp nas mensagens trocadas com Gabriel e escreveu:

“Li a tua carta. Pedido concedido. Até um dia.”

Não conseguia parar de chorar, de tal forma que lhe turvava visão. Retirou as chaves do apartamento do bolso das calças e deixou-as sobre o balcão ao lado da carta. Por fim, pegou na mochila e saiu.

Saiu do apartamento, saiu de Toronto, saiu da vida de Gabriel…

XXX

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto…

Que se foda o dinheiro, a saúde e tudo o resto!

 

— Só voltaste à noite?

Phil estava no lugar de sempre, sentado na poltrona a ouvir Gabriel. Ficara algo chocado com o ar abatido do seu paciente, visivelmente agastado. Por norma, as sessões com o terapeuta eram de uma hora, mas nas últimas três Gabriel estivera a abrir a alma e a contar tudo o que acontecera entre ele e Íris.

— Só voltei à noite. — confirmou.

— Porquê?

Gabriel encolheu os ombros, consciente que fora absurdo fazê-lo.

— Estupidez. — respondeu. — Quis ter a certeza de que ela já não estaria lá, o que era uma parvoíce, uma vez que ela tinha de voltar a Montreal.

— Ou será que tinhas esperança de que ela não tivesse ido?

— Não. — Gabriel fez um sorriso irónico. — Esperança é coisa que desconheço há muito tempo.

O ambiente na sala era confortável, as luzes dos apliques a equilibrar a claridade com a luz de fim de tarde, numa altura em que os dias tinham tendência a acabar cada vez mais cedo. Os tapetes abafavam os ruídos, as almofadas onde se sentavam eram cómodas e a decoração oferecia uma certa paz.

— Continuas a ter aqueles episódios de angústia e solidão?

Gabriel anuiu, dizendo:

— E tu não me queres receitar nada. — Fingiu-se descontente. — Que raio de terapeuta és tu?

— Sou teu amigo.

A gargalhada saiu sarcástica.

— Não me lixes, Phil. És o amigo que o meu dinheiro pagar.

— Estás a pagar as consultas, mas não quer dizer que não haja amizade.

— Hum… — Gabriel fez um trejeito interessado. — Uma daquelas cenas de amizade médico-doente?

— Estou a falar a sério, Gabriel. Sou teu amigo.

— Como queiras.

Phil fez uma pausa, esperando que ele tivesse algo para dizer. Gabriel ficou calado com o olhar perdido no jardim exterior.

— Não tenho conseguido dormir. — confessou. — Passo as noites a pensar nela… A pensar nisto tudo.

— Encontras paralelo entre o que te aconteceu agora com a Íris e o que aconteceu entre ti e a Olga?

— Só se for o facto de serem duas cabras.

— Vá lá, Gabriel, tu não pensas isso delas.

Ele permaneceu com o olhar no jardim. Um pássaro pousara num arbusto junto ao vidro.

— Está a ser muito pior.

— Por causa do bebé?

— Também.

— Porque sentes que está a ser pior?

— Porque está, Phil. — irritou-se, olhando para o terapeuta. — Que merda… Agora quantificamos as desgraças? Tens alguma escala criada por aqueles tipos de nome esquisito que têm imensas teorias sobre a cabeça de um gajo e fazem escalas para tudo?

— Não, Gabriel. Quero apenas perceber porque está a ser pior. A meu ver, é por causa da criança.

— Talvez…

— Que estás a pensar fazer? — interessou-se Phil.

— Em relação a…?

— À criança.

Gabriel franziu o rosto. Não disse nada e ficou pensativo. Acabou por partilhar:

— Cumprir o que prometi à Íris, ficar longe.

— Ela não te pediu para ficar longe, pediu só que não dissesses que és o pai.

— Para mim, padrinho é um gajo da máfia. — Riu-se da própria piada. Phil não o acompanhou. — Não sei, Phil. Não quero nada que me coloque em contacto com a Íris. E muito menos com a bifa.

— Ela não tem culpa, Gabriel. A decisão foi da Íris. Não odeies a Ashley.

— Não a odeio, Phil. Só gostava que um raio a fulminasse e a fizesse em pó.

— Bolas, Gabriel…

— Ok, ok. Esquece.

Phil decidiu modificar o assunto, procurar algo positivo e afastar o seu paciente da história que o martirizava.

— Voltando às férias em Portugal.  Pelo que contaste, até te deste bem com a Olga.

Gabriel revelou uma reacção semelhante a alguém que provou um vinho e não gostou. Quando se despedira de Olga, acordaram manter-se em contacto. Isso aconteceu ao longo daquele período em que ele esperava uma decisão de Íris, meia dúzia de trocas de mensagens por email. Quando se afastou de Íris, deixou de responder à mãe. Olga também não insistira e ele calculou que fora a filha quem lhe tivesse dito que não valia a pena.

— Que tem a Olga a ver com o assunto?

— Para além de ser mãe da mulher que amas e também a teres amado? Não sei, o que achas?

— Nunca tive qualquer interesse em reatar uma amizade com a Olga. — Fez uma pausa. — Senti que o passado já não me afectava tanto e achei que Íris ficaria feliz se nos dessemos bem.

— Mais uma vez, tomaste as tuas decisões com base naquilo que faria a Íris feliz.

— É o que parece, Phil. — concordou. — Tens aí algum carimbo a dizer “otário”? Podes carimbar-me a testa.

— Tu és um bom homem, Gabriel. Agiste com o coração.

Gabriel abanou a cabeça. Ia para dizer algo, mas travou-se.

Phil percebeu e sabia que o melhor caminho era sempre não pressionar, aguardando que o paciente encontrasse os seus tempos e só dissesse o que se sentisse seguro de dizer. Viu-o fechar os olhos e inclinar a cabeça para trás.

— Sinto-me ridículo. — desabafou. — Estar assim por causa de uma miúda que tem metade da minha idade. — Olhou muito sério para o terapeuta. — Não te sei explicar, Phil. A sério, não consigo explicar o que nos une… unia. — O olhar ficou vago, pensativo. — A Íris era… É difícil encontrar as palavras para descrever. Quando namorava com a Olga, tinha uma óptima relação com a Íris, senti-me grato por uma criança de sete anos me ter aceitado tão bem, aparecendo eu depois do pai se separar da mãe. A Íris não era uma filha, nunca a vi como tal, era uma criança feliz que adorava tanto a minha companhia como eu a dela. — Tornou a olhar para Phil. — Era como se tivesse uma irmã mais nova.

— Mas, não foi assim que o sentiste, quando ela retornou à tua vida.

— Não, não foi. — confessou Gabriel. — Hoje percebo muito melhor as coisas. Talvez tivesse percebido mais cedo, se não estivesse tão embrenhado nos fantasmas do passado, naquela certeza de que as relações não valiam a pena, limitar tudo ao dinheiro e comprar o que precisava, porque se não entrarem na tua vida não te magoam.

— Como foi o reencontro?

— Já te contei, Phil.

— Eu sei, Gabriel. Mas, quero que olhes para trás e faças uma nova avaliação.

O olhar de Gabriel tornou a perder-se na decoração. A sua mente revia aquelas memórias com pouco mais de um ano.

— Nunca liguei muito ao factor “Íris” quando a Olga se separou de mim. Tive pena de não me despedir da miúda, mas o abalo pelo fim da relação direccionou a minha raiva para a Olga e praticamente esqueci a Íris. Houve algo de diferente, quando ela me escreveu pela primeira vez, foi como se um sem número de memórias se tivesse reactivado. — Um sorriso genuíno despontou-lhe no rosto. — Foi quando me lembrei que lhe chamava Arco-íris. — Abanou a cabeça, quase divertido. — No primeiro email tratou-me com toda a formalidade. Li aquilo a imaginar a pequena Íris de nove anos a falar comigo. Os emails seguintes foram mais intimistas. Não te consigo explicar, Phil, havia qualquer coisa que eu continuo a não saber explicar.

— E quando ela chegou a Toronto?

— Vá lá, Phil. Não preciso de recordar isso…

— Faz bem falar, Gabriel. Confia em mim.

Ele fez-lhe a vontade:

— Quando a vi, senti um choque. A miudita transformara-se numa mulher lindíssima. No entanto, não a vi como mulher, vi-a como a filha de uma ex-namorada que não tivera culpa do que acontecera e a quem podia ser útil. Ela fazia despertar em mim coisas adormecidas, como a preocupação com o próximo, fazer boas acções.

— Fez-te voltar a acreditar nos seres humanos.

— Sim, talvez tenha sido isso.

— Nessa altura, pensaste que se poderiam envolver?

— Não, nada disso. — Gabriel sorriu com a lembrança. — Na primeira manhã em minha casa, encontrei-a na sala. Nunca o esquecerei, vestia uns calções curtos e lembro-me de pensar que ela tinha umas pernas fenomenais. — Abanou a cabeça, antes que Phil dissesse algo. — Não Phil, não pensei nisso. Era uma miúda, temos uma diferença de idade de um quarto de século.

— Isso é que é dar enfase à vossa idade.

— Ambos sabemos o que aconteceu depois, mas… naquela altura não imaginei que viesse a acontecer o que… enfim, o que aconteceu. — Manteve-se sério. — O que mais me impressionou nela não foram as pernas, foram os olhos. Desde o primeiro momento que me fez confusão olhar para os olhos dela. E percebi porquê, ela tem os olhos da mãe.

— Era a Olga que vias neles?

— Pensei que sim, mas…

— Mas?

— É daquelas coisas que não consigo explicar. — continuou Gabriel. — Tinha essa certeza até ao dia em que fizemos amor pela primeira vez. Aliás, mesmo depois disso ainda mantive essa ideia. Mas, quanto mais penso nisso… — O semblante era introspectivo. — Fiz amor muitas vezes com a Olga, muitas de olhos nos olhos. O que vi nos olhos de Íris, nas poucas vezes em que aconteceu, não era uma recordação de Olga, era uma espécie de recordação da própria Íris, mas num outro lugar.

Phil franziu o rosto.

— O que estás a querer dizer?

— Não sei, Phil. Há qualquer coisa nos olhos da Íris. Sempre houve. — insistiu.

— E não sabes o que é?

— Sinto que sei, mas não consigo perceber o que é.

— Agora começas a não fazer sentido, Gabriel.

— Só agora? — retorquiu, cansado e vencido. — Começo a acreditar que já nada faz sentido na minha vida.

A conversa sofreu uma pausa. Gabriel voltou a perder-se em pensamentos e o olhar tornou-se novamente vago. Phil esperou que ele quisesse dizer mais alguma coisa. De súbito, Gabriel olhou para o relógio e disse:

— Já é tarde.

— Queres marcar outra sessão amanhã?

Gabriel forçou um ar divertido.

— Queres enriquecer à minha custa?

— Estou a falar a sério. Sei que não tens ninguém com quem conversar.

— Não te preocupes. Marcamos outra sessão na próxima semana.

— Tu é que sabes Gabriel.

— Quero pedir-te um favor.

— Chuta.

— Receita-me qualquer coisa para dormir. Se continuar a passar a noites em branco, ainda tenho um colapso.

— Desagrada-me receitar-te essas coisas, acho que não te vão ajudar.

— Se fizerem dormir, podem salvar-me a vida.

Phil acabou por aceder e passou-lhe uma receita para que Gabriel pudesse adquirir calmantes para dormir.

— Sempre que precisares, liga e marcamos uma sessão.

— Obrigado pela tua disponibilidade, Phil.

Gabriel comprou os comprimidos assim que chegou a Toronto e, nessa noite, conseguiu dormir melhor.

O passar dos dias e as noites a dormir decentemente ajudaram Gabriel a colocar as ideias em ordem e a tomar decisões importantes.

Numa manhã de fins de Verão, Matt visitou Gabriel no seu gabinete no Bay-Adelaide. Era uma manhã solarenga que se via afectada por uma nebulosidade que ia e vinha.

Matt era um homem da geração de Gabriel, mas com um ar mais formal, consequências certamente da sua profissão de advogado. O cabelo rareava-lhe e o rosto mostrava-se impecavelmente barbeado. Usava óculos de lentes grossas e a pele tinha manchas, principalmente nas mãos, resultantes do tabaco. Matt entrou no gabinete no seu jeito típico de quem está sempre com pressa.

— Aqui tens. — disse, apontando-lhe um conjunto de folhas A4 dactilografadas. — Conforme pediste, está aí tudo.

Gabriel levantou-se da cadeira e segurou nas folhas, espreitando o texto. Tornou a sentar-se e apontou outra cadeira ao advogado.

— Vais ler agora?

— Não precisas que o assine, Matt?

— Sim, mas… Tenho de ir a…

— Eu pago o teu tempo, Matt. — recordou-lhe, sem tirar os olhos das folhas.

Matt remeteu-se ao silêncio e esperou impaciente.

Gabriel leu tudo com atenção, anuindo a espaços e esclarecendo algumas dúvidas. Por fim, assinou todos os locais que careciam de uma rúbrica ou assinatura.

— O que te levou a essa preocupação em fazer um testamento?

— Fiz cinquenta anos, Matt.

— E então? Estás aí rijo.

— Ninguém sabe o tempo que dura, Matt. — disse Gabriel, levantando-se da cadeira e entregando-lhe os papeis. — Não tenho herdeiros naturais. E quero que as coisas aconteçam como aí está escrito.

— Claro, claro.

Aquele assunto foi um visto imaginário que Gabriel desenhou na lista que criara na sua mente. Não pensou mais naquilo, estava resolvido.

Nessa noite, Gabriel chegou a casa carregando dois pesos a que se habituava perigosamente, a angústia e a solidão. Já não valia a pena combatê-las, mais valia conviver com elas, aceitar que nunca o largariam. Sorriu irónico para ninguém.

Haja alguma coisa que não me abandone.

Entrou na sala escura. Ligou as luzes e olhou para o balcão. Sem saber bem porquê, recordou o momento em que regressara, horas depois daquela mensagem de Íris a conceder-lhe o pedido para um afastamento quase total. Teve noção de como tudo se tornara vinculativo, ao ver as chaves que lhe oferecera depositadas ao lado da carta manuscrita que lhe deixara.

Nos últimos tempos, Gabriel procurara recuperar a normalidade da sua vida no Canadá. Retomara a solicitação de serviços dos nomes da lista de dez. Contudo, mudara algo, não voltara a querer que dormissem consigo. E não alterara só isso, não voltara a usar o seu quarto para sexo com elas, escolhendo em alternativa o quarto que um dia fora de Íris. Já não precisava de sentir companhia para ultrapassar as noites, os comprimidos cumpriam essa função e davam-lhe noites tranquilas.

O Verão terminou e já se poderiam contar algumas semanas desde aquela fatídica tarde em que Gabriel e Íris haviam discutido no apartamento dele. Não voltaram a falar ou trocar qualquer mensagem durante esse período.

Chovia com força em Toronto, as gotas de chuva a bater com força nos vidros do gabinete de Gabriel, quando o telemóvel apitou uma notificação do WhatsApp. Ele abriu a mensagem de Íris que continha uma foto que não parecia mais que um conjunto de manchas pretas e brancas com a legenda “primeira ecografia”.

“A gravidez está a correr bem?”, escreveu em resposta.

Quase parecia que nunca haviam deixado de falar, que nem tinham acordado que não voltariam a conversar.

“Os enjoos diminuíram, sinto-me melhor. É maravilhoso sentir este ser a crescer dentro de mim.”

Gabriel sentiu o peso da tristeza por não a acompanhar em todo aquele período. Como poderia ser uma presença na vida daquele ser, se estaria sempre relegado para segundo plano? Pensou em deixar a conversa ficar por ali, mas imaginou Íris a segurar o telemóvel na esperança que ele respondesse. Como estaria ela? Quantos meses de gravidez teria? Gostava de lhe perguntar tanta coisa, de falar com ela, ouvir a sua voz… Não, não podia ceder, a sua sobrevivência mental dependia desse afastamento. Acabou por escrever:

“Obrigado por me mostrares a eco. Precisas de alguma coisa?”

“Não.”

Iria ficar por aqui, não alimentar algo que… Gabriel sabia que cada palavra trocada era como um naufrago a segurar-se a qualquer coisa que flutuasse e o mantivesse à tona. Pousou o telemóvel sobre a mesa de trabalho. Respirou fundo, analisando se começava a encarar melhor aquela situação. Os seus pensamentos foram interrompidos por nova notificação. Abriu a mensagem:

“Afinal, preciso, Gabriel. Preciso que voltes a fazer parte da minha vida, preciso que voltes a ser meu amigo.”

Gabriel tinha a certeza que jamais conseguiria voltar a sê-lo, seria impossível que ela conseguisse reentrar no seu mundo. E ainda se interrogava como conseguiria conviver com ela para poder estar perto do filho. Por isso, aquilo que escreveu em resposta, foi:

“Se precisares de dinheiro, manda-me o número da tua conta.”

Pensou que ela não lhe respondesse, mas ela fê-lo:

“Vai à merda, Gabriel.”

E juntou-lhe dois smiles, um triste e outro a chorar.

Só algumas semanas mais tarde é que voltaram a trocar mais mensagens e, novamente por iniciativa dela:

“Queres saber o sexo do bebé?”

Era mais um abrir de porta para dialogarem. E cada diálogo era uma nova esperança para que se reaproximassem. Sim, Gabriel não duvidava que Íris continuaria a alimentar essa esperança.

“O importante é saber que estás bem e que está tudo a correr bem contigo e com o bebé.”

Naquele fim de tarde, Gabriel permanecia no escritório. Lá fora, a escuridão da noite aumentava o brilho das luzes da rua. Francis passou pela porta do gabinete para avisar que se ia embora.

— Até amanhã, Gabriel!

— Até… — Gabriel não acabou a frase e rematou com um aceno distante.

Sozinho, sentado na sua cadeira, observou as fachadas envidraçadas com os reflexos da iluminação. Não queria, mas não conseguia deixar de pensar em Íris.

“Comigo e com o bebé está tudo a correr bem.”

Gabriel leu a resposta à sua última menagem. Logo a seguir, chegou outra:

“E tu, como estás, Gabriel?”

“Estou bem, não te preocupes.”

“Por favor, sê sincero comigo.”

“Estou a ser sincero.”, mentiu.

Houve uma pausa no diálogo. Gabriel permaneceu na sua cadeira, olhando para o exterior. Depois, para o ecrã do seu computador. Num impulso, abriu a caixa de email.

O telemóvel voltou a chamá-lo para que visse mais uma mensagem de Íris:

“Não me disseste se queres saber o sexo do nosso filho.”

Não faças isso, Íris. Tu não queres que seja “nosso” filho.

Pensou o que haveria de responder, mas antes de encontrar as palavras, recebeu outra mensagem, mais uma foto de uma ecografia e a legenda “consegues ver se é rapaz ou rapariga?” com um smile sorridente.

Não fazia ideia e concluiu que não lhe interessava saber.

“Não digas. Prefiro saber quando nascer.”, enviou sem que fosse verdade. Não queria saber nada, não queria saber…

Foi atingido por uma onda de cansaço. Não era um cansaço físico, era um peso psicológico, um desgaste mental, uma vontade de fugir ao mundo que o rodeava. Estava tão farto de tudo…

Íris não disse mais nada, se calhar distraíra-se com aquilo que era mesmo importante para ela, o bebé e a bifa.

Gabriel abriu a janela no ecrã para escrever um novo email, um longo texto que iria enviar para a pessoa mais importante da sua vida, para o seu Arco-íris. Sem que desse pelo tempo passar, escreveu durante bastante tempo, ora digitando palavras, ora apagando, pensando em tudo o que queria que ela soubesse e na melhor forma de o expor.

Quando terminou ou quando achou que terminara, fez uma pausa para descansar os olhos do ecrã. Percebeu que estava a lacrimejar. Seria do esforço ou da emoção de tudo o que colocara em texto? Levantou-se e caminhou pelo espaço, parando junto dos vidros e observando as ruas de Toronto bem mais calmas, ao invés do normal corrupio com gente e carros em todas as direcções. Sentiu-se grato por ter passado os últimos dezasseis a dezassete anos naquela cidade que o adoptara. Pestanejou como se estivesse a despertar de um sonho. Afastou-se das janelas e passou pela estante de bebidas, recolhendo a garrafa de whisky e um copo. Voltou a sentar-se no seu lugar. Encheu o copo quase até ao cimo e concentrou-se de novo no texto. Leu-o calmamente, analisando se estava tudo a seu gosto. Quando terminou a revisão, já bebera dois copos.

Ficou a pensar, a imaginar as consequências daquilo. O sofrimento. Sim, ela iria sofrer, mas seria para bem dela ou, pelo menos, para bem da sanidade mental de Gabriel. Não que, depois daquela noite, o que quer que seja viesse a ter importância para ele.

Sentiu o impasse. Tudo o que planeara para aquela noite não fora fruto de um impulso, fora bem pensado e decidido quando não vislumbrou outro caminho. Não sabia muito bem o que esperar do futuro, mas só conseguia imaginar dor e sofrimento. Bolas, já não chegava a impossibilidade de amar a mulher que amava e que sabia que também o amava a ele, ainda teria de suportar o facto de não poder ser pai do filho de ambos? Não, era demais para si.

Abriu a segunda gaveta do móvel que lhe servia de secretária. Retirou um pequeno frasco cilíndrico que continha os seus comprimidos para dormir. Estava cheio, comprara aquela recarda na véspera. Retirou dois e meteu-os na boca. Engoliu-os com o álcool saboroso de travo antigo. Sentiu-se estranhamente calmo, consciente do que iria fazer e sem se sentir preocupado ou receoso, era como chegar ao fim de uma longa corrida. Engoliu mais uns quantos e ajudou-os a descer com whisky bebido directamente da garrafa. Só faltava um último acto. Clicou no “enviar” e a mensagem seguiu para Íris.

Será que ela a leria em breve? Temeu que o telemóvel tocasse antes de ser tocado pelo sono. Se acontecesse, não atenderia. Já nada mais havia para dizer.

Nos minutos que se seguiram, permitiu-se a recordar os melhores momentos com Íris, as recordações de convivência partilhada, a chegada dela a Toronto, o reencontro, as conversas, a cumplicidade. Ela era um ser humano maravilhoso. Gabriel deixou-se mergulhar naquele sentimento tão forte que nutriam um pelo outro, o amor intenso, a percepção de que encaixavam na perfeição. Um silvo quebrou-lhe a paz, a lembrança que ela o preterira por outro amor. Sorriu vencido, certo de que não a amava um pedacinho a menos que fosse. Sim, não tinha dúvidas que Íris fora a mulher da sua vida.

Gabriel sentiu os olhos pesados. Uma onda de sono envolveu-o, o corpo tornou-se pesado e ele percebeu que o fim estava próximo. Contudo, estava em paz, não havia angústia nem solidão, apenas paz. Partiria feliz e a pensar em Íris, nos olhos, as amêndoas lindas que o olhavam felizes. Adormeceria a rever o melhor momento da sua vida, aquele em que observava os olhos de Íris enquanto faziam amor…

E tudo ficou escuro.

XXXI

 

Após a escuridão, Gabriel acordou novamente no seu gabinete no Bay-Adelaide. Lá fora, a noite ficara ainda mais escura, quase não se viam luzes acesas nos edifícios envolventes e tudo parecia embrenhado numa paz estranha. Ele próprio sentia uma leveza como jamais sentira.

Antes que se conseguisse questionar sobre o que quer que fosse, teve a percepção do movimento de alguém a aproximar-se sem fazer qualquer barulho. Pela porta do gabinete, entrou Rachel. Gabriel olhou para ela estupefacto, vendo-a a sorrir e elegante num dos seus típicos fatos de mulher de negócios.

— Olá, Gabriel!

Ele estava tão confuso que teve dificuldade em falar, mas acabou por dizer:

— Rachel? Como é possível? Tu morreste. — Ela anuiu, tranquila, sempre com um sorriso terno. — Estou a sonhar? É isso?

Ela abanou a cabeça, negativamente.

— Não, Gabriel, não estás a sonhar.

— Então? Como podes estar aqui? Tu morreste.

Rachel ofereceu-lhe uma expressão carinhosa, transmitindo-lhe paz e segurança. Apontou para a mesa de trabalho, para a garrafa de whisky meio cheia e para o frasco de comprimidos vazio.

— Tu também, Gabriel.

O impacto das palavras, da constatação do que estava a acontecer, deixaram-no petrificado, sem reacção, incrédulo. Não, não era possível, aquilo só poderia ser um sonho ou um pesadelo.

Rachel deu mais alguns passos silenciosos, dando-lhe tempo. Encarou-o sempre com carinho, consciente das emoções que lhe percorriam o espírito.

Gabriel, aos poucos, foi percebendo que aquilo não era um sonho, mas também não era real ou o real que conhecia.

— Não compreendo.

Permanecendo em pé com os braços cruzados sobre o peito, Rachel começou a explicar:

— Quando a nossa alma abandona o corpo, é um impacto forte para o espírito. Por isso, costuma ser a nossa alma gémea que nos resgata desse momento.

— Tu...

— Não. — apressou-se ela a negar. — Não sou a tua alma gémea, Gabriel. A tua alma gémea ainda está viva, por isso, eu fui a escolhida para te acompanhar neste limbo.

— Porque é que foste a escolhida? — questionou com curiosidade, apesar de ser a menor das suas dúvidas.

— Na verdade, eu ofereci-me para te vir buscar. Foste muito importante nesta minha vida e quis ser eu a vir acompanhar-te nesta fase, como um agradecimento pelo bom que aconteceu entre nós.

Gabriel anuiu, ainda a tentar colocar as ideias em ordem e com muita dificuldade em acreditar naquilo. Só podia ser mesmo um sonho. Porém, os seus pensamentos permaneciam turvos, se bem que uma espécie de nevoeiro mental desse sinais de desanuviar aos poucos.

O silêncio era extraordinário, não se ouvia um som que fosse para além das vozes de ambos.

— Quem é a minha alma gémea, Rachel?

Ela sorriu e atirou-lhe um olhar desafiador, como se dissesse “não brinques comigo, tu sabes bem quem é”.

— Pensa um pouco, Gabriel. Não é só o corpo que tem memória, o espírito também a tem, sendo que a hiberna ao longo da vida corporal. Agora que voltaste a ser apenas espírito, tenta recordar-te.

— Isso é muito estranho, Rachel. Não acredito que estou morto. Estou no meu gabinete, na minha cadeira.

— Então levanta-te daí.

— Para quê, Rachel?

— Faz-me a vontade, Gabriel.

Gabriel levantou-se da cadeira.

— Cá estou.

— Olha para trás, Gabriel.

Ele virou-se e viu-se a si próprio sentado como se estivesse a dormir. Sentiu as pernas fracas e quase caiu. Só não aconteceu porque os espíritos não têm peso nem são afectados pela gravidade.

— Não, não, não. Isto não é possível, isto é um sonho. Eu vou acordar.

— Gabriel! — chamou ela. — Pára um pouco e descansa. Relaxa, fica tranquilo e deixa as memórias espirituais regressarem.

Gabriel afastou-se do seu corpo e foi até aos longos vidros. Olhou sem ver nada. Aos poucos, os seus pensamentos trouxeram-lhe imagens que ele nunca vira... Depois percebera que já as vira. Era ele noutras vidas.

— Tu já viveste várias vidas, Gabriel. Calculo que estejas a começar a recordá-las todas. Conforme as lembranças forem voltando, vais perceber que te cruzaste com a tua alma gémea em todas. Vais lembrar-te de todos os nomes que ela teve, tal como te recordarás de todos os que tiveste em todas as encarnações.

— Sim... — confirmou ele, voltando-se para ela. — Estou a vê-la.

— Já sabes quem é, Gabriel?

— Há algo nela... — constatou ele, confuso. — Algo que não me é estranho...

— Os olhos, Gabriel.

Nas suas memórias espirituais, Gabriel recordou os olhos cor de amêndoa. Sabia quem era, mas mesmo assim teve medo da confirmação e alvitrou:

— Não... A Olga?

— Idiota. — retorquiu Rachel, divertida. — A tua alma gémea reencarnou como filha da Olga e tu conheceste-a como...

— ...Íris.

Ficaram em silêncio. Gabriel continuava a procurar orientar as ideias. Abanou a cabeça, não compreendia.

— Não faz sentido, Rachel. Já me consigo lembrar das minhas outras vidas. Sim, existiu uma mulher especial em todas elas, sim, tinha sempre olhos cor de amêndoa. Mas, também me lembro que fizemos sempre parte da mesma geração. A Íris tinha idade para ser minha filha. Deves estar enganada, Rachel. Talvez seja a Olga.

— O teu amor pela Olga era assim tão forte?

— Viste como fiquei, quando ela me abandonou para voltar para o pai da Íris. Eu...

— Pediste-lhe para voltar para ti?

Gabriel tentou recordar essa fase daquela vida dele.

— Não me recordo, acho que não...

— Qual foi o último pedido que fizeste à Olga?

— Pedi-lhe que... — A percepção dos factos atingiu-o com a brutalidade de uma onda do mar. — ...que me deixasse despedir da Íris.

— Percebes agora?

— Então, todo o sofrimento que passei depois disso, quando fui para o Canadá, foi por me separar da Íris e não pelo fim da relação com a Olga?

Rachel fez uma expressão de "percebes agora?".

— Por isso é que começaste a abrir-te ao mundo, aos poucos, quando a Íris regressou à tua vida. Sempre interpretaste o amor por ela com a relação empática que tinhas com a criança de nove anos. Depois essa relação evoluiu para uma amizade muito forte entre dois adultos, quando ela veio para o Canadá.

— E por fim evoluiu para um amor semelhante ao que tu e eu tivemos.

Rachel abanou a cabeça.

— Não tem nada a ver, Gabriel. Quem me dera, a sério. Mas, nós fomos um mero caso de paixão que teria evoluído para uma relação, caso eu não tivesse morrido. — Encolheu os ombros sem perder a expressão afectuosa. — Resta saber quanto tempo duraria, uma vez que acredito que vocês estavam destinados a envolverem-se, como aconteceu.

— Aconteceu porque ambos passávamos pela perda. Eu, a tua morte. A Íris, a separação da Ashley.

— Se queres acreditar nisso…

O silêncio voltou. Rachel percebeu que Gabriel se mantinha pensativo e deixou-o organizar as ideias. Por fim, ele revelou ter chegado a uma conclusão que colocava tudo em causa:

— Espera! Eu lembro-me. Ela reencarnou ao mesmo tempo que eu, nesta última vida. Como podíamos ter vinte e tal anos de diferença?

Rachel anuiu, ele tinha razão.

— Há coisas que não sabemos explicar. Quando encarnamos, criamos vários dogmas para a nossa existência carnal. Um deles é o destino. Pensa-se que a nossa passagem pela vida está escrita antes de nascermos e até morrermos estamos a seguir um guião prévio. Não é assim. Tu recordarás isto, mas eu vou adiantar-me para te responder. Lembras-te da tua vida anterior à de Gabriel?

— Sim. — confirmou com pesar. — Eu nasci em Varsóvia em mil novecentos e... trinta e dois.

— E a tua alma gémea?

— Varsóvia em mil novecentos e trinta e três.

— Que tinham vocês em comum?

Gabriel fechou os olhos com a dolorosa memória.

— Éramos judeus. — relatou Gabriel. — Conhecemo-nos desde a nascença, ela era minha prima, fomos sempre muito próximos. Lembro‑me que tínhamos uma vida feliz. Depois, tudo acabou quando os nazis invadiram a Polónia. Os pais da Gdanzka (da Íris) e os meus tentaram fugir-lhes. Fomos apanhados pelos alemães e enviados para um campo de concentração. Nunca mais a vi.

— Tu morreste lá com oito anos. E ela morreu dois anos mais tarde com nove.

Gabriel assentiu, conhecia a história.

— Foi por termos morrido tão jovens que pudemos reencarnar novamente tão cedo. Eu voltei a nascer no início da década de setenta, como Gabriel. E ela... — Gabriel lembrou-se. Não se chamava Íris. — Tens razão, ela nasceu no mesmo ano...

— Como Cristina. Nasceram em pontos muito distantes do país, mas iriam conhecer-se na Universidade. — Ele voltou a confirmar, lembrava-se que era o previsto para as suas reencarnações, se nada acontecesse em contrário, tal como acontecera uma invasão nazi na encarnação anterior. — Iriam os dois para Coimbra.

— Eu nunca fui para Coimbra. — retorquiu Gabriel, constatando naquele instante que nada correra como planeado.

— E ela só viveu até aos dezasseis anos.

— Que aconteceu?

— Um acidente de automóvel. Nem ela, nem os pais sobreviveram. — Gabriel fez um esgar sofrido. — Como tu sabes, as almas gémeas só voltam a reencarnar após a morte das duas. A... Vamos usar o último nome. A Íris não se conformou. Era a segunda vida seguida em que não te podia amar. Se bem te recordas, noutras vidas passadas, vocês ficaram sempre juntos. Melhor ou pior, com mais ou menos dificuldade, vocês acabaram por casar e só a morte vos separou. Neste caso, a Íris não suportou a ideia de duas vidas falhadas. E quis voltar, apesar de ter noção que se reencontrariam com uma enorme diferença de idade. Não me perguntes quem decide estas coisas, eu não sei tudo. Sei que ela quebrou as regras das almas gémeas, ao reencarnar quando tu ainda estavas vivo.

— Uma alma não pode viver duas vidas, enquanto a sua gémea só vive uma.

— Exacto. Tu poderias viver até aos cem anos. E quanto mais uma alma vive, maior é o intervalo até à reencarnação seguinte. Ela não quis esperar. Por isso reencarnou conforme sua vontade, mas com um factor que faria toda a diferença.

— A homossexualidade.

— E a idade. — confirmou Rachel. — Como tu sabes, o corpo em que reencarnamos é uma lotaria. Há almas que encarnam sempre em mulher, como acontece com ela. Há almas que encarnam sempre em homem, como acontece contigo. E há as almas que ora encarnam num, ora encarnam noutro. — Sorriu divertida, desanuviando a seriedade da conversa. — Eu já encarnei nos dois. Antes da Rachel, encarnei num soldado russo do tempo da invasão da Rússia pelo Napoleão.

— Mas, a homossexualidade foi um castigo?

Rachel abanou a cabeça.

— Não. Como tu sabes, ao regressarmos à vida corpórea, temos um alinhamento básico daquilo que poderá vir a ser a nossa vida. Claro que, depois, a vida de cada encarnação segue o seu próprio rumo, influenciada por diversos factores que a levam a divergir da linha traçada antes. Como por exemplo, os nazis na tua encarnação anterior ou o acidente fatal que vitimou a Cristina e impediu que vocês se encontrassem alguns anos depois. É por isso que acho espectacular que, antes de tu encarnares em Gabriel e ela em Cristina, vocês encontravam-se sempre.

— A de Varsóvia foi a mais fácil de todas, nascemos primos direitos.

— E, contudo, foi aquela em que viveram menos tempo. — Gabriel anuiu. — Por isso, apesar de termos as linhas gerais do que será a nossa vida numa encarnação, o corpo em que encarnamos e a linha da vida serão sempre uma lotaria.

— Mas, voltando à Íris, a homossexualidade...

— Ela tanto se bateu por voltar que lho permitiram. Quando lhe apresentaram a linha geral do que seria a vida da Íris, ela soube que seria uma mulher lésbica. Era pegar ao largar. Seria um castigo de quem decide? Não. Seria um desafio. Queres ir, vais, mas com as nossas condições. Primeiro, havia a diferença de idade. A seguir uma alta improbabilidade de se encontrarem, tal como acontece com todas as almas, mesmo as gémeas. Há almas gémeas que passam por encarnações em que não se cruzam, mesmo estando isso no alinhamento geral do que será as suas vidas corpóreas. Uma vez que tu já serias um adulto talvez casado, quando ela chegasse à idade de ser tua mulher, isso seria mais um obstáculo a que acontecesse. E acima de tudo, encarnando ela numa mulher lésbica, dificilmente te veria com qualquer interesse. A Íris não hesitou. Tinha a certeza de que o amor que vocês partilham ultrapassaria tudo isso. E da mesma forma que, em todas as encarnações, vocês fintaram as linhas da vida e ficaram juntos, esta não seria diferente.

— Mas foi.

— Achas? — questionou Rachel. — Ok. Vocês não casaram. Mas, encontraram-se. Tu foste uma presença muito forte e especial na vida da pequena Íris. Reencontraram-se quando ela já era adulta. Tinham uma relação empática extraordinária. Mesmo sendo a Íris uma mulher bem resolvida com a sua orientação sexual, sem o mínimo interesse por homens, desejou-te, apaixonou-se por ti e vocês fizeram amor. E, tal como em tantas outras das vossas reencarnações, irão ter um filho. — Rachel esboçou um ar triste e corrigiu: — Ela irá ter um filho teu. — Gabriel anuiu com igual tristeza. — Os traços gerais da vossa existência repetiram-se. Só não aconteceu como vocês gostariam que tivesse acontecido.

— Que teria sucedido, se eu não me tivesse suicidado?

— É uma incógnita. Como ambos sabemos, as linhas da vida podem divergir. Não acredito que viessem a ficar juntos. Isso ficou bem patente nas escolhas da Íris. Serias sempre muito importante na sua vida, poderias ter sido o padrinho do teu filho. Mas... Se queres a minha opinião, acho que acabarias por destruir o amor da Íris e da Ashley.

Gabriel não deu sinal de discordar.

— E agora?

Rachel encolheu os ombros.

— Não sei. Que queres que te diga que tu próprio já não saibas?

— Não posso voltar? Não morri há muito. Talvez ainda nem tenham dado pela minha morte.

— É isso que queres? Nem sequer sei se o permitiriam. Quererias voltar, mesmo com a hipótese de destruíres o amor da Íris e da Ashley? Queres voltar podendo ser a causa de uma vida infeliz da Íris?

— Mas, eu e ela...

— Pára, Gabriel! Sei o que vais dizer e sei que tens noção que não é assim. Se voltares, não vais recordar isto ou o que sabes sobre vocês e as vossas reencarnações. Serás novamente o Gabriel. Se não voltares a tentar suicidar-te, vais continuar obcecado com a Íris e, talvez involuntariamente, destruir a relação dela com a Ashley.

— Como é que sabes que a relação delas é assim tão forte? Podes garantir que a Ashley não a vai abandonar? Abandonou-a uma vez. Porque não o fará novamente?

— É provável que o faça, se voltares. É provável porque a Íris irá contar-lhe que és tu o pai do filho dela. E, estando tu vivo, será sempre uma insegurança para a Ashley.

— Como podes saber tudo isso assim?

— Não sei. É um cálculo de probabilidades. A Ashley sabe o que é perder a Íris. Por isso, não havendo nada que ameace a relação, ela não vai querer repetir isso e a Íris ama-a incondicionalmente. Neste cálculo de probabilidades, arrisco-me a dizer que elas vão ficar juntas até que a morte as separe.

Gabriel não a contrariou. Sabia que o amor delas era mesmo muito forte, Íris preterira-o por ela. E ele sabia o quanto Íris o amava a ele. No plano celestial, Gabriel sabia ser o elo mais forte com Íris, mas ainda não recordava tudo e, apesar de serem a alma gémea um do outro, uma questão se lhe levantou:

— A alma da Ashley. É alguém importante para a Íris?

Rachel abanou a cabeça.

— Não têm qualquer relação para além da existência nestas vidas.

— E tu?

— Eu?

— Sim, Rachel. Já alguma vez nos cruzámos?

— Não. — informou ela com um ar comprometido. — No entanto, nesta última encarnação, eu pedi para de alguma forma interagir convosco. A vossa ligação é bem conhecida e, arrisco-me a dizer, muito invejada. — Sorriu. — Recusaram-me o pedido e fizeram-me nascer a milhares de quilómetros de vocês. — Encolheu os ombros com um ar feliz. — Só que a partir do momento em que encarnas, a vida é uma lotaria. E a Rachel e o Gabriel cruzaram-se. E confesso que excedeu as minhas expectativas porque o Gabriel amou poucas pessoas na sua vida, mas uma delas foi a Rachel.

— Sim, é verdade. — confessou tranquilo. Contudo, surgiu a dúvida no seu semblante. — Sabes a razão de teres morrido quando o Gabriel se abriu à possibilidade do compromisso contigo?

— Como te disse, não sei tudo.

Gabriel ficou em silêncio, ponderando o que fazer.

— Será que eu quero voltar?

Rachel sorriu-lhe com ternura.

— Sabes bem que não.

— És capaz de ter razão. Apesar de não gostar da ideia, confesso que és capaz de ter razão. Eu ia destruir a relação delas e tornar a Íris infeliz.

— Sei que vais sentir a falta dela, que gostarias de voltar a estar com ela. Terás de ter paciência. — Rachel olhou-o com seriedade, revelando que era convicta das suas palavras. — A encarnação é uma lotaria. Mas, o estado espiritual acaba por ser mais simples. Tu sabe-lo, mas mesmo assim eu vou dizer-to para que tu não tenhas dúvidas. A Íris, Cristina, Gdanzka, ou outro qualquer nome que ela já tivera, continuará a ser a tua alma gémea. E tu a dela. Mas, terás de esperar que ela se reencontre contigo. Sei que queres o melhor para ela. A Íris tem vinte e cinco anos. A esperança de vida no Canadá para uma mulher saudável como ela é de mais de oitenta anos.

— Vou ter muito que esperar...

Rachel fez uma expressão amistosa, mas confessou:

— Tenho alguma inveja. Nem todas as almas atingem um patamar celestial tão elevado quanto vocês. Também é verdade que já reencarnaram muito mais vezes que eu. Ao contrário daquilo que se pensa, nem todas as almas têm uma gémea. Eu não tenho, talvez um dia... Vocês são um exemplo. Aconteça o que acontecer, por mais voltas que as vossas vidas deem, se cruzem, se troquem, vocês encontram-se sempre.

Foi a vez de Gabriel sorrir.

— Sim... As pessoas acham estranho quando se cruzam com alguém que sentem já conhecer, sem que nunca se tenham visto. Nem todas as almas gémeas se reencontram na vida corporal ou em todas as vidas corporais. Numas encontram-se, noutras não.

— É isso que vocês têm de especial. Encontram-se sempre.

— Não sei explicar, Rachel. Ainda bem que acontece.

— Se as pessoas acreditassem na reencarnação, muito coisa seria bem mais simples no Mundo. Há quem acredite na verdade, esta, que reencarnamos, há quem ache que a vida é uma passagem única. Achar que só se vive uma vez é como pensar que um actor em toda a vida só representa um único papel por um breve período de tempo. Acho que a forma mais simples de nos caracterizar, às almas, é que somos actores que vão interpretando papéis ao longo da Eternidade.

Gabriel parecia ponderar na questão. Não naquela questão, a qual já sabia ser a verdade. Questionava-se sobre o que fazer a seguir.

— Bom, Gabriel, está na hora de irmos. — alertou Rachel, estendendo-lhe a mão.

Ele não se mexeu, limitando-se a olhar para ela.

— Não sei se consigo, Rachel.

— Como assim?

Gabriel olhou para o seu corpo adormecido na cadeira.

— Eu ainda posso voltar.

— Gabriel…

— Ambos sabemos que a vida corpórea é uma lotaria.

— A Íris ama a Ashley. Tu vais destruir…

— Tu não sabes isso, Rachel. — argumentou ele, lutando entre o coração e a razão.

Rachel permaneceu paciente e terna. Olhou para o corpo sem vida, depois para a mão que lhe estendera e por fim novamente para ele.

— Sim, eu não sei. É apenas a minha opinião. — Olhou em redor, solidária com ele. — Percebo o quanto isto é difícil para ti. De facto, ao contrário de mim, tu podes voltar. Se a minha morte não tivesse sido tão brutal, se tivesse podido escolher voltar, não teria hesitado e teria voltado para ficar contigo. — Sorriu terna. — Sim, tu podes voltar, se quiseres. Sabes os riscos, sabes que não recordarás isto… Tanto podes vir a ser feliz com a tua alma gémea como destruir a existência dela nesta vida. Que te posso dizer mais? A vida é uma lotaria. Mas, tu podes de facto voltar a tentar. Por isso… como vai ser?

XXXII

 

A barriga já se notava e Íris acariciava-a com orgulho, deitada na cama com Ashley a dormir tranquila a seu lado. O quarto estava envolto no escuro da noite, mas Íris não tinha sono, uma vez que a sua mente continuava a pensar em Gabriel. Nunca, em momento algum da sua vida, imaginou que pudesse sentir todos aqueles sentimentos por um homem. Amava-o com uma força brutal e, ao contrário do que pensara, o enorme amor e paixão de Ashley não lhe saciavam o desejo por ele. Talvez fosse pela gravidez que a sua líbido estava tão acicatada. A verdade incontornável era que fazer amor com Ashley não lhe apagava a saudade de ter Gabriel dentro de si.

Íris assumira o compromisso de se afastar de Gabriel e derar-lhe o espaço que ele pedira para se adaptar à realidade de que ela nunca seria sua. Contudo, Íris não conseguia afastar-se e aproveitava qualquer justificação para o contactar. A última fora naquela noite, quando lhe quisera dizer que iria dar à luz um menino. Gabriel não parecia interessado em saber, mas era compreensível, era uma defesa. No entanto, Íris não lhe queria dizer só que iria nascer um menino, queria dizer-lhe algo mais, queria dizer-lhe que desejava voltar a ser sua, ser o Arco-íris que ele pintou, que lhe dera cor e voltar a ser amada por ele sem restrições.

E Ashley?

Íris não queria deixar Ashley, amava-a tanto quanto amava Gabriel. Não iria abrir mão de nenhum deles. Era estranho, contrário aos dogmas da sociedade… Que se lixassem os outros, nunca se deixara afectar pelo que terceiros pensavam. Só lhe interessava que Ashley aceitasse Gabriel e Gabriel aceitasse Ashley e ambos a amassem como ela amava ambos.

Naquela troca de mensagens, depois de ele ter escrito “Não digas. Prefiro saber quando nascer.”, Íris escreveu:

“Um dia disseste que não te importavas que eu me relacionasse com outra mulher, se ficasse contigo. Ainda pensas assim?”

Ia para enviar, quando o telemóvel morreu por completo por falta de bateria. Que estupidez, pensara, como poderia ter sido tão distraída, o aparelho já reclamara várias vezes, mas ela esquecera-se de o ligar à corrente, durante a troca de mensagens.

Deixou o aparelho a carregar a bateria sobre o móvel da sala. Entretanto, jantara com Ashley, viram um filme e foram para a cama. Namoraram um pouco, acariciaram-se mutuamente. Nos últimos tempos, elas iam aprendendo as melhores posições para o estado de Íris que já não se sentia confortável em ter a inglesa com a cabeça entre as suas pernas. O inverso mantinha-se, Ashley adorava as sensações que Íris lhe provocava, muito mais experiente a provocar prazer no corpo de uma mulher. No entanto, naquela noite, a paixão saciou-se na troca de beijos e em dedos marotos. E depois a inglesa adormeceu a seu lado. Íris já não se deu ao trabalho de ir buscar o telemóvel. Lembrou-se que ficara uma mensagem por enviar, mas teria tempo de o fazer na manhã seguinte.

No escuro do quarto, Íris pensou na mãe. Que pensaria ela de tudo aquilo que lhe ia em mente? Olga visitara a filha em Montreal, estivera cerca de uma semana com elas. Íris não lhe contou a verdade acerca da paternidade do bebé, mantendo a mesma versão que oferecera a Ashley. Olga teve muita dificuldade em acreditar e sabia que a filha lhe escondia algo, mas jamais lhe passou pela cabeça o pai pudesse ser Gabriel. Outra coisa que Olga estranhou foi o afastamento entre a filha e o ex-namorado de há mais de dezasseis anos. Também aqui Íris não quis falar no assunto, resumindo tudo a uma discussão estúpida.

Íris mantinha em segredo as escassas mensagens que trocava com Gabriel, não queria que Ashley soubesse disso para não ter que ser confrontada com perguntas acerca do seu conteúdo.

Na noite que antecedeu o regresso de Olga a Portugal, Íris conversou longamente com a mãe. Sempre que o assunto não dizia respeito a Ashley, elas conversavam em português. Talvez por isso, nesse serão, Ashley se tenha despedido amuada e recolhido ao quarto para ir dormir.

Olga teve uma conversa muito franca com Íris, mais como duas irmãs que como mãe e filha. Falou-lhe da relação com Gabriel sem filtros, assumindo com uma sinceridade dilacerante que fora uma completa idiota, uma estúpida, por ter desperdiçado o amor daquele homem. Aquela convicção da mãe ficou a martelar na cabeça de Íris, mesmo depois da partida desta. Estaria ela a ser igualmente idiota e estúpida por abrir mão do amor dele?

As convicções vigentes dizem-nos que um ser só pode amar um outro e não mais que um. Íris começou a questionar-se se seria verdade. A lógica podia dizer isso, mas essa lógica começava a não fazer sentido para si. Não imaginava amar Ashley sem amar de igual forma Gabriel e vice‑versa. Entre o regresso da mãe a Lisboa e aquela noite, Íris ponderou muito bem a decisão que iria tomar, uma visão de futuro que teria de resultar para os três. Porém, iria começar por fazer algo que, até para si, seria errado. Mas, tinha de o fazer.

O intuito último da troca de mensagens com Gabriel, que a falta de carga na bateria interrompera, seria informá-lo que pretendia visitá-lo em Toronto. Ele iria recusar e ela teria de lhe confessar o porquê da visita, desejava ardentemente voltar a fazer amor com ele.

E Ashley?

Sim, iria trair Ashley. Era algo mais forte que ela. Amava-o, desejava-o. Mas, não enganaria a inglesa. Iria contar-lhe quando regressasse e dizer-lhe que queria ficar com os dois. Se Ashley recusasse, Íris iria sofrer, mas seria a inglesa a cortar a ligação entre elas.

E Gabriel?

Gabriel, um dia, dissera-lhe que não se importava… que Íris podia estar com ele e ter uma namorada. Ainda pensaria assim?

E o que é que a levava a crer que uma relação com Gabriel lhe colmataria a ausência de Ashley? Nada. Seria um salto para o vazio. Poderia estar a arruinar tudo na sua vida.

A sua mente era um turbilhão de questões. Mas, a fome sexual por Gabriel consumia-a. E se usasse com ele a desculpa de ter de ir a Toronto discutir assuntos do bebé e depois…? Íris tinha noção de como seria fácil envolverem-se sexualmente. Estaria Gabriel disposto a ser um caso extraconjugal no seu casamento com Ashley? Ser o seu amante secreto aos olhos da inglesa? O sono acabou por se apoderar dela e adormeceu sem certezas de nada na sua vida, para além do amor avassalador que nutria por Ashley e Gabriel.

Na manhã seguinte, Íris acordou com uma sensação de desconforto. A seu lado, a namorada dormia como um anjo. Procurou o telemóvel para ver as horas e recordou-se que o deixara na sala a carregar a bateria. Com cuidado para não acordar a inglesa, levantou-se da cama. Já começava a exigir algum esforço e cuidado, elevar-se com a barriga crescente. Vestiu um robe fino e caminhou silenciosa para fora do quarto.

A sala estava mergulhada na claridade do Sol da manhã, o que sabia bem depois dos últimos dias cheios de chuva e céu cinzento. Íris caminhou devagar até ao móvel, percebendo que estava cada vez mais pesada. Era por uma boa causa, disse para si mesma. Pegou no telemóvel e desligou o cabo de alimentação da corrente. A seguir, carregou no botão para voltar a dar vida ao aparelho.

A luminosidade bonita desapareceu com o avançar das nuvens exteriores que taparam temporariamente os raios solares. Íris inseriu o código de acesso, pensando se deveria enviar a mensagem que escrevera na véspera, daí que tivesse começado por abrir o WhatsApp. A sua mensagem lá estava, por enviar.

Ainda não decidira, quando ecoou pela sala silenciosa uma notificação do aparelho. Íris viu que tinha um email novo de Gabriel. Uma ansiedade angustiada fê-la abrir a aplicação do email no telemóvel. Talvez o seu inconsciente adivinhasse, talvez fosse o medo do que pudesse dali vir. Os seus dedos tremiam a dedilhar o ecrã.

O assunto era… “Adeus”.

Íris começou a chorar ainda antes de abrir a mensagem. Quando o fez, leu:

“Olá Arco-íris,

Que nos aconteceu? Acho que é a pergunta que tenho feito a mim mesmo nos últimos tempos. Tu és uma pessoa tão extraordinária, tão fenomenal, complementas-me tão bem que custa a crer que tenhas pouco mais de metade da minha idade. Há uma certeza que tenho e que quero que também tenhas, nada do que fizemos foi um erro. E apesar do sofrimento que se lhe sucedeu, voltaria a repetir tudo contigo. Nunca julguei que fosse possível amar-te como mulher até àquela noite em que fizemos amor pela primeira vez. Depois disso, eu tive a certeza que nunca amaria ninguém como te amo a ti. Só que não tenho o direito de distorcer a tua vida, desequilibrá-la, prejudicá-la e querer que tu sejas algo que é contrário à tua natureza. Não duvido do teu amor, mas percebo que não sou aquilo que aspiras para a tua vida. E não posso tornar-me um foco para a tua infelicidade. A Ashley é o teu grande amor e tu és uma afortunada por o ter encontrado e ambas se amarem incondicionalmente. Sei que não sou adversário para a Ashley, mas serei sempre uma pedra, um desequilíbrio no teu dia a dia. Tu não consegues largar-me e eu não tenho forças para continuar a afastar-te porque tenho tanta vontade de te ter longe quanto tu tens de ficar longe a mim. Daí que só me reste um caminho. É uma escolha minha, uma escolha com base nos meus erros, nas minhas lacunas e fraquezas. Não és responsável por nada. Eu já era assim, já sobrevivia nos meus desesperos antes de teres vindo para o Canadá. Se tens alguma culpa é a de me teres dado alguma felicidade e perceber o que é ser-se amado verdadeiramente.

Este texto é também uma confissão, uma revelação das coisas que não te disse e que quero que saibas. Sempre te adorei, sempre foste um ser especial. Nunca te vi como uma filha, mas adorava cuidar de ti naqueles dois anos maravilhosos em que estive com a tua mãe. Lembro-me das nossas brincadeiras em que insistias que fosse avô das tuas bonecas ou que andávamos pelo parque e eras muito curiosa com toda a fauna e flora que víssemos. Recordações de quando te ajudava com os trabalhos de casa, quando te explicava algumas matérias que foram o prenúncio da profissional em que te estás a tornar. É curioso como nos últimos tempos todas estas memórias voltaram e se tornaram tão nítidas. Por vezes, questiono-me se não me terá doído mais separar de ti que da tua mãe.

Imaginas a felicidade que foi voltar a ver-te, quando chegaste a Toronto, à minha casa? Nem eu o percebi na altura. Foi como encontrar a peça que faltava de um puzzle que não compreendia. E continuei a não perceber. Há muito coisa inexplicável entre nós e que eu também não procuro compreender em tudo o que nos liga. Naquele momento, eu não tive dúvidas que faria qualquer coisa por ti. Tu eras… Tu és, com toda a certeza do meu ser, a pessoa mais importante da minha vida.

Devo-te uma verdade que te escondi e menti. O apartamento onde vives não é de um amigo, é meu, comprei-o de propósito para ti. Não to disse porque sabia que, se soubesses a verdade, o recusarias. Por isso, menti-te e inventei o amigo que tinha uma casa em Montreal. Peço desculpa por isso, mas claro que não me arrependo. Já pensei em colocar esse apartamento em teu nome, mas não vale a pena, ele acabará por ser teu. Eu não tenho herdeiros naturais. Ou, não tenho até o teu bebé nascer. Continuarei a não ter porque isso implicaria que divulgasses a paternidade do bebé e tu não queres. E compreendo que não queiras, afinal isso poderia destruir a tua relação com a Ashley. Porém, é irrelevante. Grávida ou não, serias sempre a minha herdeira porque ninguém mais mereceria sê-lo senão tu. Se não fosse para ti, não sei para quem iria, nunca pensei muito nisso até há umas semanas. E por esta via, o teu bebé herdará um dia tudo o que é meu.

Houve outras mentiras, como dizer-te que já não eras o meu arco‑íris. Tu és o meu arco-íris, és as cores do meu mundo, até quando os teus arcos estão cinzentos tu emanas cor na minha vida. Sei que te magoei, que te ofendi, que te agredi verbalmente, que te ignorei, que te afastei… Sei lá, maltratei-te por culpa minha. Foram uma defesa, mas tu não merecias. Tal como disseste, não fizeste nada de tão imperdoável que merecesse o castigo.

Gostava que as coisas tivessem sido diferentes. Algumas coisas, talvez a parte final, as últimas semanas, basicamente desde que a Ashley regressou à tua vida. Teria preferido que não tivesse voltado, mas sei que não serias tão feliz comigo… Talvez a questão não seja a felicidade, tu serias feliz comigo, só não serias completa. Aconteceu o que tinha que acontecer e estou grato por tudo o resto que aconteceu, cada momento partilhado contigo e, principalmente, as duas noites em que nos amámos livremente e fomos um só. Nunca me senti tão uno com ninguém como aconteceu contigo. E não poderia haver pináculo maior de simbolismo do nosso amor que o bebé que cresce dentro de ti.

Tenho a certeza de que serás muito feliz. Sei que irás atravessar momentos de trevas por minha culpa, por aquilo que se seguirá a esta mensagem. Mas, tu és forte. Eu não sou tanto e lamento-o. Poderia fugir de ti, mas nunca conseguiria fugir de mim próprio, dos meus fantasmas, da minha angústia, da solidão que me tem vindo a matar ao longo dos anos. Parto com um sorriso nos lábios porque será o teu rosto a minha última memória. Amo-te com todas as células do meu corpo, a cada batimento do meu coração. És a mulher da minha vida. Sê feliz, tu mereces, Arco-íris, o meu arco-íris. Amo-te! Para sempre teu, Gabriel.”

Íris sentiu um pânico profundo ao ler a mensagem, um pânico desesperante que foi crescendo a cada linha de texto. Ela compreendia o significado daquilo. As lágrimas corriam-lhe abundantes pelo rosto, turvando-lhe a visão e perturbando-lhe a procura dos ícones correctos no ecrã do telemóvel. Encontrou a lista de contactos e o nome de Gabriel. Clicou no símbolo verde e encostou o aparelho à orelha.

— Por favor, meu Deus! — suplicava a uma fé em que pouco acreditava, ouvindo o toque de chamada no auscultador. — Por favor, não permitas que ele…

O toque deu lugar ao voicemail. Íris desligou e voltou a repetir a chamada. A mão tremia, a respiração acelerada era reveladora do pânico. Não, não podia acontecer, não podia terminar assim.

— Por favor, atende Gabriel!

Ao fim de mais alguns toques, ouviu atender.

— Gabriel! — chamou num lampejo de esperança. — Gabr…

A voz que lhe respondeu não era a de Gabriel e atendeu em inglês. Íris fez um esforço hercúleo para não perder a esperança. No outro lado da linha, a voz de Francis.

A notícia foi uma facada no seu coração. Talvez tivesse preferido essa mesma facada real a ouvir aquilo que ouviu. Francis tentou usar algum eufemismo, mas não havia forma de lhe dar a conhecer a tragédia sem que isso fosse terrivelmente doloroso.

Íris deixou cair o telemóvel, quando ouviu Francis dizer que encontrara Gabriel morto na sua cadeira de trabalho, nessa manhã.

Ela não lhe deu tempo para ser informada dos pormenores, mas também não queria saber, tinha noção que fora ele a acabar com a própria vida. Ainda ouviu Francis a chamar no auscultador do aparelho, mas não foi capaz de fazer nada além de se deixar cair contra o móvel e chorar desesperada.

A culpa é minha. Fui eu que o matei.

Sem conseguir parar de chorar, Íris segurou o telemóvel e desligou. A aplicação de chamadas deu lugar ao WhatsApp. Íris viu a mensagem que ficara por enviar. Dilacerada, pensou em como aquelas palavras poderiam ter evitado a tragédia, se a bateria não tivesse colapsado. Apagou a mensagem, já não valia a pena. Culpou o telemóvel pelo sucedido e começou a bater com ele no chão.

Ashley acordou com as pancadas. Surpresa e confusa, levantou-se da cama para saber o que se passava. Encontrou Íris lavada em lágrimas, literalmente, a espatifar o aparelho.

— Que aconteceu? — perguntou, ajoelhando-se a seu lado e abraçando Íris. — Que aconteceu, meu amor?

Íris deixou-se aninhar no abraço da namorada, afundou o rosto no seu pescoço e balbuciou:

— O Gabriel morreu.

XXXIII

 

O Sol brilhava lá fora, o céu azul límpido não revelava qualquer nuvem. A luz invadia o interior do open space que constituía a área partilhada pela sala e cozinha. Era um Domingo outonal que convidava a um passeio pela cidade que já se despedira do Verão, atravessava o Outono e preparava-se em breve para mais um Inverno agreste com neve.

Íris estava sentada à mesa com um computador portátil à sua frente. Recuperara a forma com facilidade depois do parto. Continuava linda, mas tinha sinais evidentes no rosto, rugas novas que não combinavam nada com os seus vinte e seis anos. Como não planeava sair, vestia uns calções curtos e uma camisa que poderia abrir facilmente para oferecer um dos seios ao seu bebé, quando ele chorasse com fome. O cabelo fora apanhado no cocuruto num rabo-de-cavalo longo. Íris não cortava o cabelo há muito tempo e, quando solto, as pontas chegavam-lhe quase à cintura. No rosto, não eram só as rugas que destoavam, era também a perda daquele brilho de felicidade que trazia sempre nos olhos. Perdera o brilho há um ano, quando Gabriel a deixara para sempre. Esse mesmo olhar estava vago, perdido em pensamentos, em recordações, em coisas que decidira, naquela manhã, pôr por escrito. Já não havia jovialidade na sua expressão, Íris aparentava um ar mais maduro, uma espécie de envelhecimento precoce que evoluíra a uma velocidade diferente da idade, aquelas marcas na expressão que nos fazem parecer mais velhos que aquilo que somos.

Quando Gabriel se suicidou, Íris fechou-se em si própria. Ele passou a ser um assunto tabu. Não permitia que ninguém lhe falasse nele, não queria conversar sobre recordações, desabafos. Recusou-se a ouvir a mãe falar nele. Olga conhecia muito bem a filha e suspeitava que algo acontecera para uma dor tão profunda como aquela que sentia na filha. Tentou perceber o que era, quando regressou a Montreal, perto do final da gravidez de Íris. Porém, não conseguiu sequer falar em qualquer tema que incluísse Gabriel.

Íris estava magoada com ele. Nos primeiros tempos, após o suicídio, odiava-o por a ter abandonado. Chorava e amaldiçoava-o. Tentou apagá-lo dos seus pensamentos, esquecê-lo, repetir a si mesma que ele fora apenas alguém sem significado. Como se isso fosse possível. Deixar de o ter em si seria como deixar de se sentir a si própria. Foi aconselhada a procurar acompanhamento médico, um terapeuta com quem falar e que a ajudasse a ultrapassar a dor. Também recusou. Aquela dor era sua, só sua, viveria e sobreviveria com ela, por mais que a ferisse e magoasse.

A alegria pelo bebé atenuou um pouco a dor. Ainda estava magoada com o homem da sua vida, mas as feridas foram cicatrizando, consciente que nunca desapareceriam. Talvez tivesse sido por começar a aceitar que Gabriel partira para sempre que decidiu dar aquele nome ao filho. No entanto, a evocação de Gabriel só existia no nome do bebé. Tudo o resto, tudo o que dissesse respeito ao outro Gabriel, permaneceria tabu. Íris recusava-se, até em pensamento, a resgatar memórias do homem que amara com tanta intensidade.

Dizem que o tempo cura as feridas. Íris sabia que não. Podia fechá‑las, ensinar-lhe a viver com elas, mas nunca as faria desaparecer nem deixaria de sentir a dor, a dor da perda, a dor profunda da culpa.

Naquela manhã, completava-se um ano. Um ano completo sem Gabriel, um ano completo desde a fatídica noite em que ele ficara no seu escritório, escrevera um email de despedida a Íris e se suicidara com comprimidos e álcool. Mesmo um ano depois, a recordação da tragédia ainda era confusa e houve pormenores que se esfumaram da sua mente. Por exemplo, não se lembrava de ter feito o corte no polegar direito que lhe deixou uma marca eterna na pele. Ashley contara-lhe que se cortara a destruir o telemóvel. Para todas as pessoas que rodeavam Íris, parecia que Gabriel fora completamente esquecido. Sabiam que não, mas ela nunca falava nele. Porém, naquele fechar de ciclo anual, Íris acordou com uma decisão firme.

Chovera muito nos últimos dias, o que serviu para Íris se congratular pela sorte de viver numa cidade evoluída como Montreal. O pequeno Gabriel já frequentava a creche, uma vez que ambas as mães trabalhavam a tempo inteiro, e as condições da cidade, a possibilidade de circular no subsolo, protegiam o pequeno do clima mais agreste. Curiosamente, naquele Domingo estava uma manhã bonita, apesar do frio exterior.

Ao acordar, Íris viu o céu azul pela janela do quarto. Olhou para o lado, vendo o corpo nu de Ashley que dormia tranquilamente de costas para si. Observá-la assim aquecia-lhe o coração e trazia-lhe felicidade. Era afortunada por a ter na sua vida, Ashley demonstrara-lhe o quanto a amava, a ela que outrora julgara que a inglesa não quereria mais que sexo lésbico secreto. Talvez por isso se sentisse injusta para com a amante, essa era outra das culpas que carregava, a lembrança de ter posto como hipótese deixá-la, caso a inglesa não aceitasse que Íris fosse tanto de Gabriel como era sua. Com ternura, virou-se e beijou-lhe as costas. Tinha vontade de fazer amor com ela, mas não quis perturbar-lhe o sono.

— Sei que te digo muitas vezes… — sussurrou para a adormecida — …mas, não fazes ideia do quanto eu te amo.

Ashley moveu-se no colchão, mas permaneceu a dormir profundamente.

Íris saiu da cama no exacto momento em que ouviu o bebé começar a chorar. Fora outra coisa que mudara em si, ganhara um instinto maternal apuradíssimo. Já conhecia aquele choramingar. Sorriu distraída e caminhou até ao outro quarto onde o pequeno Gabriel dormia. Sem acender a luz ou abrir os cortinados, Íris debruçou-se no berço e segurou o bebé com ternura, encostando-o a si e falando com ele. Bastava ouvir a voz da mãe e o choro parava, a menos que estivesse demasiado incomodado com algo. Íris sentou-se na cama que Ashley raramente usara e afagou o pequeno no peito, dando-lhe de mamar.

Era um amor tão intenso quanto o que sentira pelo pai dele. O bebé tornara-se a sua razão de viver, a sua preciosidade. Iria esforçar-se por não ser uma “mãe-galinha”, mas sabia que teria sempre muito dificuldade em afastar-se dele. Recordou-se o que chorara no primeiro dia em que o deixou na creche. Gabriel mamava tranquilo, quase adormecido. Por vezes, chegava mesmo a adormecer e Íris tinha de o acordar para que continuasse a alimentar-se. Ele era sem dúvida a sua felicidade, uma felicidade quase perfeita onde só faltava uma peça, aquela em que o pai ainda estaria vivo e partilharia com ela aqueles momentos.

O tempo parecia parar naqueles minutos só seus com o seu filho. Vê-lo a chuchar sôfrego pelo leite fê-la sorrir.

— Pareces a mãe Ashley. — disse-lhe divertida, como se ele a entendesse. — Sabes que ela também gosta disso?

Fora engraçado e até surpreendente para ambas. Num dos momentos íntimos após o parto, ao beijar-lhe os seios, Ashley sugou-lhe um pouco de leite. A inglesa gostara e Íris percebeu que, vê-la a fazê-lo, a excitava.

Quando o bebé terminou, Íris sentiu os seios aliviados. Apoiou o pequeno no ombro para que este arrotasse. Ele bolsou um pouco, sujando‑lhe as costas, algo natural. Íris tornou a deitar o filho no berço e ele adormeceu de imediato.

A sala era invadida pelo crescente brilho do Sol. Íris passou pelo seu quarto, vendo que Ashley continuava ferrada no sono. Prosseguiu para a casa de banho e foi tomar um duche.

Apesar de tudo, Íris sabia que era uma afortunada. Não era uma felicidade perfeita, se é que isso existe, mas era feliz com o que tinha. E talvez tivesse sido essa certeza, naquela manhã um ano após a morte do seu amado, que a fez encarar o futuro de outra forma, encontrar a solução para lidar com a dor da perda. E era por isso que se encontrava sentada defronte do seu computador naquela manhã.

Íris escrevia com todos os dedos, usando uma eficiência semelhante a uma escriturária. Quando embalava na escrita, era como se mais nada existisse em seu redor. Na mão esquerda, sobressaía no dedo anelar a aliança dourada, igual àquela que Ashley também usava no dedo anelar da sua mão esquerda. A decisão com que acordara nessa manhã fora a de fazer um diário íntimo de tudo o que gostaria de dizer a Gabriel, se ele estivesse vivo. Seria assim que contornaria a perda e viveria com ela.

Como haveria de começar?

Desviou os olhos do ecrã para olhar para Ashley. A inglesa estava sentada no sofá a ler um relatório relativo ao seu trabalho. Ambas tinham empregos na área da investigação científica. Sentiu uma paz saborosa misturada com o amor que partilhava com aquela magnífica mulher. Um arrepio fê-la estremecer, como se tivesse sido tocada por uma corrente de ar no pescoço. Estranho, nenhuma janela se encontrava aberta.

Íris voltou a concentrar-se no ecrã, no processador de texto aberto, ainda em branco. Como começar? Tinha esperança de que a libertação na escrita também a libertasse da amargura que por vezes a fazia recolher-se solitária e chorar.

Ashley mostrava-se concentrada nos seus assuntos, quase como se tivesse esquecido que Íris também ali estava.

Íris começou:

“Olá Gabriel…”

Houve uma pausa na escrita. Mal começara, um movimento invisível fê-la parar. Íris olhou em frente. Algo captara a sua atenção, mas não viu nada. Uma sensação estranha incomodou-a, mas não teve tempo para pensar nisso. O choro do bebé ecoou pela sala.

Toda a atenção de Íris se focou no som, como se mais nada tivesse importância.

— Deixa estar, eu vou ver. — disse Ashley, levantando-se.

Íris anuiu, era a mãe biológica, mas ambas eram mães de coração do pequeno Gabriel. Íris sentia-se grata pela mulher com quem casara no último Verão. A inglesa era uma companheira excepcional, fora o seu grande apoio para ultrapassar a morte de… dele. E tornara-se uma mãe quase tão boa como ela própria.

A idade não marcara tanto a inglesa e Ashley tinha momentos em que parecia muito mais nova que Íris. A justificação era a maternidade, mas Íris sabia que perder Gabriel funcionara como uma década de envelhecimento. Ashley caminhou até ao outro quarto, ajeitou a saia, enquanto deslizava pela sala, e alisou a camisola desportiva que lhe contornava o corpo.

Íris levantou-se devagar da sua cadeira, observando a outra, apaixonada. Seguiu atrás sem interferir. Contudo, mais uma vez, pareceu‑lhe ver algo entre ela e a inglesa. Percebeu que os olhos lhe estavam a pregar partidas, não havia ali nada… nem ninguém, para além delas.

Ashley entrou no quarto obscurecido. Contornou a cama e aproximou-se do berço. O bebé choramingava no quarto ao lado do delas. Íris encostou-se à ombreira da porta, observando e lembrando-se que quisera habituá-lo a ter o seu quarto bem cedo. Novo arrepio, como se nova corrente de ar lhe tivesse atravessado o corpo. Olhou em redor. Não havia portas ou janelas abertas.

Ashley debruçou-se no berço, acarinhando o bebé e, acalmando-o, começou a sussurrar:

— Calma, Gabriel. A mãe está aqui.

Falava em inglês com ele, enquanto Íris falava em português. Ambas queriam que ele fosse fluente nas duas línguas, como acontecia com Íris, e a própria Ashley já conseguia manter algum diálogo em português, graças à aprendizagem com a companheira.

Íris começou a desapertar alguns botões da camisa, espreitando para o escuro.

— Está tudo bem?

Ashley anuiu, supondo:

— Deve ter sido um sonho.

— Terá fome?

— Acho que não, amor. Acordou, mas voltou a adormecer. Vou ficar um bocadinho aqui com ele.

Íris sorriu com uma expressão enternecedora e regressou à sala.

A corrente de ar surreal pareceu soprar ao longe:

— A Ashley tem um filho?

Íris olhou em redor, assustada. Que fora aquilo? Estaria a ter alucinações? Parecia-lhe que tinha ouvido uma voz… A imaginação andava a brincar com ela. Procurou abstrair-se daquilo e voltou a sentar‑se na cadeira, diante do computador. O olhar tornou a ficar vago, como quem pondera a linha de pensamentos que começou a digitar no teclado:

“Olá Gabriel,

Acho que só hoje consegui ganhar coragem para deixar sair tudo o que tenho contido no peito, desde o dia em que tu decidiste abandonar‑me. Faz hoje um ano que achaste que a solução para tudo era saíres da minha vida daquela forma. Só que não saíste, tu continuarás a fazer parte de mim para sempre. E mesmo que te quisesse esquecer, o nosso filho recorda-me o nosso amor.

Ao longo deste tempo, procurei encontrar culpados em todo lado, desde o telemóvel que parti naquela manhã, até à própria Ashley que teve uma paciência sobre-humana para me aturar, quando estive quase a expulsá-la da minha vida. Naquele dia, não foste só tu que morreste, foi também uma grande parte de mim. Acho que se não fosse o nosso filho, teria ido atrás de ti. Porque é que o fizeste? Não podias ter aguentado mais um dia? Isto podia ter resultado. Eu podia amar-te com a Ashley e amar a Ashley contigo. Porque o fizeste?

A culpa foi minha, fui eu que te levei ao desespero. Na verdade, era eu quem não te merecia. E tu abriste mão da tua vida e ainda me deixaste uma imensa fortuna em que jamais tocarei, a menos que o nosso filho precise, e que passarei para ele quando for adulto.

Não contei a ninguém que és o pai do pequeno Gabriel. Sim, dei‑lhe o teu nome. Ninguém achou estranho, devido à ligação que tínhamos e ao sofrimento que atravessei com a tua morte. Ninguém sabe que és o pai, mas o Gabriel saberá um dia, tem esse direito e quero que ele saiba o ser humano maravilhoso que o pai era. Não lhe esconderei nada e aceitarei o julgamento que ele possa fazer de mim.

Isto tudo também acabou por me revelar a mulher extraordinária que vive na Ashley. Foi o meu grande apoio, na perda, no desespero, na gravidez… Deu-me a mão, enquanto eu dava à luz, não me largou até já não ser possível estar perto de mim, revezou-se comigo nos primeiros dias de vida do Gabriel. A única coisa que nos distingue na maternidade é o facto de ter sido eu quem deu à luz. Em tudo o resto, ela é tão mãe quanto eu. O Gabriel nunca terá um pai, mas terá sempre duas mães. Sei que muita gente verá isto com maus olhos, mas sabes como sou, nunca me preocupei com a opinião dos outros. Espero que a aproves como segunda mãe, ela merece a tua aprovação, ama tanto aquele bebé quanto eu… e tu, se tivesses esperado.

Luto todos os dias para não te guardar rancor. Amo-te com a mesma intensidade de sempre, mas jamais te perdoarei teres partido. Nunca te esquecerei e fizeste de mim uma mulher imensamente feliz até ao último dia em que deixei que o fizesses.

Na verdade, concluo que partilhamos tudo, desde o amor até à culpa, desde a felicidade até à amargura. E vou continuar a partilhar a minha vida contigo através da escrita. Irei escrever para ti, talvez não todos os dias, mas muitas vezes. É um escape, eu sei, afinal estou a escrever algo que só eu lerei e tu já não lerás. Não sei explicar, mas sei que tenho de o fazer.

Sempre te amei, continuo a amar e amar-te-ei para sempre.

A tua e só tua Arco-íris.”

Íris passou a mão pelo cabelo, um gesto de descompressão após todo aquele expurgar de emoções que passara na escrita. Levantou-se da cadeira e caminhou até aos vidros. Ficou a observar a cidade em silêncio. A seguir, olhou para o céu. Questionou-se se Gabriel se tornara um anjo e viveria agora nas nuvens a olhar por ela e pelo filho. Sorriu para lá, desejando que isso fosse verdade. Talvez um dia se reencontrassem lá em cima…

Nova sensação de deslocação do ar. Devia estar a constipar-se, pensou, apesar de não ter qualquer sintoma. O silêncio abraçava-a e a claridade estimulava-lhe a esperança que um dia conviveria bem com a dor. Talvez aquele fosse só o primeiro dia do resto da sua vida. Regressou para junto do computador, observando a porta do quarto onde Ashley repousava com o filho. Tudo calmo, tudo em paz. Não se ouvia nada. Sorriu para si e calculou que a sua amada deveria ter adormecido também.

Visualizou o ecrã olhando para o texto que escrevera. Para sua surpresa, no final da última página, surgia algo que ela sabia que não tinha escrito:

"O meu amor por ti é eterno Arco-íris. Voltaremos a estar juntos, voltarei a amar-te com a mesma profundidade de sempre. Até um dia, alma gémea!"

Íris segurou-se à cadeira e olhou para o texto, sentindo a força escapar-se-lhe das pernas. O rosto revelou uma expressão confusa, quase assustada, certa de que via algo que não fora escrito por si. Como era aquilo possível?

O olhar continuou cravado no ecrã, os lábios boquiabertos, o receio a dar lugar a um sentimento tão profundo quanto o amor pode ser. Íris olhou para lá do ecrã, os olhos humedeceram. Não viu nada, mas tinha uma sensação esquisita de que não estava sozinha na sala. Estaria ele ali?

Uma certeza invadiu-a ou teria sido apenas uma vontade imensa de acreditar nisso?

Ele está aqui! Gabriel, estás aqui?

Era tudo tão, mas tão estranho… Íris fechou os olhos, sorrindo como se saboreasse a brisa fresca numa manhã de Primavera.

— Se estás aí, por favor dá-me um sinal, meu amor. — sussurrou inundada de esperança.

Não aconteceu nada.

Manteve os olhos cerrados, acreditando no irreal, no impossível. Todos os sentidos em alerta, procurando um sinal, querendo acreditar que o homem da sua vida ali estava, sob qualquer forma, o que quer que fosse. A intensidade da crença foi tal que quase foi levada às lágrimas. Agarrava‑se a algo que acabou por concluir não ser mais que a sua imaginação a pregar-lhe partidas.

Não, claro que não era possível, Gabriel morrera um ano antes, não poderia estar ali, mesmo que numa forma ou existência que ela não poderia compreender. Sorriu sem abrir os olhos, uma afirmação incontornável gravou-se-lhe no pensamento.

A perda não existe porque os que amamos continuam a viver em nós.

Ganhou coragem, suspirou e decidiu abrir os olhos.

Voltou a encarar o ecrã. O que ela não escrevera, já lá não estava.

 

 

FIM